Margarida Jácome Correia nasceu em Ponta Delgada em 1919 e faleceu em 1996, em Lisboa.06 março 2009
Margarida Jácome Correia
Margarida Jácome Correia nasceu em Ponta Delgada em 1919 e faleceu em 1996, em Lisboa.Figurações do olhar
In memoriam -Vieira da Silva, falecida a 6 de Março de 1992. Teria agora cem anos. A música é de Sérgio Assad.
Maria Helena não tem a simpatia pronta, por isso as entrevistas que dá embatem contra uma superfície lisa, um espelho onde tremem reflexos, onde se procuram teoremas. O repórter tenta desdobrá-la como um pano cuidadosamente enrolado, e sucedem-se os espaços neutros e, de certa maneira, as evasivas. Ela não confia nesse intuito de divulgação, porque o espírito humano não se divulga. A paz e o sofrimento não se divulgam; são fluidos depois de usados, e, no momento em que se praticam, não têm rosto e, assim, não se podem descrever.
É raro que as pessoas tenham esse respeito pelo essencial. Costumam escapar ao essencial e ocupar-se pormenorizadamente do acessório. E a vida parece nelas um tumulto de confabulações e artes, sem nada de resistente ou de culto. Aproximamo-nos da Maria Helena e ela pode olhar-nos como se fôssemos um objecto mais ou menos preciso mas que não atrai a curiosidade nem o afecto. Mas se tocamos esse registo do essencial, se houver em nós um risco, um alarme, ela actua e torna-se de repente incansável; algo mais do que amizade e incorrupção da aliança humana surge, como uma flor.
Agustina Bessa-Luís
Longos Dias Têm Cem Anos - Presença de Vieira da Silva, INCM, 1ª edição,1982
05 março 2009
A sedução da cor
No vale do Omo, Etiópia, a 800 Kms de Adis Abeba, perto da fronteira com o Quénia, existe um dos locais mais selvagens do continente africano. Aí se encontram várias tribos - Surma, Mursi, Hamer e outras - em que homens, mulheres, crianças e velhos são verdadeiros génios na arte da decoração corporal. Durante seis anos, Hans Sylvester fotografou alguns desses extraordinários corpos–telas com cerca de dois metros de altura.
A força da sua arte está em três palavras: dedos, rapidez e liberdade. Desenham com as mãos espalmadas, a ponta das unhas, por vezes com um pedaço de madeira, uma cana, um caule partido. São gestos ágeis, rápidos, espontâneos, para além da infância, nesse movimento essencial que os grandes mestres contemporâneos procuram quando, depois de muito saberem, tentam esquecer tudo o que aprenderam. Pintam(-se) apenas pelo desejo de se decorarem, de seduzirem, de serem belos, em jogo e prazer permanentes.
(de uma recensão ao livro Les Peuples de l’Omo, tradução do marcas.)
A justiça... cega(?)
A lei de Talião, "olho por olho, dente por dente", exige um castigo igual ao crime cometido.
A jovem, Ameneh Bahrami, que vive na cidade espanhola de Barcelona, onde foi várias vezes operada aos olhos e ao rosto, revelou ter rejeitado o pedido de piedade do seu verdugo, um companheiro de faculdade, que lhe implorou para não o deixar cego.
A jovem recordou que ele não teve nenhuma compaixão quando a esperou durante horas à porta do trabalho para queimá-la na cara e deixá-la cega, e acrescentou que ele será pelo menos mais "afortunado" do que ela: "Será anestesiado antes de lhe serem atiradas cinco ou dez gotas de ácido nos olhos - "será fácil para ele" - disse, inflexível. (Lusa).
04 março 2009
Espaço Público
O «debate» é necessariamente «fulanizado», o que significa que a personalidade social dos interlocutores entra como uma mais-valia de sentido e de verdade no seu discurso. É uma espécie de argumento de autoridade invisível que pesa na discussão: se é X que o diz, com a sua inteligência, a sua cultura, o seu prestígio (de economista, de sociólogo, de catedrático, etc.), então as suas palavras enchem-se de uma força que não teriam se tivessem sido escritas por um x qualquer, desconhecido de todos. Mais: a condição de legitimação de um discurso é a sua passagem pelo plano do prestígio mediático - que, longe de dissolver o sujeito, o reforça e o enquista numa imagem «em carne e osso», subjectivando-o como o melhor, o mais competente, o que realmente merece estar no palco do mundo. É de indiscutível actualidade e interesse a análise de José Gil sobre o "espaço público", ou seja, aquele que nos é trazido pelos jornais, rádios e tv. Porque num País com o grau de iliteracia que temos, é nessas fontes que, duma forma geral, se forma a opinião pública. Esta, é cada vez mais condicionada, manipulada e levada a ser oque em cada momento interessa a quem detém o poder sobre os mídia. E se o que interessa é ter uma visão de nós assente na infelicidade de sermos pequenos e periféricos, infelizes e sem reacção na sucessão de amargas e injustas derrotas, então seja essa a imagem a dar, a receber e a construir. Sobretudo porque essa é uma cultura propícia a sonhar com providenciais salvadores.
Por isto é tão necessário conhecer as opiniões que outros têm de nós. Aqui fica o convite para conhecerem duas reportagens surgidas há alguns meses no Canadá e em França, respectivamente, e que por cá só foram divulgadas na blogosfera... (creio)
E vejam se algum dos protagonistas destas histórias ("The little nation that could go green - and is" e "La révolution solaire passe par Amareleja") é vosso conhecido da tv, da rádio ou dos jornais...
http://www.cbc.ca/mrl3/8752/news/features/durham-portugal081020.wmv
Indignação
Que o Departamento de Estado dos E.U. A. diga o que diz, até se pode aceitar, à luz daquilo que é o desplante e a falta de vergonha dos torcionários. Agora, que os jornalistas portugueses transcrevam estas opiniões sem um pingo de indignação ou senso crítico é, pelo menos, inquietante.
Saúdo as opiniões e as notícias de Patrícia Fonseca e recomendo, a propósito, a leitura do post O senhor Reprieve.
03 março 2009
Falar com Deus...
02 março 2009
Homenagem
As mulheres e os homens nascidos em finais de 40 e durante os anos 50, e que iniciaram o seu combate político e cívico de juventude nas "eleições" de 69 e 73; que nos Congressos de Aveiro ouviram falar de um País novo, que contestaram a guerra - nas ruas e associações estudantis - e que, nos grupos de teatro, nos cineclubes e nos jornais, repudiaram a censura; esses que, em Abril de 74, pensaram que tudo seria possível, que cantaram, polemizaram, dançaram e, por fim, choraram um tempo que (se calhar) nunca deveriam ter sonhado...; os que, dessa geração, olham e sentem esse momento como único nas suas vidas e absolutamente estruturante das pessoas em que se tornaram, são hoje lembrados, de forma exemplar, aqui. Construindo os dias
As abelhas não fazem anos.
Nenhuma viveu um ano
para o poder fazer.
Com um dia de vida
qualquer abelha vai trabalhar.
Com dois já pode namorar
e com cinco casa e tem filhos.
Com vinte dias de vida
uma abelha está acabada:
é uma avelha.
Não fazem anos, as abelhas,
mas fazem dias
e às vezes mais de uma vez.
Para elas todos os dias
são dias de aniversário
e nesses poucos dias
passam anos, muitos anos.
Álvaro Magalhães, in O Brincador (ed.ASA 2005)
01 março 2009
Senhora do Pranto (poema-oração)

( imagem de Filipe Duarte Almeida)
Senhora do Pranto e do Vento
Ilha de Dor que navega
Feita longe numa vela
Ilha de barro dourado
Ilha de enganos profanos
Ilha de renda
Ilha lenda
Senhora do Pão e do Pranto
Ilha de Sal maravilha
Uma manta de mantilha
Labirinto pensamento
Carpideira cerzideira
Cheiro a café na soleira
Senhora do Pranto e do Riso
Cascata folar casamento
Teia de Helena tecida
Na rede de rede e matiz
Ponto ajour no diz que diz
Um andar de marinheiro
E um falar prazenteiro
Amode cantado jingado
Senhora do Riso e do Pranto
Evoé Ilha Evoé
Sete carris de lamento
Senhora do Pranto e Presságio
Evoé Ilha Evoé
E no beco pelo vento
Vem teu presságio naufrágio
A casa a cama a coragem
Castigo poeta perdido
Senhora de Má Maré
Evoé Ilha Evoé
Senhora do Negro Manto
Trazes no vento o lamento
Há uma noiva a chorar
Não vai haver casamento
O lugre ficou no mar
Senhora do Negro Manto
Cobres a noiva de Pranto
Senhora do Negro Manto
Senhora de Névoa e de Morte
Senhora do Pranto e do Vento
Senhora do Vento Norte
Evoé Ilha Evoé
Ilha minha meu olhar
Nela aprendi a coragem
E o valor desta viagem
Senhora Minha Coragem
Evoé Ilha Evoé
E há segredos por contar
Que guardo na minha alma
À deriva no teu mar
Numa arca de silêncio
Coberta com juramento
Senhora do Pranto e do Vento
Coberta com juramento
Numa arca de silêncio
Nossa Senhora do Pranto
Senhora do Pranto e do Vento
Espinhos(nossos)
(01/03/09) - Espinho (RTPN /10h)Para sempre
A 1 de Março de 1996, morreu, em Lisboa, o escritor português Vergílio Ferreira. Entre outras obras suas, destacamos: Manhã Submersa (1954), Aparição (1959), Nítido Nulo (1971), Conta-Corrente, cinco volumes (1980-1988). Para Sempre (1983), Até ao Fim (1987) e Pensar (1992).
Porque Escrevo?
Escrever. Porque escrevo? Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que só na escrita eu posso reconhecer, por nela recuperarem a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que é a primeira e a última que nos liga ao mundo. Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão.
Vergílio Ferreira, in Pensar
(mais informação aqui)
28 fevereiro 2009
Agustina

Posso dizer que acho a prosa de Agustina, no que diz respeito à crónica de costumes e contornos psicológicos, absolutamente saborosa e certeira. Juntamente com Camilo e o nosso Aquilino, será quem melhor conhece o nosso país, num tempo datado, é certo, mas a que voltamos sempre.
Descoberta
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade iria ser sempre clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
27 fevereiro 2009
À entrada de Março
pôr a música a tocar em preto-e-branco, criar a sintaxe do dia.
entrar pelo avesso numa velha camisola, e aquecer-se
à luz diagonal e extensa de uma janela comovida.
na melodia, fazer-se em novelo, embrulhar-se em rebuçado,
o queixo sobre os joelhos, o livro fechado.
toda a carícia devia ser
qualquer coisa como isto.
C.
Aprendizagem dos afectos
De início pensei que o rapaz segredara à rapariga qualquer coisa que a deliciou. Mas não. O gesto dela foi largo na tentativa de afastar o amigo – Está quieto, Mateus, não vês que me aleijas?!
O jovem insistia, impaciente, tentando beijá-la, tocar-lhe os seios, enfiando a mão desajeitada pelo decote da T-Shirt com uma falsa ternura que começava a incomodar quem parava à porta da pastelaria. A jovem, de braços cruzados sob o queixo, segurava com cada uma das mãos a alça contrária da mochila. – Vá lá, Soninha, não me curtes? – e roçava a face, ainda imberbe, nos cabelos dela, na testa dela, lutando contra o desaconchego dela. – Anda daí, tá? Não vês que tou cheio de tusa?A garota sacudiu-o, acossada na sua aparente fragilidade, e num gesto brutal lançou as mãos ao peito do rapaz, projectando-o contra a parede do edifício. – Pára lá com isso, pá, és mesmo bruto! Vai mas é curtir a bezana pra casa. Valia mais era ter ido à merda da aula.E desandou para o passeio contrário da estrada, em direcção à tabacaria, onde comprou uma caixa de Trident Ice azul, de mentol. Também reparei nisso.
O mancebo ainda a chamou, em gargalhada desafiadora: – Ó Sónia, dá aí uma pastilha!
Acabei o meu cigarro e entrei na pastelaria. Antes que me confundissem com algum figurante dos Morangos com Açúcar.
C.
26 fevereiro 2009
Piaf
Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do «ça ira»,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor e do mundo
Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida. Quem como ela perdeu
toda a alegria e toda a esperança
é que pode cantar com esta ciência
do desespero de ser-se um ser humano
entre os humanos que o são tão pouco.
Jorge de Sena, Poesia III
Edições 70,1989
25 fevereiro 2009
Fahrenheit 451
Fahrenheit 451 Em escuta...


Inesperadamente, o modo aleatório em que escutava o Media Player trouxe-me isto. Partilho-o convosco.
Kate Walsh (não a actriz de Anatomia de Grey, mas a cantautora britânica) lançou o seu primeiro álbum – Clocktower Park – aos vinte anos de idade.
Nascida em Burnham-on-Crouch, Essex, foi buscar ao parque principal da sua vila o nome para o seu primeiro trabalho discográfico, por considerar que este ponto de encontro reflectia as suas experiências enquanto jovem preocupada com o mundo e as emoções circundantes.
Lembro-me de a ter escutado, em Julho de 2004, num registo inicialmente mais acústico, na Ler Devagar, ainda no Bairro Alto, por altura da digressão promocional desse disco de estreia.
A voz doce, o ar de menina determinada e meia dúzia de canções melódicas eram o seu cartão de visita. Os temas It's Never Over, Animals on Fire ou Impressionable revelavam uma autenticidade e um descomprometimento de quem canta por prazer e fascínio pela poesia.
De resto, Clocktower Park é isso mesmo: um disco de poemas cantados.
Admiradora de Joni Mitchell, Jeff Buckley ou Aimee Mann, a cantora reconhece que foi sobretudo o talento de Tori Amos para a composição o que a levou a seguir o rumo musical.
Kate Walsh, com uma guitarra na mão e a juventude toda no sorriso, partilha as suas histórias com quem esteja disposto a ouvi-las, partilha as memórias dos tempos passados no largo de Burnham-On-Crouch e traz-nos até aos dias de hoje, por entre referências a quem mais admira na música, experiências e motivações. Sempre com um olhar sobre o futuro.
(mais aqui)





