30 abril 2009

Singularidades de um artista centenário



"Singularidades de uma Rapariga Loira" é um conto de Eça de Queirós publicado em 1902. Foi a partir deste conto que Manoel de Oliveira realizou o seu 49º filme, o primeiro depois de ter completado 100 anos.
O conto que serve de base ao filme, narra a estória de Macário, jovem integro e trabalhador que se apaixona pedidamente por Luisa. Para consumar esta paixão, perde o emprego e ê obrigado a afastar-se da família. Mais tarde, um incidente numa ourivesaria vai fazer com que Macário se aperceba que Luisa não é quem ele sonhou.
A ironia e a crítica social de Eça transposta para o cinema.

Para ver, sim.

Quando a noite chega

O Anjo da neve

"... É o frio, não estás realmente apertada, repetia Alice a si própria. Mas quanto mais o cume se aproximava, mais o aguilhão que trazia na bexiga penetrava na carne. Aliás, era algo mais do que isso. Desta vez ela estava prestes a não aguentar mais.
Não, é apenas o frio, não podes fazer chichi agora. Acabaste de fazer há pouco, anda lá (...).
Há mais duas estâncias antes do refúgio. Não aguento tanto tempo assim, pensou.Giuliana levantou a barra de segurança e ambas deslocaram o rabo um pouco para a frente para descerem. Quando os esquis tocaram no chão, Alice deu um impulso com a mão para se separar da cadeirinha (...).
Deslizou para a beira da pista de esqui em busca de um montinho de neve fresca onde pudesse aliviar-se (...) já não via Giuliana, por isso Giuliana não a podia ver a ela. Subiu a encosta alguns metros, pondo os esquis em espinha de peixe, como a obrigava a fazer o pai quando pôs na cabeça que tinha de a ensinar a esquiar. Para cima e para baixo na pista de esqui infantil, trinta a quarenta vezes num dia (...). Alice desapertou os esquis e deu mais alguns passos. Enterrou as botas até meio da barriga das pernas.
Finalmente estava sentada. Deixou de reter a respiração e relaxou os músculos. Uma agradável descarga eléctrica propagou-se pelo corpo todo para depois se aninhar nas pontas dos pés(...).
Aliviou-se pernas abaixo. Não chichi. Não só. Alice borrou-se toda, às nove em ponto de uma manhã de Janeiro. Borrou-se nas cuecas e nem sequer se apercebeu..."
Paolo Giordano in A solidão dos números primos, Bertrand,2009
(A adolescência e as suas dores, a solidão, a vontade de ser aceite e amado. Uma narrativa notável de um jovem escritor).

29 abril 2009

Vencer o absurdo...com style

A troca de comentários num anterior post O absurdo mal resolvido, levou-me a um filme do início dos anos 80: Contos da Loucura Normal de Marco Ferreri, com uma fabulosa interpretação de Ben Gazarra que aqui vos mostro numa cena chave do filme. Nela, o protagonista visivelmente "inspirado" explica à audiência como é possível ultrapassar o absurdo do quotidiano, desde que se tenha... style.
(Não resisti à partilha)

Quando a noite chega

O absurdo mal resolvido...

/233/ Lê hoje, se puderes, o primeiro parágrafo de "O Mito de Sísifo", de Camus. Meu pai teve, aos 35 anos, um amigo íntimo que era Major do Exército. Todas as noites se encontravam no mesmo café. Ele era alto e vigoroso; à mesa nunca deixava que ninguém pagasse as contas; trazia sempre no bolso, conta meu pai, rebuçados para crianças.
Não casou, mas amava as mulheres. Nenhuma em particular. Um dia, com uma Walter 7.65, meteu uma bala na cabeça. Deixou um bilhete: "estava farto de abotoar e desabotoar os botões do dolman". Meu pai leu-o, estupefacto.
Quase 50 anos depois, o meu velhote ainda diz que morrerá sem entender aquilo.
Sebastião Alba in Albas

Às Vezes


Às vezes também se ama o improvável, o mais frágil o mais feio, mais pequeno, o pobre, o diferente.
Às vezes a vida faz sentido.

28 abril 2009

Aquele que ama



Todo o amor é fantasia
Ele inventa o ano, o dia,
A hora e a melodia;
Inventa o amante e, mais,
a amada. Não prova nada,
contra o amor, que a amada
não tenha existido jamais.

Antonio Machado (Espanha,1875-1939), trad. de Eugénio de Andrade , in Trocar de Rosa

Quando a noite chega

do amor

" ...ela era tão extraordinariamente bela que eu quase me ri às gargalhadas. Ela ... (era) fogo, destruição ... indiscutivelmente magnífica. Em suma, ela era mesmo demais. Aqueles olhos azul violeta ... tinham um fulgor raro. Passou uma eternidade, civilizações apareceram e desapareceram enquanto aqueles faróis cósmicos examinaram a minha personalidade imperfeita. Cada marca de bexigas da minha cara transformou-se numa cratera da Lua".
Assim pensou Richard Burton quando viu pela primeira vez Elizabeth Taylor, tinha ela 19 anos.
Porque é que um homem entra num salão cheio de mulheres atraentes, fala com várias que acha encantadoras e de repente fica pelo beicinho por uma delas? Porque é que uma mulher com muitos pretendentes vê um homem durante breves momentos e o seu cérebro incendeia-se de paixão amorosa? Porque é que alguém incendeia esses circuitos cerebrais primitivos, enquanto outro ser humano perfeitamente adorável nos deixa totalmente indiferentes? Porquê "ele"? Porquê "ela"?
Helen Fisher é uma das mais reputadas Antropólogas dos EUA. Trabalha de forma muito aprofundada sobre o que pode ser chamado de "expressão e química do amor".
O seu livro Porque Amamos (Relógio d'Água. 2008) constitui um trabalho "provocador, esclarecedor e estimulante" de acordo com alguns críticos.
Ele resulta de um estudo pioneiro feito ao longo de 6 anos, perscutando,com técnicas de imagem avançadas,os cérebros de pessoas apaixonadas, com correspondência e rejeição.
Os resultados trouxeram descobertas interessantes e desafiadoras sobre a atracção romântica, a paixão, a conquista de um parceiro específico e o sofrimento martirizante da rejeição.

27 abril 2009

Fartas de Chuva


A vida é bela em Cabanões.
Cócò Ranheta e Facada chamam-se as ovelhinhas e estão em casa, a ver a paisagem, fartinhas de chuva, embora a erva que elas comem dependa e muito das intempéries.
É a vida!

Quando a noite chega

Sonhar

464 Não sonhes a eternidade, que os deuses aposentaram-se e já não a fabricam. Mas porque não a fabricas, tu se soubeste fabricar quem a fabricava? Está aí à tua mão, aproveita-a. Está aí numa música, num quadro, num poema. E se te é trabalhoso ter olhos e ouvidos, porque não experimentas tentá-lo no que passou e onde nunca falha? Está lá, na sua fixação para sempre. E se isso te estraga a boa reputação, porque não olhas uma simples flor silvestre, ou ouves um pássaro a cantar? Estão fora do tempo no instante em que olhas e ouves. Aproveita. Amanhã é tarde e a corrupção voltou.
Vergílio Ferreira in Pensar
(Fotografia de C.)

26 abril 2009

Quando a noite chega

Uma presença constante lá em casa nos idos anos 70.

Dueto para uma tarde de domingo

Os quadros são de Eugene Martin (1938 - 2005), cujo percurso pessoal e artístico não foi fácil. Podia ter sido músico, mas foi na pintura que se destacou.
Sobretudo nos anos 70, atravessou uma fase bastante penosa da sua carreira - vivia pobre, por vezes homeless, outras vezes era convidado para ficar temporariamente em casa de amigos.
Então, não podendo adquirir material ou um espaço próprio para pintar, criava a sua arte de acordo com as circunstâncias - desenhava com lápis, caneta e tinta em folhas de papel que obtinha nos jardins, bibliotecas, aeroportos... (mais aqui)

O sax é de Cannanball Aderley (1928 - 1975), um dos mais notáveis e populares músicos do jazz americano dos anos 50 e 60.
Vale a pena ouvir este Dancing in The Dark.

Dalila Marques Maia


Nasceu em 4 de Novembro de 1926 e faleceu em 26 de Abril de 1993.
Passou pela vida sem fazer barulho, mantendo sempre uma postura humilde, quando poderia não ser assim.
Ainda jovem, escolheu o lado difícil da vida, com coragem e simplicidade.
Pertenceu ao M.U.D. Juvenil e participou na oposição ao regime salazarista, com determinação e muita coragem.
No contexto da vaga repressiva que varreu o País a seguir ao final da II Guerra Mundial, foi presa aos 21 anos e julgada no famoso Julgamento dos 108, em que era a única mulher presente, arrostando com o estigma que, na época, representava ser mulher e lutadora.
Por causa disso perdeu o emprego na Coimbra Editora e, apesar de aprovada em concurso público, foi impedida pela PIDE de ocupar um lugar nos CTT.
Não obstante as ameaças, participou activamente no movimento político em torno da candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República.
Casou, teve dois filhos e construiu uma família sólida. Nesta altura da vida, poderia ter-se conformado. Não o fez.
Com uma imensa abnegação, ajudou toda a gente à sua volta, prescindindo de bens materiais, para acudir a qualquer pessoa carenciada ou frágil. Sempre com um sorriso, sabia contornar problemas e contrariedades.
Nunca cedeu e, à sua maneira, defendeu os ideais da juventude até ao fim.
Morreu cedo, porque não se queixava, nem tinha tempo para estar doente.
Faleceu tranquilamente, sem dar trabalho a ninguém.
Foi a melhor pessoa que eu conheci.

Clara

Hoje

Dizem que o meu sorriso é o dela.
É por isso que, quando no espelho encontro o seu olhar, sorrio mais.
Há, cá em casa, uma caixa grande onde estão algumas das coisitas de nada que tocaram as suas mãos, ouviram o seu peito e foram pedaços dos nossos dias.
Retiro as pequenas e gastas fotografias dos invernosos Agostos na Figueira e das fantásticas ceias de Natal.
Olho os cartões guardados intactos “feliz dia da Mãe, 8/12/1960”, “ Salvé dia 8/12/1958 …não há criatura que nos queira tanto bem”.
Vejo, de novo, o (nosso) sorriso aberto e os olhos molhados, plenos de luz.
Esta é a caixa destas recordações.
As outras, as que, todos os dias, nos levam pela mão em direcção ao sonho, à vida e ao futuro, essas estão guardadas e seladas bem dentro do peito.
E fico feliz por hoje recordar.

25 abril 2009

Antes de Acabar o Dia


Antes de acabar este dia, o retrato de José Afonso
(carvão de Lúcia Maia)

Quando a noite chega


Foi bonita mesmo,Chico

Não, não somos certamente os mesmos

Bruno pensava que tinha havido uma alteração subtil mas definitiva na sociedade ocidental em 1974-1975. Ele continuava deitado no declive relvado do canal e tinha o blusão de gabardina, enrolado debaixo da cabeça, a servir-lhe de almofada. Arrancou um tufo de erva e sentiu-lhe a rugosidade húmida. Nesses anos em que tentava penosamente chegar à vida de adulto, as sociedades ocidentais afundavam-se numa coisa sombria qualquer. Nesse Verão de 76, já era evidente que as coisas iriam acabar muito mal. A violência física, a manifestação mais perfeita do individualismo, iria reaparecer no Ocidente como continuação do desejo.

Michel Houellebecq, Partículas Elementares, Círculo de Leitores, 2000

(E não me conformo que tenhamos aprendido tão pouco com os nossos pais.)

25A

Porque merda tenho de celebrar o 25 de Abril? Tenho um imenso respeito pelas pessoas que o fizeram, mas um enorme desprezo pelas pessoas que o desfizeram.
José Saramago, in O que a Vida me ensinou, Valdemar Cruz

Já (nos) é impossível imaginar a vida sem aquele dia inicial, inteiro e limpo, mas é cada vez mais doloroso ver o que, entretanto, foi chegando.

O Herói da Revolução


O seu nome está inscrito na História: Salgueiro Maia

o último que foi o primeiro

... o último em papel bíblia, foi o primeiro distribuído ao sol.

24 abril 2009

Quando a noite chega


Uma das que prefiro...

Ver a importância dos palitos...

O Governo definiu esta quinta-feira que a 26 de Abril de 2012 cessarão as emissões analógicas de televisão e impôs condições para a instalação no terreno das redes de nova geração.


Ou seja, a televisão que hoje conhecemos e que “governa” as nossas casas vai acabar até 2012.
Haverá melhorias ao nível da qualidade da imagem e do som, mas, ao que tenho ouvido, será acrescentado apenas um canal aos quatro já existentes (mais um palito...).

O revés da novidade: teremos de comprar um descodificador compatível com a nova tecnologia e quem tiver mais do que um palito, digo, aparelho de televisão em casa e queira ver um outro canal diferente noutra divisão ou compra um descodificador para cada televisão ou então faz uma instalação nova de comunicação. Além de que o custo mínimo do descodificador é de € 50,00.
Este novo tipo de transmissão televisiva já está a ser testado na região de Aveiro.
Em Aveiro já há palitos novos.

(os actos atentatórios à moral e aos bons costumes verificar-se-ão cada vez mais nos logradouros privados e haverá uma nova coima: por cada novo palito: €50:00.)

O Adeus a José Afonso


Pintura de Lúcia Maia

24 de Abril

Portaria nº 69035 da Câmara Municipal de Lisboa (1953)
"... dado verificar-se o aumento dos actos atentatórios à moral e aos bons costumes, que dia a dia se têm vindo a verificar nos logradouros públicos e jardins e, em especial, nas zonas florestais de Montes Claros, Parque Silva Porto, Mata da Trafaria, Jardim Botânico, tapada da Ajuda e outros, a polícia e guardas florestais devem exercer uma permanente vigilância sobre as pessoas que procurem frondosas vegetações para a prática de actos que atentem contra a moral e os bons costumes"...
Artigo 48º, Coimas:
- Mão na mão 2$50
- Mão naquilo 15$00
- Aquilo na mão 30$00
- Aquilo naquilo 50$00
- Aquilo atrás daquilo 100$oo
- Parágrafo único: Com a língua naquilo 150$00 de multa, preso e fotografado.
António Costa Santos in Proibido, Guerra e Paz, 2007

23 abril 2009

Quando a noite chega


Marta Hugon. Fabuloso Jazz português.

Aves

Ao contrário dos humanos, que raramente voam, elas
deleitam-se no voo, mas ainda ao contrário dos humanos
é muito raro que o façam na direcção de uma gaiola.

Rui Caeiro in O Carnaval dos Animais

Dia Mundial do Livro

23 de Abril é, desde 1995, o Dia Mundial do Livro e dos Direitos dos Autores.
(... e se não fossem os livros, nós não estávamos aqui).

22 abril 2009

D-s-c-rd- -rt-gr-f-c-

Eu sou v-g-l
tu és -o--oa--e
umas vezes ris
outras estás distante.

Eu cá sou v-g-l
e por isso canto,
tu que és -o--oa--e,
____
já nem tanto.

Quando a noite chega


(..e não é o joel Xavier na guitarra?)

Comente o Seguinte Texto


Almeida Garret, em "Viagens Na Minha Terra" :

"Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazeis caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? — Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já devia andar orçado o número de almas(5) que é preciso vender ao diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis."

Quotas


Há mulheres que dizem:
meu marido se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:

somos noivo e noiva.

Adélia Prado in Poesia Reunida,1999

21 abril 2009

Sem Palavras


Que a melodia dos teus dedos na minha mão me faça esquecer as palavras .
Estou cansada.
Quero o silêncio dos rios claros, ouvir apenas a chuva mansa, o som provável dos teus passos.
Não fales alto. Fecha a porta devagar. Deixa os teus dedos na minha mão e fala-me baixinho.
Sem palavras.

Mar

"...em termos pessoais tenho uma espécie de sonho, certamente irrealizável. Seria uma casa numa praia, alta nas traves da sua frágil construção, e com uma escada de madeira que nos colocava ao nível dos oceanos. De noite ouvíamos as ondas, vestíamos camisolões de lã quando fazia frio, e tínhamos cães que nos acompanhavam ao longo de extensos passeios pela beira da água. Os nossos rostos estavam marcados pela impiedade do sol, mas respirávamos a saúde que chega com as aves dos oceanos mais profundos. O movimento das ondas - o mar; o mar, sempre recomeçado - é a coisa mais bela que os deuses nos deixaram como marca da sua passagem pela terra. Ao retirarem-se, abandonaram as toalhas de espuma para nós molharmos a pele sedenta..."
Eduardo Prado Coelho in Nacional e Transmissível / (Fotografia de C.)
Eduardo Prado Coelho consegue, quanto a mim, notáveis narrativas do nosso imaginário. Quem não se revê nesta "espécie de sonho".
É alguém que nos faz muita falta.

Logo de manhã...


Rodrigo Leão
Voz: Sónia Tavares (The Gift)

20 abril 2009

Meia Pensão


CINCO AUTORES EM "REGIME DE MEIA PENSÃO" EM CINCO CAFÉS PORTUENSES (PÚBLICO)
Notícia Público
"Há um cliente especial na manhã de hoje do Café Ceuta. Sentado, de olhar fixo na agitação da rua, Pedro Eiras volta-se para o caderno e começa, num rasgo de inspiração, a escrever com destreza. Eiras é um dos criadores em Regime de Meia Pensão, um projecto de residência artística da associação cultural Arco-da-Velha. Até sábado, cinco autores portugueses vão estar instalados em cinco "cafés emblemáticos" do Porto, formando uma caricatura de uma residência real, na qual a criação completa "um viver de cama, comida e roupa lavada", explica ao PÚBLICO Marta Bernardes, uma das responsáveis pelo evento. A iniciativa visa reavivar a ligação entre a "actividade intelectual" e "um dos locais de excelência" para a discussão e o trabalho.
Alojado junto à janela do Ceuta, Pedro Eiras deixa-se imbuir pelo ambiente "ambíguo" do café - uma "tranquilidade" pautada pelo barulho, uma "solidão" acompanhada - e pela "selva urbana" que se compõe lá fora. É esse "jogo de pessoas e carros" o motor do raciocínio criativo do escritor. A estória ainda está em forma de esboço, mas já tem personagem principal: surgiu a partir do ritmo que acompanha "as pessoas a descer a rua", diz.
Os clientes que vão entrando e saindo do Café Ceuta olham timidamente este novo residente, numa "forma involuntária de intervir" na criação. A artista plástica Isabel Carvalho, no Guarany; o escritor João Gesta, na Leitaria da Quinta do Paço; o actor Jorge Andrade, no Plano B; e valter hugo mãe, no Maus Hábitos, estarão todos eles em "meia pensão". Até sábado, cada um deles vai continuar a fazer crescer as suas estórias".(Os Amigos Davenida)
( Pintura de Almada Negreiros )

Eu e mailos livros

Teresa Castro D’Aire (pseudónimo de Teresa Mascarenhas) nasceu em Lisboa a 27-01-52.
Frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa onde se licenciou e fez vários Seminários de Pós-Graduação, sempre na área da Literatura. Tem cerca de vinte volumes publicados e oito prémios literários. Realizou duas exposições de pintura individuais e colaborou em catorze exposições colectivas.

Aos 17 anos escreveu o primeiro livro - Rapsódia em Technicolor (ou meu amor anda ver a minha colecção de slides), rejeitado por trinta editoras, antes de ser premiado. Na opinião de alguns críticos, bem como da própria escritora, tratava-se de um texto muito adiantado para o seu tempo. A descobrir também Eu, Lourenço, andarilho da vida, um bildungsroman, compromisso entre conto histórico e livro de memórias, junção de que resulta uma obra insofismavelmente didáctica e exemplificadora da época Napoleónica, em que o herói Lourenço, picaresco e cheio de artimanhas, toma parte.

Eu e a maila minha senhora vieramos transanteontem da terra, inté demos lá lembranças suas à ti MariJaquina. O programa segue dentro de momentos. Segurem-me, vou passar o fim-de-semana com o Peter O’Toole! Ele namorou uma das pupilas do senhor reitor, tu namoriscaste as outras todas, que eu estou marreca de saber. Era um Rudolfo Valentino de colarinhos à raisteparta, muito cocabichinhos, é daqueles que chegaram a ser reis só com um olho, coitado, chegou todo torcido, todo chamuscado, mais parecia a madrinha, mas para comer ostras com limão, comigo ao desafio, é aquela máquina. Quem é esta avis-rara? Meia bola e força! Tenho feito umas coisas muito engraçadas com o meccano que me deste no Natal, só ainda não fiz um gato-sapato, como é que se faz? How kind of you to let me come! Viram-me nas abluções na terça-feira de pascoela? Não ligues, são as más línguas a meter o bedelho, são bocas da reacção. Singing in the rain – eram os galifões ainda em rodagem do David Mourão Ferreira. É o livro de memórias de Florence Nightingale, de forro já desbotado.

Teresa Castro D’Aire, Rapsódia em Technicolour (ou meu amor anda ver a minha colecção de slides), prefácio de Batista Bastos, Editorial Escritor, 1991.

menino do nilo


19 abril 2009

A mulher com o maior físico do mundo

Bois, sapos

Por ambicionar ser igual ao boi, o sapo estoura
no fim da fábula;
dentro e fora dela, o boi
satisfeito consigo próprio, rumina e não aprende nada.

Rui Caeiro, in Carnaval dos Animais

bois

o que neles me atrai não é tanto a força ou a paciência
mas aquele seu jeito único de olhar,
com alguma atenção, com alguma demora,
para os palácios.
Rui Caeiro in Carnaval dos Animais

Ao domingo...

Ane Brun, cantora e compositora norueguesa, nascida em 1976. Aqui num excelente dueto com o canadiano Ron Sexmith.
Para ouvir o todo o domingo (ambos) ...

18 abril 2009

Tudo verdade:

«Eu acho que ou morremos ou nascemos com cada pessoa importante na nossa vida.»
Captain John, no filme The River, de Jean Renoir

"...Com mãos tudo se faz e se desfaz..."

- Magia -

E quem dirá
- seja qual for o desencanto futuro -
que esquecemos a magia,
ou que pudemos atraiçoar
na terra amarga
a macieira,
a canção
e o ouro?

Thomas Wolfe

in Herberto Helder,Poesia Toda [As Magias, poemas mudados para português], Assírio & Alvim, 1990

oterceiroelemento


- Rádio Romance, a sua rádio na manhã. Convosco, como sempre ao acordar, Délio Pimenta, o seu despertador… e entramos desde já na nossa rubrica “I kiss you”… vamos colocar a musica, que, para alguém, é um kiss, e vamos ver se o destinatário vai recebê-lo… Convosco Bate Coração, de Leandro e Leonardo : Como é bonito ver deitado ao nosso lado , O seu lingerie jogado sobre a minha calça jeans, E ver o nosso amor refletindo no espelho, E o seu batom vermelho tatuando o beijo em mim, E a gente mais grudado que chiclete, Seu amor pintando o sete sobre o meu corpo nu, E o coração batendo acelerado um sussurro apaixonado, Eu te amo, I love youe já estou a ouvir o toque de chamada na casa de alguém… - tá lá, bom dia!
- Bom dia
- O seu nome, por favor…
- Cristina.
- Bom dia Cristina, está no Montijo, certo?
-S...s…sim
- A preparar os filhos para irem para a escola?
- S…s...sim…
- Ora vê? Como é que eu adivinhei?...Sabe quem fala?
- Sr. Délio, da Rádio?
- Certo! Não me diga que estava aouvir o nosso Programa?
- Ouço sempre de manhã…
- Cristina, importa-se de falar com alguém que tenho em linha, enquanto ouve o Leandro e Leonardo?
- P… pode ser…
- Tina? Sou eu, Sandro…
- Já sei…
- Ouvistes o kiss que estou a mandar?
- O quê?
- O kiss…
- Ah, sim…estou a ouvir.
- ………
- ............
- Allô, Cristina, aqui Délio! Desculpem a interrupção, pombinhos… Cristina, está disposta a aceitar o kiss do Sandro e perdoar o que ele lhe fez?
- ………..
- Cristiiina, allô?
- …. Talvez um dia ... ele bem sabe o que fez, pra que está agora com isto? …
- Mas estou a mandar-te um kiss…
- ……..
- Ora, Cristina, não seja assim, vá lá, escute bem o Leandro e Leonardo e aceite o kiss do Sandro… Porque nós, queridos ouvintes…temos alguém em linha, vamos a novo telefonema e mais um kiss na manhã… está a chamar… Allô, bom dia, o seu nome por favor?

17 abril 2009

O uso dos preservativos...

Creio que passou na RTP1 ou RTPN, não sei, em Janeiro. Lembro-me de ter pensado que me teria dado um jeitão este filme para abordar questões sobre a publicidade pedagógica, ou educativa, a criatividade como factor determinante de persuasão, etc. e tal.
É um excelente exemplo de simplicidade e eficácia, de 4:41 minutos imperdíveis. O filme faz parte de um conjunto de vídeos do Steps for the Future, cujo maior objectivo é o de educar e formar gentes em regiões afectadas pela pandemia do HIV. Esta curta-metragem de Orlando Mesquita foi galardoada com vários prémios, entre os quais:
Prémio Especial do Júri Festival de Cannes Júnior, 2002
Prémio Especial do Júri Internacional de Estudantes de BANFF para melhor programa infantil - Canadá 2002
Melhor Filme Africano no Apollo Film Festival d, S.A. 2002
Prémio Instituto Camões para a melhor Curta Metragem de Expressão Lusófona – Festival Internacional de Curtas Metragens de Évora – Histórias Comunitárias, Portugal, 2003.

17Abril1969

A sucessão de CarlosII de Espanha-1698


O facto de Carlos segundo de Espanha não ter gerado sucessor provocou grandes convulsões na Europa.
A consanguinidade foi o fim dos Habsburgos.

Carlos II, o último rei da dinastia dos Habsburgos que Espanha teve, sofreu problemas causados por desvios genéticos.
As uniões consanguíneas, das quais abusaram os Habsburgos, estão provavelmente na origem da extinção da dinastia que reinou em Espanha durante 174 anos, segundo um estudo científico espanhol.
Os Habsburgos foram substituídos, em 1700, em Espanha, pela dinastia francesa dos Bourbons, a seguir à morte do seu último rei, Carlos II, que chegou aos 39 anos sem descendência. Os Bourbons reinam até hoje em Espanha.
Os investigadores espanhóis calcularam o "grau de endogamia" do ramo espanhol dos Habsburgos e concluíram que "o grande número de casamentos consanguíneos" celebrados nesta família provocou desvios genéticos no rei Carlos II. Era uma pessoa fraca, fisicamente e mentalmente, tinha o rosto deformado e era impotente, sublinharam os investigadores no estudo publicado pela revista da biblioteca pública científica americana PloS ONE.
Segundo os textos da época, Carlos II não começou a falar antes da idade dos quatro anos, não começou a andar antes dos oito e, durante os seus últimos anos de vida, sofreu de alucinações e de convulsões. Na dinastia dos Habsburgos os tios casavam-se com as sobrinhas, os primos com primos, entre outras.
(D.Notícias)

16 abril 2009

Post para dois amigos

O poema do post anterior e a voz de Barbara, que se pode ouvir aqui, trouxeram a melancolia doce que têm alguns passos de dança. Porque o corpo e a voz são sempre feitos de vida que, no próprio gesto, são já saudade do que foi. Do que se ouviu. Voz e gesto são presenças sempre ausentes.
Em ambos - poema e voz -, o ritmo é de uma enorme beleza .

Palavras Fechadas


Sopro breve
paisagem derradeira
tempo cego
voaram as tardes
L´image de la pleine mort
E tu existias
dentro de uma caixa fechada
clara e lisa
A morte quer-se estética
lavada
atroz mas digna

Vieram as flores e os abraços
os gestos costumeiros
a voz
os passos
sussurros

Fazem barulho
Há alguém
que chora
finalmente
Muito

15 abril 2009

sobre(viveres)

psipax ao pequeno almoço e almoço (isto é tipo prozac, não é?), anafranil75 ao almoço e jantar, triticum100 ao deitar, priadel400 dois ao pequeno almoço, perdin ao deitar, alpazolam pequeno almoço almoço e jantar. Acho que não esqueci nenhum… e a tristeza não me deixa. Parece um cão ferrado, quinze dias internada e saio assim, já viu? Duas semanas meia embrutecida e no final, “as coisas estão melhores, pode ir até casa, anime-se, vá ao café, faça amizades”… e eu chego a casa, não desfaço as malas nem levanto as persianas. Fico sentada no quarto, a olhar as paredes brancas ou enrolada, deitada na cama, tal qual como quando estava no hospital. Sozinha, parece que desprezada por todos, mas todos são quem? ... não há ninguém. A miúda entrou na universidade e só liga para pedir dinheiro, o marido no cemitério há quinze anos (tinha vinte e nove, sabia?) … e alegria porquê? Nada. E conviver com amigas.... mas se são todas casadas e aqui neste lugar não vamos ao café, as mulheres? Olhe, é sempre uma saudade não sei do quê, sempre uma dor no peito, este novelo que sobe e desce e não desaparece. As noites sem conseguir dormir uma hora seguida, mas prefiro a noite, com o silêncio parece que custa menos a passar o tempo, deve ser por isso que não abro as cortinas nem acendo luzes, às vezes deixo a televisão acesa, sem som, na cozinha. A casa fica azulada e eu ando por ali. Quase não saio, quer dizer, vou ao minimercado, compro o básico e fecho-me outra vez… até o gato já se habituou. Às vezes nem atendo as chamadas da minha filha, para não piorar tudo, porque acabamos a discutir por ninharias e depois choramos sem destino. Mas o que me faz mais diferença é não dormir… e tremo muito. No hospital dormia, sim. E tomo tanta porcaria, já viu… alpazolam pequeno almoço almoço e jantar, perlin ao deitar, priadel400 dois ao pequeno almoço, triticum100 ao deitar, anafranil75 almoço e jantar, psipax pequeno almoço e almoço (isto é tipo prozac, não é?)

Bo


Bo, o cão de água português já está na Casa Branca.
Pode ser que nos dê uma patinha para resolver a crise.Em que é que estou a pensar?

Aos nascidos nos anos 40 e 50 (e aos outros, claro)

Deliciem-se com estes dois...

14 abril 2009

Soltemos o Rui Gaudêncio que há em nós...


Rui Vaz Gaudêncio, o pastor de 44 anos que ganhou mais de um milhão de euros, esteve ontem na festa de Nossa Senhora do Incenso e depois refugiou-se em casa do irmão. O vencedor está a ponderar ir viver para Espanha... e comprar uma concertina.
Com algum treino durante o pastoreio ainda havemos de ter um Pohjonen lusitano.

Carne da minha carne

Sobre a reportagem que a Visão fez acerca da nossa família genética ancestral, encontrei um interessante comentário assinado por J. Sousa, que transcrevo.
Segundo ele, o estudo só nos dá uma parte do trajecto de cada um: Atenção! As análises do ADN mitocondrial e da zona não recombinante do cromossoma Y são importantes no estudo genético das populações, mas revelam muito pouco ou quase nada a nível individual. São, contudo, um bom negócio para os laboratórios que as realizam.
Estes exames apenas permitem avaliar a origem genética da mãe da mãe da mãe da mãe ………. da mãe da nossa mãe e do pai do pai do pai do …….. do pai do nosso pai esquecendo todos os outros antepassados como se, por exemplo, o pai da mãe do pai da mãe da mãe do nosso pai ou a mãe da mãe do pai do pai da nossa mãe nem sequer tivessem existido.
Se considerarmos que existe uma geração de 25 em 25 anos, alguém nascido em 2000, tem 2 antepassados (pai e mãe) nascidos em 1975, 4 antepassados (4 avós) nascidos em 1950, 8 antepassados (bisavós) nascidos em 1925, 16 antepassados (trisavós) nascidos em 1900, etc…, 1024 antepassados nascidos em 1750, mais de 1 milhão (1.048.576) nascidos em 1500, não sendo necessário recuar até à pré-história. Podem a Leonor Beleza, a Naide Gomes, e todos os outros, ficar descansados. Se, por absurdo, no final do séc. XV, 2 dos seus antepassados – o pai do pai do… pai do pai e a mãe da mãe da…. mãe da mãe – forem do grupo genético A e os outros 1.048.574 do grupo genético B, esta análise parcial do ADN dá 100% de positividade para o grupo genético A, mas o indivíduo tem certamente todas as características genéticas do grupo genético B. (J.Sousa)

13 abril 2009

Depois das amêndoas

Em escuta de fim de dia, guiada por sugestões de uma páscoa entre amigos, lembrando a amena cavaqueira sobre Bosquímanes e supostas verdades da genética e da linguística.

Com estalinhos, como em Miriam Makeba (oiçam) ou sem estalinhos na voz de Angélique Kidjo, o gosto de ouvir outras raízes, como neste Summertime absolutamente diferente.
Ah! E a vaidade de descender dos Silvas (da Beira Alta, mas que importa?).

Momentos

- Dr., olhe pra mim. Olhe bem pra mim e diga-me que eu não estou a ficar cinzenta e… feia. Diga nos meus olhos se não lhe pareço uma moribunda a cair aos bocados…
- Não acho isso. Está emagrecida…
-
Não diga nada… Já nem a caixinha de pó de arroz e a sombra verde que ponho nos olhos conseguem disfarçar. Feia, feia é como me sinto…
- Não vejo isso no olhar do seu marido…
-
Hoje nem quis entrar, preferiu ficar na sala de espera… e inchada, é como me sinto. Olhe bem, pareço um peru antes do Natal… nada me serve, nem os sapatos. Veja, tive de vir de chinelos…
- São efeitos dos medicamentos. Vão passar e depois sente-se melhor…
-
… e o que é melhor? Diga-me! Melhor é não estar inchada e vomitar tudo, até a alma? Ou melhor é não vomitar, mas ter dores que me fazem querer nunca ter nascido? Ou melhor é ter cabelo? Quando chegamos a isto… de que estar “melhor” é ter uma coisa que qualquer um tem quando acorda de manhã… e depois, sabe, é fácil, é tão fácil falar e prometer que vai tudo melhorar… mas quanto tempo? … até quando vão as suas promessas desta vez?
- Bem sabe que é imprevisível….
-
Sabe o que me tem custado mais agora, o que é que me faz sentir pior? É a falta de ânimo… estou a perder o ânimo. Eu nunca fui bonita, a minha beleza era o ânimo, a alegria de viver.
Era isso o que transformava tudo. Fazia-me sentir bem, tinha força, conseguia coisas porque transformava aquilo que via em mim e o que queria que os outros também vissem… e foi assim que conquistei aquele padecente que está ali fora com as flores na mão…
M.J. 60 A

O Aristocrata Sr.Silva

Silva (apelido)
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Brasão de Armas da Família Silva.
Silva (apelido) é possivelmente o mais difundido apelido de família (sobrenome) nos países de língua portuguesa[carece de fontes].
A sua origem é claramente toponímica, tendo derivado diretamente da palavra latina silva que significa selva, floresta ou bosque, e tem a sua origem na Torre e Honra de Silva junto a Valença.
De facto, em Portugal, na Galiza, em Leão e nas Astúrias, existem diversas localidades cujos nomes se compõem por "Silva". É possível, porém, verificar que a popularidade deste apelido remonta ao século XVII em Portugal e também no Brasil.
A primeira linhagem que adoptou o nome Silva como apelido tem uma origem muito antiga e provém do príncipe dos Godos D. Alderedo, cujo filho, D. Guterre Alderete de Silva casou com uma descendente da nobreza da Casa Real de Aragão e é anterior à fundação da nacionalidade portuguesa, final do século X.
Acredita-se que tenha se tornado o sobrenome mais difundido no Brasil por um série de factores, como a adopção de escravos e crianças filhas de pais incógnitos.
Também foi largamente adoptado por pessoas que chegadas ao Brasil queriam começar uma nova vida, sem vínculos com o passado na Europa, aproveitando-se do relativo anonimato que o sobrenome proporcionava (e ainda proporciona).
Apesar da grande difusão na população lusófona em geral, Silva também é o nome de importantes famílias nobres, que normalmente o transportavam juntamente com outro apelido.
Também é encontrado na Espanha (com origens mais remotas do Reino de Leão) e na Itália, onde é mais comum na região da Emília e da Lombardia.
No Brasil, é muito provável que o conjunto de nome e apelido mais comum seja João da Silva, que se pode comparar a John Smith nos países de língua inglesa, Juan García nos de língua espanhola, Hans Schmidt nos de língua alemã ou a Giovanni Rossi nos de língua italiana.
Um estudo realizado com uma amostragem de 30.400 pessoas no Brasil, mostrou que 9,9% dos brasileiros têm "Silva" nos seus apelidos, seguidos por 6,1% com apelido "Santos", 5,8% com apelido "Oliveira" e 4,9% com apelido "Sousa" ou "Souza".

10 abril 2009

a Dúvida

(S. Dali)

...uns serão lançados à fogueira por crerem em ti, outros sê-lo-ão por duvidarem, Não é permitido duvidar de mim, Não, Mas nós podemos duvidar de que o Júpiter dos romanos seja deus, O único Deus sou eu, eu sou o Senhor e tu és o meu Filho, Morrerão milhares, Centenas de milhares, Morrerão centenas de milhares de homens e mulheres, a terra encher-se-á de gritos de dor, de uivos e roncos de agonia, o fumo dos queimados cobrirá o sol, a gordura deles rechinará sobre as brasas, o cheiro agoniará, e tudo isto será por minha culpa, Não por tua culpa, por tua causa, Pai, afasta de mim esse cálice...

(José Saramago in Evangelho Segundo Jesus Cristo)

09 abril 2009

mais Ondjaki


o jujú gosta de ir à pesca.
de contar estórias também.
tem um sorriso doce
disfarçado de barba branca.
tem nos olhos
um reservatório de brilho
que também usa ternura.
eu gosto de chatear o jujú desta forma:
"pai, conta-me outra vez uma coisa que já me contaste.
conta-me aquela estória do pescador."
os dedos do jujú são muito amigados com o tabaco.
ele fuma o tempo às vezes.
"conheces aquela do gajo que tava sentado a pescar?"
faço fingimento que não.
"tava sentado a pescar. alguém perguntou: você está a pescar o quê?,
e ele respondeu: xuxuíla! o outro perguntou: xuxuíla?! que peixe é esse? o gajo respondeu:
não sei, ainda não pesquei nenhum!"
o jujú gosta muito de ir à pesca.
eu gosto de ir à pesca com ele.
ele é meio pescador
meio pessoa doce.
Aproveitem as férias "pascais"para conhecer Ondjaki. Vai valer a pena.

Ondjaki

( Andrew Wyeth)

sonhei que estava enamorado pela palavra antigamente
eu sorria muito nesse sonho - fossem gargalhadas.
aproveitei a ponta desse sorriso e fiz um escorrega.
deslizei.
tombei no início de uma manhã.
pensei ver duas borboletas mas (riso) eram duas ramelas.
peguei nas duas: o peso delas dizia que eu estava acordado.
(a partir do tom amarelado das ramelas é possível apalpar as manhãs.)
então vi: nos dedos, na pele do corpo por acordar, estavam manchas
muito enormes: eram manchas de infância.
gosto muito deste tipo de varicela.
Ondjaki nasceu em Luanda em 1977. Prosador, Poeta, Realizador de Cinema.
É um notável artífice da língua em que nos expressamos.

08 abril 2009

Descobrimentos

Misrach

225- Não há segredos no homem que a mulher não descubra. Excepto se estão mesmo à vista. Porque um segredo é para se descobrir. Ora o que está mesmo à vista não tem segredo nenhum. Logo, não se descobre.
Virgílio Ferreira, in Pensar

07 abril 2009

Felicidade

"Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade! "

( Texto de João Pereira Coutinho)

Escolha musical

Robert Wyatt:
«É óbvio que [ao capitalismo] não interessa que toda a gente morra à fome porque aí desaparecem os consumidores. Basta que as pessoas tenham dinheiro para comprar Coca-Cola, hamburguers e discos da Britney Spears.»

Robert Wyatt, músico e cantor britânico, foi baterista e vocalista dos Soft Machine, em meados dos anos 70. Após alguns conflitos com os elementos do grupo, Wyatt decidiu criar a sua própria banda, cujas propostas eram tangentes à música instrumental. Entretanto, na sequência de um salto de uma janela de um terceiro andar, Wyatt fica paraplégico, actuando em palco, desde então, numa cadeira de rodas, atitude que lhe valeu uma guerra (ganha) com o produtor.
Por essa altura desistiu da bateria, iniciando um percurso a solo e, com uma série de músicos de estúdio, lança o aclamado álbum Rock Bottom.
Wyatt trabalhou e participou em actuações ao lado de Brian Eno, Carla Bley, David Gilmour, Björk e outros. A partir dos anos 80, as suas composições tomaram um cariz cada vez mais político e interventivo, com influências do jazz e da música africana.
Rock Bottom, Shleep e Cuckooland são considerados álbuns de culto.

06 abril 2009

Oldies

Os Eagles – uma das míticas bandas do rock americano dos idos 70 – estarão em Lisboa a 22 de Julho, no Pavilhão Atlântico. O espectáculo faz parte da digressão de apresentação do último álbum, Long Road Out of Eden (7 Discos de Platina e 1 Grammy).
Quem se recorda desta?

Cavatina

Foi a Cavatina de Stanley Meyers que me levou de volta a este filme.

O Caçador - The deer hunter – para além de toda a controvérsia que sobre ele se gerou na altura (visão simplificada da Guerra do Vietname ou versão racista dessa Guerra) – é, como quis o próprio Michael Cimino, sobretudo um filme sobre pessoas: sobre a estreiteza de um quotidiano repentinamente abalado pelo cenário da guerra; sobre a culpa e a expiação, sobre a amizade, o amor (e a sua impossibilidade), o alhemento do mundo, o grau-zero da humanidade, o sem-sentido dessa e de todas as guerras.
Robert De Niro e Christopher Walken têm neste filme um desempenho absolutamente inesquecível. A rever.

A música aí fica, para quem apreciar.

Os Amigos D´Avenida

Imagem 1No âmbito das comemorações dos 250 anos de Aveiro, os Amigos d'Avenida pretendem lançar um desafio aos agentes culturais da cidade para se associarem à organização de um programa de animação cultural da praça Joaquim de Melo Freitas, (aos Arcos), a ocorrer aos sábados à tarde, das 15.00 às 17.00 horas até 21 de Setembro.

05 abril 2009

Em memória de Lorca



A guitarra
faz soluçar os sonhos.
O soluço das almas
perdidas
foge por sua boca
redonda.
E, assim como a tarântula,
tece uma grande estrela
para caçar suspiros
que bóiam no seu negro
abismo de madeira

Frederico Garcia Llorca

Metáforas

"Let us be lovers we'll marry our fortunes together"

I've got some real estate here in my bag

So we bought a pack of cigarettes and Mrs. Wagner pies

And we walked off to look for America

Kathy, I said ,as we boarded a Greyhound in Pittsburgh

Michigan seems like a dream to me now

It took me four days to hitchhike from Saginaw

I've gone to look for America

Laughing on the bus Playing games with the faces

She said the man in the gabardine suit was a spy

I said Be careful his bowtie is really a camera

Toss me a cigarette, I think there's one in my raincoat

We smoked the last one an hour ago

So I looked at the scenery, she read her magazine

And the moon rose over an open field

Kathy, I'm lost, I said, though I knew she was sleeping

I'm empty and aching and I don't know why

Counting the cars on the New Jersey Turnpike

They've all gone to look for America

All gone to look for America

All gone to look for America

Na primeira semana de Abril de 1968 foi lançado o Álbum Bookends de Simon & Garfunkel.

Foi um êxito termendo e as canções começaram a ser conhecidas entre nós (era regra na época) no Verão. Como teve composições muito divulgadas, como Mrs Robinson ou A Hazy Shade of Winter, a canção América tornou-se menos conhecida. É, no entanto, uma composição muito bela, descrevendo a viagem metafórica de uma geração em busca dos seus caminhos. No fundo, a viagem que, nas várias latitudes, os jovens fizeram naqueles anos. E que, felizmente, continuam fazendo.

04 abril 2009

Manuel António Pina


Hoje, o Sabugal presta homenagem a Manuel António Pina.

Todos nós lhe devemos, todos os dias, uma homenagem.
Nacional, claro.

Um abraço, pelo exemplo.


Lá se vai mais um sonho
2009-04-02
Perdemos os sonhos ou são os sonhos que nos perdem? O meu sonho de menino sempre foi ser presidente de uma empresa intermunicipal de tratamento de resíduos; e quando, em vez de estudar, me punha a ler o "Cavaleiro Andante", minha mãe dizia-me: "Estuda se queres vir a ser presidente de uma empresa intermunicipal de tratamento de resíduos", sabendo que só isso era capaz de me arrancar da companhia de Tartarin de Tarascon e de Tintin.
Chegado a esse lugar de exílio que é a idade adulta (o que sucedeu mais ao menos na altura em que Tintin deixou de usar calças de golfe), procurei em vão informar-me acerca de como seria possível realizar tão desmesurado sonho. Só agora, já velho, o descobri. Para se ser presidente de uma empresa intermunicipal de tratamento de resíduos é recomendável, pelo menos em Braga, ter sido condenado por tentativa de corrupção de um vereador, o que (uma condenação por corrupção) é, como se sabe, uma inalcançável miragem em Portugal. Sem meios para tentar corromper vereadores, terei que me ficar pelo jornalismo, que também é uma actividade do sector do tratamento do lixo.
Manuel António Pina, Aqui

03 abril 2009

Toca a cantar !

Para este amigo, hoje
especialmente hoje,
toca a cantar
(vá lá, todos em coro, que é festa):


E passem palavra, passem palavra, que ele bem merece.

Matinée


Smile though your heart is aching
Smile even though its breaking
When there are clouds in the sky

you'll get by If you smile
through your fear and sorrow

02 abril 2009

Fatal (sequelas)


A Adélia Prado é que sabe...
Este foi bem apanhado no radar.
Tadinho do piqueno!

Fatal

Os moços tão bonitos me doem,
impertinentes como limões novos.
Eu pareço uma actriz em decadência,
mas, como sei disso, o que sou
é uma mulher com um radar poderoso.
Por isso, quando eles me vêem
como se me dissessem: acomoda-te no teu galho,
eu penso: bonitos como potros.Não me servem.
Vou esperar que ganhem indecisão. E espero.
Quando cuidam que não,
estão todos no meu bolso.

Adélia Prado, Poesia Reunida

Amor feinho

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual a fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.
Adélia Prado in Poesia Reunida

01 abril 2009

CCR5-Δ32 (conclusão)

No início dos anos 80 do século XX começou a haver relatos duma doença nova que progredia de forma imparável na comunidade homossexual, designadamente em S. Francisco, nos Estados Unidos.
A doença provocava uma acentuada diminuição das defesas imunitárias dos indivíduos afectados que, em consequência da baixa de imunidade, sofriam de infecções oportunistas que os levavam inexoravelmente à morte.
As características que apresentavam os doentes, com conjuntos de sintomas semelhantes, levaram a considerá-la um Síndrome. A constatação de que existia uma acentuada baixa de imunidade, fez com que se acrescentasse a característica de Imunodeficiência. O facto de surgir em indivíduos previamente saudáveis, permitiu dizê-la Adquirida.
Hoje, a história é conhecida: sabe-se a causa, uma infecção provocada por um vírus, VIH (Vírus da Imunodeficiência Humana) e conhecem-se as formas de aquisição desta doença: via sexual, intravenosa ou mãe - filho.
O que sempre chamou a atenção aos investigadores foi o facto de haver pessoas com o vírus em circulação durante mais de 20 anos, desde os primeiros relatos da doença, e que viviam normalmente, sem necessitarem de qualquer tipo de medicamento.
A razão foi, entretanto, descoberta. Chama-se CCR-5.
O vírus adere às paredes das células e, para entrar (e provocar infecção), necessita de um “veículo” que o leve. Esse é o papel do CCR-5 (ChemoChineReceptor-5).
Há, em certos grupos populacionais que tiveram origem em zonas da Europa Central, uma deficiência genética em que os portadores têm um CCR-5 “deficiente”, chamado Delta 32 (CCR5-Δ32 ). A sua deficiência torna-o incapaz de viajar para dentro das células, transportando com ele os vírus.
Constatou-se que os indivíduos imunes ao SIDA, apesar de portadores de VIH, tinham este “defeito” genético… Ou seja, os vírus circulantes não penetravam as células e eles não tinham infecção.
A investigação da origem do defeito genético foi dar aos sobreviventes de Eyam, a pequena aldeia dizimada pela Peste no século XV.
Concluiu, através de estudos de ADN dos seus descendentes, que, também eles, os imunes à infecção mortal por Yersinia pestis, tinham a alteração genética do CCR-5 e eram portadores do CCR5-Δ32 o que os tinha permitido sobreviver.
Aliás, constataram também que a sobrevivência a epidemias de varíola em populações sem condições sanitárias mínimas, em períodos anteriores à descoberta da vacina, seria igualmente devida à presença deste gene.
Ressalta nestes acontecimentos a importância fundamental da genética como caminho para a compreensão da sensibilidade e da resistência dos humanos à doença e à morte.