18 junho 2010
"a morte é isto: hoje estás aqui e amanhã já não estás"
26 abril 2010
Uma valsa para dançar
15 abril 2010
O tempo só faz falta no fim
"...o sargento olhou para o relógio: eram oito e quarenta e quatro minutos. Tinha de esperar que dessem as nove. Hladik, mais insignificante que infeliz, sentou-se num montão de lenha. Reparou que os olhos dos soldados fugiam dos seus. Para aliviar a espera, o sargento entregou-lhe um cigarro. Hladik não fumava; aceitou-o por cortesia ou por humildade. Ao acendê-lo, viu que lhe tremiam as mãos. O dia enevoou-se; os soldados falavam em voz baixa como se ele já estivesse morto.(...)
1943
Jorge Luis Borges, Ficções
Foto C.
11 abril 2010
A música, a escrita e o prazer de ler
Julio Cortázar, A Volta ao Dia em 80 Mundos
A fantástica narrativa de J.Cortázar em torno de um concerto de Louis Armstrong nos anos 60 do século XX, conduz-nos num voo pleno de referências literárias, mergulhando os sentidos na música (que na leitura não se ouve mas se sente), nos movimentos que se adivinham e na emoção que nos invade. Um texto que é uma homenagem à música, à sensibilidade e à cultura universal.
"No meio de tudo isto Louis escondeu o copo, tem um lenço fresco na mão, e então vem-lhe a vontade de cantar e canta, mas quando Louis canta a ordem estabelecida das coisas detém-se não por qualquer razão explicável, mas porque tem de deter-se quando Louis canta, e naquela boca de onde antes saíram bandeirolas de ouro cresce agora um mugido de cervo apaixonado, um bramido de antílope para as estrelas, um murmúrio de abelhão durante a sesta das plantações. Perdido na imensa abóbada do seu canto eu fecho os olhos, e com a voz deste Louis de hoje chegam-me todas as suas outras vozes a partir de outro tempo, a sua voz a partir de velhos discos perdidos para sempre, a sua voz a cantar Confessin', a cantar Dusky Stevedore.(...) E abro os olhos e ele ali está num palco de Paris, e abro os olhos e ele ali está, depois de vinte e dois anos de amor sul-americano ele ali está, depois de vinte e dois anos está ali a cantar, rindo-se com toda a sua cara de criança incorrigível, Louis cronópio, Louis enormíssimo cronópio, Louis alegria dos homens que te merecem".
Julio Cortázar, A Volta ao Dia em 80 Mundos
29 março 2010
Em tempo de crise
27 março 2010
Para os que gostam de jazz e boa literatura (e para os outros, claro)
...Quando Thelonious se senta ao piano, toda a sala se senta com ele e produz um murmúrio colectivo do tamanho exacto do alívio, porque o percurso tangencial de Thelonious pelo palco tem qualquer coisa de rigorosa cabotagem fenícia com prováveis encalhamentos nas Sirtes, e quando a nave de mel obscuro e capitão barbudo chega ao porto, é recebida pelo cais maçónico do Victória Hall com um suspiro como que de alas apaziguadas, de cais alcançado. Então é o Pannonica ou o Blue Monk, três sombras como espigas rodeiam o urso entretido a investigar as colmeias do teclado, as garras toscas e bondosas vão e vêm por entre abelhas desconcertadas e hexágonos de sustenido, passou apenas um minuto e já estamos na noite fora do tempo, a noite primitiva e delicada de Thelonious Monk.(...)Depois, quando Charles Rouse dá um passo na direcção do microfone e o seu saxo desenha imperiosamente as razões pelas quais ali está, Thelonious deixa cair as mãos, ouve por um instante, pousa ainda um leve acorde com a esquerda, e o urso levanta-se e abana-se, farto de mel ou à procura de um musgo propício para a modorra, sai do tamborete e apoia-se na ponta do piano, marcando o ritmo com um sapato e o barrete (...) dando imperceptivelmente início a um safari de dedos pela borda da caixa do piano enquanto se balança cadenciadamente porque Rouse, o contrabaixista e o percussionista estão enredados no próprio mistério da sua trindade, enquanto Thelonious viaja vertiginoso sem se mover (...) Charles Rouse está a deixar as últimas, veementes, largas e admiráveis pinceladas de roxo e vermelho, sentimos o vazio de Thelonious,(...) a interminável diástole de um só coração imenso onde latem todas as nossas dores, e é exactamente nesse momento que a sua outra mão se apropria do piano, regressa nuvem a nuvem até ao teclado, passeia os dedos indecisos pelo ar, deixa-os cair e estamos salvos, temos Thelonious capitão, há rumo para um bom bocado, e o gesto de Rouse ao recuar, enquanto desprende o saxo do suporte, tem algo de entrega de poderes, de legado que devolve ao Doge as chaves da sereníssima.
Julio Cortázar, A Volta ao Piano de Thelonious Monk
A fantástica descrição de J. Cortázar do Concerto de Telonious Monk no Victória Hall de Genebra (Março de 1966), de que transcrevi um fragmento, é uma peça literária que mostra e sublinha o valor de um dos maiores escritores do século XX. Aqui
11 março 2010
Sinto-me um idiota
Hoje em dia tenho a certeza de que não ser idiota é das coisas mais importantes na vida de um homem, até que pouco a pouco o vou esquecendo, porque o pior é que no final me esqueço; por exemplo, acabo de ver um pato que nadava num dos lagos do Bois de Boulogne, e ele era de uma beleza tão maravilhosa que não pude evitar agachar-me junto ao lago e deixar-me ficar não sei quanto tempo a observar a sua formosura, a alegria petulante dos seus olhos, aquela dupla linha delicada que corta o seu peito na água do lago e se vai abrindo até se perder com a distância. O meu entusiasmo não nasce apenas com o pato, trata-se antes de qualquer coisa que o pato cristaliza num dado momento, porque às vezes pode ser uma folha seca que se balança na ponta de um banco, ou uma grua alaranjada, enorme e delicada contra o céu azul da tarde, ou o cheiro de um vagão de comboio quando uma pessoa entra e se tem um bilhete para uma viagem de muitas horas e tudo se vai sucedendo prodigiosamente (....) e tudo me preenche como uma espécie de salgueiro interior, de uma verde chuva de delícia que nunca mais devia terminar. Porém, já muita gente me disse que o meu entusiasmo é uma prova de imaturidade (de idiotice, querem eles dizer, mas escolhem as palavras) e que não nos podemos entusiasmar assim por causa de uma teia de aranha que brilha ao sol, uma vez que se uma pessoa incorre em semelhantes excessos por causa de uma teia de aranha cheia de orvalho, o que é que vai guardar para a noite em que houver o King Lear? A mim isso surpreende-me um pouco, porque na verdade o entusiasmo não é uma coisa que se gaste quando se é realmente idiota, gasta-se quando uma pessoa é inteligente e tem a noção dos valores e da historicidade das coisas, e é por isso que mesmo que eu ande a correr de um lado para o outro no Bois de Boulogne para ver melhor o pato, isso não me vai impedir de nessa mesma noite dar saltos enormes de entusiasmo se gostar da forma como Fisher Dieskau canta. Agora que penso nesse assunto, a idiotice deve ser isso: o poder entusiasmar-se a toda a hora com qualquer coisa de que uma pessoa goste, sem que um desenhito numa parede tenha de se ver diminuído pela memória dos frescos de Giotto em Pádua. A idiotice deve ser uma espécie de presença ou de recomeço constante: agora gosto desta pedrinha amarela, agora gosto de L'année dernière à Marienbad, agora gosto de ti, ratita, agora gosto dessa locomotora incrível a bufar na Gare de Lyon, agora gosto desse cartaz arrancado e sujo. Agora gosto, gosto tanto, agora sou eu, um eu reincidente, idiota perfeito na sua idiotice que não sabe que é idiota e desfruta perdido no seu prazer, até que a primeira frase inteligente o devolva à consciência da sua idiotice e o faça procurar apressadamente um cigarro com as mãos desajeitadas, olhando para o chão compreendendo e às vezes aceitando porque um idiota também tem de viver, claro que até que outro pato ou outro cartaz, e assim sempre.Julio Cortazar, A Volta ao Dia em 80 Mundos, Cavalo de Ferro, 2009
Foto: C.
28 novembro 2009
"infância é um antigamente que sempre volta"*
- Podemos ficar já aqui, não? - ela.
- Não, aqui não podemos, tia... Vamos lá mais para o pé da rotunda.
- Mas não podemos ficar aqui, nesta praia tão "verzul"? - ela sorriu para mim.
- Não, tia, aqui não se pode. Esta tão praia verzul é dos soviéticos.
- Dos soviéticos?! Esta praia é dos angolanos!
- Sim, não foi isso que eu quis dizer...É que só os soviéticos é que podem tomar banho nessa praia. Vês aqueles militares ali nas pontas?
- Vejo sim...
- Eles estão a guardar a praia enquanto outros soviéticos estão lá a tomar banho. Não vale a pena ir lá que eles são muito maldispostos.
- Mas porquê que essa praia é dos soviéticos?- agora sim, ela estava mesmo espantada.
- Não sei, não sei mesmo. Se calhar nós também devíamos ter uma praia só de angolanos lá na União Soviética...
Ondjaki, Bom dia Camaradas, Ed.Caminho, 2001
18 outubro 2009
Indignação
Vieram-me as lágrimas aos olhos e rapidamente os tapei com a mão como se pudesse esconder as lágrimas ou empurrá-las para dentro com os dedos.
"Podes chorar, Markie. Não é a primeira vez que eu te vejo chorar".
"Eu sei que não. Eu sei que posso. Mas não quero. Só que estou tão feliz..."
"Claro que sim", disse ela em tom tranquilizador.
"Obrigado, mãe. É um grande alívio para mim. Não conseguia imaginá-lo a viver sozinho. Só com o talho e o trabalho e nada à sua espera ao regressar a casa à noite, sozinho aos fins de semana... era inimaginável".
"Era pior do que inimaginável", disse ela, "por isso nem imagines.
"O pulso", disse eu. "Só cortou um pulso".
"Um chega. Só temos dois, e um já é de mais. Markie, eu vou ficar com o teu pai e em troca vou pedir que a largues antes que te enterres nisto até à ponta dos cabelos e não saibas como hás-de sair. Quero fazer um contrato contigo. Tu fazes esse contrato comigo?"
"Sim", respondi eu.
Philip Roth, in Indignação, D. Quixote (2009)
O 27º livro de Roth rompe com as suas recorrentes narrativas sobre o envelhecimento e a decadência. Ambiente de campus universitário do interior rural dos Estados Unidos, no início dos anos 50. O narrador, jovem judeu numa perturbante experiência de conquista da autonomia, da busca de caminhos para idade adulta em luta com a família, a universidade, o ambiente social, as convenções e com ele próprio. Uma estória de aprendizagem, descoberta e desilusão.
Foto: My son John (Filme, 1952)
15 setembro 2009
Do contentamento dos loucos
Hugo Pinto - Surface: otherE não ter dinheiro é isso: é ser mais natureza, estar mais dependente da falta de legislação que há na música e nos bichos: as coisas escuras amedrontam, tornam-te cobarde, escondes os teus filhos atrás do teu corpo, mas sabes que a bala virá por trás.
Dizem que Lúcifer caiu durante nove dias, mas tal viagem não amedronta ninguém. Não foi uma queda, foi um passeio. Porque nove dias são nove dias, por isso o diabo caiu tão bem, com a roupa direita, engravatado, sem uma dorzinha. Percorre as ruas e parece aos outros o corpo de quem subiu até aqui, e não de quem desceu tanto: nove dias, dizem, foram os dias que demorou Lúcifer a cair.
A maldade não se distingue; como as meninas gémeas que vão para o colégio de mãos dadas, com a vestimenta azul, igual. A maldade não tem uma marca na testa como as vacas que têm doenças e foram marcadas na testa pelo dono.
- Esta é para ser morta, não é para ser vendida.
A doença tem marcas, a pobreza tem marcas, mas a maldade não tem marcas. Os feios têm marcas.
Um vagabundo pedia esmola num semáforo. Passou de um carro para outro, depois para outro. Um deles abriu o vidro da sua porta só uns centímetros e deixou cair uma moeda valiosa ao chão, depois arrancou porque o semáforo estava verde. O pedinte baixou-se para apanhar a moeda e veio um carro que só viu o semáforo verde e atropelou-o. Apanhou-o em cheio, partiu-lhe os ossos da anca.
Já numa maca, em cima do passeio, o dedo esticado do vagabundo não era compreendido por ninguém porque ele não conseguia falar.
- Alguém conhece este homem? Sabem se já não falava antes?
Ele apontava para a moeda no meio da estrada, mas ninguém percebia. E foi levado.
( A química não estuda aquilo que muda na matéria quando a matéria é o nosso corpo e alguém o abraça no momento exacto.)
Três meses depois, quando saiu do hospital, ele coxeava e não falava. Ninguém sabe se foi do acidente ou se antes já ele era mudo e com olhos de louco, porque ninguém o conhecia. (Ninguém podia confirmar se ele já era louco antes. Mas agora era louco.) Nesse mesmo dia ele foi ao sítio do acidente e no meio da estrada perigosa ainda estava a moeda. Meteu-a no bolso. Um carro aproximou-se e ele correu para o passeio. Ficou em segurança e acariciou a moeda com os dedos.
Do carro, que novamente quase o atropelara, uma mulher chamou-lhe maluco. Mas ele, o louco, estava contente.
Gonçalo M.Tavares, in Água, Cão, Cavalo, Cabeça, Ed. Caminho, 2006
09 agosto 2009
A terceira mãe

Tive de ser eu a fazer as perguntas todas e a encontrar respostas. Encontrá-las no mínimo som de uma porta a fechar-se. Havia as tardes do estrondo e as tardes do sussurro, as tardes da pressa e as da hesitação. E através dos movimentos da porta, das vozes e não-vozes atrás dela, dos diálogos entre as mãos à mesa, dos recantos interiores e exteriores aos corpos, fui formulando as perguntas e capturando respostas à socapa.
A vontade nunca foi o teu forte, muito menos o de clarificar as coisas. O teu forte é a humildade, é a paciência, são os ombros tantas vezes encolhidos que se tornaram covas e engoliram a alegria, a tua e a dos teus, de tanto lhes quereres bem. Mereces ser condecorada no treze de Maio, Grã-Cruz da Ordem da Renúncia. Melhor ainda, a beatificação em vida, na próxima visita do Papa ao nosso queridíssimo Santuário.
Mas para isso era preciso fazeres milagres, e não consegues. Está provado que não consegues. Tentaste tanto. Querias curar-me as dores de barriga com a mão e conseguias acalmar-me o choro, mas depois ias a correr chamar o médico. Com o pai a mesma coisa. Passavas-lhe a mão pela testa suada, entravas em tudo quanto fosse ervanária à procura de chás, xaropes, poções.
E depois foi o que se viu. Até desistires sem sequer chorar.
Eu não desisto. Sou uma Fúria desintegrada da tragédia. Rasgo as vestes, choro prantos de sangue, firo o corpo nas lages do chão. Mas nunca mais de meia hora. A decisão sacode-me, grito por uma caneta.
Julieta Monginho, A Terceira Mãe, Campo das Letras, 2008.
Pintura de Paula Rego, Prey, 1986
* Nick Cave & The Bad Seeds, People Ain't No Good
24 julho 2009
Prelúdio matinal
O criador da nova composição nas artes é um fora-da-lei até que ele seja um clássico.
Gertrude Stein
17 julho 2009
O Homem sem Qualidades
...Entrou na pequena sala onde estava o caixão com o morto. Aquela cela severa, de paredes direitas, no meio da azáfama agitada que suscitava, era qualquer coisa de estranhamente inquietante. O morto, hirto como um pau, flutuava entre as ondas dessa azáfama, mas durante alguns instantes a imagem invertia-se, agora era o vivo que parecia hirto, e o morto deslizava num movimento incrivelmente calmo. "Que importam ao viajante", disse de si para si, "as cidades que vão ficando para trás nos lugares onde aporta? Eu vivi aqui, comportei-me como me era pedido, mas agora a viagem continua!..."A insegrança do homem que vive no meio dos outros mas busca algo diferente deles oprimia o coração de Ulrich: olhou de frente o pai. Talvez tudo aquilo que ele via como singularidade pessoal não fosse mais do que uma contradição dependente desse rosto, que um dia assimilara infantilmente. Procurou um espelho, mas não havia nenhum na sala, e toda a luz era reflectida por aquele rosto cego. Tentou descobrir nele semelhanças. Talvez existissem. Talvez tudo estivesse aí, a raça, a dependência, a impessoalidade, a corrente da hereditariadade em que somos apenas uma ruga, a limitação, o desânimo, a eterna repetição e o círculo vicioso do espírito, que odiava do fundo da sua vontade de viver!
Robert Musil, O Homem sem Qualidades (Tradução João Barrento, D.Quixote)
Fotografia:Annelise Kretschmer (Encontrada aqui).
06 julho 2009
Encontro de amigos
03 junho 2009
Por quem os sinos dobram
O enredo do romance decorre em quatro dias e nele o autor faz uma profunda reflexão sobre a vida, a morte, sobre o amor a coragem e a cobardia. Sobretudo, reflecte sobre a solidariedade humana, levada à sua expressão mais sublime em qualquer guerra, seja qual for o lado da trincheira em que cada um se coloque por amor à causa em que acredite.
O texto de Saramago tem sete anos. Foi lido na cerimónia de encerramento do Fórum Social Mundial 2002. Contra a injustiça globalizada.
Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da igreja. Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século XVI) os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que alguém da aldeia se encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar. Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. "O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino", foi a resposta do camponês. "Mas então não morreu ninguém?", tornaram os vizinhos, e o camponês respondeu: "Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta."
29 maio 2009
O Cativo
Em Junín ou em Tapalquén contam a história. Um miúdo desapareceu depois de um ataque de indios; disse-se que o tinham raptado. Os seus pais procuraram-no inutilmente; passados anos, um soldado que vinha de terra adentro falou-lhes de um indio de olhos celestes que bem podia ser o seu filho. Deram por fim com ele (a crónica perdeu as circunstâncias e não quero inventar o que não sei) e pensaram reconhecê-lo. O homem, trabalhado pelo deserto e pela vida bárbara, já não sabia ouvir as palavras da vida natal, mas deixou-se conduzir, indiferente e dócil, até casa. Aí se deteve, talvez porque os outros se detiveram. Olhou a porta, como se não a compreendesse. De repente, baixou a cabeça, gritou, atravessou correndo o saguão e os dois pátios largos e enfiou-se pela cozinha. Sem vacilar, mergulhou o braço no enegrecido sino e tirou o canivete de cabo de chifre que ali tinha escondido em criança. Os olhos brilharam-lhe de alegria e os pais choraram porque tinham encontrado o filho.Talvez a esta recordação se tivessem seguido outras, mas o índio não podia viver entre paredes e um dia foi à procura do seu deserto.
Gostaria de saber o que terá sentido naquele instante de vertigem em que o passado e o presente se confundiram; gostaria de saber se o filho perdido renasceu e morreu naquele êxtase ou se conseguiu reconhecer, como uma criatura ou um cão, os pais e a casa.
Jorge Luis Borges
24 maio 2009
Memória
O que não daria eu pela memória
De uma rua de terra com baixos taipais
E de um alto ginete enchendo a alba
(Com o poncho grande e coçado)
Num dos dias da planície,
Num dia sem data.
O que não daria eu pela memória
Da minha mãe a olhar a manhã
Na fazenda de Santa Irene,
Sem saber que o seu nome ia ser Borges.
O que não daria eu pela memória
De ter lutado em Cepeda
E de ter visto Estanislao del Campo
Saudando a primeira bala
Com a alegria da coragem.
O que não daria eu pela memória
Dos barcos de Hengisto,
Zarpando do areal da Dinamarca
Para devastar uma ilha
Que ainda não era a Inglaterra.
O que não daria eu pela memória
(Tive-a e já a perdi)
De uma tela de ouro de Turner,
Tão vasta como a música.
O que não daria eu pela memória
De ter sido um ouvinte daquele Sócrates
Que, na tarde da cicuta,
Examinou serenamente o problema
Da imortalidade,
Alternando os mitos e as razões
Enquanto a morte azul ia subindo
Dos seus pés já tão frios.
O que não daria eu pela memória
De que tu me dissesses que me amavas
E de não ter dormido até à aurora,
Dissoluto e feliz.
Jorge Luis Borges, in "A Moeda de Ferro"
20 maio 2009
Cidadania
A notícia veio em tudo o que é jornal e TV: uma professora da Escola EB 2,3 Sá Couto, em Espinho - que dezenas de alunos seus consideram "a mais espectacular da escola" e uma "segunda mãe" - foi suspensa "após afirmações de cariz sexual". A suspensão foi ditada pelo Conselho Directivo depois de duas alunas terem gravado afirmações suas numa aula, alunas que, segundo vários colegas, "fizeram aquilo de propósito e provocaram a conversa toda porque sabiam que estavam a gravar".
A Associação de Pais e a DREN acharam muito bem. Ninguém, nem pais, nem Conselho Directivo, nem DREN "acharam mal" o facto de duas jovens de 12 anos terem cometido um crime (se calhar encomendado) para alcançarem os seus fins. O Código Penal pune com prisão até 1 ano "quem, sem consentimento, gravar palavras proferidas por outra pessoa e não destinadas ao público, mesmo que lhe sejam dirigidas", punição agravada de um terço "quando o facto for praticado para causar prejuízo a outra pessoa". Educadas desde jovens para a bufaria e a delinquência e sabendo que o crime compensa, que género de cidadãos vão ser aquelas miúdas?
18 maio 2009
Primeira mão

Ontem fui beber um copo com um amigo que já não via há algum tempo. Não era minha intenção falar-lhe dos meus problemas pessoais, mas conversa puxa conversa e, ao fim da terceira taça de branco, não me contive e pu-lo ao corrente do imbróglio em que andava metido.
Como se já não bastassem os problemas no trabalho e em casa, tinha ainda uns tipos atrás de mim, por causa de uns dinheiros que ficara a dever. Há dois dias quase tinha sido atropelado por uma carrinha cinzenta e não me surpreenderia se, de repente, levasse um tiro.
"Não te preocupes tanto", reconfortou-me o meu amigo. "Tens é de olhar para as coisas com um espírito positivo. Só os paranóicos vêem indícios de ameaça em tudo o que mexe".
Tentei explicar-lhe que os meus problemas eram reais. O empréstimo, a dívida. Aquilo era gente que não brincava. Mas ele sorriu e continuou:
"Nós temos de fazer exactamente o contrário. Não ceder ao medo. Ser positivo. Se um pessimista vir um copo com água até metade, diz que ele está meio vazio. Nós temos de ver é que ele está meio cheio, percebes?".
Percebia. Não sou estúpido. Mas - e se tivermos problemas a sério? Se os nossos problemas forem tão reais como o risco de uma catástrofe nuclear?
Ele abriu ainda mais o sorriso. Era meu amigo, mas já me começava a irritar. Pôs-me a mão no ombro, num gesto mais paternal que fraternal.
"Mesmo que estejamos verdadeiramente ameaçados, cercados de inimigos por todos os lados, temos de ignorar essa ameaça. Se a ignorarmos, por mais real que ela seja, desvanece-se nesse instante".
Mostrei-me incrédulo:
"Assim, clic?" Ele era o Karma em pessoa
"Assim, clic. Deixa completamente de existir. Tal é o poder da mente".
Que é que eu podia dizer perante uma tal filosofia? Fiz sinal a pedir outro copo. E mais cheio que o outro, que tinha vindo meio vazio. E ele na dele, embalado: "Sei o que estás a pensar e não, não é o mesmo que a avestruz, a meter a cabeça na areia para ignorar o perigo. É diferente. Nós não ignoramos o perigo. Nós eliminamos o perigo. Percebes?"
Sim percebia. E por acaso, não sei se da conversa, se do vinho, fiquei mais calmo. E percebi ainda mais quando, à saída do bar, a bala acertou na cabeça dele, e não na minha. Tive de dar a mão à palmatória, a fómula do meu amigo funcionava. Bastava não pensar nos problemas para eles nos passarem ao lado.
Rui Zink in A Realidade Agora a Cores, (Publicações Europa América)
17 maio 2009
Viver
Aos 10 anos todos nos dizem que somos espertos, mas que nos faltam ideias próprias. Aos 20 anos dizem que somos muito espertos, mas que não venhamos com ideias. Aos 30 anos pensamos que ninguém mais tem ideias. Aos 40 achamos que as ideias dos outros são todas nossas. Aos 50 pensamos com suficiente sabedoria para já não ter ideias. Aos 60 ainda temos ideias, mas esquecemos do que estavamos a pensar. Aos 70 só pensar já nos faz dormir. Aos 80 só pensamos quando dormimos.








