Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me
sentir como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater
os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava
os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira
Que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
E o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto
Quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera
um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos
a ver se contraía a febre do império
mas a única coisa que consegui apanhar
foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar
uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Se tivesse dinheiro comprava um império e dava-to
Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito
e idiota como tu
mas que tem o coração doce, ainda mais doce
que os pasteis de Tentúgal
e o corpo cheio de pontos negros
para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete
Salazar estava no poder
nada de ressentimentos
O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram
nada de ressentimentos
um dia bebi vinagre
nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas
a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional
Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho
Que Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca
Jorge de Sousa Braga, O Poeta Nú, Ed Fenda, 1991
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31 outubro 2010
30 outubro 2010
28 outubro 2010
Os campeões à procura do fumo branco
...Portugal é o país europeu com o maior número de PPP (Parcerias Público-Privadas), quer em relação ao PIB quer em relação ao Orçamento de Estado. Em 2009, o nosso país, cuja população é semelhante à da grande Paris, contratou três vezes mais PPP do que a França e mais ainda do que qualquer outro país da Europa.
Portugal é o campeão europeu das PPP - mas das PPP que afogam os contribuintes em dívidas, em especial os das gerações futuras, como revela a análise caso a caso a que a seguir procedo. Segundo a "League Tables Project Finance International", Portugal aparece distanciado, no topo da lista, com 1.559 mil milhões de euros de empréstimos, seguido de França com 467, da Polónia com 418, da Espanha com 289, da Irlanda com 141 e da Itália com 66 mil milhões.(...)
A partir dos anos 1990, as PPP tornaram-se a regra em Portugal, ao arrepio do que sucedia na generalidade dos países europeus. Tudo o que os governos retiram a partir de então do Orçamento do Estado como investimento público, por força das restrições orçamentais impostas por Bruxelas, passa sistematicamente para investimento privado em regime de PPP.
A habilidade é notória: os responsáveis continuam a mostrar obra, mas não a pagam agora. Agora quem a paga são os privados. A factura para os contribuintes virá depois. No imediato, todos ficam satisfeitos. A União Europeia deixa de se preocupar com o défice e a dívida. Os governantes e os governados aumentam as respectivas expectativas de mais votos e melhor nível de vida. Os parceiros privados fazem excelentes negócios.
O negativo da fotografia não se vê: está reservado para as gerações futuras.
Muito de tal investimento privado passa a ser, não só remunerado pelas receitas geradas pelo próprio projecto, ao longo dos 30 ou 35 anos das concessões, como beneficia igualmente de compensações várias que o concedente público caso a caso negoceia (ou renegoceia) pagar ao concessionário, ao longo da vida do contrato.
E assim sendo, há uma factura que sobra para os contribuintes das gerações vindouras, durante longos anos...
Carlos Moreno, Como o Estado Gasta o Nosso Dinheiro, Edição Leya, 2010
Carlos Moreno é Juiz Jubilado do Tribunal de Contas. No seu livro analisa duas décadas de "despesismo público". Curiosamente, durante mais de vinte anos fomos conduzidos ao abismo por esta gente que persiste, agora, em nos convencer que a culpa é "dos mercados" e nossa, porque insistimos em "viver acima das nossas possibilidades".
Ou seja, mais de duas décadas de negociatas, enriquecimentos ilícitos, voragem do Aparelho de Estado e do dinheiro dos contribuintes por toda a espécie de oportunistas - como o livro enuncia - não têm responsabilidade no desastre. As grandes causas da caminhada para o abismo estão nos gastos com as reformas, nos salários e no subsídio de aleitamento.
Depois confiem neles outra vez e fiquem à espera do fumo branco.
Ou seja, mais de duas décadas de negociatas, enriquecimentos ilícitos, voragem do Aparelho de Estado e do dinheiro dos contribuintes por toda a espécie de oportunistas - como o livro enuncia - não têm responsabilidade no desastre. As grandes causas da caminhada para o abismo estão nos gastos com as reformas, nos salários e no subsídio de aleitamento.
Depois confiem neles outra vez e fiquem à espera do fumo branco.
23 outubro 2010
Lamento de um pai de família
Como pode um homem carregado de filhos e sem fortuna alguma
ser poeta neste tempo de filhos só da puta ou só de putas
sem filhos? Neste espernear de canalhas, como pode ser?
Antes ser gigolô para machos e ou fêmeas, ser pederasta
profissional que optou pelo riso enternecido dos virtuosos
que se revêem nele e o decepcionado dos polícias que com ele
não fazem chantage porque não vale a pena. Antes ser denunciante
de amigos e inimigos, para ganhar a estima dos poderosos ou
dos partidos políticos que nos chamarão seus génios. Antes
ser corneador de maridos mansos com as mulheres deles fáceis.
Antes reunir conferências de S. Vicente de Paula, para roçar
o cu da virtude pelas distracções das sacristias escuras e
ter o prazer de acudir com camisolinhas aos pobres entre os quais
às vezes aparece um ou uma que dá gosto ver assim tão pobre por
se lhe verem os pêlos pelos rasgões da camisa ou algo de mais
impressionante para o subconsciente que sempre está nos olhos
que docemente se comovem com a miséria. Antes ir para as guerras
da civilização cristã ou da outra, matar os inimigos da conta corrente
e das fábricas de celofânicas bombas. Antes ser militar.
Ou marafona de circo. Ou santo. Ou demónio doméstico
torcendo as orelhas dos filhos à falta de torcê-las aos filhos
da puta . Ou gato. Ou cão. Ou piolho. Antes correr os riscos do
DDT, das carroças que os municípios têm para os cães suspeitos
de raivosos como todos os cães que se vê não lamberem as partes
das donas ou mesmo dos donos. Antes tudo isso que assistir a tudo,
sofrer de tudo e tudo, e ainda por cima ter de aturar o amor
paterno e os sorrisos displicentes dos homens de juízo
que deram pílulas às esposas, ou as mandaram à parteira secreta e
elas quiseram ir. Antes morrer. (....)
Jorge de Sena, 40 Anos de Servidão, Edições 70, 1989
Fotografia: Misha Gordin
14 outubro 2010
Do abismo ao abraço
... Os dias não se descartam nem se somam, são abelhas
que arderam de doçura ou enfureceram
o aguilhão: o certame continua,
vão e vêm as viagens do mel à dor.
(Pablo Neruda)
01 outubro 2010
O que se sabe dum tempo que se desconhece
"... A situação do nosso país é pré caótica - anuncia o caos possível -, porque em todos os domínios da vida social e da governação a retroação do efeito sobre a causa está presente (ou, como se diz habitualmente, "o problema faz parte da solução"). Basta olhar para as políticas da "modernização" e as suas consequências no "Estado Social": a preacriedade do emprego, a mobilidade, as novas tecnologias empurram para o desemprego milhares de pessoas que o Estado tem de apoiar, o que leva a pô-lo em risco, obrigando a abrandar ou acelerar a modernização, o que por sua vez reconduz à inércia e ao desperdício, criando novamente mais desperdício, etc. (...)
Um movimento cada vez mais acelerado de caotização está a invadir o País, afetando as subjetividades. Ninguém sabe o que vai acontecer. Não se pode ficar inerte, mas não se sabe como agir (senão salvar o que de bom tem sido feito). Nem sequer há a certeza do caos futuro, com a esperança de uma dialética que faça nascer a luz das trevas. Este setembro "do nosso descontentamento" marca, talvez por muitos anos, o fim da esperança. Resta-nos a força de viver.
José Gil, O caos incerto, Visão (30 Setembro 2010)
Fotografia: Gregory Crewdson
09 setembro 2010
Correm turvas as águas deste rio
Correm turvas as águas deste rio,
Que as do céu e as do monte as enturbaram;
Os campos florescidos se secaram,
Intratável se fez o vale, e frio.
Passou o Verão, passou o ardente Estio,
Úas cousas por outras se trocaram;
Os fementidos Fados já deixaram
Do mundo o regimento, ou desvario.
Tem o tempo sua ordem já sabida;
O mundo, não; mas anda tão confuso,
Que parece que dele Deus se esquece.
Casos, opiniões, natura e uso
Fazem que nos pareça desta vida
Que não há nela mais que o que parece.
Luis Vaz de Camões
Que as do céu e as do monte as enturbaram;
Os campos florescidos se secaram,
Intratável se fez o vale, e frio.
Passou o Verão, passou o ardente Estio,
Úas cousas por outras se trocaram;
Os fementidos Fados já deixaram
Do mundo o regimento, ou desvario.
Tem o tempo sua ordem já sabida;
O mundo, não; mas anda tão confuso,
Que parece que dele Deus se esquece.
Casos, opiniões, natura e uso
Fazem que nos pareça desta vida
Que não há nela mais que o que parece.
Luis Vaz de Camões
08 setembro 2010
... ainda os serviços do "serviço público"
A entrevista "non stop" que, desde que foi condenado, Sua Inocência tem estado ininterruptamente a dar às TVs, teve o mais respeitoso e obrigado dos episódios na RTP1, canal que é suposto fazer "serviço público".
Desta vez, o "serviço" foi feito a um antigo colega, facultando-lhe a exposição sem contraditório das partes que lhe convêm (acha ele) do processo Casa Pia e promovendo o grotesco julgamento na praça pública dos juízes que, após 461 sessões, a audição de 920 testemunhas e 32 vítimas e a análise de milhares de documentos e perícias, consideraram provado que ele praticou crimes abjectos, condenando-o à cadeia sem se impressionarem com a gritaria mediática de Suas Barulhências os seus advogados, o constituído e o bastonário.
Tudo embrulhado no jornalismo de regime, inculto e superficial, de Fátima C. Ferreira, agora em versão tu-cá-tu-lá ("Queres fazer-lhe [a uma das vítimas] alguma pergunta, Carlos?"). O "Prós &Contras" só não ficará na História Universal da Infâmia do jornalismo português porque é improvável que alguém, a não ser os responsáveis da RTP, possa chamar jornalismo àquilo.
07 setembro 2010
Equilíbrios e equilibristas
Apenas um exercício.
Suponhamos que só havia um réu e uma condenação.
Imaginemos que esse réu, condenado, era Carlos Silvino, o "Bibi".
Será que o "Serviço Público de Televisão" continuaria a insistir no seu papel moderador na sociedade portuguesa?
Suponhamos que só havia um réu e uma condenação.
Imaginemos que esse réu, condenado, era Carlos Silvino, o "Bibi".
Será que o "Serviço Público de Televisão" continuaria a insistir no seu papel moderador na sociedade portuguesa?
03 setembro 2010
...e o futuro deles é hoje
Para o progresso de Moçambique precisamos de trabalhar, se não trabalharmos caminharemos para trás.
(Joaquim Eugénio Pires - 4ª classe)
Toda a gente vai trabalhar cultivar as plantas para nós comermos.
(António Muiocha - 2ª classe)
Não vamos fazer como o governo de Salazar e Caetano de se sentar na cadeira e os outros trabalharem. Vamos todos trabalhar.
(César Alfredo Muchanga - 4ª classe)
É neste novo espírito que vamos trabalhar estudar e ter vigilância, não ter medo da polícia.
(Júlio Silvano Chemane - 2ª classe)
in As Vozes do Futuro, Revista Tempo, edição especial da Independência
República Popular de Moçambique, Junho de 1975.
24 agosto 2010
"...with [without] a little help from my friends"
Cortar, com ou sem vontade, nos investimentos de alta rendibilidade apenas para fazer com que os números do défice pareçam melhores é realmente um disparate, afirmou o norte-americano Joseph Stiglitz, professor na Universidade de Columbia, numa entrevista à rádio irlandesa RTE, citada pela agência Bloomberg.
Porque tantos na Europa estão concentrados no número artificial de três por cento [de défice], que não tem qualquer realismo e só olha para um lado da balança, a Europa está em risco de entrar em nova recessão, acrescentou o Nobel da Economia.
Stiglitz, que falava àquela rádio irlandesa, considerou que, por si só, a Irlanda era demasiado pequena para determinar o que acontece à Europa no seu todo, alertando no entanto que se a Alemanha, o Reino Unido e outros dos maiores países seguirem esta abordagem de austeridade excessiva, a Irlanda irá sofrer, à semelhança do que acontecerá nesse caso aos países mais pequenos e dependentes das maiores economias.
15 agosto 2010
Gustavo Cerati

Aos artistas e aos jovens associa-se geralmente a ideia de imortalidade. Depois, a vida - na sua brutal realidade - encarrega-se de a desfazer e reduzir a pó, muitas vezes em escassos segundos.
Gustavo Cerati é um cantor argentino que em Maio passado sofreu um acidente vascular cerebral durante um espectáculo. Foi já submetido a uma intervenção cirúgica mas mantém-se inconsciente, ligado a um aparelho de respiração assistida sendo as esperanças de recuperação muito débeis.
Há actualmente um enorme movimento de solidariedade ao cantor, sobretudo na net e entre os apoiantes por toda a América do Sul, que se rodeou de grande emoção em 11 de Agosto, quando o cantor completou 51 anos.
06 agosto 2010
Contra o horror e a barbárie
Esta fotografia conta o bárbaro assassínio de Asha Ibrahim, uma jovem de 14 anos, em 2008 na Somália,
Asha fora violada e posteriormente considerada adúltera por um "tribunal" que a condenou à morte por apedrejamento.
Aqui no Marcas, fazemos eco da campanha internacional desencadeada para salvar uma outra mulher, Sakineh Ashtiani, que no Irão enfrenta as forças dementes que ali fazem lei e que se preparam para repetir este crime hediondo.
Ninguém, em parte nenhuma do mundo, pode descansar enquanto este horror não for impedido.
17 julho 2010
Nova Geração: Peregrinos de Festivais

A nova geração tem necessidade de comunhão, de partilha, de êxtase, como sempre aconteceu.
A nova religião constrói-se, não nas igrejas, como antigamente, mas em torno dos festivais de verão.
E vão em romaria. Mochilas às costas, ténis ou sandálias nos pés, umas gangas esfarrapadas e umas t-shirts sugestivas e eloquentes. Às vezes, os mais devotos chegam às pinturas faciais, lenços na cabeça e gorros internacionais.
Tribalismo? Julgo que não, tribalismo é no futebol, com gritos de guerra e exércitos ferozes.
Nos festivais é partilha, companheirismo, fé, sacrifício, esperança. Ritualismo sazonal e festivo, como recompensa das agruras , como prece: face aos deuses tão inacessíveis, em cima do palco, deuses pagãos e plurais, envoltos em fumo e luzes, eles comungam, imploram, choram, aplaudem.
E voltarão, no ano seguinte, como promessa, como procura do lugar inicial e fantástico.
26 junho 2010
A voz de um homem livre
O que eu acho, então, é que há uma soma de pessoas (na Igreja), e digo-o com respeito, que ficaram perfeitamente analfabetas, cheias de complexos, de maldade, de sensualidade, quase castradas. Quem conhece o mundo e o adora, olha-o de forma límpida e feliz. Eu dou graças à vida e aos educadores que tive, por olhar para o mundo de forma descomplexada e desinibida...
Entrevista ao Jornal i 26/06/2010 Num tempo de silêncio e múltiplas cumplicidades, um tempo difícil para quem quer uma cidadania exigente, é de saudar os homens que têm uma voz própria e se exprimem com coerência, inteligência e liberdade.
D. Januário Torgal Ferreira é um homem assim e a sua entrevista de hoje ao jornal i merece uma leitura atenta . AQUI
21 junho 2010
O chá, a gramática e o resto que se bebe em pequenino
O oficioso "Osservatore romano", que o Vaticano costuma usar para atirar pedras escondendo a mão, achou que a morte de Saramago seria boa altura para o apedrejar, tanto mais que, agora, ele já não pode defender-se. O apedrejador de serviço meteu, por isso, mãos à vaticana obra e, mesmo não percebendo por que motivo terá Deus deixado Saramago viver até à "respeitável idade de 87 anos" e andar por aí a exibir uma "crença obstinada" não nos dogmas da Igreja mas nos do materialismo histórico, condenou-o às chamas do Inferno (infelizmente a Igreja já não tem poder para condenar gente como Saramago à fogueira na Terra). Também Cavaco tem queixas de Saramago mas, no seu caso, só protocolares pois, ao contrário do Vaticano, Cavaco não é rancoroso. Saramago não teve, de facto, o cuidado de acertar a data da morte com a agenda da Presidência, o que impediu o presidente de ir ao funeral. Saramago devia saber que Cavaco "gosta de cumprir promessas" e que prometera "à família que no dia 17 partiria com eles para a ilha de S. Miguel".
Ora regras de concordância gramatical podem interromper-se, férias não.
Manuel António Pina AQUI
17 junho 2010
Goran Bregovic

Festival MED em Loulé a partir de 23 de Junho:
GORAN BREGOVIC RECEBE PRÉMIO SONGLINES NO FESTIVAL MEDA Songlines, uma das mais conceituadas publicações internacionais de música, escolheu o Festival MED para entregar o prémio de Melhor Artista a Goran Bregovic.A mais alta distinção dos prestigiados Songlines Music Awards deste ano coube a Goran Bregovic, com o álbum “Alkohol”. O galardão será oficialmente entregue após a actuação do músico e da sua Wedding and Funeral Band no palco MED, a 25 de Junho. A entrega do prémio será realizada por Simon Broughton, editor de world music da Songlines, Seruca Emídio, presidente da Câmara Municipal de Loulé, e Joaquim Guerreiro, vereador da Cultura e director do Festival MED. Os Songlines Music Awards distinguem anualmente os melhores projectos de world music, atribuindo prémios em quatro categorias: melhor artista, grupo, colaboração multi-cultural e grupo revelação. Entre os vencedores desta e de outras edições estão Lura, Tinariwen, Justin Adams e os portugueses Deolinda, nomes que já passaram pelo palco MED. |
14 junho 2010
De imprescindível leitura
Os dados estão lançados, o jogo é claro e quanto mais tarde identificarmos as novas regras mais elevado será o custo para os cidadãos europeus. A luta de classes está de volta à Europa e em termos tão novos que os actores sociais estão perplexos e paralisados. Enquanto prática política, a luta de classes entre o trabalho e o capital nasceu na Europa e, depois de muitos anos de confrontação violenta, foi na Europa que ela foi travada com mais equilíbrio e onde deu frutos mais auspiciosos. Os adversários verificaram que a institucionalização da luta seria mutuamente vantajosa: o capital consentiria em altos níveis de tributação e de intervenção do Estado em troca de não ver a sua prosperidade ameaçada; os trabalhadores conquistariam importantes direitos sociais em troca de desistirem de uma alternativa socialista.
Assim surgiram a concertação social e seus mais invejáveis resultados: altos níveis de competitividade indexados a altos níveis de protecção social; o modelo social europeu e o Estado Providência; a possibilidade, sem precedentes na história, de os trabalhadores e suas famílias poderem fazer planos de futuro a médio prazo (educação dos filhos, compra de casa); a paz social; o continente com os mais baixos níveis de desigualdade social.
Todo este sistema está à beira do colapso e os resultados são imprevisíveis. O relatório que o FMI acaba de divulgar sobre a economia espanhola é uma declaração de guerra: o acumulo histórico das lutas sociais, de tantas e tão laboriosas negociações e de equilíbrios tão duramente obtidos, é lançado por terra com inaudita arrogância e a Espanha é mandada recuar décadas na sua história: reduzir drasticamente os salários, destruir o sistema de pensões, eliminar direitos laborais (facilitar despedimentos, reduzir indemnizações).
A mesma receita será imposta a Portugal, como já foi à Grécia, e a outros países da Europa, muito para além da Europa do Sul. A Europa está a ser vítima de uma OPA por parte do FMI, cozinhada pelos neoliberais que dominam a União Europeia, de Merkel a Barroso, escondidos atrás do FMI para não pagarem os custos políticos da devastação social.
O senso comum neoliberal diz-nos que a culpa é da crise, que vivemos acima das nossas posses e que não há dinheiro para tanto bem-estar. Mas qualquer cidadão comum entende isto: se a FAO calcula que 30 mil milhões de dólares seriam suficientes para resolver o problema da fome no mundo e os governos insistem em dizer que não há dinheiro para isso, como se explica que, de repente, tenham surgido 900 mil milhões para salvar o sistema financeiro europeu? A luta de classes está a voltar sob uma nova forma mas com a violência de há cem anos: desta vez, é o capital financeiro quem declara guerra ao trabalho.
O que fazer? Haverá resistência mas esta, para ser eficaz, tem de ter em conta dois factos novos. Primeiro, a fragmentação do trabalho e a sociedade de consumo ditaram a crise dos sindicatos. Nunca os que trabalham trabalharam tanto e nunca lhes foi tão difícil identificarem-se como trabalhadores. A resistência terá nos sindicatos um pilar mas ele será bem frágil se a luta não for partilhada em pé de igualdade por movimentos de mulheres, ambientalistas, de consumidores, de direitos humanos, de imigrantes, contra o racismo, a xenofobia e a homofobia.
A crise atinge todos porque todos são trabalhadores.
Segundo, não há economias nacionais na Europa e, por isso, a resistência ou é europeia ou não existe. As lutas nacionais serão um alvo fácil dos que clamam pela governabilidade ao mesmo tempo que desgovernam. Os movimentos e as organizações de toda a Europa têm de se articular para mostrar aos governos que a estabilidade dos mercados não pode ser construída sobre as ruínas da estabilidade das vidas dos cidadãos e suas famílias. Não é o socialismo; é a demonstração de que ou a UE cria as condições para o capital produtivo se desvincular do capital financeiro ou o futuro é o fascismo e terá que ser combatido por todos os meios.
Assim surgiram a concertação social e seus mais invejáveis resultados: altos níveis de competitividade indexados a altos níveis de protecção social; o modelo social europeu e o Estado Providência; a possibilidade, sem precedentes na história, de os trabalhadores e suas famílias poderem fazer planos de futuro a médio prazo (educação dos filhos, compra de casa); a paz social; o continente com os mais baixos níveis de desigualdade social.
Todo este sistema está à beira do colapso e os resultados são imprevisíveis. O relatório que o FMI acaba de divulgar sobre a economia espanhola é uma declaração de guerra: o acumulo histórico das lutas sociais, de tantas e tão laboriosas negociações e de equilíbrios tão duramente obtidos, é lançado por terra com inaudita arrogância e a Espanha é mandada recuar décadas na sua história: reduzir drasticamente os salários, destruir o sistema de pensões, eliminar direitos laborais (facilitar despedimentos, reduzir indemnizações).
A mesma receita será imposta a Portugal, como já foi à Grécia, e a outros países da Europa, muito para além da Europa do Sul. A Europa está a ser vítima de uma OPA por parte do FMI, cozinhada pelos neoliberais que dominam a União Europeia, de Merkel a Barroso, escondidos atrás do FMI para não pagarem os custos políticos da devastação social.
O senso comum neoliberal diz-nos que a culpa é da crise, que vivemos acima das nossas posses e que não há dinheiro para tanto bem-estar. Mas qualquer cidadão comum entende isto: se a FAO calcula que 30 mil milhões de dólares seriam suficientes para resolver o problema da fome no mundo e os governos insistem em dizer que não há dinheiro para isso, como se explica que, de repente, tenham surgido 900 mil milhões para salvar o sistema financeiro europeu? A luta de classes está a voltar sob uma nova forma mas com a violência de há cem anos: desta vez, é o capital financeiro quem declara guerra ao trabalho.
O que fazer? Haverá resistência mas esta, para ser eficaz, tem de ter em conta dois factos novos. Primeiro, a fragmentação do trabalho e a sociedade de consumo ditaram a crise dos sindicatos. Nunca os que trabalham trabalharam tanto e nunca lhes foi tão difícil identificarem-se como trabalhadores. A resistência terá nos sindicatos um pilar mas ele será bem frágil se a luta não for partilhada em pé de igualdade por movimentos de mulheres, ambientalistas, de consumidores, de direitos humanos, de imigrantes, contra o racismo, a xenofobia e a homofobia.
A crise atinge todos porque todos são trabalhadores.
Segundo, não há economias nacionais na Europa e, por isso, a resistência ou é europeia ou não existe. As lutas nacionais serão um alvo fácil dos que clamam pela governabilidade ao mesmo tempo que desgovernam. Os movimentos e as organizações de toda a Europa têm de se articular para mostrar aos governos que a estabilidade dos mercados não pode ser construída sobre as ruínas da estabilidade das vidas dos cidadãos e suas famílias. Não é o socialismo; é a demonstração de que ou a UE cria as condições para o capital produtivo se desvincular do capital financeiro ou o futuro é o fascismo e terá que ser combatido por todos os meios.
Boaventura Sousa Santos, in Visão
David Siqueiros: Retrato das Camadas Médias (fragmento de Mural)
08 junho 2010
Acerca da turbulência dos mercados
A 10 de Maio de 2010, os detentores de títulos do banco Société Générale, tranquilizados por uma nova injecção de 750 mil milhões de euros na fornalha da especulação, registaram ganhos de 23,89%. No mesmo dia, o presidente francês Nicolas Sarkozy anunciou que, por necessidades de rigor orçamental, iria ser cancelada a ajuda excepcional de 150 euros às famílias em dificuldades. Crise financeira após crise financeira, vai crescendo a convicção de que o poder político alinha a sua conduta pelas vontades dos accionistas. Periodicamente, porque a democracia assim exige, os eleitos convocam a população a privilegiar partidos que os «mercados» pré‐seleccionaram em função da sua inocuidade.
Quadro: Saturday Morning, Jennifer Li
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