Mostrar mensagens com a etiqueta Afectos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Afectos. Mostrar todas as mensagens

23 março 2010

Marcelas Owens, um herói do nosso tempo



Esteve, por direito próprio, ao lado de Barack Obama no momento da assinatura da Lei que consagrou o acesso a cuidados médicos para 36 milhões de americanos.
Marcelas Owens, o menino de 11 anos, foi um dos rostos visíveis do combate para aprovação da Lei.
Enfrentou com exemplar coragem uma miserável campanha de calúnias e provocações, apenas por querer que mais ninguém tivesse o destino de sua mãe, falecida aos 27 anos sem poder ser tratada por não ter dinheiro.

21 março 2010

amor de palavras


Tenho por ti um amor como palavras
de lugares guardados e suspensos
um amor de renúncia de cuidados
fechado em cada pedra de caminho
Sinto por ti um amor 
como dizer
um amor descontinuado
solitário
e no entanto
nele tropeço e me magoo
nele renasço e me suplico
me divino
e me liberto.

23 fevereiro 2010

Rui

Auf Widersehen

Dificilmente poderiamos ser mais diferentes.
Eu de direita, ele de esquerda;
eu católico praticante, ele sem Deus nem transcendência;
eu pró-vida, ele liberal;
eu com 41, ele com 63;
eu casado militante, ele solteirão inveterado;
eu falador compulsivo, ele calado e reservado.
Partilhamos o mesmo escritório oito horas por dia, durante dezassete anos.
De manhã cumprimentavamo-nos invariavelmente em japonês ou em chinês,
encerravamos o dia com um sonoro e bem disposto auf wiedersehen.
Pelo meio discutiamos projectos, trocavamos ideias,
discordavamos abundantemente e respeitavamo-nos sempre,
sem excepção.
Lentamente ficamos amigos.
Lentamente, aprendi a apreciar o seu espirito delicado,
a admirar a sua inquebrantável verticalidade,
a compreender a sua rebelde independência.
Compreendia a amizade que me tinha quando,
aqui e ali,
se permitia partilhar o orgulho embevecido que sentia
com os sucessos do sobrinho,
a admiração com que seguia discreto a vida da irmã.
Não lhe era fácil esta partilha, mas confiava em mim a esse ponto.
Quando me trazia um livro ou um disco, deixava-o silenciosa e discretamente na minha secretária.
Quando eu lhe agradecia, murmurava: pensei que pudesse interessar-lhe...
Era o meu amigo Rui.
Partiu hoje, discreto como só ele, com a voz sumida, mas com o espirito indomável, como sempre.
A esta hora acredito que o meu Deus esteja impaciente, confuso, quase a duvidar da sua própria existência, é que o Rui não é para brincadeiras, nem cederá.
O Rui recusar-se-á a aceitar, mas estará no sitio dos rectos, dos dignos e dos justos; de lá, olhará pelas suas ovelhas
e seguirá a vida dos que sem saberem lhe importam muito.
Vai fazer-me falta.
Como nos bons tempos,
Sayonara Sacramento San!

Este o testemunho de um homem digno, falando de outro que foi livre e dono do seu destino como nenhum. (Aqui).
Com o Rui, aprendi eu o encanto da Ria nos verões da adolescência, a dureza do exílio quando ainda tanto se sonhava e, agora na sua última lição, como se enfrenta a morte com os olhos abertos, um cigarro nos lábios e o jazz a tocar em fundo.
Foto: "Amanhecer na Ria" Aqui

21 fevereiro 2010

O Pequeno Pastor


tudo no teu sorriso diz
que só te falta um pretexto
para seres feliz

uma querela talvez chegasse
ou um pequeno pastor que passasse
na estrada, com suas ovelhas

um rio, um pormenor
que no momento se pousasse
e o tornasse melhor
eu
vou pensando em coisas velhas
-sem sombra de desdém-
na vida
naquele lampejo fugace
que o teu sorriso já não tem

e que é do passado
porque a nossa grande sabedoria
não soube tratar ente tão delicado
e declina, o dia
o pequeno pastor já não vem

(poema e imagem de Mário de Cesariny)


24 janeiro 2010

Amor Amoras



   Nasci no tempo de amoras bravas
   no tempo de silvas em brancos muros
   de borboletas gentis e abelhas rápidas
   de fontes frescas em verdes campos

   Nasci no tempo em que amoras sangram
   é por isso que me encanto
   quando me ofereces assim
   um cesto de amor
   do tempo em que amoras sangram
   
   
   
   

04 janeiro 2010

"e despedir-se de tudo é um ofício inquieto"



When my lifetime had just ended
And my death had just begun
I told you I'd never leave you
But I knew this day would come

Give me blood for my blood wedding
I am ready to be born
I feel new
As if this body were the first I'd ever worn

I need straw for the straw fire
I need hard earth for the plow
Don't ask me to reconsider
I am ready to go now

I'm going in I'm going in
This is how it starts
I can see in so far
But afterwards we always forget
Who we are

I'm going in I'm going in
I can stand the pain
And the blinding heat
'Cause I won't remember you
The next time we meet

You'll be making the arrangements
You'll be trying to set me free
Not a moment for the meeting
I'll be busy as a bee

You'll be talking to me
But I just won't understand
I'll be falling by the wayside
You'll be holding out your hand

Don't you tempt me with perfection
I have other things to do
I didn't burrow this far in
Just to come right back to you

I'm going in I'm going in
I have never been so ugly
I have never been so slow
These prison walls get closer now
The further in I go

I'm going in I'm going in
I like to see you from a distance
And just barely believe
And think that
Even lost and blind
I still invented love

I'm going in
I'm going in
I'm going in

"I'm going in" é a faixa 11 do último álbum da cantora - Lhasa - gravado em Abril de 2009.
Título: verso de Herberto Helder, in Ou o Poema Contínuo, Assírio & Alvim, 2004.

03 janeiro 2010

Lhasa




Morreu Lhasa de Sela.

Lhasa nasceu em 1972, em Big Indian, estado de Nova Iorque.
De origem mexicana, americano-judaica e libanesa. O pai, professor e escritor, a mãe fotógrafa. Com as suas três irmãs, cresceria num meio culto e irreverente. Numa carrinha, com toda a família, percorreu o espaço entre o México e os Estados Unidos, onde os pais espalhavam a sua multifacetada cultura. Neste ambiente informal, erudito, multilinguístico, Lhasa tornou-se, desde os treze anos, uma cantora diferente, expressando-se em espanhol, francês e inglês. Dos blues à música cigana, dos ritmos sul-americanos à música country, Lhasa, com a sua voz sem fronteiras, trazia-nos o mundo, todos os sons, perfumes e cores. Às vezes era como Billie Holiday, outras BjorK, outras ainda, Brell. Dava-nos poesia, conversava connosco, contava histórias.
Faleceu hoje, no Quebec, Canadá.

22 dezembro 2009

Bom Natal


Com este lindíssimo postal enviado por Luís Darocha, um desenho expressivo, cheio de alegria e significado, como é hábito na sua pintura:
Um abraço a todos, o desejo de Paulo, C. e Clara de um Bom Natal, isto é , um bom renascimento.

15 dezembro 2009

Encontro com a solidão

Durante muito tempo pensei que não sabia o que era a solidão e, como todas as pessoas que não sabem o que é, acabei por escrever sobre ela, como é evidente.

Acho que um dia aprendi o que era

Eu moro num bairro pobre, um bocadinho de uma aldeia dentro de Lisboa, com merceariazinhas, padariazinhas, cafezinhos, pessoas pobres, a maior parte delas velhas, pequenos comércios, pequenos marginais, inclusive pequenos travestis e costumo comer nos restaurantes pequeninos que há ali à volta.
A um desses restaurantes vai jantar às vezes uma Senhora, uma actriz de teatro, que eu não conhecia, uma actriz do tempo do António Silva, do Vasco Santana, da Beatriz Costa, que mora na Estefânia e vai a pé, à hora do jantar, já com certa dificuldade em andar, e senta-se muito coquete, sempre muito bem vestida, com colares, anéis, o penteado armado com laca e come com gestos preciosos, cirúrgicos, cheia de mindinhos – há pessoas em que todos os dedos são mindinhos, têm uma delicadeza aérea de mindinhos – e então as mãos dela mexem nos talheres como se estivessem dançando com eles.
Eu perguntei ao dono do restaurante – que é assim um Senhor que foi louro e de olhos azuis, conserva os olhos azuis, mas perdeu o louro, que se chama Arménio e que poderia ter competido com o Vergílio Teixeira nos filmes portugueses dessa época e que é extraordinariamente bem-educado, extraordinariamente delicado – perguntei”Quem é?” e ele disse-me “é fulana tal, que era uma grande actriz e continua a vir aqui jantar. Sabe, ela continua a deitar-se às duas da manhã porque continua ainda no tempo da sua glória teatral, em que os artistas na época se deitavam tarde e então fica a fazer não sei o quê e só vai para a cama a essa hora, mantém o mesmo horário dos seus tempos de glória”. E estava ali a comer, sozinha. Dois ou três dias depois, entrei no restaurante, ela estava lá e, não sei, foi um daqueles impulsos que todos nós temos às vezes, fui ter com a Senhora e disse-lhe “dá-me licença que lhe beije a mão?” Ela estendeu-me a mão, imperial, de princesa, que cheirava bem ainda por cima, e que eu beijei e depois pedi licença para me sentar e ficámos a falar e a certa altura disse “ a Senhora tem um sorriso tão bonito. Importa-se de me fazer um sorriso?” E ela, toda arranjada, olhou para baixo e eu reparei que estava a tirar da carteira o espelhinho para ver se estava bem pintada e então tirou um tubo e concertou o bâton até fazer uma boca perfeita, em forma de copa de carta de jogar, só então é que levantou os olhos para mim, olhou para mim e sorriu. Eu tinha a impressão que aquele sorriso estava dentro de uma lágrima e fiquei com a certeza de que não há nada mais bonito do que um sorriso dentro de uma lágrima.

Foi, até hoje, o sorriso mais bonito que me deram, o mais bonito que eu vi.

E enquanto ela sorria, era tão engraçado porque de repente era uma rapariga nova, de repente tinha dezasseis, dezassete, dezoito anos, as rugas desapareceram, o cabelo pintado passou a ser natural, os gestos dela ficaram fáceis, os olhos eram uns olhos de uma menina coquete, numa espécie de flirt, num jogo de sedução. E depois, quando o sorriso acabou, a menina desapareceu, os dezasseis anos desvaneceram-se, apareceram rugas, voltou a ficar corcovada na mesa e voltou a estar diante de mim uma actriz já muito idosa que fica acordada até às duas da manhã, a lembrar-se, diante da televisão apagada, dos seus tempos de glória.

António Lobo Antunes, in Viver mais, viver melhor, Fórum Gulbenkian Saúde
Foto: Diane Arbus

14 dezembro 2009

Blogger


Por que escrevemos em blogues?
Por que nos encontramos aqui regularmente, concordando, discordando, aplaudindo,reagindo?
Que coisa é esta de procurar imagens, inserir um texto, nosso ou de outrém?
O que nos leva, noite dentro, a ficarmos por aqui e a tratarmos por tu nós-personagem, nós-cidadão, nós- íntimo?
Que coisa é esta que nos impele a partilhar, confessar, escolher?
Esta a pergunta que vos faço.

24 novembro 2009

"It's a hard life"

Freddie Mercury (5/09/46 – 24/11/91)

Podemos não gostar dos efeitos de alguns clips, mas acho, sinceramente, que o poder interpretativo e a excentricidade, aliados ao dinamismo e carisma da sua estrela maior, fazem dos Queen um marco incontornável da história do rock.
A banda já vendeu mais de 300 milhões de cópias no mundo inteiro e é liderada actualmente por Brian May (guitarrista) e Roger Taylor (baterista). Precursora do rock tal como hoje o conhecemos, Queen foi uma das mais populares bandas britânicas dos anos 70 e 80, com concertos e videoclips magnificamente produzidos. Embora nunca tendo sido levada a sério pelos críticos da sua época, que consideravam a sua música “comercial” (a crítica de hoje considera os Queen como uma das melhores bandas de rock de todos os tempos), a banda tornou-se uma das mais famosas entre o público, justamente graças à conjugação única das complexas e elaboradas apresentações ao vivo e do potencial vocálico de Freddie Mercury.

O vídeo que seleccionei traz-nos nas palavras, a ideia de que, também em matéria de amor, é sempre mais fácil desistir.

It's a hard life
To be true lovers together
To love and live forever in each others hearts
It's a long hard fight
To learn to care for each other
To trust in one another right from the start
When you're in love


Este post é dedicado a um jovem fã incondicional dos Queen que, de vez em quando, se passeia cá por casa (e a cantar "Mama, carry on, carry on").

22 novembro 2009

Estação De Santa Apolónia


Já foi assim: Reparem na estrutura de ferro, tão expressiva.
Hoje não é como a foto mostra. Continua lá, imponente e caseira, uma sala de visitas agradável, prática, limpa, quente no Inverno e fresca no Verão. 
Agora tem metro que nos leva para o resto do mundo. E umas esplanadas com direito a vista sobre o Tejo. Parece um filme.
Gosto de Santa Apolónia, das castanhas assadas que fumegam, à saída. Da sombra do Eça que ainda se pressente.
É um lugar onde se chega e de onde se parte.

13 novembro 2009

entre dois sorrisos, uma declaração de amor


...Um labirinto de corredores e estantes repletas de livros subia da base até à cúspide, desenhando uma colmeia tecida de túneis, escadarias, plataformas e pontes que deixavam adivinhar uma gigantesca biblioteca de geometria impossível. Olhei para o meu pai, boquiaberto. Ele sorriu, piscando-me o olho.
- Bem-vindo ao Cemitério dos Livros Esquecidos, Daniel.
Salpicando os corredores e plataformas da biblioteca, perfilavam-se uma dúzia de figuras. Algumas delas voltaram-se para cumprimentar de longe, e reconheci os rostos de diversos colegas de meu pai do grémio de alfarrabistas. Aos meus olhos de dez ano, aqueles indivíduos afiguravam-se uma confraria secreta de alquimistas a conspirar nas costas do mundo. O meu pai ajoelhou-se ao pé de mim e, sustendo-me o olhar, falou-me com aquela voz leve das promessas e das confidências.
- Este lugar é um mistério, Daniel, um santuário. Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte.(...) Quando uma biblioteca desaparece, quando uma livraria fecha as suas portas, quando um livro se perde no esquecimento, os que conhecemos este lugar, os guardiães, asseguramo-nos de que chegue aqui.(...) Na loja nós compramo-los e vendemo-los, mas na realidade os livros não têm dono. Cada livro que aqui vês foi o melhor amigo de alguém. Agora só nos têm a nós, Daniel. Achas que vais poder guardar este segredo?
O meu olhar perdeu-se na imensidade daquele lugar, na sua luz encantada. Fiz um sinal de assentimento e o meu pai sorriu.

Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento, Dom Quixote, 2008
Foto: Trinity College Old Library, Dublin


A Sombra do Vento é um livro maravilhoso. Uma fantástica narrativa sobre livros, o encanto mágico que têm e nos trazem. No excerto, destaco a maravilha que é ser-se levado a amar os livros desde que se começa a olhar o mundo e os homens.
A leitura transforma-nos porque nos ensina e acrescenta.

31 outubro 2009

Com um nó na garganta

Por alguma razão dizemos frequentemente que os pais são a nossa casa.
Aqui, testemunhamos um encontro amoroso.
Pai e filho, afastados pela mais estúpida das razões, encontram na música toda a força do afecto e da ternura, num amor sem tempo, lugar ou distância.
Sente-se, como diz o autor do clip, com um nó na garganta.


23 outubro 2009