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18 junho 2010

"a morte é isto: hoje estás aqui e amanhã já não estás"


Excerto do Discurso perante a Real Academia Sueca:
"De como a Personagem Foi Mestre e o Autor Seu Aprendiz"
08.10.1998

(…)
Escrevi estas palavras há quase trinta anos, sem outra intenção que não fosse reconstituir e registar instantes da vida das pessoas que me geraram e que mais perto de mim estiveram, pensando que nada mais precisaria de explicar para que se soubesse de onde venho e de que materiais se fez a pessoa que comecei por ser e esta em que pouco a pouco me vim tornando. Afinal, estava enganado, a biologia não determina tudo, e, quanto à genética, muito misteriosos deverão ter sido os seus caminhos para terem dado uma volta tão larga... À minha árvore genealógica (perdôe-se-me a presunção de a designar assim, sendo tão minguada a substância da sua seiva) não faltavam apenas alguns daqueles ramos que o tempo e os sucessivos encontros da vida vão fazendo romper do tronco central, também lhe faltava quem ajudasse as suas raízes a penetrar até às camadas subterrâneas mais fundas, quem apurasse a consistência e o sabor dos seus frutos, quem ampliasse e robustecesse a sua copa para fazer dela abrigo de aves migrantes e amparo de ninhos. Ao pintar os meus pais e os meus avós com tintas de literatura, transformando-os, de simples pessoas de carne e osso que haviam sido, em personagens novamente e de outro modo construtoras da minha vida, estava, sem o perceber, a traçar o caminho por onde as personagens que viesse a inventar, as outras, as efectivamente literárias, iriam fabricar e trazer-me os materiais e as ferramentas que, finalmente, no bom e no menos bom, no bastante e no insuficiente, no ganho e no perdido, naquilo que é defeito mas também naquilo que é excesso, acabariam por fazer de mim a pessoa em que hoje me reconheço: criador dessas personagens, mas, ao mesmo tempo, criatura delas. Em certo sentido poder-se-á mesmo dizer que, letra a letra, palavra a palavra, página a página, livro a livro, tenho vindo, sucessivamente, a implantar no homem que fui as personagens que criei. Creio que, sem elas, não seria a pessoa que hoje sou, sem elas talvez a minha vida não tivesse logrado ser mais do que um esboço impreciso, uma promessa como tantas outras que de promessa não conseguiram passar, a existência de alguém que talvez pudesse ter sido e afinal não tinha chegado a ser.

Agora sou capaz de ver com clareza quem foram os meus mestres de vida, os que mais intensamente me ensinaram o duro ofício de viver, essas dezenas de personagens de romance e de teatro que neste momento vejo desfilar diante dos meus olhos, esses homens e essas mulheres feitos de papel e tinta, essa gente que eu acreditava ir guiando de acordo com as minhas conveniências de narrador e obedecendo à minha vontade de autor, como títeres articulados cujas acções não pudessem ter mais efeito em mim que o peso suportado e a tensão dos fios com que os movia. Desses mestres, o primeiro foi, sem dúvida, um medíocre pintor de retratos que designei simplesmente pela letra H., protagonista de uma história a que creio razoável chamar de dupla iniciação (a dele, mas também, de algum modo, do autor do livro), intitulada Manual de Pintura e Caligrafia, que me ensinou a honradez elementar de reconhecer e acatar, sem ressentimento nem frustração, os meus próprios limites: não podendo nem ambicionando aventurar-me para além do meu pequeno terreno de cultivo, restava-me a possibilidade de escavar para o fundo, para baixo, na direcção das raízes. As minhas, mas também as do mundo, se podia permitir-me uma ambição tão desmedida. Não me compete a mim, claro está, avaliar o mérito do resultado dos esforços feitos, mas creio ser hoje patente que todo o meu trabalho, de aí para diante, obedeceu a esse propósito e a esse princípio.
(…)
Cegos. O aprendiz pensou: "Estamos cegos", e sentou-se a escrever o Ensaio sobre a Cegueira para recordar a quem o viesse a ler que usamos perversamente a razão quando humilhamos a vida, que a dignidade do ser humano é todos os dias insultada pelos poderosos do nosso mundo, que a mentira universal tomou o lugar das verdades plurais, que o homem deixou de respeitar-se a si mesmo quando perdeu o respeito que devia ao seu semelhante. Depois, o aprendiz, como se tentasse exorcizar os monstros engendrados pela cegueira da razão, pôs-se a escrever a mais simples de todas as histórias: uma pessoa que vai à procura de outra pessoa apenas porque compreendeu que a vida não tem nada mais importante que pedir a um ser humano. O livro chama-se "Todos os Nomes". Não escritos, todos os nossos nomes estão lá. Os nomes dos vivos e os nomes dos mortos.

Termino. A voz que leu estas páginas quis ser o eco das vozes conjuntas das minhas personagens. Não tenho, a bem dizer, mais voz que a voz que elas tiverem. Perdoai-me se vos pareceu pouco isto que para mim é tudo.

26 abril 2010

Uma valsa para dançar

Américo, eu te amo, Américo. Você tem uma loja de tecidos, uma mulher que você vive querendo não enganar, um filho tão bonitinho, Américo, as mãos macias de medir tecido, de apalpar o meu pescoço com intenções de quem vai assassinar. Você é um colosso, Américo, tem tudo para me agradar. Sua inteligência sem escolas é tão ignorante que eu me arrepio dos seus mundos novos.Dentes afiados, uma saúde enxuta você tem, não vai me pedir um chá. Quando eu te peço um metro de voal, você retruca pra espichar conversa: "Leva também um metro de amorim". Você fala amorim, de sabido ou de bobo, Américo? Antigamente se um homem falasse errado, descartava na hora. Hoje, não. Quero vinho de todos os barris. Você é pai extremoso, exemplar marido caseiro. Tens um livro não tens? Uma colecção de marcas de cigarro e o retrato de sua mãe. Você fecha a loja aos domingos e feriados, incrível Américo, você não quer ficar rico, como te resistir? Sua mulher me pede açúcar emprestado, eu peço a ela é licença pra ver o álbum de retratos: você segurando seu filho, você pondo comida pra passarinho, brincando com o cachorro. Se você ficar quieto e parar de me espreitar desse modo invisível, eu pinto você, seus olhos bonitos de homem mais que os de uma mulher, bonitos. Você é meu amor delicado, por você faço doce de leite, corto em pequenos losangos, ponho minha blusa bordada e fico no banco da praça te esperando no seu caminho, quando "cai a tarde tristonha e serena, em macio e suave langor", pra te entregar o coração.
Você passa e eu digo: boa tarde, Américo.

Adélia Prado, in solte os cachorros, Livros Cotovia
Quadro: Fernando Botero

15 abril 2010

O tempo só faz falta no fim


"...o sargento olhou para o relógio: eram oito e quarenta e quatro minutos. Tinha de esperar que dessem as nove. Hladik, mais insignificante que infeliz, sentou-se num montão de lenha. Reparou que os olhos dos soldados fugiam dos seus. Para aliviar a espera, o sargento entregou-lhe um cigarro. Hladik não fumava; aceitou-o por cortesia ou por humildade. Ao acendê-lo, viu que lhe tremiam as mãos. O dia enevoou-se; os soldados falavam em voz baixa como se ele já estivesse morto.(...)
O piquete formou e perfilou-se. Hladik, de pé contra a parede do quartel, esperou a descarga. Alguém receou que a parede ficasse manchada de sangue; então ordenaram ao réu que avançasse alguns passos. Hladik, absurdamente, lembrou-se das vacilações preliminares dos fotógrafos. Uma pesada gota de chuva tocou uma das faces de Hladik e rolou lentamente pela sua bochecha; o sargento vociferou a ordem final.
O universo físico parou.
As armas convergiam sobre Hladik, mas os homens que iam matá-lo estavam imóveis.O braço do sargento eternizava um gesto inacabado. Numa ardósia do pátio uma abelha projectava uma sombra fixa. O vento havia cessado, como num quadro. Hladik tentou um grito, uma sílaba, o torcer de uma mão. Compreendeu que estava paralisado. Não lhe chegava nem o mais ténue rumor do tolhido mundo. Pensou estou no inferno, estou morto. Pensou estou louco. Pensou o tempo parou. A seguir reflectiu que nesse caso também se lhe teria parado o pensamento. Quis pô-lo à prova: repetiu (sem mover os lábios) a misteriosa quarta écloga de Virgílio. Imaginou que os já longínquos soldados compartilhavam a sua angústia: ansiou por comunicar com eles (...). Dormiu, ao cabo de um prazo indeterminado. Ao acordar, o mundo continuava imóvel e surdo. Na sua bochecha perdurava a gota de água; no pátio a sombra da abelha; O fumo do cigarro que expelira nunca mais acabava de se dispersar. Outro "dia" passou, antes que Hladik compreendesse.
Um ano inteiro havia solicitado de Deus para terminar o seu trabalho: um ano lhe outorgava a sua omnipotência. Deus operava para ele um milagre secreto: matá-lo-ia o chumbo alemão, na hora determinada, porém na sua mente um ano decorria entre a ordem e a execução da ordem.
Não dispunha de outro documento além da memória (...) Minucioso, imóvel, secreto, urdiu no tempo o seu elevado labirinto invisível. Refez o terceiro acto duas vezes. Apagou um ou outro símbolo demasiado evidente: as repetidas badaladas, a música. Omitiu, abreviou, ampliou; nalguns casos, optou pela versão primitiva. Chegou a gostar do pátio, do quartel (...) deu fim ao seu drama: já só lhe faltava resolver um único epíteto. Achou-o; a gota de água resvalou-lhe pela bochecha. Iniciou um grito enlouquecido, mexeu a cara, a quádrupla descarga abateu-o.
Jaromir Hladik morreu a vinte e nove de março, às nove horas e dois minutos da manhã."

1943
Jorge Luis Borges, Ficções
Foto C.

11 abril 2010

A música, a escrita e o prazer de ler


"... No entretanto já se desencadeou o apocalipse, porque Louis não faz mais do que levantar a sua espada de ouro, e a primeira frase de When it's sleepy time down South cai sobre as gentes como uma carícia de leopardo. A música sai do trompete de Louis como os filmes falados das bocas dos santos primitivos, desenha-se no ar a sua quente escrita amarela, e atrás desse primeiro sinal solta-se Muskat Ramble enquanto nós nos agarramos nos nossos lugares a tudo aquilo que temos à mão, e também àquilo que é dos vizinhos, de forma que a sala parece uma vasta sociedade de polvos enlouquecidos, e ao centro está Louis com os olhos em branco atrás do seu trompete, com o seu lenço a flutuar numa despedida contínua de algo que não se sabe bem o que é, como se Louis precisasse de dizer um adeus perpétuo a essa música que cria e se desfaz no mesmo instante, como se soubesse o preço terrível dessa maravilhosa liberdade que é a sua."

Julio Cortázar, A Volta ao Dia em 80 Mundos

A fantástica narrativa de J.Cortázar em torno de um concerto de Louis Armstrong nos anos 60 do século XX, conduz-nos num voo pleno de referências literárias, mergulhando os sentidos na música (que na leitura não se ouve mas se sente), nos movimentos que se adivinham e na emoção que nos invade. Um texto que é uma homenagem à música, à sensibilidade e à cultura universal.

"No meio de tudo isto Louis escondeu o copo, tem um lenço fresco na mão, e então vem-lhe a vontade de cantar e canta, mas quando Louis canta a ordem estabelecida das coisas detém-se não por qualquer razão explicável, mas porque tem de deter-se quando Louis canta, e naquela boca de onde antes saíram bandeirolas de ouro cresce agora um mugido de cervo apaixonado, um bramido de antílope para as estrelas, um murmúrio de abelhão durante a sesta das plantações. Perdido na imensa abóbada do seu canto eu fecho os olhos, e com a voz deste Louis de hoje chegam-me todas as suas outras vozes a partir de outro tempo, a sua voz a partir de velhos discos perdidos para sempre, a sua voz a cantar Confessin', a cantar Dusky Stevedore.(...) E abro os olhos e ele ali está num palco de Paris, e abro os olhos e ele ali está, depois de vinte e dois anos de amor sul-americano ele ali está, depois de vinte e dois anos está ali a cantar, rindo-se com toda a sua cara de criança incorrigível, Louis cronópio, Louis enormíssimo cronópio, Louis alegria dos homens que te merecem".

Julio Cortázar, A Volta ao Dia em 80 Mundos

29 março 2010

Em tempo de crise

Não esquecemos o Goofus Bird, pássaro que constrói o ninho ao contrário e voa para trás, porque não lhe interessa para onde vai, mas onde já esteve.

Jorge Luis Borges, O Livro dos Seres Imaginários, Ed. Teorema

27 março 2010

Para os que gostam de jazz e boa literatura (e para os outros, claro)

Sugestão: Leia o texto, veja e ouça o videoclip e leia de novo
(depois, volte a ouvir e a ler as vezes que apetecer).


...Quando Thelonious se senta ao piano, toda a sala se senta com ele e produz um murmúrio colectivo do tamanho exacto do alívio, porque o percurso tangencial de Thelonious pelo palco tem qualquer coisa de rigorosa cabotagem fenícia com prováveis encalhamentos nas Sirtes, e quando a nave de mel obscuro e capitão barbudo chega ao porto, é recebida pelo cais maçónico do Victória Hall com um suspiro como que de alas apaziguadas, de cais alcançado. Então é o Pannonica ou o Blue Monk, três sombras como espigas rodeiam o urso entretido a investigar as colmeias do teclado, as garras toscas e bondosas vão e vêm por entre abelhas desconcertadas e hexágonos de sustenido, passou apenas um minuto e já estamos na noite fora do tempo, a noite primitiva e delicada de Thelonious Monk.(...)Depois, quando Charles Rouse dá um passo na direcção do microfone e o seu saxo desenha imperiosamente as razões pelas quais ali está, Thelonious deixa cair as mãos, ouve por um instante, pousa ainda um leve acorde com a esquerda, e o urso levanta-se e abana-se, farto de mel ou à procura de um musgo propício para a modorra, sai do tamborete e apoia-se na ponta do piano, marcando o ritmo com um sapato e o barrete (...) dando imperceptivelmente início a um safari de dedos pela borda da caixa do piano enquanto se balança cadenciadamente porque Rouse, o contrabaixista e o percussionista estão enredados no próprio mistério da sua trindade, enquanto Thelonious viaja vertiginoso sem se mover (...) Charles Rouse está a deixar as últimas, veementes, largas e admiráveis pinceladas de roxo e vermelho, sentimos o vazio de Thelonious,(...) a interminável diástole de um só coração imenso onde latem todas as nossas dores, e é exactamente nesse momento que a sua outra mão se apropria do piano, regressa nuvem a nuvem até ao teclado, passeia os dedos indecisos pelo ar, deixa-os cair e estamos salvos, temos Thelonious capitão, há rumo para um bom bocado, e o gesto de Rouse ao recuar, enquanto desprende o saxo do suporte, tem algo de entrega de poderes, de legado que devolve ao Doge as chaves da sereníssima.

Julio Cortázar, A Volta ao Piano de Thelonious Monk

A fantástica descrição de J. Cortázar do Concerto de Telonious Monk no Victória Hall de Genebra (Março de 1966), de que transcrevi um fragmento, é uma peça literária que mostra e sublinha o valor de um dos maiores escritores do século XX. Aqui

11 março 2010

Sinto-me um idiota

Hoje em dia tenho a certeza de que não ser idiota é das coisas mais importantes na vida de um homem, até que pouco a pouco o vou esquecendo, porque o pior é que no final me esqueço; por exemplo, acabo de ver um pato que nadava num dos lagos do Bois de Boulogne, e ele era de uma beleza tão maravilhosa que não pude evitar agachar-me junto ao lago e deixar-me ficar não sei quanto tempo a observar a sua formosura, a alegria petulante dos seus olhos, aquela dupla linha delicada que corta o seu peito na água do lago e se vai abrindo até se perder com a distância. O meu entusiasmo não nasce apenas com o pato, trata-se antes de qualquer coisa que o pato cristaliza num dado momento, porque às vezes pode ser uma folha seca que se balança na ponta de um banco, ou uma grua alaranjada, enorme e delicada contra o céu azul da tarde, ou o cheiro de um vagão de comboio quando uma pessoa entra e se tem um bilhete para uma viagem de muitas horas e tudo se vai sucedendo prodigiosamente (....) e tudo me preenche como uma espécie de salgueiro interior, de uma verde chuva de delícia que nunca mais devia terminar. Porém, já muita gente me disse que o meu entusiasmo é uma prova de imaturidade (de idiotice, querem eles dizer, mas escolhem as palavras) e que não nos podemos entusiasmar assim por causa de uma teia de aranha que brilha ao sol, uma vez que se uma pessoa incorre em semelhantes excessos por causa de uma teia de aranha cheia de orvalho, o que é que vai guardar para a noite em que houver o King Lear? A mim isso surpreende-me um pouco, porque na verdade o entusiasmo não é uma coisa que se gaste quando se é realmente idiota, gasta-se quando uma pessoa é inteligente e tem a noção dos valores e da historicidade das coisas, e é por isso que mesmo que eu ande a correr de um lado para o outro no Bois de Boulogne para ver melhor o pato, isso não me vai impedir de nessa mesma noite dar saltos enormes de entusiasmo se gostar da forma como Fisher Dieskau canta. Agora que penso nesse assunto, a idiotice deve ser isso: o poder entusiasmar-se a toda a hora com qualquer coisa de que uma pessoa goste, sem que um desenhito numa parede tenha de se ver diminuído pela memória dos frescos de Giotto em Pádua. A idiotice deve ser uma espécie de presença ou de recomeço constante: agora gosto desta pedrinha amarela, agora gosto de L'année dernière à Marienbad, agora gosto de ti, ratita, agora gosto dessa locomotora incrível a bufar na Gare de Lyon, agora gosto desse cartaz arrancado e sujo. Agora gosto, gosto tanto, agora sou eu, um eu reincidente, idiota perfeito na sua idiotice que não sabe que é idiota e desfruta perdido no seu prazer, até que a primeira frase inteligente o devolva à consciência da sua idiotice e o faça procurar apressadamente um cigarro com as mãos desajeitadas, olhando para o chão compreendendo e às vezes aceitando porque um idiota também tem de viver, claro que até que outro pato ou outro cartaz, e assim sempre.

Julio Cortazar, A Volta ao Dia em 80 Mundos, Cavalo de Ferro, 2009
Foto: C.

28 novembro 2009

"infância é um antigamente que sempre volta"*



- Podemos ficar já aqui, não? - ela.
- Não, aqui não podemos, tia... Vamos lá mais para o pé da rotunda.
- Mas não podemos ficar aqui, nesta praia tão "verzul"? - ela sorriu para mim.
- Não, tia, aqui não se pode. Esta tão praia verzul é dos soviéticos.
- Dos soviéticos?! Esta praia é dos angolanos!
- Sim, não foi isso que eu quis dizer...É que só os soviéticos é que podem tomar banho nessa praia. Vês aqueles militares ali nas pontas?
- Vejo sim...
- Eles estão a guardar a praia enquanto outros soviéticos estão lá a tomar banho. Não vale a pena ir lá que eles são muito maldispostos.
- Mas porquê que essa praia é dos soviéticos?- agora sim, ela estava mesmo espantada.
- Não sei, não sei mesmo. Se calhar nós também devíamos ter uma praia só de angolanos lá na União Soviética...


Ondjaki, Bom dia Camaradas, Ed.Caminho, 2001


A infância em Luanda nos anos 80, um tempo de incerteza e muitos perigos, vistos pelo olhar mágico de uma criança.
Uma narrativa assumidamente autobiográfica, que vale também como um relato histórico de um tempo que fundou a Angola de hoje.

*Ondjaki, na apresentação do livro

18 outubro 2009

Indignação

Nessa manhã de segunda feira parecia de novo igual a si mesma, invicta e invencível. Depois de eu a ter tranquilizado com as providências tomadas pela universidade para o meu regresso, a primeira coisa que disse foi: "Não vou divorciar-me dele, Marcus. Já decidi. Vou aturá-lo. Vou fazer tudo o que puder para o ajudar, se é que alguma coisa pode ajudá-lo. Se é isso que queres que eu faça, também é o que eu quero. Não queres pais divorciados, e eu não quero que tu tenhas pais divorciados. Lamento mesmo ter-me permitido tais pensamentos. (...)
Vieram-me as lágrimas aos olhos e rapidamente os tapei com a mão como se pudesse esconder as lágrimas ou empurrá-las para dentro com os dedos.
"Podes chorar, Markie. Não é a primeira vez que eu te vejo chorar".
"Eu sei que não. Eu sei que posso. Mas não quero. Só que estou tão feliz..."
Tive de parar por momentos para recuperar a voz e me refazer do facto de ter sido reduzido pelas palavras dela à condição da criatura minúscula que não é mais do que a sua necessidade de perpétuo alimento. "Estou muito feliz por ouvir o que a mãe acabou de dizer. Sabe, esse comportamento dele pode ser coisa passageira. Coisas que acontecem quando as pessoas chegam a uma certa idade, não é verdade?"
"Claro que sim", disse ela em tom tranquilizador.
"Obrigado, mãe. É um grande alívio para mim. Não conseguia imaginá-lo a viver sozinho. Só com o talho e o trabalho e nada à sua espera ao regressar a casa à noite, sozinho aos fins de semana... era inimaginável".
"Era pior do que inimaginável", disse ela, "por isso nem imagines.
Mas agora tenho de te pedir uma coisa em troca. Porque há uma coisa inimaginável para mim. Eu nunca te pedi nada. Nunca te pedi nada porque nunca foi preciso. No que toca a filhos tu és perfeito. Nunca quiseste outra coisa senão ser um menino que faz tudo bem. Sempre foste o melhor filho que uma mãe pode ter. Mas vou pedir que nunca mais tenhas nada a ver com miss Hutton. Porque estares com ela é para mim inimaginável. Markie, tu estás aqui para ser um estudante e para estudar o Supremo Tribunal e para estudar o Thomas Jefferson e para te preparar para entrar na Faculdade de Direito." (...) Não estás aqui para arranjar sarilhos com uma rapariga que pegou numa lâmina para cortar os pulsos"
"O pulso", disse eu. "Só cortou um pulso".
"Um chega. Só temos dois, e um já é de mais. Markie, eu vou ficar com o teu pai e em troca vou pedir que a largues antes que te enterres nisto até à ponta dos cabelos e não saibas como hás-de sair. Quero fazer um contrato contigo. Tu fazes esse contrato comigo?"
"Sim", respondi eu.

Philip Roth, in Indignação, D. Quixote (2009)


O 27º livro de Roth rompe com as suas recorrentes narrativas sobre o envelhecimento e a decadência. Ambiente de campus universitário do interior rural dos Estados Unidos, no início dos anos 50. O narrador, jovem judeu numa perturbante experiência de conquista da autonomia, da busca de caminhos para idade adulta em luta com a família, a universidade, o ambiente social, as convenções e com ele próprio. Uma estória de aprendizagem, descoberta e desilusão.

Foto: My son John (Filme, 1952)

15 setembro 2009

Do contentamento dos loucos

Hugo Pinto - Surface: other

A moeda

Não há legislação para a música como não há legislação para a doença. A natureza é ilegal e bruta e nós não somos natureza enquanto estamos vivos e ricos, com o corpo esquecido. Mas quando somos velhos somos natureza e quando estamos doentes somos natureza, e quando morremos somos ainda natureza.

E não ter dinheiro é isso: é ser mais natureza, estar mais dependente da falta de legislação que há na música e nos bichos: as coisas escuras amedrontam, tornam-te cobarde, escondes os teus filhos atrás do teu corpo, mas sabes que a bala virá por trás.

Dizem que Lúcifer caiu durante nove dias, mas tal viagem não amedronta ninguém. Não foi uma queda, foi um passeio. Porque nove dias são nove dias, por isso o diabo caiu tão bem, com a roupa direita, engravatado, sem uma dorzinha. Percorre as ruas e parece aos outros o corpo de quem subiu até aqui, e não de quem desceu tanto: nove dias, dizem, foram os dias que demorou Lúcifer a cair.

A maldade não se distingue; como as meninas gémeas que vão para o colégio de mãos dadas, com a vestimenta azul, igual. A maldade não tem uma marca na testa como as vacas que têm doenças e foram marcadas na testa pelo dono.
- Esta é para ser morta, não é para ser vendida.
A doença tem marcas, a pobreza tem marcas, mas a maldade não tem marcas. Os feios têm marcas.

Um vagabundo pedia esmola num semáforo. Passou de um carro para outro, depois para outro. Um deles abriu o vidro da sua porta só uns centímetros e deixou cair uma moeda valiosa ao chão, depois arrancou porque o semáforo estava verde. O pedinte baixou-se para apanhar a moeda e veio um carro que só viu o semáforo verde e atropelou-o. Apanhou-o em cheio, partiu-lhe os ossos da anca.
Já numa maca, em cima do passeio, o dedo esticado do vagabundo não era compreendido por ninguém porque ele não conseguia falar.
- Alguém conhece este homem? Sabem se já não falava antes?
Ele apontava para a moeda no meio da estrada, mas ninguém percebia. E foi levado.

( A química não estuda aquilo que muda na matéria quando a matéria é o nosso corpo e alguém o abraça no momento exacto.)

Três meses depois, quando saiu do hospital, ele coxeava e não falava. Ninguém sabe se foi do acidente ou se antes já ele era mudo e com olhos de louco, porque ninguém o conhecia. (Ninguém podia confirmar se ele já era louco antes. Mas agora era louco.) Nesse mesmo dia ele foi ao sítio do acidente e no meio da estrada perigosa ainda estava a moeda. Meteu-a no bolso. Um carro aproximou-se e ele correu para o passeio. Ficou em segurança e acariciou a moeda com os dedos.
Do carro, que novamente quase o atropelara, uma mulher chamou-lhe maluco. Mas ele, o louco, estava contente.

Gonçalo M.Tavares, in Água, Cão, Cavalo, Cabeça, Ed. Caminho, 2006

09 agosto 2009

A terceira mãe

--*


















Tive de ser eu a fazer as perguntas todas e a encontrar respostas. Encontrá-las no mínimo som de uma porta a fechar-se. Havia as tardes do estrondo e as tardes do sussurro, as tardes da pressa e as da hesitação. E através dos movimentos da porta, das vozes e não-vozes atrás dela, dos diálogos entre as mãos à mesa, dos recantos interiores e exteriores aos corpos, fui formulando as perguntas e capturando respostas à socapa.
A vontade nunca foi o teu forte, muito menos o de clarificar as coisas. O teu forte é a humildade, é a paciência, são os ombros tantas vezes encolhidos que se tornaram covas e engoliram a alegria, a tua e a dos teus, de tanto lhes quereres bem. Mereces ser condecorada no treze de Maio, Grã-Cruz da Ordem da Renúncia. Melhor ainda, a beatificação em vida, na próxima visita do Papa ao nosso queridíssimo Santuário.
Mas para isso era preciso fazeres milagres, e não consegues. Está provado que não consegues. Tentaste tanto. Querias curar-me as dores de barriga com a mão e conseguias acalmar-me o choro, mas depois ias a correr chamar o médico. Com o pai a mesma coisa. Passavas-lhe a mão pela testa suada, entravas em tudo quanto fosse ervanária à procura de chás, xaropes, poções.
E depois foi o que se viu. Até desistires sem sequer chorar.
Eu não desisto. Sou uma Fúria desintegrada da tragédia. Rasgo as vestes, choro prantos de sangue, firo o corpo nas lages do chão. Mas nunca mais de meia hora. A decisão sacode-me, grito por uma caneta.

Julieta Monginho, A Terceira Mãe, Campo das Letras, 2008.
Pintura de Paula Rego, Prey, 1986
* Nick Cave & The Bad Seeds, People Ain't No Good

24 julho 2009

Prelúdio matinal

O criador da nova composição nas artes é um fora-da-lei até que ele seja um clássico.

Gertrude Stein

17 julho 2009

O Homem sem Qualidades


...Entrou na pequena sala onde estava o caixão com o morto. Aquela cela severa, de paredes direitas, no meio da azáfama agitada que suscitava, era qualquer coisa de estranhamente inquietante. O morto, hirto como um pau, flutuava entre as ondas dessa azáfama, mas durante alguns instantes a imagem invertia-se, agora era o vivo que parecia hirto, e o morto deslizava num movimento incrivelmente calmo. "Que importam ao viajante", disse de si para si, "as cidades que vão ficando para trás nos lugares onde aporta? Eu vivi aqui, comportei-me como me era pedido, mas agora a viagem continua!..."A insegrança do homem que vive no meio dos outros mas busca algo diferente deles oprimia o coração de Ulrich: olhou de frente o pai. Talvez tudo aquilo que ele via como singularidade pessoal não fosse mais do que uma contradição dependente desse rosto, que um dia assimilara infantilmente. Procurou um espelho, mas não havia nenhum na sala, e toda a luz era reflectida por aquele rosto cego. Tentou descobrir nele semelhanças. Talvez existissem. Talvez tudo estivesse aí, a raça, a dependência, a impessoalidade, a corrente da hereditariadade em que somos apenas uma ruga, a limitação, o desânimo, a eterna repetição e o círculo vicioso do espírito, que odiava do fundo da sua vontade de viver!
Subitamente tocado por esse desânimo, interrogou-se sobre se não devia fazer as malas e regressar antes mesmo do enterro. Se ainda tinha alguma coisa a fazer na vida, porquê ficar ali?...

Robert Musil, O Homem sem Qualidades (Tradução João Barrento, D.Quixote)
Fotografia:Annelise Kretschmer (Encontrada aqui).


Em O Homem sem Qualidades Robert Musil propõe-nos uma intensa viagem em torno das emoções, dos sentimentos e dos valores, numa sociedade em mudança. Neste excerto uma perturbante reflexão sobre o significado da morte do Pai e do sentido que a sua figura teve (tem) na nossa construção.

06 julho 2009

Encontro de amigos


...........

Manuel Alegre e Paulo Sucena apresentam o livro de homenagem a Mário Sacramento no dia em que este faria 89 anos.

Lisboa, Livraria Círculo das Letras (Av. Óscar Monteiro Torres, junto Av. Roma). Terça Feira, 07/07, 18h.

03 junho 2009

Por quem os sinos dobram

Este é o título do livro com que Ernest Hemingway ganhou o Nobel da Literatura em 1954.
O enredo do romance decorre em quatro dias e nele o autor faz uma profunda reflexão sobre a vida, a morte, sobre o amor a coragem e a cobardia. Sobretudo, reflecte sobre a solidariedade humana, levada à sua expressão mais sublime em qualquer guerra, seja qual for o lado da trincheira em que cada um se coloque por amor à causa em que acredite.

O texto de Saramago tem sete anos. Foi lido na cerimónia de encerramento do Fórum Social Mundial 2002. Contra a injustiça globalizada.

Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um facto notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de quatrocentos anos. Permito-me pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de esperar o fim do relato, saltar-vos-á ao rosto não tarda.

Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da igreja. Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século XVI) os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que alguém da aldeia se encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar. Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. "O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino", foi a resposta do camponês. "Mas então não morreu ninguém?", tornaram os vizinhos, e o camponês respondeu: "Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta."
(...)
Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder económico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo.
(texto integral aqui)

29 maio 2009

O Cativo

Em Junín ou em Tapalquén contam a história. Um miúdo desapareceu depois de um ataque de indios; disse-se que o tinham raptado. Os seus pais procuraram-no inutilmente; passados anos, um soldado que vinha de terra adentro falou-lhes de um indio de olhos celestes que bem podia ser o seu filho. Deram por fim com ele (a crónica perdeu as circunstâncias e não quero inventar o que não sei) e pensaram reconhecê-lo. O homem, trabalhado pelo deserto e pela vida bárbara, já não sabia ouvir as palavras da vida natal, mas deixou-se conduzir, indiferente e dócil, até casa. Aí se deteve, talvez porque os outros se detiveram. Olhou a porta, como se não a compreendesse. De repente, baixou a cabeça, gritou, atravessou correndo o saguão e os dois pátios largos e enfiou-se pela cozinha. Sem vacilar, mergulhou o braço no enegrecido sino e tirou o canivete de cabo de chifre que ali tinha escondido em criança. Os olhos brilharam-lhe de alegria e os pais choraram porque tinham encontrado o filho.
Talvez a esta recordação se tivessem seguido outras, mas o índio não podia viver entre paredes e um dia foi à procura do seu deserto.
Gostaria de saber o que terá sentido naquele instante de vertigem em que o passado e o presente se confundiram; gostaria de saber se o filho perdido renasceu e morreu naquele êxtase ou se conseguiu reconhecer, como uma criatura ou um cão, os pais e a casa.
Jorge Luis Borges

24 maio 2009

Memória

Elegia da Lembrança Impossível
O que não daria eu pela memória
De uma rua de terra com baixos taipais
E de um alto ginete enchendo a alba
(Com o poncho grande e coçado)
Num dos dias da planície,
Num dia sem data.
O que não daria eu pela memória
Da minha mãe a olhar a manhã
Na fazenda de Santa Irene,
Sem saber que o seu nome ia ser Borges.
O que não daria eu pela memória
De ter lutado em Cepeda
E de ter visto Estanislao del Campo
Saudando a primeira bala
Com a alegria da coragem.
O que não daria eu pela memória
Dos barcos de Hengisto,
Zarpando do areal da Dinamarca
Para devastar uma ilha
Que ainda não era a Inglaterra.
O que não daria eu pela memória
(Tive-a e já a perdi)
De uma tela de ouro de Turner,
Tão vasta como a música.
O que não daria eu pela memória
De ter sido um ouvinte daquele Sócrates
Que, na tarde da cicuta,
Examinou serenamente o problema
Da imortalidade,
Alternando os mitos e as razões
Enquanto a morte azul ia subindo
Dos seus pés já tão frios.
O que não daria eu pela memória
De que tu me dissesses que me amavas
E de não ter dormido até à aurora,
Dissoluto e feliz.

Jorge Luis Borges, in "A Moeda de Ferro"

20 maio 2009

Cidadania

Educação para a delinquência

A notícia veio em tudo o que é jornal e TV: uma professora da Escola EB 2,3 Sá Couto, em Espinho - que dezenas de alunos seus consideram "a mais espectacular da escola" e uma "segunda mãe" - foi suspensa "após afirmações de cariz sexual". A suspensão foi ditada pelo Conselho Directivo depois de duas alunas terem gravado afirmações suas numa aula, alunas que, segundo vários colegas, "fizeram aquilo de propósito e provocaram a conversa toda porque sabiam que estavam a gravar".
A Associação de Pais e a DREN acharam muito bem. Ninguém, nem pais, nem Conselho Directivo, nem DREN "acharam mal" o facto de duas jovens de 12 anos terem cometido um crime (se calhar encomendado) para alcançarem os seus fins. O Código Penal pune com prisão até 1 ano "quem, sem consentimento, gravar palavras proferidas por outra pessoa e não destinadas ao público, mesmo que lhe sejam dirigidas", punição agravada de um terço "quando o facto for praticado para causar prejuízo a outra pessoa". Educadas desde jovens para a bufaria e a delinquência e sabendo que o crime compensa, que género de cidadãos vão ser aquelas miúdas?

Manuel António Pina, aqui
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A capacidade de nos levar a ver para lá daquilo querem que vejamos.
M.A. Pina na sua trincheira de combate pela cidadania.

18 maio 2009

Primeira mão


Ontem fui beber um copo com um amigo que já não via há algum tempo. Não era minha intenção falar-lhe dos meus problemas pessoais, mas conversa puxa conversa e, ao fim da terceira taça de branco, não me contive e pu-lo ao corrente do imbróglio em que andava metido.
Como se já não bastassem os problemas no trabalho e em casa, tinha ainda uns tipos atrás de mim, por causa de uns dinheiros que ficara a dever. Há dois dias quase tinha sido atropelado por uma carrinha cinzenta e não me surpreenderia se, de repente, levasse um tiro.
"Não te preocupes tanto", reconfortou-me o meu amigo. "Tens é de olhar para as coisas com um espírito positivo. Só os paranóicos vêem indícios de ameaça em tudo o que mexe".
Tentei explicar-lhe que os meus problemas eram reais. O empréstimo, a dívida. Aquilo era gente que não brincava. Mas ele sorriu e continuou:
"Nós temos de fazer exactamente o contrário. Não ceder ao medo. Ser positivo. Se um pessimista vir um copo com água até metade, diz que ele está meio vazio. Nós temos de ver é que ele está meio cheio, percebes?".
Percebia. Não sou estúpido. Mas - e se tivermos problemas a sério? Se os nossos problemas forem tão reais como o risco de uma catástrofe nuclear?
Ele abriu ainda mais o sorriso. Era meu amigo, mas já me começava a irritar. Pôs-me a mão no ombro, num gesto mais paternal que fraternal.
"Mesmo que estejamos verdadeiramente ameaçados, cercados de inimigos por todos os lados, temos de ignorar essa ameaça. Se a ignorarmos, por mais real que ela seja, desvanece-se nesse instante".
Mostrei-me incrédulo:
"Assim, clic?" Ele era o Karma em pessoa
"Assim, clic. Deixa completamente de existir. Tal é o poder da mente".
Que é que eu podia dizer perante uma tal filosofia? Fiz sinal a pedir outro copo. E mais cheio que o outro, que tinha vindo meio vazio. E ele na dele, embalado: "Sei o que estás a pensar e não, não é o mesmo que a avestruz, a meter a cabeça na areia para ignorar o perigo. É diferente. Nós não ignoramos o perigo. Nós eliminamos o perigo. Percebes?"
Sim percebia. E por acaso, não sei se da conversa, se do vinho, fiquei mais calmo. E percebi ainda mais quando, à saída do bar, a bala acertou na cabeça dele, e não na minha. Tive de dar a mão à palmatória, a fómula do meu amigo funcionava. Bastava não pensar nos problemas para eles nos passarem ao lado.

Rui Zink in A Realidade Agora a Cores, (Publicações Europa América)

17 maio 2009

Viver

Aos 10 anos todos nos dizem que somos espertos, mas que nos faltam ideias próprias. Aos 20 anos dizem que somos muito espertos, mas que não venhamos com ideias. Aos 30 anos pensamos que ninguém mais tem ideias. Aos 40 achamos que as ideias dos outros são todas nossas. Aos 50 pensamos com suficiente sabedoria para já não ter ideias. Aos 60 ainda temos ideias, mas esquecemos do que estavamos a pensar. Aos 70 só pensar já nos faz dormir. Aos 80 só pensamos quando dormimos.
Fala de Bartolomeu Sozinho, Venenos de Deus, Remédios do Diabo, Mia Couto. Ed.Caminho