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17 setembro 2009

Transa Atlântica


"Transa Atlântica", de Mónica Marques, portuguesa, nascida em 1970, a viver e a trabalhar como jornalista no Brasil, é, seguramente, o livro mais desconcertante que já li.
A cidade, percorrida pela narradora, entra-nos pelas páginas dentro, acutilante, inesperada, brutalmente intrigante.
Impressões, sentimentos, coisas do Brasil, coisas de mulheres, de homens, da natureza humana, são-nos atirados, num arremesso ousadíssimo, completa e politicamente incorrecto.
Fez-me lembrar Almodovar, nos primeiros filmes, quando misturaca rosa vivo com verde alface, quando desnudava a caricatura de nós.
Mónica está completamente impregnada pela cultura brasileira, mas não deixa de ser portuguesa, no espanto pelas coisas, no desencanto.
Ela não o diz, mas é um livro sem esperança, com muita verdade, muita força, humor, mas sem saída, como o filme de Tarantino "Sacanas Sem Lei", de que não gostei, embora compreenda as alusões ao cinema, a sua força.
Mónica também desmonta a escrita, dialoga constantemente connosco, põe a nú os efeitos literários, os truques dos editores.
O livro é para adultos. Não dá para ler ao pôr do sol, nem num jardim romântico. Tem a força de um grafitti, numa parede suburbana.

14 setembro 2009

Middle sex


… Enquanto Miss Grotowski escreve as suas equações no quadro, todos os colegas à minha voltam começam a transformar-se. As coxas de Jane Blunt, por exemplo, todas as semanas parecem crescer mais um bocadinho. A sua camisola vai inflando à frente. Um belo dia, Berveley Maas, que se senta mesmo ao meu lado, põe o dedo no ar e eu vejo uma mancha escura pela sua manga acima: um tufo de pelos castanho- claros. (…..)
A voz de Peter Quail é agora duas oitavas mais baixa do que o mês passado, sem que ele dê por isso. E porquê? Está a voar demasiado depressa. Os rapazes começam a ganhar uma penugem de pêssego por cima dos lábios. As testas e os narizes começam-lhes a rebentar. Mais espectacularmente ainda, as raparigas começam a tornar-se mulheres. (….)
Só Calliope, na segunda fila, permanece imutável, como que paralisada na sua secretária, de modo que é ela a única a reconhecer a verdadeira amplitude das metamorfoses em curso à sua volta. Enquanto resolve os problemas, está ciente da carteira de Tricia Lamb no chão na mesa ao lado, e do tampão que lobrigou lá nessa manhã – e como é que isso se usa ao certo?- e a quem perguntar? Embora ainda seja bonita, Calliope não tarda a tornar-se a rapariga mais baixa da turma. Deixa cair a borracha, mas já ninguém lha vem apanhar. Na peça de Natal da escola, já não é escolhida para fazer de Maria, como nos últimos anos, mas sim de elfo…Mas ainda há esperança, não haverá? ( ....) os alunos voam vertiginosamente através do tempo, de tal modo que um dia, ao levantar os olhos do seu papel manchado de tinta, Callie vê que é Primavera, as flores a desabrochar, forsítias em flor, ulmeiros verdejantes; no recreio, meninos e meninas de mãos dadas, beijando-se por vezes atrás das árvores, e Calliope sente-se enganada, traída. “Então e eu?”, diz ela à natureza. Estou à espera. Ainda aqui estou”.

Jeffrey Eugenides, Middlesex, D. Quixote, 2oo4
Fotografia Diana Arbus
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O fascinante Middlesex de Jeffrey Eugenides (acima citado) começa assim: nasci duas vezes: primeiro como menina bébé, num dia invulgarmente limpo na cidade de Detroit, em Janeiro de 1960. Depois outra vez, como rapaz adolescente, numa sala de urgências perto de Petoskey, Michigan, em Agosto de 1974. O narrador e figura central do livro é Calliope / Cal , um intersexo.
Intersexo é alguém que, ao nascer, tem uma ambiguidade sexual : há uma discrepância entre o sexo cromossómico e o aspecto dos genitais. A "definição" social do bébé é feita, naturalmente, a partir da aparência dos genitais (nome, educação, roupa, penteado, brinquedos, etc.).
No caso de Calliope / Cal, o sexo cromossómico era 46XY, masculino, mas os genitais tinham uma aparência feminina. Educada como menina, foi na adolescência que o conflito se manifestou.
O nome "Caster Semenya" (atleta da África do Sul recentemente "desclassificada" numa prova feminina de velocidade) introduzido no motor de busca Google remete-nos para 2.710.000 entradas.
A forma absolutamente preversa e sem princípios como os mídia abriram a vida de Caster e a vasculharam, expondo os detalhes mais íntimos à vista de todos sem o mínimo pudor, terá consequências irreparáveis na sua vida e dos que lhe são próximos.
A enorme complexidade desta questão decorre da existência de uma identidade de género oposta à configuração dos genitais e coloca problemas dificílimos, como se compreende, relacionados com equilíbrios em múltiplos planos. Mas não é, seguramente, matéria para jornalismo de escândalos.

31 agosto 2009

Uma insuportável aridez no conforto

Passar mais tempo na companhia dos residentes de Starfish Beach era outra possibilidade insuportável. Ao contrário dele, muitos conseguiam não só construir conversas inteiras que giravam à volta dos netos mas também encontrar na existência dos netos razões para eles próprios existirem. Apanhado na companhia deles, experimentava por vezes a solidão naquela que era talvez a sua forma mais pura. E mesmo com aqueles residentes que eram pessoas ponderadas e de conversa agradável, só era interessante estar de vez em quando. Na sua maioria, os residentes idosos tinham casamentos que duravam há décadas e continuavam de tal maneira ligados ao que restava da sua felicidade conjugal que raramente conseguia convencer um marido a ir com ele almoçar fora sem levar a mulher. Embora por vezes olhasse com nostalgia para aqueles casais quando descia a noite ou nas tardes de domingo, havia a considerar as restantes horas da semana, e aquilo não era vida que desejasse para si quando estava no auge da melancolia. A conclusão a tirar era de que nunca devia ter ido viver para uma comunidade como aquela. Tinha-se desenraizado precisamente na altura em que aquilo que a idade mais exigia dele era que estivesse enraizado como tinha estado durante todos os anos em que dirigiu o departamento criativo da agência. Sempre tinha sido revigorado pela estabilidade, não pela estase. E aquilo era estagnação. O que tinha agora era a ausência de todas as formas de consolação, uma total aridez a que chamavam conforto, e nenhuma hipótese de voltar ao que era antes. Tinha-se apoderado dele uma sensação de "alteridade", uma palavra que no seu léxico pessoal descrevia um estado que lhe era quase estranho até que a sua aluna de pintura Millicent Kramer a tinha usado em tom lancinante para lamentar o estado a que tinha chegado.Já nada lhe despertava a curiosidade ou satisfazia as necessidades, nem a pintura, nem os vizinhos, nada a não ser as mulheres jovens que de manhã se cruzavam com ele no passeio marítimo, a fazer jogging. Meu Deus, pensava, o homem que eu era! A vida que me rodeava! A força que eu tinha! Não sentia nenhuma "alteridade"! Em tempos que já lá vão fui um ser humano completo.


Philip Roth, Todo-O-Mundo, Dom Quixote, 2006

27 julho 2009

História de um crime

História Universal da Destruição dos Livros (Texto Editores,2009) é uma obra lúcida, contundente e arrasadora dum crime perpetrado desde que apareceram os primeiros livros na Suméria há mais de 5000 anos. Fernando Báez conduz-nos com a maestria do amor pelo livro, neste singular e incompreensível parodoxo da humanidade que é a destruição do que de mais belo e nobre têm criado.Uma dolorosa mas fascinante viagem que começa na Suméria e nos leva a Alexandria, aos Manuscritos do Mar Morto, à perseguição chinesa dos textos Budistas 200 anos AC, à censura e perseguição no Império Romano, aos anos de trevas medievais, a Inquisição, as proibições da ortodoxia inglesa na "caça às bruxas", o período anterior à Revolução Francesa com a destruição das obras de Voltaire e, depois da Revolução, o desaparecimento de mais de 4000.000 livros considerados contra revolucionários. O século XX é revisto exaustivamente, desde a Guerra Civil de Espanha (1936-39), à Invasão do Iraque (2003), passando pelo bibliocausto Nazi, a censura de Estado na América do Norte e nos regimes soviéticos, a Revolução Cultural Chinesa e as ditaduras sul americanas.Um livro intenso, de leitura obrigatória para quem ama o livro, a cultura e a memória da humanidade.

História Universal da Destruição dos Livros aqui

23 julho 2009

Barroco Tropical,de José Eduardo Agualusa


Este livro, o último de José Eduardo Agualusa, "Barroco Tropical", conta-nos não uma história, mas muitas, e, à sombra de Jorge Luís Borges, vão-nos aparecendo todas as personagens fantásticas, quase irreais, que povoam uma Luanda meia enlouquecida, do pós-guerra, da pós-independência, do pós-tudo.
..."O centro de saúde mental Tata Ambroise recebe apoio governamental, de instituições privadas e de familiares dos acorrentados. O governo entrega a Tata Ambroise não apenas os doentes mentais sem eira nem beira que vagueiam pela cidade e arredores, mas também um ou outro dissidente mais contestatário. O facto de alguém denunciar , com excessiva veemência, as políticas governamentais, ou a inexistência de políticas governamentais e de uma "verdadeira democracia", seja lá o que isso for, já indicia, na opinião dos nossos dirigentes, certa instabilidade mental."
Agualusa, usando a ficção, denuncia, com coragem, a corrupção, a violência, a injustiça.
No entanto, o seu livro, talvez o melhor, leva-nos numa viagem sentida a uma Luanda colorida, onde tudo pode acontecer, onde os melhores e os piores, os traficantes de armas, os estropiados, os terroristas, curandeiros, catorzinhas,pintores, cantoras e, até, um anjo negro se cruzam, num relato sentido, divertido, poético.
"...Lua é o diminutivo carinhoso, com que nós, os luandenses, nos referimos à nossa cidade. Acho um termo muito acertado. Luanda partilha com a Lua a mesma árida e agreste desolação, a mesma poeira sufocante. Todavia, como a lua, vista de noite, e de longe, parece bela.  Iluminada, seduz. Além disso, a sua luz tem o estranho poder de transformar homens simples em lobos ferozes".

15 julho 2009

Chico


"Leite Derramado" é o novo livro de Chico Buarque.

Chico Buarque já não é só o grande cantor, poeta, compositor.
Agora é, sobretudo, um grande escritor.
Este seu "Leite Derramado" surpreende, vai muito além dos livros anteriores.
Num hospital, um velho muito velho vai narrando à filha, à enfermeira, pedaços da sua vida e do Brasil, uma saga familiar, a história da sua decadência social e económica, tudo misturado com figuras do Império, da Primeira República e, até, do Brasil actual.
Divertido, dramático, cáustico, "Leite Derramado" lê-se de rajada, sem se poder parar.
Cheira a Machado de Assis e sente-se um Chico muito acima, depurado, intenso, inovador.

"Leite Derramado"-edições D. Quixote

03 junho 2009

Por quem os sinos dobram

Este é o título do livro com que Ernest Hemingway ganhou o Nobel da Literatura em 1954.
O enredo do romance decorre em quatro dias e nele o autor faz uma profunda reflexão sobre a vida, a morte, sobre o amor a coragem e a cobardia. Sobretudo, reflecte sobre a solidariedade humana, levada à sua expressão mais sublime em qualquer guerra, seja qual for o lado da trincheira em que cada um se coloque por amor à causa em que acredite.

O texto de Saramago tem sete anos. Foi lido na cerimónia de encerramento do Fórum Social Mundial 2002. Contra a injustiça globalizada.

Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um facto notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de quatrocentos anos. Permito-me pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de esperar o fim do relato, saltar-vos-á ao rosto não tarda.

Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da igreja. Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século XVI) os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que alguém da aldeia se encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar. Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. "O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino", foi a resposta do camponês. "Mas então não morreu ninguém?", tornaram os vizinhos, e o camponês respondeu: "Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta."
(...)
Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder económico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo.
(texto integral aqui)

Breviário das Almas

"e levantar-se de madrugada, logo depois de o galo pedrês cantar, ir à arramada fazer as necessidades, voltar para casa e colocar um pau de azinho e uns gravetos de esteva para atear o fogo; depois, lavar a cara na bacia de esmalte azul, pentear o cabelo e fazer o monho, preso com uma peneta; despir a camisa de dormir, de flanela, e vestir o vestido preto, comprido, e as meias pretas de lã grossa e calçar os sapatos de couro, cardados; ir ver a cafeteira que está ao lume, entornando o café, pois já cheira por toda a casa; abrir a arca de castanho e retirar o tarro de esmalte cinzento com flores vermelhas, onde guarda o conduto; cortar o toucinho e a linguiça e o queijinho de cabra, ir ao tabuleiro do pão e levantar o pano de linho branco, tirar um pão, fazer sobre ele o sinal da cruz com o dedo e benzer-se, sentar-se numa cadeira a beber o café, junto ao fogo..."
Joaquim Mestre, in Breviário das Almas, Oficina do Livro (2009)
Pintura Lúcia Maia ("Uma Vida" óleo s/ tela)
Joaquim Mestre faleceu precocemente, aos 54 anos, faz hoje 1 mês (em 3 de Maio de 2009).
Director da Biblioteca de Beja, transformou-a num espaço de convívio e culto do livro e da leitura de expressão nacional. A este propósito, é conhecida a história de, após a inauguração da Biblioteca em 1993, e não manifestando os habitantes da cidade grande interesse em ali se deslocarem, Joaquim Mestre levou um burro pelas escadas até aos espaço de leitura, declarando que, se até um asno entrava naquele antro de cultura, seria uma vergonha os bejenses estarem ausentes...
Não só por isto, mas pelo intenso trabalho que desenvolveu, conseguiu mudar os hábitos de leitura de muitos habitantes, designadamente jovens.
Foi igualmente escritor de relevo, sendo Breviário das Almas, uma Antologia de Contos que obteve o Prémio Manuel da Fonseca 2008.
É imprescindível conhecer os seus livros.

22 maio 2009

Trevas e Luz


Ken Follett, na sua obra "Um Mundo Sem Fim", romance histórico bem fundamentado, passado na Inglaterra medieval, descreve, de entre outros aspectos, o flagelo da peste.
Retiro este texto pelo inusitado, surpreendente. Passa-se a seguir à enorme devastação da doença:

"Fora um bom ano para a generalidade das pessoas, pensou Caris, enquanto assistia à missa do dia de Natal.As gentes da terra estavam a adaptar-se à catástrofe decorrente da peste com uma rapidez assombrosa. Para além de ter sido responsável por um sofrimento terrível e pela quase-paralização da vida civilizada, a epidemia trouxera consigo a oportunidade de uma reviravolta. Segundo os seus cálculos, quase metade da população perecera; um dos efeitos, porém, era que os camponeses que tinham sobrevivido vinham a cultivar apenas os terrenos mais férteis e, por conseguinte, a produtividade aumentava.(...), os salários eram mais elevados(...).Havia mais casas livres, cereais em abundância e as manadas e os rebanhos estavam de novo a crescer.(...).A riqueza gerava riqueza e os bons tempos nas zonas rurais trouxeram mais negócio à cidade, e, assim, os artífices e os comerciantes de Kingsbridge começavam a regressar à opulência de outrora."

05 maio 2009

O começo

"...Se não existe uma árvore suficientemente fiável para a origem de todas as línguas, também não é seguro que tenha havido uma só origem para a linguagem. A maior parte dos linguistas considera este último problema insolúvel. É um pouco como o problema de saber se houve uma só origem para a vida na Terra; muitos biólogos pensam que sim, uma vez que existe um único tipo de aminoácidos sintetizados pelas células vivas, quando poderiam existir dois, de estrutura química oposta. De qualquer modo, Greenberg chamou a atenção para o facto de existir pelo menos uma etimologia comum a todas as famílias linguísticas: trata-se da raíz tik, que pode indicar quer um dedo, quer o número um (uma variação semântica que não precisa ser explicada, se pensarmos o modo como indicamos o número um com um gesto); nalgumas línguas encontram-se outras mudanças semânticas que ainda parecem aceitáveis, por exemplo mão ou até braço. Em França tem-se doigt, que vem da raíz latina digit, em italiano dito, em português dedo.
Com base neste exemplo, dois linguistas americanos (Bengston e Ruhlen) propuseram outras raízes universais ou quase. Mas será, indubitavelmente, necessário muito tempo para que estas recentíssimas investigações tenham o aval de outros linguistas. Infelizmente, o número de palavras com que se pode contar para estas investigações é limitado. Geralmente, trata-se de palavras que indicam partes de corpo, pronomes pessoais, alguns advérbios, os números um, dois, três e poucas outras. Não é surpreendente que sejam os nomes altamente conservados na evolução linguística, o que se aprende primeiro (a mãe ensina ao filho: olhos, nariz, boca, etc)..."
Luigi Luca Cavalli-Sforza in Genes, Povos e Línguas

04 maio 2009

Depuração


*
ENCANTATÓRIA

Custa é saber
como se invoca o ser
que assiste à escrita,
como se afina a má-
quina que a dita,
como no cárcere
nu se evita,
emparedado, a lá-
grima soltar.

Custa é saber
como se emenda morte,
ou se a desvia,
como a tecla certa arreda
do branco suporte
a porcaria.

Luiza Neto Jorge, A Lume, organização e prefácio de Fernando Cabral Martins, Assírio & Alvim, 2001

* Antony and the Johnsons - Bird Guhl

01 maio 2009

Formiga nadadora


*
Fala a preguiça


Eu gosto tanto, tanto ,tanto
de estar quieta, muito parada,
de fazer nada, coisa nenhuma,
e de fazer isso, que é não fazer
e de não estar, não ir, também.
Eu cá faço nada e todos
me dizem que faço isso muito bem.

Faço arroz de nada, pudim de nada
(que não é nada, está-se mesmo a ver)
e é tudo muito bom, delicioso,
só por não ser preciso fazer.
Eu faço nada, sou um nadador,
mas não daqueles que nadam mesmo,
O que é cansativo, tão maçador;
é que nadar, cá para mim,
tem um defeito insuportável:
aquele erre que está no fim .

E não digam que não faço nada
porque eu faço isso o mais que posso
e se não faço mais é porque mesmo nada
fazê-lo muito é uma maçada.
Não quero ir. Ainda é cedo.
Que pressa é essa? Não pode ser!
Deixem-me estar porque eu hoje tenho
bastante nada para fazer.

Álvaro Magalhães, O Brincador, Edições Asa, 2005

* Bill Evans - Quiet Now

30 abril 2009

O Anjo da neve

"... É o frio, não estás realmente apertada, repetia Alice a si própria. Mas quanto mais o cume se aproximava, mais o aguilhão que trazia na bexiga penetrava na carne. Aliás, era algo mais do que isso. Desta vez ela estava prestes a não aguentar mais.
Não, é apenas o frio, não podes fazer chichi agora. Acabaste de fazer há pouco, anda lá (...).
Há mais duas estâncias antes do refúgio. Não aguento tanto tempo assim, pensou.Giuliana levantou a barra de segurança e ambas deslocaram o rabo um pouco para a frente para descerem. Quando os esquis tocaram no chão, Alice deu um impulso com a mão para se separar da cadeirinha (...).
Deslizou para a beira da pista de esqui em busca de um montinho de neve fresca onde pudesse aliviar-se (...) já não via Giuliana, por isso Giuliana não a podia ver a ela. Subiu a encosta alguns metros, pondo os esquis em espinha de peixe, como a obrigava a fazer o pai quando pôs na cabeça que tinha de a ensinar a esquiar. Para cima e para baixo na pista de esqui infantil, trinta a quarenta vezes num dia (...). Alice desapertou os esquis e deu mais alguns passos. Enterrou as botas até meio da barriga das pernas.
Finalmente estava sentada. Deixou de reter a respiração e relaxou os músculos. Uma agradável descarga eléctrica propagou-se pelo corpo todo para depois se aninhar nas pontas dos pés(...).
Aliviou-se pernas abaixo. Não chichi. Não só. Alice borrou-se toda, às nove em ponto de uma manhã de Janeiro. Borrou-se nas cuecas e nem sequer se apercebeu..."
Paolo Giordano in A solidão dos números primos, Bertrand,2009
(A adolescência e as suas dores, a solidão, a vontade de ser aceite e amado. Uma narrativa notável de um jovem escritor).

23 abril 2009

Dia Mundial do Livro

23 de Abril é, desde 1995, o Dia Mundial do Livro e dos Direitos dos Autores.
(... e se não fossem os livros, nós não estávamos aqui).

20 abril 2009

Eu e mailos livros

Teresa Castro D’Aire (pseudónimo de Teresa Mascarenhas) nasceu em Lisboa a 27-01-52.
Frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa onde se licenciou e fez vários Seminários de Pós-Graduação, sempre na área da Literatura. Tem cerca de vinte volumes publicados e oito prémios literários. Realizou duas exposições de pintura individuais e colaborou em catorze exposições colectivas.

Aos 17 anos escreveu o primeiro livro - Rapsódia em Technicolor (ou meu amor anda ver a minha colecção de slides), rejeitado por trinta editoras, antes de ser premiado. Na opinião de alguns críticos, bem como da própria escritora, tratava-se de um texto muito adiantado para o seu tempo. A descobrir também Eu, Lourenço, andarilho da vida, um bildungsroman, compromisso entre conto histórico e livro de memórias, junção de que resulta uma obra insofismavelmente didáctica e exemplificadora da época Napoleónica, em que o herói Lourenço, picaresco e cheio de artimanhas, toma parte.

Eu e a maila minha senhora vieramos transanteontem da terra, inté demos lá lembranças suas à ti MariJaquina. O programa segue dentro de momentos. Segurem-me, vou passar o fim-de-semana com o Peter O’Toole! Ele namorou uma das pupilas do senhor reitor, tu namoriscaste as outras todas, que eu estou marreca de saber. Era um Rudolfo Valentino de colarinhos à raisteparta, muito cocabichinhos, é daqueles que chegaram a ser reis só com um olho, coitado, chegou todo torcido, todo chamuscado, mais parecia a madrinha, mas para comer ostras com limão, comigo ao desafio, é aquela máquina. Quem é esta avis-rara? Meia bola e força! Tenho feito umas coisas muito engraçadas com o meccano que me deste no Natal, só ainda não fiz um gato-sapato, como é que se faz? How kind of you to let me come! Viram-me nas abluções na terça-feira de pascoela? Não ligues, são as más línguas a meter o bedelho, são bocas da reacção. Singing in the rain – eram os galifões ainda em rodagem do David Mourão Ferreira. É o livro de memórias de Florence Nightingale, de forro já desbotado.

Teresa Castro D’Aire, Rapsódia em Technicolour (ou meu amor anda ver a minha colecção de slides), prefácio de Batista Bastos, Editorial Escritor, 1991.