10 outubro 2009

Design português no Guggenheim NYC

No Sackler Center for Arts Education, do Museu Guggenheim, em Nova Iorque, um projecto português faz parte dos trabalhos finalistas apresentados ao concurso Design It: Shelter Competition. O desafio era o de construir, em 3D, um abrigo para qualquer lugar do mundo. Cerca de 600 concorrentes de 68 países submeteram ao júri os seus trabalhos. Estudantes da Frank Lloyd Wright School of Architecture seleccionaram dez para o Prémio People's Price. O concorrente português é David Mares, um jovem de 26 anos, cujo percurso se pode descobrir aqui. Não percam os links e, já agora, não deixem de votar.



Agradeço ao Paulo Mendes a partilha desta excelente informação. Com um abraço.

Escutas na Presidência

Segundo A.C., repórter privado do Marcas, houve, efectivamente, escutas no Palácio de Belém.


09 outubro 2009

As mãos e os donos delas


Os cirurgiões, enquanto grupo, aderem a um igualitarismo curioso. Acreditam na prática, não no talento.
As pessoas frequentemente presumem que temos de ter grandes mãos para sermos cirurgiões, mas não é verdade. Quando fui entrevistado para entrar em programas de cirurgia ninguém me mandou coser, ou fazer um teste de destreza, ou verificar se as minhas mãos eram firmes. Nem sequer é preciso ter os dez dedos para se ser aceite. (…). Os professores dizem que a cada dois ou três anos vêm uma pessoa verdadeiramente dotada – alguém que atinge capacidades manuais complexas invulgarmente depressa, vê o campo operatório como um conjunto, apercebe-se de problemas antes que eles aconteçam. Mesmo assim, os Cirurgiões Assistentes dizem que o que é mais importante para eles é encontrar pessoas meticulosas, diligentes e suficientemente teimosas para continuarem a praticar uma coisa difícil dia e noite, anos a fio. Como me disse um professor de cirurgia, se tivesse de escolher entre um doutorado que tivesse clonado um gene com muito esforço e um escultor de talento, escolheria o primeiro. (…) A competência, acreditam os cirurgiões, pode ser ensinada, a tenacidade não. É uma estranha abordagem ao recrutamento, mas é sempre assim, até nas categorias profissionais mais altas, mesmo em serviços cirúrgicos excelentes. Pegam em alguns favoritos sem nenhuma experiência cirúrgica, passam anos a formá-los e depois estabelecem a maior parte da sua competência a partir dessas fileiras criadas por si.
E resulta. Actualmente, já existem muitos estudos sobre executantes de elite – violinistas internacionais, grandes mestres do xadrez, patinadores no gelo profissionais, matemáticos e por aí fora – e a maior diferença que os investigadores encontram entre eles e outros executantes de menor qualidade é a quantidade de prática que eles acumularam deliberadamente. Na verdade, o talento mais importante poderá ser o talento para a própria prática. K. Anders Ericsson, um psicólogo cognitivo e perito em desempenho, comenta que a manifestação mais importante do papel dos factores inatos pode ser a motivação que alguém tem para se lançar numa formação contínua. Descobriu, por exemplo, que os executantes de topo gostam tão pouco de praticar como os outros (é por isso que os atletas e os músicos desistem de praticar depois de se reformarem), mas possuem uma força de vontade para continuar a praticar superior à dos outros.

Atul Gawande, in A mão que nos opera, Lua de Papel, 2007

Uma visão puramente técnica do gesto, o de curar como o de criar, pode levar-nos a alguns exageros. O livro de Atul Gawande, que agora revisitei, prende o leitor, sobretudo se tem interesse pelo mundo médico, por dois aspectos principais: um, a clareza com que fala dos temas mais sérios e complexos. Outro, pela forma séria e empenhada com que trata a difícil questão do erro em medicina e, por consequência, da responsabilidade médica. No entanto, o texto acima transcrito é controverso. Sobretudo ao despir de qualquer envolvimento pessoal aquele que pratica o acto. Ou seja, reduz o cirurgião, que é, antes de tudo médico, a um mero executante - operador - que, desde que pratique o acto com rigor, tem o sucesso do seu gesto garantido. Ora, uma intervenção cirúrgica tem um tempo prévio de preparação e um tempo posterior de acompanhamento que exigem um forte envolvimento pessoal e, nestes vários momentos, como num concerto de piano ou na pintura duma tela, é preciso que, a par do rigor técnico,esteja presente a alma do artista.

08 outubro 2009

Nobel

A escritora alemã, de origem romena Herta Müller recebeu o prémio Nobel da Literatura 2009.

Herta Müller nasceu em 1953 e, segundo a Academia Sueca tem uma escrita onde se "retrata o universo dos desapossados".
Müller está publicada em Portugal com “O homem é um grande faisão sobre a terra”, editado pela Cotovia, e “A terra das ameixas verdes”, publicado pela Difel.
Nascida na Roménia, aldeia de Nitzkydorf, que hoje já se declarou em festa, estudou alemão e literatura romena na sua terra natal e trabalhou depois como tradutora numa fábrica de Timisoara, antes de ser demitida das suas funções em 1979 por se ter recusado a colaborar com a polícia política de Nicolae Ceaucescu.
Vive na Alemanha desde 1987.
Pessoalmente teria preferido Roth ou Auster, mas isso sou eu que não estou na Academia Sueca. Agora, há que ler e conhecer Herta Müller.


Outra medalha ... (assim, ficamos vaidosos)


A delicadeza e a simpatia do Bichocarpinteiro são inesgotáveis. Austeriana entrega-nos agora mais uma (inesperada) distinção.
Tem sido um enorme prazer tê-la como "comentadora" regular dos nossos posts. São escritos recheados de inteligência, sensatez e conhecimento, o que tem feito com que cresça, em nós, o desafio para os criar e publicar. Isto são razões para lhe enviarmos um grande obrigado pela atribuição do Selo, convidando quem nos lê a conhecer o Bichocarpinteiro.

Temos, de acordo com o Regulamento, de responder a quatro perguntas e enviar Selo e perguntas a três blogues, avisando os destinatários.
Quanto às Perguntas, aqui estão, com as respectivas respostas:


1) Se o azul não existisse de que cor pintaria o céu?
Acho difícil que existisse Céu, sem haver azul. Seria como existir um mar sem água. Mas se, caso absurdo, não houvesse azul, iria arranjar um arco íris em bom estado e propunha-lhe que se dilatasse, alargasse e se fosse transformando num imenso céu colorido.

2) Há um mar vago. Onde o põe?
Punha-o no deserto mais próximo e fazia uma nova praia.


3) Se encontrar um sonho perdido o que é que lhe faz?
Procurava o dono para lho devolver. Deve ser péssimo perder um sonho.


4) Ir por aqui ou por ali. Qual a escolha?
A escolha não é fácil. Acho que começo por rejeitar essa obrigação de escolher. Por que não ir por aqui até um certo momento e depois passar a ir por ali, até acharmos que está na hora de ir por acoli... afinal, não é isto que fazemos sempre na vida?

Os destinatários que escolhemos:

07 outubro 2009

28, 968192 Km de livros



Uma manhã solarenga de Outono em Nova Iorque convida a andar.
Descendo a Broadway em direcção a Greenwich Village, no cruzamento com a rua 17, desembocamos na Union Square onde, à 2ª, 4ª 6ª e ao sábado, decorre um esplêndido mercado de rua que permite comprar produtos alimentares trazidos do campo e ali vendidos directamente pelos produtores. É também um espaço aproveitado por artistas "alternativos" para exporem e venderem as suas obras.
...
À distância de um olhar, imersa na confusão do trânsito, mas distinta pela cor do toldo , está a Strand Bookstore.
O nome foi-lhe dado a partir da rua que, em Londres, alberga dezenas de livrarias, alfarrabistas e editoras.
A Strand de Nova Iorque foi fundada em 1890 e é a sobrevivente de uma fileira de 48 livrarias que ocupavam todo aquele quarteirão. A publicidade define-a como a loja com 18 milhas (de livros)...
O que se nota é que é um sólido espaço de cultura, ancorado numa experiência recheada de modernidade, onde apetece estar e ficar, misturando-nos com as centenas de visitantes e compradores que deambulam pelos corredores recheados de livros até ao tecto.
A consulta posterior que fizemos ao site da Strand trouxe-nos a informação de que se pode comprar livros pela net , como em qualquer outra livraria actual, mas aqui existe uma outra modalidade (quiçá fruto do seu subtítulo...): pode-se comprar livros "a metro de estante" - meio metro de livros de arte, ou de História ou 1 metro e meio de Culinária, Ficção, Biografias...
No melhor pano cai a nódoa.

05 outubro 2009

The White Ship, de Hector Lemieux

Vale mesmo a pena ver o filme
Em 1966, Hector Lemieux, da televisão canadiana, faria este documentário, de cerca de quinze minutos, sobre a faina a bordo do Santa Maria Manuela.
Glória aos grandes hérois da pesca à linha. Em memória desses ilhavenses.
Pesca do Bacalhau

Na pesca do bacalhau, tudo era duplamente complicado. "Maus tratos, má comida, má dormida... Trabalhavam vinte horas, com quatro horas de descanso e isto, durante seis meses. A fragilidade das embarcações ameaçava a vida dos tripulantes", dizia Mário Neto, um pescador que viveu estes episódios e pode falar deles com conhecimento de causa.
Quando chegava à Terra Nova ou Gronelândia, o navio ancorava e largava os botes. Os pescadores saíam do navio às quatro da manhã e só regressavam à mesma hora do dia seguinte, com ou sem peixe e uma mínima refeição: chá num termo, pão e peixe frito. No navio, o bacalhau era preparado até às duas ou três da manhã. Às cinco ou seis horas retomava-se a mesma faina. Isto, dias e dias a fio, rodeados apenas de mar e céu.

Teresa Reis, "A pesca do bacalhau"
____________________________________
A pesca do bacalhau realizada pelos pescadores portugueses na Terra Nova e Gronelândia, encontra-se intimamente associada à saga das navegações e descobertas, datando do séc. XIV. Há registo da partida, da ilha do Faial, de Diogo, de Teive em 1452. A partir da viagem dos Corte-Real, em meados do século XVI, foi elaborado o Planisfério de Cantino, onde se divulgava um primeiro mapa menos fantasioso dessas regiões (Terra Nova e Labrador) e com o qual a navegação se tornou mais segura e maior a presença portuguesa na pesca do bacalhau.

Em 1504 havia na Terra Nova colónias de pescadores de Aveiro e de Viana do Minho. Em 1506 um dos principais portos bacalhoeiros era Aveiro. Entre 1520 e 1525 existiu, na Terra Nova, uma colónia de pescadores de Viana do Minho que se dedicava à pesca sedentária - pescavam e secavam o peixe ali mesmo. A permanência ia de Abril a Setembro.

No reinado de D. Manuel I (1465-1521) Aveiro foi o porto que mais navios enviou para a Terra Nova (cerca de 60 naus) e em 1550 saíram cerca de 150 naus. O período de dominação dos Filipes (1580-1640) levou quase à extinção da pesca do bacalhau (em 1624 não havia qualquer barco nos portos de Aveiro). A recuperação da Pesca do Bacalhau só se faz no séc. XIX. Até lá, 90% do consumo interno do bacalhau é importado. Em 1830 foram criados incentivos à pesca com a extinção do pagamento dos dízimos e com a construção de 19 barcos.

Sem alterações notórias, através dos séculos, a tripulação dos Bacalhoeiros era composta por:
· Capitão
· Piloto
· Marinheiros (pescadores)
· Cozinheiro
· 1 ou 2 moços (mais recentemente passaram a ser 6, 8 ou 10) conforme a capacidade do navio.

Entre os marinheiros - pescadores, a divisão era:
Escalador
Salgador
Simples pescador
"Os verdes" (os que se iniciavam na faina)

Havia tripulantes com funções específicas: troteiro, cabeças, porão, garfo, celhas, etc. E muitos estão enterrados num cemitério em St. John's, do qual ninguém fala, e que nem sequer atrai visitantes.
As iscas usadas eram amêijoas, lulas.... Só na década de 20, apareceu a assistência aos barcos feita por 2 barcos a vapor - Carvalho Araújo, em 1923, e Gil Eanes, em 1927.

O atraso português no processo de industrialização determinou que esta pesca se prolongasse pelo século XX (até 25 de Abril de 1974) com base numa tecnologia ultrapassada: pesca à linha de mão, munida dum único anzol, a bordo dos dóris, pequenas embarcações individuais de fundo chato e tabuado rincado, com um comprimento de 4 a 5 metros e 80 a 100 Kg de peso, apoiando-se nos tradicionais veleiros de madeira. Tratava-se, contudo, de uma técnica de pesca bastante menos agressiva dos recursos dos que as redes de emalhar ou de arrasto.
Em 1934 foi feita a organização corporativa da Indústria Bacalhoeira. Planeou-se uma grande reorganização da Pesca do Bacalhau, através de:

Empréstimos do Estado a armadores portugueses
Criação da Comissão Reguladora do Comércio do Bacalhau e da Cooperativa dos Armadores de Navios de Pesca do Bacalhau entre outras.
Renovação da frota
Desenvolvimento da Pesca do Arrasto

Mas em Portugal continuou-se a insistir na pesca à linha. Os últimos grandes veleiros foram construídos em 1937: Argus, Santa Maria Manuela e Creoula, mas poucos anos se mantiveram nesta faina. A última viagem dum lugre - o Gazela Primeiro - ocorreu em 1969. As capturas tinham começado a diminuir e em 1974 a situação estava num caos. Era difícil recrutar pescadores, que preferiam emigrar, o que lhes proporcionava menos sofrimento e melhor perspectiva de vida. O total de barcos era então de 55, sendo 5 de pesca à linha, 13 com redes de malha e 37 de arrasto.

Créditos: texto parcialmente adaptado de História da Pesca do Bacalhau
Foto de Henri Lumieux
Quem tiver curiosidade, pode seguir os links que salpicam o texto.

04 outubro 2009

Richard Avedon no SFMOMA



Richard Avedon (1923-2004) é considerado um dos mais geniais fotógrafos americanos do século XX.
A sua obra é marcada pela inovação e por uma originalidade muito especiais. Iniciou-se nos anos 40 na fotografia de moda, onde associou, de forma pioneira, o movimento às imagens dos modelos. Os seu trabalhos iniciais são publicados na revista Harper's Bazaar. Mais tarde continuou a carreira na Vogue.O seu maior destaque surge através da revista Rolling Stone onde nos finais dos anos 60 e na década seguinte produz fotografias de marcada originalidade dos maiores ícones da cultura pop.
O trabalho de Avedon é quase exclusivamente constituído por retratos que transmitem de forma acentuada o seu olhar pessoal.
Avedon dizia que, como fotógrafo, não era um observador, mas um criador e isso é patente na sua obra. Sobre fundos quase sempre brancos ou cinzentos,sem qualquer fundo natural, as pessoas são fotografadas em planos grandes ou médios, num intencional contraste entre a simplicidade do fundo com a complexidade do "objecto".
A possibilidade de conhecer a obra completa de Avedon na mostra actualmente patente no S. Francisco Museum Of Modern Art (SFMOMA) pode ser enriquecida se se fizer uma visita orientada.
Ser guiado por uma senhora de 80 anos, fotógrafa amadora, conhecedora profunda de fotografia, pintura e literatura americana e voluntária no museu para esta tarefa foi uma experiência inesquecível.

Gracias

*

Mercedes Sosa
(9 de Julho de 1935 - 4 de Outubro de 2009)

*Mercedes Sosa Todo Cambia

03 outubro 2009

Uma casa com histórias e mulheres dentro




Aproximamo-nos da "casa" atravessando um jardim verde e arborizado, de uma simplicidade quase infantil, como a dos desenhos que ilustravam as histórias tradicionais. Depois o edifício, as cores,  numa harmoniosa arquitectura tangente a esse imaginário.
Ainda que se tenha visto vezes sem conta, é sempre impressionante o poder interpelador dos quadros, dos desenhos, da obra de Paula Rego. A sedução da cor vai dando lugar à perplexidade, pela força com que as imagens provocatoriamente recusam os estereótipos, num love affair with tradition, como diz Germaine Greer, uma das analistas do trabalho da pintora.
Na Casa das Histórias há "histórias visuais" com mulheres dentro - anjos-demónios, grotescas, insurrectas, desamparadas, mulheres-bichos, sublimes - e toda a ironia que desconstrói a imagem do feminino segundo  um processo de parodização profundamente ideológico.
Em entrevista a Melanie Roberts, por altura de uma exposição colectiva que reuniu oito pintoras inglesas em torno do tema "From the Interior. Female Perspectives on Figuration", disse a artista:
As minhas pinturas são pinturas feitas por uma artista mulher. As histórias que eu conto são histórias que as mulheres contam. O que é isso de uma arte sem género? Uma arte neutra? Isso não faz sentido, pois não? (...) Há histórias à espera de serem contadas, e que nunca o foram antes. Têm a ver com tudo aquilo sobre o que jamais se ousou tocar - a experiência das mulheres.

Confesso que sei pouco sobre o "olhar masculino" em torno de quadros como, por exemplo, o Mulher-Cão, mas aquando da minha visita, pude perceber alguns comentários, feitos por homens, de franca repulsa. Que terão eles visto, no quadro, de tão desagradável? Verão o mesmo que as mulheres que dizem, também, que "é horrível"?
Relembro aqui as palavras da pintora, citadas pela Professora Ana Gabriela Macedo, no JL de 19 de Maio de 1999, sobre essa figuração da mulher:
A "Mulher-Cão é a coisa que eu tenho mais orgulho de ter feito, porque é uma mulher sozinha, mas que ainda morde. Uma mulher só, num canto, contra a parede, que não pode fugir, mas que arreganha o dente e que morde! Morde até ao fim, luta até ao fim, apanha pancada, mas lá vai lutando sempre! E depois, essa "Mulher-Cão" apareceu, "apareceu-me"! Essas coisas acontecem, não é? E então eu pensei, esta mulher vai levar-me a sítios onde eu nunca fui, vai ser o meu guia. E assim foi. E comecei através da "Mulher-Cão" a tocar partes da minha vida que eu não tinha tido nunca coragem, nem oportunidade de fazer, nem sabia como lá chegar. Mas com ela, lá fui fazendo: o "Bad Dog", a humilhação, o amor, a lealdade e a submissão cúmplice das mulheres, um certo masoquismo das mulheres, no amor e na traição … O casamento é uma espécie de mortalha, não é? É a "mulher-bicho" que tem força através da sua animalidade, é a parte física, dos instintos, que é muito importante! O silêncio tácito das mulheres, a sua "endurance" e o seu sentido de honra.

Toda a força pode criar medo.

02 outubro 2009

Resistir ou não resistir... às tentações

Em maré de trabalho, numa busca sobre questões ligadas à falta de resiliência, a formas de negociação, superação de conflitos interiores, etc., deparei-me com isto. Um mimo. Não resisti à tentação de partilhar. Eu, pecadora, me confesso.

Casa dos Livros

*


Localizada numa esquina da Broadway com a Columbus Avenue, depois de se passar por imensos cafés italianos com esplanadas cheias de gente, na zona de North Beach, em S. Francisco fica a City Lights Bookstore. São 3 pisos cheios de livros, cultura e afectividade.
Por entre estantes e mesas cheias de livros há cadeiras confortáveis - na cave há mesmo 2 ou 3 bancos de jardim - e, nas paredes, cartazes convidam Have a seat and read a book. Do piso térreo chega-se por uma escada a uma sala ampla no 1º piso, com uma secretária junto a uma janela por onde entra luz a jorros. Na secretária um dístico: Poetry Room.
A City Lights Bookstore foi fundada pelo poeta Lawrence Ferlinghetti em 1953.
É considerada uma das poucas editoras independentes dos Estados Unidos, mas o seu maior mérito foi ter sido o local de convívio da que ficou conhecida por geração Beat.
Jack Kerouac, amigo de Ferlinghetti publicou nela a sua obra On The Road e todos os autores ligados àquele movimento tiveram aqui acolhimento.
Ao lado da livraria, atravessando uma rua estreita, fica o café Vesúvio, espaço único de convívio e tertúlia, com paredes forradas de fotografias, pinturas e textos poéticos.
A rua (que separa / liga) chama-se Jack Kerouac.

* Bob Dylan (frequentador da City Lights) Blowin' In the Wind

01 outubro 2009

Postais de Viagem

*

Há uma praça luminosa no centro de S. Francisco, a Union Square. Pouca gente sabe a razão do nome, embora este tenha um valor simbólico para os Estados Unidos. Foi aqui se realizaram importantes comícios políticos que trouxeram apoio popular à causa do Norte, progressista, durante a Guerra Civil Americana (1861-65).Na sequência desse apoio, a Califónia juntou-se à União no combate contra as forças da Sessão.
Nessa época enfrentaram-se duas forças antagónicas: o Norte, industrializado, defensor do desenvolvimento económico e de valores que implicavam o fim da escravatura e o Sul, composto por 11 Estados, partidários do liberalismo económico e da escravatura, que declararam a secessão da União, não aceitando a eleição de Lincoln.
....
Hoje viveu-se um magnífico dia de Verão na Union Square. As esplanadas estiveram apinhadas de gente que saboreou o sol até a noite chegar, enquanto uma banda country nos deliciou com as baladas dos anos 60, distanciando-nos, por horas, de um sítio onde há um presidente com medo, um computador vigiado e não sei o quê dos mails.


* Scott McKenzie, If You Go to S. Francisco (1967)

30 setembro 2009

"Notas & Neurónios" ou o poder da escala pentatónica



O que nos faz acreditar que a linguagem musical está "internalizada" e pode ser antecipada por qualquer um de nós.
Bobby McFerrin assegura que, onde quer que ele faça este show, as pessoas produzem os mesmos sons. Conclusão: todos nascemos a saber música. O problema é que só uma minoria é estimulada a desenvolver essa capacidade artística.
Bobby McFerrin  é conhecido pela sua enorme extensão vocal (até quatro oitavas), pela habilidade de usar a voz para criar diversos efeitos e ainda por ser capaz de entoar o canto difónico (produção de intervalos harmónicos e acordes a partir de uma só voz), prática muito comum em certos países asiáticos.

Ver mais de Bobby M. aqui

País


Anda um rato no meu computador.
É um rato que se transforma em jornalista, assessor, comentador.
Às vezes parece-me um gato reflectido no ecran.
Será um vírus, a gripe H1N1, ou a sazonal?
Sinto-me vigiada, insegura, não sei se me andam a escutar, a filmar.
O rato não está esclarecido, salta de tecla em tecla, desenfreado, à procura de fontes criminosas.
Se eu mudar de país, será que ele vai atrás de mim?

29 setembro 2009

Há dias assim...

---*













Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo nos cai
em cima. Depois
ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam.
Não lhes sei o nome. Uma
ou outra parece-se comigo.
Quero eu dizer: com o que fui
quando cheguei a ser
luminosa presença
da graça,
ou da alegria.
Um sorriso abre-se então
num verão antigo.
E dura, dura ainda.

Eugénio de Andrade, Os Lugares do Lume, Fundação Eugénio de Andrade, 2ª ed, 1998
Charles Lloyd - Fish out of water

28 setembro 2009

Esta gente não aprende



O presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP) afirmou, esta segunda-feira, que gostava que o actual ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, continuasse no cargo, no novo governo socialista saído das eleições de ontem. Ao mesmo tempo, Francisco Van Zeller deixou avisos ao PS quanto a acordos à esquerda.


...................

Os que constantemente exigem mundos e (sobretudo) fundos para desenvolver a economia - ao mesmo tempo que estão no centro do descalabro da economia, com as apostas na especulação e nos off shores, cá estão, de novo, a dar conselhos. "Oportunos" e incansáveis.

Pintura Paula Rego

27 setembro 2009

O caminho faz-se a caminhar


Sonho (de silêncio)



Vejo muitos turistas vestindo camisas da Nazaré. Dum grupo deles, à varanda de um grande hotel de luxo, digo: como estão pobres os que deveriam frequentar esses lugares. Estou com uma família inglesa. Vestem fatos de teweed de cores admiráveis. Pergunto: is it hand woven? Estou sentada a uma mesa com os turistas, falo do canto dos pássaros. Digo: sei imitar muito bem o melro. Então surge à janela um pásssaro fulvo, ruivo, que identifico com um falcão mas que na verdade era um pequeno faisão. Chama, parece pedir qualquer coisa. Parece cansado duma viagem. Dou-lhe pedacinhos de pão, mas ele não come. Surge então um gato preto que se atira ao pássaro e o mata. Vejo o gato agarrá-lo pelo pescoço. Vejo o sangue dele. O gato vai comer o pássaro. Num restaurante onde parece que faltou a luz, uma senhora turista manda tirar de cima da mesa o maior número de coisas possível e diz: é preciso deixar espaço para o silêncio.

Ana Hatherly, ANACRUSA 68 sonhos, Cosmorama Edições
Pintura Eric Fischl

Fazendo pirraça pra sobreviver



No novo tempo apesar dos castigos
Estamos crescidos, estamos atentos
Estamos mais vivos pra nos socorrer
No novo tempo, apesar dos perigos
Da forma mais bruta, da noite que assusta
Estamos na luta pra sobreviver
Pra que nossa esperança
Seja mais que a vingança
Seja sempre um caminho
Que se deixa de herança
No novo tempo, apesar dos castigos
De toda fadiga, de toda injustiça
Estamos na briga pra nos socorrer
No novo tempo, apesar dos perigos
De todos pecados, de todos enganos
Estamos marcados pra sobreviver
No novo tempo, apesar dos castigos
Estamos em cena, estamos nas ruas
Quebrando as algemas pra nos socorrer
No novo tempo, apesar dos perigos
A gente se encontra cantando na praça
Fazendo pirraça pra sobreviver