
"Mais recentemente, a partir dos anos 80 - a afectividade social de antigamente e o familiarismo sofreram golpes decisivos com a desestruturação da família e com um acontecimento único, talvez, na história de Portugal, o enriquecimento súbito, possível, para uma grande parte dos cidadãos, e a saída definitiva da situação geral de pobreza em que o país vivera durante séculos. Ainda que a pobreza continue a atingir, hoje, mais ou menos 2 milhões de portugueses.(...)
O corte operou-se com o cavaquismo, e com a torrente de dinheiro que choveu sobre Portugal vinda da Comunidade Europeia. "Enriquecei !", eis a palavra de ordem da política económica cavaquista, que ecoou aos ouvidos dos portugueses como uma libertação. (...).
A poupança (no Salazarismo) não se praticava apenas nas classes populares, abrangia quase sem excepção as classes médias. Que significava poupar? Restringir o desejo ao mínimo indispensável para criar um "pé-de-meia". O que impressiona, hoje, é a obsessão, a continuidade obstinada, a paixão quase, com que se poupava. (...). Umas calças podiam durar dez ou vinte anos mesmo, e os sapatos outros tantos; remendavam-se camisas, cerziam-se saias, guardavam-se os restos da véspera e da antevéspera para as refeições do dia seguinte. Aproveitavam-se as águas usadas da cozinha para as verter na sanita, economizando gastos da companhia. Economia familiar de medos e esperança, com os seus pequenos potlatchs nas celebrações cerimoniais, nascimentos, casamentos, festas do calendário religioso. Não é difícil imaginar as consequências de um tal regime de vida. Redução do espaço de expansão dos corpos, dos movimentos próprios de exploração, de investimento afectivo, de liberdade corporal, de espontaneidade do desejo. Controlo permanente, autodisciplina mutiladora da vontade de vida (e da vida da vontade). Além do desenvolvimento de um certo egoísmo social que limita a generosidade e a solidariedade, tão largas em geral nas sociedades de pobreza. Mas também, o desenvolvimento de um espírito cauteloso, prudente, desconfiado. (...)
À lógica da poupança seguiu-se, sem mediações, a lógica do consumismo e do desperdício. (...) O "enriquecei!" cavaquista provocou talvez a primeiras brechas profundas na experiência do espaço e do tempo do povo português desde há séculos. . (...) Curiosamente, o processo de transformação representa uma violência que irrompe de fora para dentro, repentinamente, artificialmente. A União Europeia já entrou em nós e modificou o nosso mapa geográfico, as nossas leis, a nossa economia, fez desaparecer muitos comportamentos ancestrais, perturbou a nossa afectividade social, deslocando-a, pervertendo-a, abolindo-a em muitos casos. (...) Às transformações económicas e tecnológicas que a Comunidade Europeia impõe ao nosso país, nós respondemos com uma resistência (sobretudo passiva) que se apoia em velhas estratégias de "inteligência de sobrevivência", que têm décadas, talvez séculos. Moldadas em estratos inconscientes, elas condicionam os principais reflexos de defesa, constituindo uma verdadeira barreira ao "desenvolvimento". Por isso o país não se desenvolveu realmente durante os anos de riqueza oferecida de bandeja. Não operámos nem revoluções radicais na educação (condição primeira do desenvolvimento), nem criámos planos de reorganização da economia, da administração, de reforma fiscal, de investigação científica ou da saúde. Perdemos - estamos a perder - uma oportunidade única. E o nosso frágil tecido económico esboroa-se dia após dia. Portugal arrisca-se a desaparecer."
José Gil, in Portugal, Hoje. O Medo de Existir, Relógio D'Água 2004
Era assim, lucidamente, analisado o país muito antes da "crise". Estava tudo previsto, só que não se esperava o desabar da economia mundial. Portanto, tudo pior (agora) do que aquilo que as piores análises sugeriam.