Aproximamo-nos da "casa" atravessando um jardim verde e arborizado, de uma simplicidade quase infantil, como a dos desenhos que ilustravam as histórias tradicionais. Depois o edifício, as cores, numa harmoniosa arquitectura tangente a esse imaginário.
Ainda que se tenha visto vezes sem conta, é sempre impressionante o poder interpelador dos quadros, dos desenhos, da obra de Paula Rego. A sedução da cor vai dando lugar à perplexidade, pela força com que as imagens provocatoriamente recusam os estereótipos, num love affair with tradition, como diz Germaine Greer, uma das analistas do trabalho da pintora.
Na Casa das Histórias há "histórias visuais" com mulheres dentro - anjos-demónios, grotescas, insurrectas, desamparadas, mulheres-bichos, sublimes - e toda a ironia que desconstrói a imagem do feminino segundo um processo de parodização profundamente ideológico.
Em entrevista a Melanie Roberts, por altura de uma exposição colectiva que reuniu oito pintoras inglesas em torno do tema "From the Interior. Female Perspectives on Figuration", disse a artista:
As minhas pinturas são pinturas feitas por uma artista mulher. As histórias que eu conto são histórias que as mulheres contam. O que é isso de uma arte sem género? Uma arte neutra? Isso não faz sentido, pois não? (...) Há histórias à espera de serem contadas, e que nunca o foram antes. Têm a ver com tudo aquilo sobre o que jamais se ousou tocar - a experiência das mulheres.
Confesso que sei pouco sobre o "olhar masculino" em torno de quadros como, por exemplo, o Mulher-Cão, mas aquando da minha visita, pude perceber alguns comentários, feitos por homens, de franca repulsa. Que terão eles visto, no quadro, de tão desagradável? Verão o mesmo que as mulheres que dizem, também, que "é horrível"?
Relembro aqui as palavras da pintora, citadas pela Professora Ana Gabriela Macedo, no JL de 19 de Maio de 1999, sobre essa figuração da mulher:
A "Mulher-Cão é a coisa que eu tenho mais orgulho de ter feito, porque é uma mulher sozinha, mas que ainda morde. Uma mulher só, num canto, contra a parede, que não pode fugir, mas que arreganha o dente e que morde! Morde até ao fim, luta até ao fim, apanha pancada, mas lá vai lutando sempre! E depois, essa "Mulher-Cão" apareceu, "apareceu-me"! Essas coisas acontecem, não é? E então eu pensei, esta mulher vai levar-me a sítios onde eu nunca fui, vai ser o meu guia. E assim foi. E comecei através da "Mulher-Cão" a tocar partes da minha vida que eu não tinha tido nunca coragem, nem oportunidade de fazer, nem sabia como lá chegar. Mas com ela, lá fui fazendo: o "Bad Dog", a humilhação, o amor, a lealdade e a submissão cúmplice das mulheres, um certo masoquismo das mulheres, no amor e na traição … O casamento é uma espécie de mortalha, não é? É a "mulher-bicho" que tem força através da sua animalidade, é a parte física, dos instintos, que é muito importante! O silêncio tácito das mulheres, a sua "endurance" e o seu sentido de honra.
Toda a força pode criar medo.