24 março 2009

Dias de Estudante e a "Pós Modernidade"

"Comunicado
Lisboa, 26 de Março de 1962

Colega: Efectuou-se anteontem o maior atentado de sempre contra a autonomia da Universidade e a dignidade dos professores e alunos. Por ordem do Governo foi encerrada a Cantina Universitária, passando-se por cima do Sr. Reitor, das Associações e da Comissão Administrativa da dita Cantina.
Camiões da polícia, transportando centenas de polícias de choque, armados de pistolas metralhadoras, tomaram a Cidade Universitária. Tudo isto, para que lá se não realizassem os Colóquios e o jantar de confraternização do Dia do Estudante."
24 de Março de 2009
Ouvido na TSF no noticiário das 07,30h:
Questionado pela jornalista sobre as justificações da palavra de ordem de recusa às Avaliações Nacionais ("Exames Nacionais não queremos nunca mais"), o Dirigente da Escola Emídio Navarro de Almada elencou várias. Destaco as duas primeiras que referiu:
- A minha mãe não fez Exames Nacionais...
- A professora de História também não fez Exames Nacionais......

23 março 2009

Revistas Femininas


São todas, ou quase todas iguais.
Começam com cremes de beleza contra rugas e outras epidemias, depois vêm os adelgaçantes, os spas e muitos, muitos segredos de beleza: como colocar o baton, as bases, as sombras, com exemplos, marcas e até amostras.
Seguidamente, as dietas, muitas, variadas.
Os médicos nutricionistas dão palpites, conselhos e preços.
Ah, e as plásticas - pôr, tirar, corrigir. Preços, locais, créditos, testemunhos do antes e depois.
No meio disto tudo, anúncios, anúncios, anúncios.
É então que vem o artigo de fundo: como reconquistar o seu marido, como satisfazer as suas fantasias, como surpreendê-lo.
Aqui, eis a lingerie, o maior glamour, às vezes roçando o mau gosto : mulheres lindíssimas e magrérrimas desfilam , mostram, escondem.
Marcas, lojas, marcas.
É altura dos acessórios - sapatos, malas, sapatos, jóias, perfumes.
E marcas, amostras, marcas.
Bom, depois disto tudo, como acabam as revistas femininas?
Com receitas, receitas, receitas. Manjares deliciosos.
E finalmente?
Finalmente os restaurantes, belos, chiquérrimos.
E anúncios, anúncios , anúncios!

Lisboa - Porto na Linha do Norte (na era pré TGV)


- bistes que só havia Bentleys e Porches parados à porta do Restaurante?
- foi … e as motas que ele tinha na garagem… tudo alta potência…
- … a mais fraca era a mota 4… diz que é para andar no monte…
- … e a mulher?.... Passa o dia nos cavalos… bistes que, chegámos, foi no cabriolet e só voltou à noite…
-.. ele diz que ela só gosta dos cavalos…
- pois foi… e disse que lhe tinha comprado os bichos para ela se entreter…
- tipo “queres cavalos? Pega lá os cavalos” (eh,eh,eh)
- ele é que sabe... agora ficou distribuidor único, não foi?
- claro, despediu o sócio…
- ele é que sabe… disse que, na Roménia, gastava no pequeno almoço o salário mínimo…
-… bem, só o jantar de ontem foi uma pipa… nem olhou duas vezes prá conta
- tás a ver, o abacaxi era 2 euros a rodela… bem, no Porto, às vezes chega a 1 e meio…
- mas olha que as entradas, ontem, eram praí 40 euros cada pessoa…biste?
- ... e o mais caro num foram as águas (eh,eh,eh)
- o gajo é porreiro… muita porreiro… e biste como o tratavam no restaurante?
- claro, eles sabem quem manda … e a banda?...altamente.
- gostei muito... no Porto não temos nada assim, ... é uma aldeia…
- não sei, o Porto tu já conheces…é por isso que o style já não te atrai.
- talvez… mas Lisboa está muito avançada
- atão não, é uma cidade europeia, carago… é isso.
- é isso.
- sabes, mas nós também estivemos neste fim de semana num nível superior…
- é mesmo (eh,eh,eh) temos que vir mais vezes pra estar com o gajo.
- bistes que só havia Bentleys e Porches parados à porta do restaurante?

22 março 2009

Momentos

- Sr. Romeu, temos de pensar em fazer um tratamento mais agressivo… Vai, talvez, debilitá-lo bastante.
- O Dr. é que sabe, mas eu sinto-me bem. As dores quase desapareceram… mas acha que as coisas estão más?
- ... Piores, sim. Os exames indicam progressão, séria… esta será a melhor forma de tentar travar. Mesmo assim, mesmo com uma maior agressividade, não é garantido que se ganhe muito, mas é a única possibilidade. Por isso acho que temos de tentar. Quer que conversemos com a sua mulher? Toda a ajuda é útil, serão momentos difíceis… Ela não tem vindo…?
- Não, é melhor não. A conversa, quero dizer. Não tem vindo comigo porque está “desmemoriada”, confunde-se muito, tenho de estar sempre de olho nela, às vezes vou buscá-la à rua ou os vizinhos trazem-na a casa… um pouco perdida, sabe… Tem alturas em que me cumprimenta de manhã e logo de seguida diz: “então, e tu, quem és?” não serve de nada conversar com ela… tive de pôr etiquetas em muitas coisas da casa, para ela as reconhecer… escondi a torradeira…
- Já da última vez que a vi aqui me pareceu estranha… nem perguntou pelas suas análises.
- É…fechou-se naquele mundo. Às vezes vem “cá”, parece de novo o que era antes…mas é muito rápido. Volta de novo àquele falar esquisito, repete palavras, coisas sem nexo. Por isso, Dr., não sei se estou preparado para os tratamentos… como vê, não a posso deixar sozinha. Agora mesmo, tive de pedir à minha irmã que lá ficasse um bocado, mas ela não tem muita paciência e tem a vida dela. Mas também, na sua opinião, o tratamento não vai adiantar muito…
- Atrasa a evolução, na nossa opinião. Ganham-se alguns meses…talvez
- Sim, mas fico sem poder tomar conta dela durante esse tempo...
- Provavelmente…
- Então, já vê…
- E os filhos… ajudam?
- O meu rapaz faleceu naquele acidente na auto-estrada há 2 anos, lembra-se? A minha filha está longe…, foram viver para a Austrália. Falamos uma vez por semana ao telefone. Antes dela ficar assim, entusiasmámo-nos e comprámos um computador para estarmos ligados, falar com os netos mais vezes…, mas agora tenho arranjado desculpas para que não fiquem preocupados por sentirem a Avó neste estado. Mas estou contente com a decisão deles, têm uma vida boa, muito melhor do que aqui. Pena é não estarmos juntos….
Bom, vou ter de dar uma desculpa para adiar a nossa ida lá, que estava prevista para o fim do ano… Por ela, percebe?
R.V.C. (à conversa em Março 09)

Lifting "à la carte"

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Um negócio obsceno

Os 38 apartamentos de luxo construídos no edifício que foi a sede da PIDE, em Lisboa ("um edifício com história" que, diz a imobiliária, se mostra "novamente orgulhoso da sua herança") estão a ser vendidos convidando os compradores a "reviver tempos de esplendor" e um passado de "luzes a reflectirem-se nas pratas do aparador e nas vestes de gala de cavaleiros e damas".

A suja história de sangue e horror do edifício e os gritos de dor de milhares de portugueses que as "velhas e nobres paredes com um metro de espessura" abafavam, são agora, pelo turvo milagre da usura, uma memória doirada, transbordante de festas e de bodas, e de duques, príncipes e embaixadores. Num país onde o dinheiro compra tudo, até a memória colectiva, os antigos torturadores tornaram-se "copeiros e gentis homens" ao serviço de ricaços e recém-chegados ansiosos por reconhecimento. Bem pode o poeta clamar que "com usura homem algum terá casa de boa pedra" e que "com usura, pecado contra a natureza,/ sempre teu pão será rançosa côdea"; os usurários não têm pesadelos nem temem fantasmas. O esquecimento é o seu "estilo de vida".

crónica de Manuel António Pina, no JN de hoje

21 março 2009

A Carta De Bruges

O Infante D.Pedro, filho de D.João I e irmão de D.Duarte, foi regente do reino, após a morte deste.
Antes disso, porém, faria uma longa viagem pelo mundo, as sete partidas, ficando assim como o mais culto e cosmopolita da época. A viagem duraria dez anos.
De Bruges, em 1427, o infante escreve a seu irmão a famosa Carta de Bruges, um breviário político, no qual recomenda a aliança entre o poder e a sabedoria.
Critica a falta de cultura da administração do estado português e diz: é a cultura que traça um horizonte de felicidade, na qual o poder é um meio e não um fim.
Mais fortes são as noções que se impõem pela cultura e prestígio dos seus colégios e universidades e aponta como exemplo as de Paris e Oxford.
Demonstra ter ideias muito certas sobre política financeira, militar, judicial e eclesiástica.
Aconselha que se acentue o bem geral do país contra os interesses privados.
Por essas e por outras, será assassinado em Alfarrubeira.

O Papa Bento, os fortes e os outros

...uma pequenina luz indecifrável

20 março 2009

Onde está o futuro?

«O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, portugueses, só vos faltam as qualidades.»
(Almada-Negreiros)

procurar a continuação aqui

Depois de uma discussão acesa sobre os destinos da educação (que não temos) em Portugal, resolvi ouvir o que me faltara da entrevista que o ex-ministro das Finanças de Soares deu à SIC, no passado dia 9.
Ok, os depoimentos catastrofistas de Medina Carreira têm alimentado uma certa cultura do pessimismo que nos é familiar e que acentuam a apagada e vil tristeza em que o país anda mergulhado. As soluções que apresenta – não o são. São queixas, cuja principal característica é o facto de constituírem dificuldades. E ao que parece sem soluções à vista. É claro que diz verdades insofismáveis - a da falta de rigor, exigência e discplina na educação, e aqui foi bastante assertivo quanto ao tamanho do pedregulho na bota do governo - a base de tudo é, sem dúvida, a educação.

Mas nada do que o sr. ex-ministro disse foi novidade. Assumindo o papel de pessimista de serviço, Medina Carreira veio enfatizar o que todos nós, de forma rumorosa ou em altos berros, dizemos pelo menos uma vez por dia, cinco vezes na semana (os que têm sorte).
Todavia, sublinhou não só os problemas que ele sabe que nós sabemos que o governo sabe; não só o nosso espírito infantil ao encarar os destinos do país como uma brincadeira; não apenas o nível rasteiro (sic) da economia actual, equivalente ao dos últimos anos da monarquia.

O que o sr. ex-ministro disse é que a colectividade não tem a noção dos problemas.
O que o sr. ex-ministro quis dizer é que 9.900.000 portugueses não pensam.

Se só existisse o que é susceptível de ser pensado, poderíamos descansar: se os portugueses não pensam é porque os problemas não existem, portanto os portugueses não têm problemas, porque ninguém pode ter uma coisa que não existe.
Ó senhores, os portugueses andam iludidos – os problemas não existem!
Excepto quando Medina Carreira é entrevistado na SIC por um grande Mário Crespo de fraco contraditório. E que ainda ouviu o remoque: quando os senhores arranjarem um programa de uma hora para a gente conversar...

(Com mais meia hora de entrevista e tinhamos engolido a tal noção em dose dupla. Depois, era ver quem chegava primeiro à Boca do Inferno, lá para Cascais, para mergulhar nas ondas. Ao menos tinhamos a certeza de morrer com alguma finesse.)

Que seja bem vinda!

O que vale a pena


Em Abrantes, afinal, há muita coisa que não está como dantes...

19 março 2009

Banqueiros e políticos



Há uma crise financeira? Portugal está em crise? Então estamos perdidos!
Claro que não. Apenas significa que não podemos contar com os políticos, coisa que a História nos ensina desde a primeira dinastia.
Mas sigamos a lição do nosso Primeiro que, desde que a crise é crise, não pára de sorrir. O que não deixa de ser simultaneamente estranho e cómico.
Como diz Ionesco, o cómico é a intuição do absurdo. E assim sendo é mais desesperante do que o trágico. E o povo intui. O povinho sabe e não tem vontade de rir. Por isso precisa de quem ria por ele, para se sentir confiante.

Vasa


Vasa Museum

Era uma vez um rei. Chamava-se Gustavo Adolfo (1594-1632) e reinava num pequeno e pobre país do Norte da Europa. A Suécia, era o País, e, durante o século XVII, sob sua influência, passou de "pequeno país "a grande potência regional no Báltico.

A Guerra dos 30 anos (1618-1648) começou por ser um conflito religioso (localizado à Alemanha) entre a Igreja Católica e o movimento da Reforma. Entretanto surgem conflitos "laterais", um dos quais a guerra entre a Polónia e a Suécia (1626-1629) e é no decurso desta que se dá um episódio com expressão na actualidade.

O rei Gustavo Adolfo encarrega o seu maior estaleiro de construir o melhor barco de guerra alguma vez ali feito: longo, estreito e rápido como nenhum. Capaz de transportar 300 soldados. Por imposição do rei, a meio da construção, houve indicação para duplicar o poder de fogo, passando a 64 canhões. No dia 12 de Agosto de 1628 a população de Estocolmo e os embaixadores estrangeiros assistiam, nas praias, à viagem inaugural do Vasa.

Após sair do Porto o navio fez uma saudação com uma salva de tiros de canhão. Alguns segundos depois, o barco começou a inclinar-se para um dos lados sob a força do vento e, rapidamente, a água entrou no interior através da janelas dos canhões. O afundamento deu-se em poucos minutos, ficando o navio enterrado no lodo a mais de 30 metros de profundidade.
Em 1957 iniciaram-se os trabalhos de escavação submarina para trazer o Vasa à superfície. O trabalho ficou concluído em 1961 e o resultado está hoje patente num dos mais fascinantes museus do mundo.
O barco está agora reconstruído com todo o detalhe após um laborioso trabalho de pesquisa e reconstrução.
A história regista também que o rei ordenou um "rigoroso inquérito" às causas da tragédia. Concluiu-se que o excesso de peso decorrente da imposição (real) para colocação de mais armas fora determinante mas, quanto a apontar responsáveis, o inquérito foi "inconclusivo"...

18 março 2009

"I just call..."

No avião a mulher já tinha chamado a atenção pelo seu estilo histriónico, um sotaque cerrado de Rio Tinto, gargalhada gutural e pulseiras com som de castanholas que pareciam orientar o minúsculo marido sempre que ele desesperava por não a ver.
De repente, no autocarro, quando tudo parecia mais calmo, aquela voz rasga a noite e desperta subitamente os passageiros ensonados:

- MENA, TÁS OUBIR, MENA?!

(som do telemóvel em "alta voz"):

- Tou sim, tás boua?

- TOU.... MENA?

- Sim?

- TOU NA SUÉCIA!

- Ahnn... e é bonito?

- NUMM SEIE... É DE NOITE!!!

e ria, ria, ria sem parar...

Frango na passadeira...

Um frango atravessou a estrada. Mas. . . Porque é que o frango atravessou a estrada?


CRIANÇA
- Porque sim.
ADOLESCENTE
- Porque queria.
PROFESSORA PRIMÁRIA
- Porque queria chegar ao outro lado da estrada.
PLATÃO
- Porque procurava alcançar o bem.
ARISTÓTELES
- É da natureza dos frangos cruzar a estrada.
ZÉZÉ CAMARINHA
- Porque viu uma galinha sedutora, do outro lado.
MARX
- O actual estágio das forças produtivas exigia uma nova classe de frangos, capazes de cruzar a estrada.
MOISÉS
- Uma voz vinda do céu bradou ao frango: "Cruza a estrada". E o frango cruzou a estrada e todos se regozijaram.
MARTIN LUTHER KING
- Eu tive um sonho. Vi um mundo no qual todos os frangos serão livres para atravessar a estrada, sem que sejam questionados os seus motivos.
SHAKESPEARE
- Atravessar ou não atravessar, eis a questão… Morrer é dormir… sonhar, talvez.
MAQUIAVEL
- A quem importa o porquê? Estabelecido o fim de cruzar a estrada, é irrelevante discutir os meios que utilizou para isso.
MANUELA MOURA GUEDES
- Boa noite eu sou a Manuela Moura Guedes e este é o Jornal Nacional. Esta manhã, um frango atravessou uma estrada correndo o risco de ser atropelado. Temos aqui no estúdio uma prima em segundo grau de um vizinho do dito frango com quem vamos conversar…
GALILEU
- Contudo, ele move-se.
FREUD
- A preocupação com o facto de o frango ter cruzado a estrada é um sinal de insegurança sexual.
DARWIN
- Ao longo de grandes períodos de tempo, os frangos têm sido seleccionados naturalmente, de modo que agora têm uma predisposição genética para atravessar estradas.
JOSÉ RÉGIO
- Não sei por onde vai, não sei para onde vai, sei que não vai por ali...
EINSTEIN
- Se o frango cruzou a estrada ou a estrada se moveu sob o frango, depende do ponto de vista.
FEMINISTA
- Para humilhar a franga, num gesto exibicionista, tipicamente machista, tentando convencê-la de que, enquanto franga, jamais terá habilidade suficiente para atravessar a estrada.
NIETZSCHE
- Ele deseja superar a sua condição de frango, para tornar-se um superfrango.
MARCELO REBELO DE SOUSA
- Essa questão, a meu ver, é muito simples, apesar de depender de determinados factores que passo a enunciar (45 minutos de prelecção)... E para terminar aconselho a leitura do livro…
CHE GUEVARA
- Hay que cruzar la carretera, pero sin jamás perder la ternura...
NEIL ARMSTRONG
- One small step for chicken, one giant leap for mankind.
FERNANDO PESSOA
- Se não atravessasse era uma besta sadia, um cadáver adiado que procria.
SÓCRATES (o filósofo)
- Só sei que nada sei.
SÓCRATES (o outro)
- O meu governo foi o que construiu mais passadeiras para frangos. Vou confirmar aqui no Magalhães.
SURFISTA:
- O bicho atravessou, men... Bicho altamente. Demaaaaais.. Yaaah...
HOMEM:
- Eu acho... Maria, vai lá ver pra onde vai aquele frango, que estão aqui a perguntar...

(adaptadação do Marcas)

Quanto Morre um Homem

foto de Carlos Romão


Quando eu um dia decisivamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará nelas as linhas do teu rosto?
Quem dará o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro estações?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?

Ruy Belo, in Aquele Grande Rio Eufrates

16 março 2009

Voilà ton petit Paris


Com quinze anos, fui para Paris frequentar o Collège Nerlandais.
Levava uma mala cheia de sorrisos e os olhos bem abertos.
No comboio, carregado de emigrantes, compartilhei a esperança com o pão duro das Beiras, das malas de cartão.
Eu, jovem rangée em viagem para o estudo e a descoberta, eles com as mãos e os braços de aluguer.
Duas partidas, dois destinos, num país que se esvaziava na guerra e na emigração.

Não esquecerei nunca essa cidade, nem os rostos ansiosos dos meus compatriotas, expectantes, com cestas amontoadas de roupas pobres.
À chegada, alguém me disse:

-Voilà ton petit Paris.

Estiagem

Vão ser precisas gerações e muitos anos de educação e trabalho para dar à dignidade e à ética foros de cidadania. Pestilento tudo isto que envolve (desta vez) o irmão de um ex Ministro e o aparelho do Ministério da Educação.

Boa semana!!!


São 70 bailarinos misturados com passageiros e estes acabam interagindo nas danças.
O show foi planeado e ensaiado durante 8 semanas, sem o conhecimento do público. Seja para publicidade ou não, o efeito é linnnnndo! Até dá vontade de dançar.

Eastwood

Uma fotografia da América profunda, dilacerada por intensos conflitos raciais, sociais e religiosos.

Clint Eastwood, fabuloso, criando um "duro" em fim de vida, carregado de preconceitos e obsessões, mas que vê no encontro com um jovem asiático seu vizinho a forma de se redimir duma culpa antiga que o atormenta.

A não perder.


15 março 2009

Matubera

Ser Matubera é um estado de alma:pássaros azuis que voam na noite.

De manhã abriu os olhos e viu os narcisos amarelos ainda frescos. Pensou nele.
Fora embora, deixando um rasto de mistério.
Fora embora para o seu castelo e podia imaginá-lo a brincar com smarties coloridos, ou a navegar por um mar de teclas e de sites, esses brinquedos.
Fechou a porta devagar.
Ele a brincar com teclas coloridas, ela construindo histórias de princesas, sentada numa nuvem, balouçando os pés e rindo muito, quando olha para baixo e vê o mundo-a-sério, cheio de seres a pensar que vivem, muito atarefados e plenos de certezas.
Eles, pelo contrário, não existem.
São pássaros azuis que voam na noite.

Quaresma

A magnífica irrupção primaveril que nos atinge não deve fazer esquecer as obrigações. Sobretudo porque, se o hoje é o 3º Domingo da Quaresma, tempo dedicado à reflexão, à penitência e ao jejum, é ao mesmo tempo, e surpreendentemente, o Dia do Consumidor.
Claro que consumidor, diz o dicionário, é "aquele que consome", "que gasta", "que absorve"... mas pode ser "o que causa consumição","o que mortifica","o que apoquenta".
É talvez aqui, na mortificação, que podemos encontrar a coerência com as determinações da Santa Madre Igreja para a época que atravessamos.
Porque este é o tempo de nos consumirmos nos campos, semeando o nosso trigo, a nossa aveia e a nossa cevada (sobretudo nas terras onde houver menos geada).
E de nos mortificarmos, combatendo o oídio na nossa vinha e também vacinando os nossos porcos contra as doenças rubras.
Finalmente, é o tempo de nos apoquentarmos na poda.
Podar as nossa árvores de fruto é um must indiscutível este mês, sobretudo no Minguante. O minguante, para quem não saiba, vai, neste mês, de dia 18 a 26 (que é o Dia do Livro Português).
Não esquecer, portanto, podar as frutíferas. Até porque, "quando não se poda até Março, vindima no regaço" (diz o nosso povo).
Bom dia. Boas podas.

14 março 2009

Chorinho

Coffee Painting

O Choro, também conhecido por Chorinho, é uma centenária música popular e instrumental brasileira.
Os músicos, compositores e instrumentistas são conhecidos por chorões. A música, caracterizada por um ritmo agitado e alegre, evidencia o virtuosismo e o improviso dos executantes.
Considerada a primeira música popular urbana típica do Brasil, o chorinho surgiu provavelmente em meados do séc XIX, no Rio de Janeiro, e era então considerada apenas uma forma abrasileirada de os músicos da época fazerem a fusão dos ritmos estrangeiros que lhes chegavam, sobretudo da Europa e de África. Hoje, é uma das expressões musicais mais importantes do Brasil.
Na execução, gealmente fazem solo a flauta, o cavaquinho ou o bandolim, que são acompanhados pelos violões.
De realçar o Ciclo de Choros de Heitor Villa-Lobos, considerado muito significativo na música erudita.

Excelente para uma madrugada de sábado!


Enganos

Lemos isto:
O presidente executivo da Mota Engil, Jorge Coelho, afirmou hoje que Angola é um mercado com "forte potencial de crescimento", tendo o grupo uma carteira de investimentos na ordem dos 300 milhões de dólares por ano.
"Somos angolanos, pois estamos há 60 anos neste país que tem um forte potencial de crescimento, nomeadamente ao nível das obras públicas e infraestruturas rodoviárias", disse o responsável.

ou isto:

A Caixa escolheu Daniel Chambel para presidir o Banco Caixa Geral Totta Angola, instituição que resulta de uma parceria da CGD com o Santander Totta, a Sonangol e dois investidores locais.

mas também isto:

Sindika Dokolo, de 35 anos e casado com Isabel dos Santos filha do Presidente de Angola, é um dos nove membros do conselho de administração da Amorim Energia, "holding" sedeada na Holanda e que controla um terço do capital da petrolífera Galp Energia.

ou isto:

O Banco de Portugal já concedeu a licença ao BIC Portugal, o primeiro banco nacional com maioria de capital angolano. Liderada por Mira Amaral, ex-ministro da Indústria de Portugal, a instituição vai expandir-se para o Porto.

Não, não se diga que serviu para alguma coisa útil a solidariedade nos momentos difíceis, o ter tomado partido, acreditado, lutado e arriscado.
Assistimos agora a este desfile pornográfico de cumplicidades, arranjos, negociatas e entendimentos e, para além da náusea, para lá da imensa mágoa que nos chega, não podemos deixar de sentir, bem no fundo e, hoje, com uma imensa e firme convicção, que... não valeu a pena.
Foram um tempo e uma energia perdidos.
Enganámo-nos, porra!

13 março 2009

A Pluma Caprichosa



Em silêncio, fazendo rolar as palavras na cabeça

como pedras soltas na cisterna vazia,escuto alguém,

entre pausas e arrebatamentos, falar do amor e da

morte e das ilhas que são as mulheres no tempo

curto dos homens.

Clara Ferreira Alves

Mares

Tomam formas incertas quase ausentes
Em seu redor as grutas de mil cores
E a cor das águas toma a cor das flores
E os animais são mudos, transparentes.
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

O Nuno vai ao fundo do mar e traz-nos poemas. De cor,luz e sombra.

Viver no campo

Enquanto escrevia o post anterior, e ainda tinha os campos verdejantes na cabeça, lembrei-me de uma série cómica - Green Acres - que passou na RTP no início da década de 70, creio. Um advogado bem sucedido e sua mulher mudavam de Nova Iorque para a aldeia remota de Hooterville, onde quase todos os habitantes eram ... peculiares, digmos.
Oliver Douglas, o advogado, aparece ao longo da série como referência do senso comum, enquanto a esposa, Lisa Douglas (Eva Gabor), nos deixa sempre na dúvida se o que vemos é o resultado de uma notável representação ou não... Estou em crer que não se tratava de uma dumb blonde, seja lá o que isso significa para muito boa (e fina) gente.

A série era hilariante. Não percam a cena da chaleira, que é um mimo.

Eco-friendly lifestyle

O canal Animal Planet, da rede Discovery, produziu uma série de filmes de animação dedicados a promover um modo de vida mais ecológico. A sustentabilidade, simples e divertida, para miúdos e graúdos em The Animals Save The Planet. Verdades que todos já sabemos, claro...

(clique na imagem e veja todos os videos na parte inferior do écran)

(Numa amena sexta-feira de Março, em véspera de fim-de-semana, com um céu tão azul e o aroma das tílias pelo ar, só apetece ir para o campo, de facto. E lá os animais são outros, pelos vistos.)
Nota: nenhum animal ficou magoado na produção deste site!

12 março 2009

Censura


Segundo a Organização Repórteres Sem Fronteiras, num relatório hoje divulgado, há um conjunto de países (12) onde os governos procuraram transformar a Internet em Intranet, impedindo as populações de aceder à informação on line vinda do estrangeiro.
Os nomeados são: Arábia Saudita, Birmânia, China, Coreia do Norte, Cuba, Egipto, Irão, Síria, Tunísia, Turquemenistão, Uzbequistão e Vietname.
Um segundo grupo de países têm a Internet "sob vigilância", são eles: Austrália, Bielorrússia, Bahrein, Coreia do Sul,Emiratos Árabes Unidos, Eritreia, Iémen, Malásia, Sri Lanka, Tailândia e Zimbabwe.
Há, actualmente, 69 pessoas detidas por fazerem apenas o que todos nós fazemos quotidianamente com a mesma naturalidade com que respiramos.
Sejamos solidários, informando, divulgando e repudiando.
Pelo menos

11 março 2009

Arena

Picasso

".... A vida está com os cornos desembolados; enquanto grandes toureiros a enfrentam na arena, eu, na fasquia, observo como ela marra. Quero aprender com eles a voltear bem a capa ou a colhida é certa."
Sebastião Alba in Albas

Piazzola

Ástor Piazzola nasceu em 11 de Março de 1921 (faleceu em 4 de Julho de 1992).
Faria hoje 88anos.
Músico de formação clássica, estudou aos 12 anos, quando vivia com a família em Nova Iorque com o pianista Bela Wilda (discípulo de Rachmaninov) com quem, disse, aprendeu a amar Bach.
Conhece ainda na adolescência, depois de regressar com os pais à Argentina, Carlos Gardel e nasce então a sua atracção pelo tango.
Em 1936 fixa-se em Buenos Aires onde integra orquestras de tango tocando Bandoneon. Continua os estudos de música clássica, sobretudo Bartok e Stravinsky. Em 1953 compõe a obra sinfónica "Buenos Aires", que vence um prémio nacional o que lhe possibilita uma bolsa de estudo em Paris com Nadia Boulanger. É esta célebre professora de música que o estimula a desenvolver a sua formação de compositor na área do tango e de intérprete de bandoneon.
A partir daí é um enorme caminho de sucesso e inovação, incorporando nas suas composições o jazz, a bossa nova e, mesmo, o rock.
Adios Nonino é das mais importantes composições que tem. Foi feita em homenagem ao pai Vicente "Nonino" Piazzola quando este faleceu.


Mãe

(Almada)
Mãe é quem anda sempre a semear flores por onde passa.
Semear é dar o que queremos receber.
Querer é obrigar os desejos a fazer ginástica.
(Who´s Who)

10 março 2009

O Homem do arame

Coragem (do Lat. cor, coração). Firmeza de espírito, energia diante do perigo; intrepidez; ânimo; valentia; perseverança.
Qualquer que seja o conceito que cada um tenha para Coragem, nele cabem certamente os feitos de Philippe Petit, designadamente a travessia do espaço entre as Torres Gémeas (a cerca de 500 metros de altura) andando sobre um arame estendido entre os dois edifícios.Sobre este acontecimento, de 25 de Agosto de 1974, foi feito um Documentário premiado com um Óscar este ano de 2009.

É, pelo menos, útil conhecer alguém que sente que há desafios que merecem ser vencidos. Se são os mais úteis, sobretudo do ponto de vista social e colectivo é outra questão. Mas que é preciso coragem, isso é.




Prendi o Tempo



(Dali)

Como te disse, hoje meti o tempo dentro de uma caixa, dei-lhe corda e deixei-o a falar sózinho.
Acho que Deus não gostou, embora se enterneça com tanta invenção.
Estaria disposta a parar o dia, mas o sol não faz caso e amanhece.
Tenho esperança que a lua se revolte, e não mais queira ser a sentinela atenta e prateada.
Se o tempo fugir da caixa, só temos uma solução:
Pedir boleia a um cometa louco e chegar ao futuro, bem depressa.

09 março 2009

Bispos

A notícia já correu mundo. No Brasil, uma menina de nove (9) anos, estuprada e seviciada regularmente pelo padrasto, engravidou de gémeos. Os médicos de uma maternidade pública do Recife, que lhe aplicaram medicamentos a fim de interromper a gravidez de alto risco, e a mãe da menor por ter autorizado o aborto, foram excomungados pelo Arcebispo de Olinda e Recife. O Vaticano, através da Comissão Pontífica para a América Latina, apoiou e subscreveu a decisão do Arcebispo.
Não é, entretanto, conhecida qualquer opinião destes senhores com eventuais reparos ou condenações a quem abusa sexualmente de crianças, as agride e explora ou aproveita e usa a miséria em que vivem para as utilizar em toda a espécie de tráficos.

Para aliviar a náusea, recordemos um outro Arcebispo de Olinda e Recife. D. Hélder da Câmara , combatente da liberdade nos anos de chumbo da ditadura brasileira. Ficam aqui as suas palavras, quando disse um dia: ..."O que fizemos com a mensagem de Cristo? De que maneira a multidão dos pobres, dos excluídos, dos marginalizados, dos sem-casa, dos sem-terra, dos sem-nada, pode acreditar que o Criador é o Pai que os ama, se nós, que nos dizemos cristãos, que temos mais, continuamos a deixar o prato deles vazio, embora nos declarando em favor da Paz e do Amor?"...

O seu substituto foi mais longe do que ele alguma vez imaginaria. Não só mantém o prato dos excluídos vazio, como os persegue, prende, molesta e atormenta.

A Casa de Sophia e de Ruben

O Ruben e eu éramos primos direitos.
Vivemos e brincámos juntos nas mesmas casas,
nos mesmos jardins.
Sobretudo naquela casa da nossa avó.
Para uma criança,aquela casa
e aquele enorme jardim com os altíssimos plátanos,
as tílias
os carvalhos ao lado do ténis, as camélias,
o roseiral, o pomar, as adegas, o pinhal, os morangos selvagens,
eram um mundo,
um reino que em nós permanece
como uma inesgotável memória inspiradora
(Sophia de Melo Breyner Andresen)

A Casa

Sophia de Mello Breyner Andresen e Ruben Andresen Leitão tiveram em comum uma família, uma infância e uma casa.
A casa é hoje, juntamente com o enorme parque que a envolve,
no Campo Alegre, no Porto, o Jardim Botânico da cidade.




07 março 2009

Banksy

Banksy
Nascido em Bristol, pensa-se que em 1975, Banksy foi expulso da escola e preso por pequenos delitos. Conhecido como "artista de rua", a sua identidade é incerta, dá entrevistas e faz da transgressão e da provocação uma constante das suas obras, carregadas de intervenção social e política.
Segundo diz, nem a família sabe do seu trabalho: "pensam que sou decorador e pintor".
Recentemente colocou no parque de diversões Disney uma estátua-réplica de um prisioneiro de Guantánamo.

Remakes

As recentes cartas de demissão de dois destacados dirigentes cubanos, Carlos L. Dávila e Felipe Pérez Roque , após críticas públicas de Fidel, são, numa leitura objectiva, uma reedição de outras cartas de abjuração, cujo significado foi há muito condenado pela História. Pelo significado e interesse político, ético e social destes comportamentos, aqui se assinala e recorda.
No final da II Guerra Mundial, Arthur Koestler publicou em França um romance (O Zero e o Infinito) que se torna um sucesso imediato e que tem um impacto tremendo na sociedade francesa e europeia. A obra teve como inspiração os Julgamentos de Moscovo que, nos anos 30, tinham "julgado" e condenado inúmeros homens íntegros em processos forjados.
No livro, narra-se a história de um velho e honesto revolucionário, preso e forçado a confessar uma culpa que nunca teve, mas que aceita fazê-lo como uma última tarefa para o seu Partido...
Atente-se ao diálogo final, antes da confissão, entre Rubachov e o seu verdugo Gletkin, que, aliás, fora seu discípulo.

"- a sua facção, cidadão Rubachov, foi vencida e destruída. Queria provocar uma cisão no Partido, sabendo embora, que uma cisão no Partido significaria a guerra civil...... a imperiosa necessidade de união dentro do Partido. Deve estar como fundido num molde - cheio de disciplina cega e confiança absoluta. Você e os seus amigos, cidadão Rubachov, abriram uma brecha no Partido. Se o seu arrependimento é real, tem de nos ajudar a colmatar a brecha. Já lhe disse, é o último serviço que o Partido lhe pede.
Camarada Rubachov, espero que tenha compreendido a tarefa que o Partido lhe confia.
Era a primeira vez que Gletkin chamava a Rubachov "camarada". Rubachov ergueu rapidamente a cabeça......o queixo tremia-lhe ligeiramente enquanto punha a luneta de mola.
- Compreendo
- Estava errado e terá de pagar camarada Rubachov. O Partido só lhe promete uma coisa: depois da vitória, um dia, quando isso já não for prejudicial, o material dos arquivos secretos será publicado. Então o mundo saberá o que estava por trás deste espectáculo de "robertos" que temos de fazer, de acordo com os manuais da história..."

Arthur Koestler, O Zero e o Infinito, Europa América 1973

... e já o soubemos. Afinal, não foi preciso esperar pela vitória (que não veio...) e, talvez por isso mesmo, conhecemos como o fizeram. Os porquês, continuaremos a descobri-los.

06 março 2009

Margarida Jácome Correia

Margarida Jácome Correia nasceu em Ponta Delgada em 1919 e faleceu em 1996, em Lisboa.
Filha do Marquês Jácome Correia, viveu uma infância muito atribulada, pela opressão de uma família aristocrática e riquíssima de Ponta Delgada.
A casa de família, o Palácio de Santa Luzia ,é hoje a sede da Presidência Regional dos Açores.
Sob enorme influência dos fortes traços de carácter do pai e do extremo conservadorismo da mãe, Margarida conseguiu romper com toda sociedade hipócrita da ilha e da época, adoptando atitudes sociais de contestação, sendo (por isso) internada como doente mental na Suiça, donde fugiu após longo sofrimento.
Mulher culta, frequentou os grandes espaços culturais da época, mas teve uma vida muito atribulada, em constantes sobressaltos afectivos, pela sua sede de ternura e extrema sensibilidade.
Só no final da vida encontrou junto do seu grande amor, Vitorino Nemésio, numa forte cumplicidade e ternura.
Foi justamente o grande escritor que a incentivou a escrever as suas memórias, reunidas em dois volumes intitulados - AMORES DA CADELA "PURA"- (ed. Bertrand).
Estas memórias, escritas com grande intimidade com o leitor, são assombrosamente verdadeiras, num relato pungente das mais ímpares experiências humanas.


Figurações do olhar

In memoriam -Vieira da Silva, falecida a 6 de Março de 1992. Teria agora cem anos. A música é de Sérgio Assad.

Maria Helena não tem a simpatia pronta, por isso as entrevistas que dá embatem contra uma superfície lisa, um espelho onde tremem reflexos, onde se procuram teoremas. O repórter tenta desdobrá-la como um pano cuidadosamente enrolado, e sucedem-se os espaços neutros e, de certa maneira, as evasivas. Ela não confia nesse intuito de divulgação, porque o espírito humano não se divulga. A paz e o sofrimento não se divulgam; são fluidos depois de usados, e, no momento em que se praticam, não têm rosto e, assim, não se podem descrever.

Todas as vezes em que procurei Maria Helena porque eu estivesse doente, ou desanimada (como foi o caso, em 1965, de eu pensar em deixar o País), aí deparei com a verdadeira presença que não se distrai, não vagueia, não ilude. Maria Helena reage às coisas concretas e essenciais com uma prontidão admirável.
É raro que as pessoas tenham esse respeito pelo essencial. Costumam escapar ao essencial e ocupar-se pormenorizadamente do acessório. E a vida parece nelas um tumulto de confabulações e artes, sem nada de resistente ou de culto. Aproximamo-nos da Maria Helena e ela pode olhar-nos como se fôssemos um objecto mais ou menos preciso mas que não atrai a curiosidade nem o afecto. Mas se tocamos esse registo do essencial, se houver em nós um risco, um alarme, ela actua e torna-se de repente incansável; algo mais do que amizade e incorrupção da aliança humana surge, como uma flor.


Agustina Bessa-Luís
Longos Dias Têm Cem Anos - Presença de Vieira da Silva, INCM, 1ª edição,1982

05 março 2009

A sedução da cor

No vale do Omo, Etiópia, a 800 Kms de Adis Abeba, perto da fronteira com o Quénia, existe um dos locais mais selvagens do continente africano. Aí se encontram várias tribos - Surma, Mursi, Hamer e outras - em que homens, mulheres, crianças e velhos são verdadeiros génios na arte da decoração corporal. Durante seis anos, Hans Sylvester fotografou alguns desses extraordinários corpos–telas com cerca de dois metros de altura.

A força da sua arte está em três palavras: dedos, rapidez e liberdade. Desenham com as mãos espalmadas, a ponta das unhas, por vezes com um pedaço de madeira, uma cana, um caule partido. São gestos ágeis, rápidos, espontâneos, para além da infância, nesse movimento essencial que os grandes mestres contemporâneos procuram quando, depois de muito saberem, tentam esquecer tudo o que aprenderam. Pintam(-se) apenas pelo desejo de se decorarem, de seduzirem, de serem belos, em jogo e prazer permanentes.

(de uma recensão ao livro Les Peuples de l’Omo, tradução do marcas.)

A justiça... cega(?)


Uma mulher iraniana de 30 anos que em 2004 ficou cega quando um pretendente lhe atirou ácido à cara por não o ter aceite como marido, decidiu aplicar a lei de Talião autorizada pela legislação do Irão ao seu verdugo.
A lei de Talião, "olho por olho, dente por dente", exige um castigo igual ao crime cometido.
A jovem, Ameneh Bahrami, que vive na cidade espanhola de Barcelona, onde foi várias vezes operada aos olhos e ao rosto, revelou ter rejeitado o pedido de piedade do seu verdugo, um companheiro de faculdade, que lhe implorou para não o deixar cego.
A jovem recordou que ele não teve nenhuma compaixão quando a esperou durante horas à porta do trabalho para queimá-la na cara e deixá-la cega, e acrescentou que ele será pelo menos mais "afortunado" do que ela: "Será anestesiado antes de lhe serem atiradas cinco ou dez gotas de ácido nos olhos - "será fácil para ele" - disse, inflexível. (Lusa).


Há, por certo, momentos em que, para nós, ser justos é apenas apaziguar o ódio.
Mas manda a prudência, a justiça, e é um avanço civilizacional, que as vítimas não sejam juízes nem carrascos.

04 março 2009

Espaço Público

O «debate» é necessariamente «fulanizado», o que significa que a personalidade social dos interlocutores entra como uma mais-valia de sentido e de verdade no seu discurso. É uma espécie de argumento de autoridade invisível que pesa na discussão: se é X que o diz, com a sua inteligência, a sua cultura, o seu prestígio (de economista, de sociólogo, de catedrático, etc.), então as suas palavras enchem-se de uma força que não teriam se tivessem sido escritas por um x qualquer, desconhecido de todos. Mais: a condição de legitimação de um discurso é a sua passagem pelo plano do prestígio mediático - que, longe de dissolver o sujeito, o reforça e o enquista numa imagem «em carne e osso», subjectivando-o como o melhor, o mais competente, o que realmente merece estar no palco do mundo.
José Gil, in 'Portugal Hoje - O Medo de Existir' (aqui)

É de indiscutível actualidade e interesse a análise de José Gil sobre o "espaço público", ou seja, aquele que nos é trazido pelos jornais, rádios e tv. Porque num País com o grau de iliteracia que temos, é nessas fontes que, duma forma geral, se forma a opinião pública. Esta, é cada vez mais condicionada, manipulada e levada a ser oque em cada momento interessa a quem detém o poder sobre os mídia. E se o que interessa é ter uma visão de nós assente na infelicidade de sermos pequenos e periféricos, infelizes e sem reacção na sucessão de amargas e injustas derrotas, então seja essa a imagem a dar, a receber e a construir. Sobretudo porque essa é uma cultura propícia a sonhar com providenciais salvadores.

Por isto é tão necessário conhecer as opiniões que outros têm de nós. Aqui fica o convite para conhecerem duas reportagens surgidas há alguns meses no Canadá e em França, respectivamente, e que por cá só foram divulgadas na blogosfera... (creio)

E vejam se algum dos protagonistas destas histórias ("The little nation that could go green - and is" e "La révolution solaire passe par Amareleja") é vosso conhecido da tv, da rádio ou dos jornais...

http://www.cbc.ca/mrl3/8752/news/features/durham-portugal081020.wmv

http://www.youtube.com/watch?v=34LFLakXPo4

Indignação

(The New Yorker)

O relatório sobre Direitos Humanos do Departamento de Estados dos EUA revela que em Portugal os Direitos Humanos continuam a não ser respeitados. Segundo o documento, os principais problemas são os abusos da polícia e dos guardas prisionais, as más condições nas cadeias, a violência doméstica e o tráfico de mão-de-obra e de mulheres.

Que o Departamento de Estado dos E.U. A. diga o que diz, até se pode aceitar, à luz daquilo que é o desplante e a falta de vergonha dos torcionários. Agora, que os jornalistas portugueses transcrevam estas opiniões sem um pingo de indignação ou senso crítico é, pelo menos, inquietante.

Saúdo as opiniões e as notícias de Patrícia Fonseca e recomendo, a propósito, a leitura do post O senhor Reprieve.

03 março 2009

Falar com Deus...


Hoje ouvi uma notícia bastante curiosa.
Um holandês, com alguma imaginação e sentido das oportunidades, abriu uma linha telefónica de valor acrescentado em que as pessoas são convidadas a falar com Deus.
As pessoas ligam e atende uma voz-a dele, certamente:

-Bom-dia. Está a falar com Deus.
Neste momento não posso atender. Queira deixar a sua mensagem.
E as pessoas deixam as suas súplicas, os seus anseios, sei lá.

E o holandês factura!

02 março 2009

Homenagem

As mulheres e os homens nascidos em finais de 40 e durante os anos 50, e que iniciaram o seu combate político e cívico de juventude nas "eleições" de 69 e 73; que nos Congressos de Aveiro ouviram falar de um País novo, que contestaram a guerra - nas ruas e associações estudantis - e que, nos grupos de teatro, nos cineclubes e nos jornais, repudiaram a censura; esses que, em Abril de 74, pensaram que tudo seria possível, que cantaram, polemizaram, dançaram e, por fim, choraram um tempo que (se calhar) nunca deveriam ter sonhado...; os que, dessa geração, olham e sentem esse momento como único nas suas vidas e absolutamente estruturante das pessoas em que se tornaram, são hoje lembrados, de forma exemplar, aqui.
Indispensável.

Construindo os dias

Aniversários

As abelhas não fazem anos.
Nenhuma viveu um ano
para o poder fazer.

Com um dia de vida
qualquer abelha vai trabalhar.
Com dois já pode namorar
e com cinco casa e tem filhos.
Com vinte dias de vida
uma abelha está acabada:
é uma avelha.

Não fazem anos, as abelhas,
mas fazem dias
e às vezes mais de uma vez.
Para elas todos os dias
são dias de aniversário
e nesses poucos dias
passam anos, muitos anos.

Álvaro Magalhães, in O Brincador (ed.ASA 2005)

01 março 2009

Senhora do Pranto (poema-oração)


( imagem de Filipe Duarte Almeida)

Senhora do Pranto e do Vento
Ilha de Dor que navega
Feita longe numa vela
Ilha de barro dourado
Ilha de enganos profanos
Ilha de renda
Ilha lenda
Senhora do Pão e do Pranto

Ilha de Sal maravilha
Uma manta de mantilha
Labirinto pensamento
Carpideira cerzideira
Cheiro a café na soleira
Senhora do Pranto e do Riso

Cascata folar casamento
Teia de Helena tecida
Na rede de rede e matiz
Ponto ajour no diz que diz
Um andar de marinheiro
E um falar prazenteiro
Amode cantado jingado
Senhora do Riso e do Pranto

Evoé Ilha Evoé
Sete carris de lamento
Senhora do Pranto e Presságio
Evoé Ilha Evoé
E no beco pelo vento
Vem teu presságio naufrágio

A casa a cama a coragem
Castigo poeta perdido
Senhora de Má Maré

Evoé Ilha Evoé
Senhora do Negro Manto
Trazes no vento o lamento
Há uma noiva a chorar
Não vai haver casamento
O lugre ficou no mar

Senhora do Negro Manto
Cobres a noiva de Pranto
Senhora do Negro Manto
Senhora de Névoa e de Morte
Senhora do Pranto e do Vento
Senhora do Vento Norte

Evoé Ilha Evoé
Ilha minha meu olhar
Nela aprendi a coragem
E o valor desta viagem
Senhora Minha Coragem

Evoé Ilha Evoé
E há segredos por contar
Que guardo na minha alma
À deriva no teu mar
Numa arca de silêncio
Coberta com juramento
Senhora do Pranto e do Vento

Coberta com juramento
Numa arca de silêncio
Nossa Senhora do Pranto
Senhora do Pranto e do Vento


Clara Sacramento

Espinhos(nossos)

(01/03/09) - Espinho (RTPN /10h)

Jornalista 1: -"Estamos à porta do local onde decorre a votação para a Direcção do Partido Socialista. Como é conhecido, concorrem 2 Listas e a fila para votar já tem muita gente. Aguarda-se hoje também com expectativa o discurso de encerramento do Congresso que José Socrates irá fazer. Estamos a ver, na fila de votação, o Dr. Jaime Gama...que encabeça uma das Listas... Vamos ouvi-lo...
Sôtor! Sôtor, ...Bom dia!

Jaime Gama: - "Bom dia"

Jornalista 1: "Sôtor, acha que o Eng. José Sócrates, no discurso de encerramento, vai responder à oposição?".

Jaime Gama (caminhando): "Bom dia"...

Jornalista 1: "Sôtor, Sôtor, Acha que José Sócrates.....

Jaime Gama (seguindo): "Bom dia, Bom dia."

Jornalista 1: ..."e ouvimos Jaime Gama... a desejar bom dia ... mais nada por agora. A reportagem volta para ti..."

Jornalista 2: "...ok, prosseguimos daqui onde temos perto de nós 3 crianças que vieram espreitar o Congresso. Vamos perguntar à mãe se são 3 socialistas em potência..."


.......(bem, vou ouvir o Paulo Bento e o Jesualdo)

Para sempre


A 1 de Março de 1996, morreu, em Lisboa, o escritor português Vergílio Ferreira. Entre outras obras suas, destacamos: Manhã Submersa (1954), Aparição (1959), Nítido Nulo (1971), Conta-Corrente, cinco volumes (1980-1988). Para Sempre (1983), Até ao Fim (1987) e Pensar (1992).

Porque Escrevo?

Escrever. Porque escrevo? Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que só na escrita eu posso reconhecer, por nela recuperarem a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que é a primeira e a última que nos liga ao mundo. Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão.

Vergílio Ferreira, in Pensar
(mais informação aqui)