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11 julho 2009

A Mulher


(Este texto foi feito a partir de leituras várias)

Os estudiosos das primeiras idades da Humanidade que interpretaram os raros e incertos testemunhos, monumentos, religiões, línguas, tradições, documentos, dizem poder distinguir, na condição da mulher, três estádios da evolução primitiva.

O primeiro estádio seria o da comunidade de mulheres. Como os rebanhos, elas pertencem à tribo.
A incerteza da paternidade não permite outro parentesco senão o da mãe de quem a criança toma o nome e a herança. É curioso pensar que a noção de paternidade, atribuida ao pai, é um dado recente e, portanto, cultural.

O segundo estádio terá sido o da poliandria. A mulher tem vários maridos.

Enfim, o terceiro seria caracterizado pela passagem do matriarcado ao patriarcado. O homem, o marido, afirma-se como chefe.
É a sua vez de ter várias mulheres.. É o regime de poligamia, com intervalos ou excepções de monogamia, ou bigamia.

Alguns factos são, no entanto, susceptíveis de interpretações contraditórias. De qualquer modo,é-nos permitido admitir que, entre os primitivos e mesmo na alta antiguidade, a condição feminina se identifica como a ideia de propriedade: o homem obtém a mulher pela via da conquista, por compra, por cedência, tem sobre ela direito de vida ou de morte.
Que o acasalamento dos seres humanos não é , na regra, uma instituição civil e religiosa, fundamentada nos sentimentos afectivos.
A crença na imortalidade, a religião, economia, influenciariam,doravante , o destino da mulher.

25 junho 2009

Há 34 anos em Moçambique

Há aqueles que nascem com defeito. Eu nasci por defeito.
Explico: no meu parto não me extraíram todo, por inteiro. Parte de mim ficou lá, grudada nas entranhas de minha mãe. Tanto isso aconteceu que ela não me alcançava ver: olhava e não me enxergava. Essa parte de mim que estava nela me roubava de sua visão. Ela não se conformava:
- Sou cega de si, mas hei-de encontrar modos de lhe ver!
A vida é assim: peixe vivo, mas só vive no correr da água.
Quem quer prender esse peixe tem que o matar. Só assim o possui em mão.
Falo de tempo, falo de água. Os filhos se parecem com água andante, o irrecuperável curso do tempo. Um rio tem data de nascimento?
Mia Couto, O último voo do flamingo

27 maio 2009

Nós, "Europeus"


"Mais recentemente, a partir dos anos 80 - a afectividade social de antigamente e o familiarismo sofreram golpes decisivos com a desestruturação da família e com um acontecimento único, talvez, na história de Portugal, o enriquecimento súbito, possível, para uma grande parte dos cidadãos, e a saída definitiva da situação geral de pobreza em que o país vivera durante séculos. Ainda que a pobreza continue a atingir, hoje, mais ou menos 2 milhões de portugueses.(...)
O corte operou-se com o cavaquismo, e com a torrente de dinheiro que choveu sobre Portugal vinda da Comunidade Europeia. "Enriquecei !", eis a palavra de ordem da política económica cavaquista, que ecoou aos ouvidos dos portugueses como uma libertação. (...).
A poupança (no Salazarismo) não se praticava apenas nas classes populares, abrangia quase sem excepção as classes médias. Que significava poupar? Restringir o desejo ao mínimo indispensável para criar um "pé-de-meia". O que impressiona, hoje, é a obsessão, a continuidade obstinada, a paixão quase, com que se poupava. (...). Umas calças podiam durar dez ou vinte anos mesmo, e os sapatos outros tantos; remendavam-se camisas, cerziam-se saias, guardavam-se os restos da véspera e da antevéspera para as refeições do dia seguinte. Aproveitavam-se as águas usadas da cozinha para as verter na sanita, economizando gastos da companhia. Economia familiar de medos e esperança, com os seus pequenos potlatchs nas celebrações cerimoniais, nascimentos, casamentos, festas do calendário religioso. Não é difícil imaginar as consequências de um tal regime de vida. Redução do espaço de expansão dos corpos, dos movimentos próprios de exploração, de investimento afectivo, de liberdade corporal, de espontaneidade do desejo. Controlo permanente, autodisciplina mutiladora da vontade de vida (e da vida da vontade). Além do desenvolvimento de um certo egoísmo social que limita a generosidade e a solidariedade, tão largas em geral nas sociedades de pobreza. Mas também, o desenvolvimento de um espírito cauteloso, prudente, desconfiado. (...)
À lógica da poupança seguiu-se, sem mediações, a lógica do consumismo e do desperdício. (...) O "enriquecei!" cavaquista provocou talvez a primeiras brechas profundas na experiência do espaço e do tempo do povo português desde há séculos. . (...) Curiosamente, o processo de transformação representa uma violência que irrompe de fora para dentro, repentinamente, artificialmente. A União Europeia já entrou em nós e modificou o nosso mapa geográfico, as nossas leis, a nossa economia, fez desaparecer muitos comportamentos ancestrais, perturbou a nossa afectividade social, deslocando-a, pervertendo-a, abolindo-a em muitos casos. (...) Às transformações económicas e tecnológicas que a Comunidade Europeia impõe ao nosso país, nós respondemos com uma resistência (sobretudo passiva) que se apoia em velhas estratégias de "inteligência de sobrevivência", que têm décadas, talvez séculos. Moldadas em estratos inconscientes, elas condicionam os principais reflexos de defesa, constituindo uma verdadeira barreira ao "desenvolvimento". Por isso o país não se desenvolveu realmente durante os anos de riqueza oferecida de bandeja. Não operámos nem revoluções radicais na educação (condição primeira do desenvolvimento), nem criámos planos de reorganização da economia, da administração, de reforma fiscal, de investigação científica ou da saúde. Perdemos - estamos a perder - uma oportunidade única. E o nosso frágil tecido económico esboroa-se dia após dia. Portugal arrisca-se a desaparecer."
José Gil, in Portugal, Hoje. O Medo de Existir, Relógio D'Água 2004

Era assim, lucidamente, analisado o país muito antes da "crise". Estava tudo previsto, só que não se esperava o desabar da economia mundial. Portanto, tudo pior (agora) do que aquilo que as piores análises sugeriam.

07 maio 2009

Aventura e Heterodoxia



Uma narrativa encantatória, de um autor cujo percurso merece ser conhecido (mais aqui)

Raras vezes retirei a luva da minha mão esquerda, que a esconde, mesmo quando durmo. Poucos a viram, marquês de Villanueva de Barcarrota, embora muitos tenham sentido os seus efeitos. Quando a virdes, no final do meu relato, talvez vos assusteis, pelo aspecto. Tem cinco dedos, presumo que vinte e sete ossos, e tantos carpos, metacarpos e falanges como os que possuo na minha mão direita e como os que vós tendes em cada uma de vossas mãos. Porém, em tudo o resto encontrareis dissemelhanças.

A Mão Esquerda de Deus, Pedro Almeida Vieira, Ed. Dom Quixote, 2009

01 maio 2009

Maio



Num outro Maio(1925)dois militantes anarquistas, emigrantes italianos nos Estados Unidos, Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, são presos e acusados da morte de um contabilista num assalto. Segue-se um julgamento manipulado politicamente, que condena os dois réus à morte por electrocussão.
A pena de morte é executada em 22 de Agosto 1927. Todo o processo, até à execução da pena, foi objecto de contestação em todo o mundo. Sacco e Vanzetti tornaram-se símbolos do movimento sindical do século XX.

25 abril 2009

Não, não somos certamente os mesmos

Bruno pensava que tinha havido uma alteração subtil mas definitiva na sociedade ocidental em 1974-1975. Ele continuava deitado no declive relvado do canal e tinha o blusão de gabardina, enrolado debaixo da cabeça, a servir-lhe de almofada. Arrancou um tufo de erva e sentiu-lhe a rugosidade húmida. Nesses anos em que tentava penosamente chegar à vida de adulto, as sociedades ocidentais afundavam-se numa coisa sombria qualquer. Nesse Verão de 76, já era evidente que as coisas iriam acabar muito mal. A violência física, a manifestação mais perfeita do individualismo, iria reaparecer no Ocidente como continuação do desejo.

Michel Houellebecq, Partículas Elementares, Círculo de Leitores, 2000

(E não me conformo que tenhamos aprendido tão pouco com os nossos pais.)

25A

Porque merda tenho de celebrar o 25 de Abril? Tenho um imenso respeito pelas pessoas que o fizeram, mas um enorme desprezo pelas pessoas que o desfizeram.
José Saramago, in O que a Vida me ensinou, Valdemar Cruz

Já (nos) é impossível imaginar a vida sem aquele dia inicial, inteiro e limpo, mas é cada vez mais doloroso ver o que, entretanto, foi chegando.

17 abril 2009

A sucessão de CarlosII de Espanha-1698


O facto de Carlos segundo de Espanha não ter gerado sucessor provocou grandes convulsões na Europa.
A consanguinidade foi o fim dos Habsburgos.

Carlos II, o último rei da dinastia dos Habsburgos que Espanha teve, sofreu problemas causados por desvios genéticos.
As uniões consanguíneas, das quais abusaram os Habsburgos, estão provavelmente na origem da extinção da dinastia que reinou em Espanha durante 174 anos, segundo um estudo científico espanhol.
Os Habsburgos foram substituídos, em 1700, em Espanha, pela dinastia francesa dos Bourbons, a seguir à morte do seu último rei, Carlos II, que chegou aos 39 anos sem descendência. Os Bourbons reinam até hoje em Espanha.
Os investigadores espanhóis calcularam o "grau de endogamia" do ramo espanhol dos Habsburgos e concluíram que "o grande número de casamentos consanguíneos" celebrados nesta família provocou desvios genéticos no rei Carlos II. Era uma pessoa fraca, fisicamente e mentalmente, tinha o rosto deformado e era impotente, sublinharam os investigadores no estudo publicado pela revista da biblioteca pública científica americana PloS ONE.
Segundo os textos da época, Carlos II não começou a falar antes da idade dos quatro anos, não começou a andar antes dos oito e, durante os seus últimos anos de vida, sofreu de alucinações e de convulsões. Na dinastia dos Habsburgos os tios casavam-se com as sobrinhas, os primos com primos, entre outras.
(D.Notícias)

07 março 2009

Remakes

As recentes cartas de demissão de dois destacados dirigentes cubanos, Carlos L. Dávila e Felipe Pérez Roque , após críticas públicas de Fidel, são, numa leitura objectiva, uma reedição de outras cartas de abjuração, cujo significado foi há muito condenado pela História. Pelo significado e interesse político, ético e social destes comportamentos, aqui se assinala e recorda.
No final da II Guerra Mundial, Arthur Koestler publicou em França um romance (O Zero e o Infinito) que se torna um sucesso imediato e que tem um impacto tremendo na sociedade francesa e europeia. A obra teve como inspiração os Julgamentos de Moscovo que, nos anos 30, tinham "julgado" e condenado inúmeros homens íntegros em processos forjados.
No livro, narra-se a história de um velho e honesto revolucionário, preso e forçado a confessar uma culpa que nunca teve, mas que aceita fazê-lo como uma última tarefa para o seu Partido...
Atente-se ao diálogo final, antes da confissão, entre Rubachov e o seu verdugo Gletkin, que, aliás, fora seu discípulo.

"- a sua facção, cidadão Rubachov, foi vencida e destruída. Queria provocar uma cisão no Partido, sabendo embora, que uma cisão no Partido significaria a guerra civil...... a imperiosa necessidade de união dentro do Partido. Deve estar como fundido num molde - cheio de disciplina cega e confiança absoluta. Você e os seus amigos, cidadão Rubachov, abriram uma brecha no Partido. Se o seu arrependimento é real, tem de nos ajudar a colmatar a brecha. Já lhe disse, é o último serviço que o Partido lhe pede.
Camarada Rubachov, espero que tenha compreendido a tarefa que o Partido lhe confia.
Era a primeira vez que Gletkin chamava a Rubachov "camarada". Rubachov ergueu rapidamente a cabeça......o queixo tremia-lhe ligeiramente enquanto punha a luneta de mola.
- Compreendo
- Estava errado e terá de pagar camarada Rubachov. O Partido só lhe promete uma coisa: depois da vitória, um dia, quando isso já não for prejudicial, o material dos arquivos secretos será publicado. Então o mundo saberá o que estava por trás deste espectáculo de "robertos" que temos de fazer, de acordo com os manuais da história..."

Arthur Koestler, O Zero e o Infinito, Europa América 1973

... e já o soubemos. Afinal, não foi preciso esperar pela vitória (que não veio...) e, talvez por isso mesmo, conhecemos como o fizeram. Os porquês, continuaremos a descobri-los.