
"Transa Atlântica", de Mónica Marques, portuguesa, nascida em 1970, a viver e a trabalhar como jornalista no Brasil, é, seguramente, o livro mais desconcertante que já li.

Passar mais tempo na companhia dos residentes de Starfish Beach era outra possibilidade insuportável. Ao contrário dele, muitos conseguiam não só construir conversas inteiras que giravam à volta dos netos mas também encontrar na existência dos netos razões para eles próprios existirem. Apanhado na companhia deles, experimentava por vezes a solidão naquela que era talvez a sua forma mais pura. E mesmo com aqueles residentes que eram pessoas ponderadas e de conversa agradável, só era interessante estar de vez em quando. Na sua maioria, os residentes idosos tinham casamentos que duravam há décadas e continuavam de tal maneira ligados ao que restava da sua felicidade conjugal que raramente conseguia convencer um marido a ir com ele almoçar fora sem levar a mulher. Embora por vezes olhasse com nostalgia para aqueles casais quando descia a noite ou nas tardes de domingo, havia a considerar as restantes horas da semana, e aquilo não era vida que desejasse para si quando estava no auge da melancolia. A conclusão a tirar era de que nunca devia ter ido viver para uma comunidade como aquela. Tinha-se desenraizado precisamente na altura em que aquilo que a idade mais exigia dele era que estivesse enraizado como tinha estado durante todos os anos em que dirigiu o departamento criativo da agência. Sempre tinha sido revigorado pela estabilidade, não pela estase. E aquilo era estagnação. O que tinha agora era a ausência de todas as formas de consolação, uma total aridez a que chamavam conforto, e nenhuma hipótese de voltar ao que era antes. Tinha-se apoderado dele uma sensação de "alteridade", uma palavra que no seu léxico pessoal descrevia um estado que lhe era quase estranho até que a sua aluna de pintura Millicent Kramer a tinha usado em tom lancinante para lamentar o estado a que tinha chegado.Já nada lhe despertava a curiosidade ou satisfazia as necessidades, nem a pintura, nem os vizinhos, nada a não ser as mulheres jovens que de manhã se cruzavam com ele no passeio marítimo, a fazer jogging. Meu Deus, pensava, o homem que eu era! A vida que me rodeava! A força que eu tinha! Não sentia nenhuma "alteridade"! Em tempos que já lá vão fui um ser humano completo.História Universal da Destruição dos Livros (Texto Editores,2009) é uma obra lúcida, contundente e arrasadora dum crime perpetrado desde que apareceram os primeiros livros na Suméria há mais de 5000 anos. Fernando Báez conduz-nos com a maestria do amor pelo livro, neste singular e incompreensível parodoxo da humanidade que é a destruição do que de mais belo e nobre têm criado.Uma dolorosa mas fascinante viagem que começa na Suméria e nos leva a Alexandria, aos Manuscritos do Mar Morto, à perseguição chinesa dos textos Budistas 200 anos AC, à censura e perseguição no Império Romano, aos anos de trevas medievais, a Inquisição, as proibições da ortodoxia inglesa na "caça às bruxas", o período anterior à Revolução Francesa com a destruição das obras de Voltaire e, depois da Revolução, o desaparecimento de mais de 4000.000 livros considerados contra revolucionários. O século XX é revisto exaustivamente, desde a Guerra Civil de Espanha (1936-39), à Invasão do Iraque (2003), passando pelo bibliocausto Nazi, a censura de Estado na América do Norte e nos regimes soviéticos, a Revolução Cultural Chinesa e as ditaduras sul americanas.Um livro intenso, de leitura obrigatória para quem ama o livro, a cultura e a memória da humanidade.
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"e levantar-se de madrugada, logo depois de o galo pedrês cantar, ir à arramada fazer as necessidades, voltar para casa e colocar um pau de azinho e uns gravetos de esteva para atear o fogo; depois, lavar a cara na bacia de esmalte azul, pentear o cabelo e fazer o monho, preso com uma peneta; despir a camisa de dormir, de flanela, e vestir o vestido preto, comprido, e as meias pretas de lã grossa e calçar os sapatos de couro, cardados; ir ver a cafeteira que está ao lume, entornando o café, pois já cheira por toda a casa; abrir a arca de castanho e retirar o tarro de esmalte cinzento com flores vermelhas, onde guarda o conduto; cortar o toucinho e a linguiça e o queijinho de cabra, ir ao tabuleiro do pão e levantar o pano de linho branco, tirar um pão, fazer sobre ele o sinal da cruz com o dedo e benzer-se, sentar-se numa cadeira a beber o café, junto ao fogo..."
"...Se não existe uma árvore suficientemente fiável para a origem de todas as línguas, também não é seguro que tenha havido uma só origem para a linguagem. A maior parte dos linguistas considera este último problema insolúvel. É um pouco como o problema de saber se houve uma só origem para a vida na Terra; muitos biólogos pensam que sim, uma vez que existe um único tipo de aminoácidos sintetizados pelas células vivas, quando poderiam existir dois, de estrutura química oposta. De qualquer modo, Greenberg chamou a atenção para o facto de existir pelo menos uma etimologia comum a todas as famílias linguísticas: trata-se da raíz tik, que pode indicar quer um dedo, quer o número um (uma variação semântica que não precisa ser explicada, se pensarmos o modo como indicamos o número um com um gesto); nalgumas línguas encontram-se outras mudanças semânticas que ainda parecem aceitáveis, por exemplo mão ou até braço. Em França tem-se doigt, que vem da raíz latina digit, em italiano dito, em português dedo.
"... É o frio, não estás realmente apertada, repetia Alice a si própria. Mas quanto mais o cume se aproximava, mais o aguilhão que trazia na bexiga penetrava na carne. Aliás, era algo mais do que isso. Desta vez ela estava prestes a não aguentar mais.
Teresa Castro D’Aire (pseudónimo de Teresa Mascarenhas) nasceu em Lisboa a 27-01-52.