22 novembro 2009

Estação De Santa Apolónia


Já foi assim: Reparem na estrutura de ferro, tão expressiva.
Hoje não é como a foto mostra. Continua lá, imponente e caseira, uma sala de visitas agradável, prática, limpa, quente no Inverno e fresca no Verão. 
Agora tem metro que nos leva para o resto do mundo. E umas esplanadas com direito a vista sobre o Tejo. Parece um filme.
Gosto de Santa Apolónia, das castanhas assadas que fumegam, à saída. Da sombra do Eça que ainda se pressente.
É um lugar onde se chega e de onde se parte.

21 novembro 2009

O corpo como objecto de design

A criação artística tendo como tema e objecto a biotecnologia ou a utilização da investigação científica como expressão artística é o tema da exposição presente na Cordoaria Nacional, até 24 de Novembro - Inside (arte e ciência).
O tema tem ali algumas intervenções muito interessantes, como a de Leonel Moura: Criatividade Artificial; Miguel Chevalier: Flores Fractais ou Philip Ross: Plantas Cibernéticas, todas em torno da utilização dos avanços tecnológicos na criação artística.
Outras obras são, no mínimo, inquietantes, como a de Sterlac, defensor da ideia de que o corpo já não é só um espaço de expressão de ideias ou intervenção social, mas passou a ser também uma estrutura modificável ("the body not an object of desire but an object of designing"). É dentro deste conceito que surge a sua última obra, ainda inacabada, de criação duma terceira orelha no antebraço esquerdo. Quando terminada, esta orelha terá um equipamento que, por bluetooth, coloca na internet todos os sons por ela "ouvidos".


All together now, "to make it better"

Após o sucesso dos primeiros flashmobs , a T-Mobile, sob o mote Life’s for Sharing, convocou centenas de pessoas para comparecem, no dia 30 de Abril de 2009, na Trafalgar Square, em Londres. À hora marcada, 13.500 pessoas estavam lá, receberam os microfones e cantaram o melhor que puderam o tema (já tão esgotado) Hey Jude, dos Beatles.
A faixa parece que ganha, então, uma nova vida e o resultado é emocionante.
Mais uma aposta na ideia de que a propaganda do século XXI não é tanto sobre produtos e serviços, mas sobre pessoas.
Desejo a todos um excelente fim de semana.

20 novembro 2009

O Meu País


O que fizeram ao meu país?
A sério. Sinto-me perdida.
Gostava de ser militar de Abril.
A sério, apetecia-me fazer uma revolução.
Uma revolução pacífica, como a outra, com cravos , ou com rosas, sei lá, com malmequeres, com crisântemos.
Mas uma revolução, por favor, que nos devolva a esperança.
Vamos fazer uma revolução?
A sério, eu preciso mesmo.

19 novembro 2009

reflexão em torno de pandemias e outras exaltações


Neste início do século, sobretudo nas sociedades ocidentais, a doença e a morte são acontecimentos estranhos, misteriosas e, em larga medida e qualquer circunstância, inaceitáveis. Abrimos uma excepção para as doenças terminais em que aceitamos, às vezes exigimos, a morte como forma de alívio ao sofrimento (sobretudo o nosso).
Construiu-se um conjunto de expectativas em torno da saúde e do corpo que se tornaram dominantes na sociedade: esperamos sentir-nos bem, sem incapacidades, dores ou desconforto até muito tarde. Sempre, se possível.
É intolerável a morte de uma criança e espera-se que todas tenham uma infância sem doenças, que as mulheres tenham filhos sem complicações e que qualquer intervenção cirúrgica seja sempre bem sucedida.
O facto de, quase sempre, estas expectativas se concretizarem faz com que a "verdade" de reforce.
A saúde, o bem estar e a ausência de sofrimento tornaram-se uma forma de religião em que o falhanço e o inexplicável não é aceite, justamente porque a Medicina se tornou uma crença.
E não é.

(É do conhecimento público a especulação em torno das recentes mortes fetais e da sua utilidade na abertura de telejornais. Sente-se, como sempre, a necessidade de encontrar a causa, a razão, a culpa para o incompreensível que se rejeita; para mais, com o drama de uma previsão de mais 30 mortes até ao fim de Dezembro.
A resposta das autoridades, sobretudo depois de terem explorado o medo até à nausea, é a negação pura e simples. Nada que ponha em causa os seus dogmas. É outra crença.)
Pintura: The Doctor, Luke Fildes (O quadro inspira-se no momento em que o médico observava Philip, o filho do pintor, pouco antes da sua morte, no Natal de 1877).

E não há meio de porem os ovos...Irra!!!




Mais Savage Chickens aqui

18 novembro 2009

Duas extraordinárias mulheres, um momento único.



Alison Balsom (1978), trompetista, Sarah Connolly (1963), mezzo-soprano, George Gershwin (1898 – 1937), a Orquestra Sinfónica da BBC, os Concertos Promenade e a prova (se preciso fosse) de que só existem dois tipos de música, a boa e a má.
Apreciem, ou, como diriam no Royal Albert Hall, enjoy!!.


O Violoncelo De Sarajevo


Autor:Steven Galloway
Editorial Presença
Foto:MikhailEvstavief

O Cerco de Sarajevo foi o mais longo na história da guerra moderna, estendendo-se de 5 de abril de 1992 até 29 de fevereiro de 1996. Cerca de 10 mil pessoas foram mortas e outras 56 mil ficaram feridas, segundo as Nações Unidas. No dia 27 de maio de 1992, às quatro horas da tarde, uma série de morteiros atingiu um grupo que esperava para comprar pão atrás de um mercado em Vase Miskina, deixando 22 pessoas mortas e pelo menos 70 feridas. Diante disso, Verdran Smailovié, um renomado violoncelista local, resolveu tocar, pelos próximos 22 dias, sempre às quatro da tarde, o Adágio em sol menor de Albinoni, no exacto local onde tudo ocorrera, em homenagem aos mortos. Foi esta tragédia real e seu conseqüente acto de reverência, compaixão e coragem que foram transpostos ao livro e serviram de inspiração para o autor construir o personagem do violoncelista.

16 novembro 2009

muito louco de ser feliz

A TV Cultura é uma emissora de televisão brasileira com sede em São Paulo. É uma televisão pública, fundada em 1969, que tem, sobretudo, conteúdos educativos e culturais.
Os arquivos do programa Radiola, da TV Cultura são importantes registos da história do Brasil e da sua música.
O YouTube tem os mais importantes: Elis Regina, Chico Buarque, Caetano, Luis Gonzaga e tantos outros.
Este que aqui fica é, na minha opinião, um dos mais significativos. Pela beleza da filmagem e pelas palavras, ditas e cantadas, deste homem extraordinário.


15 novembro 2009

"...mas se a gente quiser, sei que vai dar pra mudar o final"

Com o espectáculo carnavalesco da política em Portugal, vamo-nos afeiçoando cada vez mais ao negativismo convicto que sempre nos caracterizou; que nos torna nostálgicos, nos envenena e nos tolhe a lucidez. Aberta a caixa de Pandora, a esperança é o que fica para não desistir. E a vontade.




14 novembro 2009

Pedro Alvim (As Cheias em Novembro de 1967)



Muitos consideram esta uma das melhores crónicas que se escreveram. O autor é o poeta e jornalista (Diário de Lisboa, 1969), já falecido.Fica aqui a sua memória.

Os mortos e os fósforos

Era ao cair da tarde – e havia mortos.Todos muito juntos, enlameados,compridos. Alinhados, distanciados para sempre, ali aguardando o arrumo definitivo. Ali, ali no cimento frio de um quartel de bombeiros, no fim de um domingo de Inverno.Eu estava ao telefone, um telefone de moedas de cinco tostões, a dar para o jornal o número de mortos, os seus nomes, as suas idades.Ia escurecendo, escurecendo, e eu já não via os nomes escritos à pressa, abreviados, secos.
Um bombeiro, uma pilha nas mãos, tentava auxiliar a minha leitura, uma leitura triste, sincopada, hesitante de quando em quando. Eu sabia que tinha os mortos todos atrás de mim, indiferentes, quietos, não se importando absolutamente nada que lhes trocasse os nomes. Mas eu não queria cometer o mínimo erro, o mais pequeno deslize.
“Se tu és João” – dizia para mim – “és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília.”
E teimava, teimava em ser exacto, pedia, pedia ao bombeiro que mantivesse o foco da pilha sobre o papel em que tinha escrito os nomes dos mortos. E carregava nas moedas de cinco tostões, mantinha a ligação telefónica, identificava-os um a um.
O tempo passava, o tempo passava sem luz eléctrica, e eu estava sempre ali ao telefone, e os familiares dos mortos iam entrando, (que longa bicha!), identificavam os mortos, os nomes dos mortos eram-me dados, e eu dava os nomes dos mortos ao jornal.Ouvia o choro dos vivos, ouvia o silêncio dos cadáveres, ouvia a noite lá fora – Depressa! Depressa! – diziam-me do jornal – Depressa que é para a terceira edição!
Iam-me faltando as moedas de cinco tostões, sentia-me aflito, pedia que me trocassem moedas de cinco, dez escudos.E os nomes dos mortos continuavam na minha boca, lidos um a um, o mais exactamente possível.
Como um preito de homenagem.
Como um choro.
Chegavam aos meus ouvidos pormenores da tragédia, da chuva, da lama.Eu carregava nas moedas de cinco tostões, afligia-me com o seu desaparecimento contínuo e, automatizado já, ia lendo os nomes dos mortos à luz da pilha.
Escuridão total.
– Acabou-se a carga! – disse o bombeiro.
O suor tomou-me o corpo todo – e os meus dedos amarfanhavam o papel com os nomes dos mortos ainda não transmitidos.
E agora? E agora? Agora que a pilha tinha dado de si – que fazer?
– Acendam fósforos! – gritei – Estes fósforos!
E assim foi: à chama tremida do enxofre, dos fósforos, acesos um a um, fui lendo o nome dos mortos que restavam, que estavam ainda no papel, sem o mais pequeno deslize.
“Se tu és João” – dizia para mim – “és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília“.
Quando, finalmente, abandonei o telefone, ganhei a rua, respirei a noite, apeteceu-me loucamente um cigarro, um cigarro que me turvasse, um cigarro para esquecer aquilo tudo.Meti, os pulmões ansiosos, um cigarro na boca – mas não pude, não pude fumar, não pude acender o cigarro: os mortos tinham queimado todos os meus fósforos.

PEDRO ALVIM
Foto:Aqui

Os livros são objectos transcendentes

Tenham um óptimo sábado, ao som desta chuvinha intermitente que convida ao sofá e à preguiça. E, já que temos falado em livros, tomem um por companhia. É que as notícias dos semanários não devem trazer novidade alguma... E os livros sempre são "modos de fazer mundos", como dizia o Goodman.


(...)
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.
(...)

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas .
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um
(...)

Vale a pena ler aqui uma concisa mas enriquecedora abordagem ao álbum "Livro", de 1998.

13 novembro 2009

entre dois sorrisos, uma declaração de amor


...Um labirinto de corredores e estantes repletas de livros subia da base até à cúspide, desenhando uma colmeia tecida de túneis, escadarias, plataformas e pontes que deixavam adivinhar uma gigantesca biblioteca de geometria impossível. Olhei para o meu pai, boquiaberto. Ele sorriu, piscando-me o olho.
- Bem-vindo ao Cemitério dos Livros Esquecidos, Daniel.
Salpicando os corredores e plataformas da biblioteca, perfilavam-se uma dúzia de figuras. Algumas delas voltaram-se para cumprimentar de longe, e reconheci os rostos de diversos colegas de meu pai do grémio de alfarrabistas. Aos meus olhos de dez ano, aqueles indivíduos afiguravam-se uma confraria secreta de alquimistas a conspirar nas costas do mundo. O meu pai ajoelhou-se ao pé de mim e, sustendo-me o olhar, falou-me com aquela voz leve das promessas e das confidências.
- Este lugar é um mistério, Daniel, um santuário. Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte.(...) Quando uma biblioteca desaparece, quando uma livraria fecha as suas portas, quando um livro se perde no esquecimento, os que conhecemos este lugar, os guardiães, asseguramo-nos de que chegue aqui.(...) Na loja nós compramo-los e vendemo-los, mas na realidade os livros não têm dono. Cada livro que aqui vês foi o melhor amigo de alguém. Agora só nos têm a nós, Daniel. Achas que vais poder guardar este segredo?
O meu olhar perdeu-se na imensidade daquele lugar, na sua luz encantada. Fiz um sinal de assentimento e o meu pai sorriu.

Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento, Dom Quixote, 2008
Foto: Trinity College Old Library, Dublin


A Sombra do Vento é um livro maravilhoso. Uma fantástica narrativa sobre livros, o encanto mágico que têm e nos trazem. No excerto, destaco a maravilha que é ser-se levado a amar os livros desde que se começa a olhar o mundo e os homens.
A leitura transforma-nos porque nos ensina e acrescenta.

Julgamento de Zé do Telhado


Sobre o julgamento deste histórico e Robin-Woodesco e simpático larápio:

O julgamento de Zé do Telhado iniciou-se em 25 de Abril de 1859, com acusação pública em 9 de Dezembro do mesmo ano. Foi condenado na pena de trabalhos públicos por toda a vida, na costa ocidental de África e no pagamento das custas. Esta pena foi mantida pelo Tribunal da Relação do Porto, cujo acórdão de sentença substituíu a expressão "costa ocidental de África", por "Ultramar".
Por acórdão da mesma instância, foi comutada a pena aplicada na de 15 anos de degredo para a África Ocidental, que contou desde a data de publicação do Decreto de 28 de Setembro de 1863.

A condenação deu como provados os seguintes crimes: tentativa de roubo, na forma tentada, em casa de António Patrício Lopes Monteiro, em Santa Marinha do Zêzere, comarca de Baião, homicídio na pessoa de João de Carvalho, criado de Ana Victória de Abreu e Vasconcelos, de Penha Longa, Baião, roubo na casa de referida senhora (Casa de Carrapatelo) de objectos de ouro e prata no valor de oitocentos mil e um conto de reis e algumas sacas com dinheiro, cujo valor a queixosa calculou em doze contos de reis, ainda que revelasse desconhecer os montantes visto que o dinheiro se encontrava na casa mortuária onde jazera, poucos dias antes, seu pai, e, após isso, ela ainda nem sequer lá voltara a entrar, roubo em casa do Padre Albino José Teixeira, de Unhão, comarca de Felgueira, no valor de um conto e quatrocentos mil reis em dinheiro e ainda objectos de prata e outro, outro homicídio na pessoa de um correligionário, ferido num confronto com as autoridades.

Para além de outros crimes de roubo e de resistência à autoridade, foi também condenado como autor e chefe de associação de malfeitores e de tentativa de evasão do reino sem passaporte, com violação dos regulamentos policiais.In "Setúbal na Net"

11 novembro 2009

Os loucos...e os outros



«No primeiro capítulo (...) chego a uma definição de loucura que diverge da preconizada pela Psicologia e Psiquiatria oficiais. A perspectiva destas últimas limita-se a apreciar o comportamento humano apenas com base no respectivo relacionamento com a realidade, o que, obviamente, tem a sua razão de ser. Só que impede, assim, a aproximação a uma patologia menos evidente e mais perigosa, de cujo método próprio a dissimulação faz parte: a loucura que se encobre a si própria e se mascara de saúde mental. Essa não tem dificuldade em ocultar-se num mundo em que o engano e o ardil são comportamentos adequados à realidade.
Ao mesmo tempo que os que já não aguentam a perda dos valores humanos no mundo real são considerados "loucos", atesta-se a normalidade àqueles que se separaram das suas raízes humanas. E é a esses que confiamos o poder, permitindo que decidam sobre as nossas vidas e o nosso futuro. Pensamos que eles têm a atitude certa perante a realidade e sabem lidar com ela; mas o "relacionamento com a realidade" de uma pessoa não é o único critério para determinar a sua doença ou saúde mental.»

Arno Gruen, in A Loucura da Normalidade, Assírio & Alvim, 1995

"Morrem cedo os que os deuses amam"

--*


Vírgula

Eu menino às onze horas e trinta minutos
a procurar o dia em que não te fale
feito de resistências e ameaças — Este mundo
compreende tanto no meio em que vive
tanto no que devemos pensar.

A experiência o contrário da raiz originária aliás
demasiado formal para que se possa acreditar
no mais rigoroso sentido da palavra.

Tanta metafísica eu e tu
que já não acreditamos como antes
diferentes daquilo que entendem os filósofos
— constitui uma realidade
que não consegue dominar (nem ele próprio)
as forças primitivas
quando já se tem pretendido ordens à vida humana
em conflito com outras surge agora
a necessidade dos Oásis Perdidos.

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo
e a custo na imensidão da desordem
a que terão de ser constantemente arrancadas
— são da máxima importância as Velhas Concepções
pois
a cada momento corremos grandes riscos
desconcertantes e de sinistra estranheza.

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida. Mais
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem
como frágil véu que nos separa vedados e proibidos.

António Maria Lisboa

AML nasceu em Lisboa no dia 1 de Agosto de 1928 e aí faleceu em 1953.
Com Mário Cesariny escreveu Afixação Proibida, um importante manifesto do Surrealismo português que iniciou este movimento em Portugal. Apesar de inserida no Surrealismo, a obra de António Maria Lisboa apresenta uma faceta ocultista e esotérica que a torna particular. Morreu de tuberculose, a 11 de Novembro, com apenas 25 anos, mas a sua curta obra constitui indiscutivelmente um marco na literatura portuguesa. Durante a sua vida, António Maria Lisboa acreditou sempre no Surrealismo como liberdade e poesia totais, como se pode depreender da sua escrita.

* Philip Glass - Mad Rush
Imagem: quadro do surrealista H. Risques Pereira

10 novembro 2009

Rosas de Portugal


D. Isabel, a mulher de D. Dinis, ocupava todo o tempo que tinha a fazer bem a quantos a rodeavam, visitando e tratando doentes e distribuindo esmolas pelos pobres.
Conta a lenda que o rei, que tinha muito mau génio apesar de ser também bondoso, se irritou por ver a rainha sempre misturada com mendigos, e proibiu-a de dar mais esmolas.
Certo dia, viu-a sair do palácio às escondidas, foi atrás dela e perguntou-lhe o que levava escondido por baixo do manto. Era pão para distribuir pelos pobres. Mas ela, aflita por ter desobedecido ao rei, disse:
- São rosas, Senhor!
- Rosas? Rosas em Janeiro? - duvidou ele - Deixai-me ver!
De olhos baixos, a rainha Santa Isabel abriu o regaço e o pão tinha-se transformado em rosas, tão lindas como jamais se viu.



(Do antigo livro de leitura da terceira classe, onde se ensinava às crianças as raízes de Portugal)

A sucata e os mercedes, o supremo tribunal e nós...

09 novembro 2009

tudo isto ruiu com o Muro


Rainer Panzel foi um aluno modelar até que um acto de rebeldia juvenil lhe custou a liberdade. Em 21 de Setembro de 1961, uma quarta feira, Rainer, uma figura ilustre da FDJ local e os seus colegas de turma do sexto ano da escola de Anklam, perto de Neubrandenbourg, resolveram, em sinal de protesto (...), chegar à escola vestidos de preto e proclamar que " carregavam o seu futuro até à sepultura".
No mês anterior fora construído o Muro de Berlim (...) Ainda mais recentemente, o parlamento alemão oriental aprovara uma lei que criava o serviço militar obrigatório, integrado no Exército Nacional Popular. Mas ninguém podia ter previsto as repercussões que se seguiram a este pequeno acto de rebeldia.
Rainer, de dezassete anos, foi acusado de traição e condenado a cinco anos de prisão. Outro "cabecilha" também foi preso e condenado. Outros foram expulsos da escola e deste modo impedidos de fazer o exame final, um requisito para entrar na universidade. Alguns professores foram despedidos. Os pais viram-se obrigados a fazer autocrítica e a admitir as suas limitações na educação política dos filhos.
O Politburo recebeu um relatório sobre a actividade "contra - revolucionária" na escola. Cópias pessoais do relatório foram enviadas ao líder do partido, Walter Ulbricht, e ao seu futuro substituto, Erich Honecker. A organização do Partido no interior da escola foi obrigada a admitir que falhara, a FDJ local foi criticada pelo seu papel "politicamente negativo" e as ligações entre alguns professores e o antigo regime nazi vieram a lume. (...) mas para Rainer o desastre foi pessoal e não nacional (...)
" Prenderam-nos, a mim em primeiro lugar, e a mais dois que vi em tribunal. A nossa turma foi desmantelada e os professores demitidos. Levaram-me para o escritório da STASI em Anklam, em Ellbogen Strasse. Limitei-me a dizer: É certo que nos vestimos de preto, mas nunca foi nossa intenção derrubar o governo. Eles não sabiam o que fazer connosco e transferiram-me para a prisão deda STASI em Neustrelitz nessa mesma noite. (...). O julgamento realizou-se em 13 de Janeiro de 1962. Havia três arguidos, Dietmar Tietbohl, Peter Klause, dois colegas, e eu. (...) Os outros foram condenados a três anos e meio e eu a cinco, porque os meus actos haviam ameaçado todo o país e porque me consideravam o líder desta actividade contra - revolucionária. Ficámos estupefactos. Nem conseguimos pensar. Ninguém chorou, mas caímos num abatimento profundo.
Peter Molloy, in O Mundo Perdido do Comunismo (págs 108-111), Bertrand 20009

Velhos Muros


Na net encontrei este texto, bastante sugestivo.
O muro de Berlim caiu há vinte anos.
Foi pousar na Cisjordânia.

A Suprema Corte de Israel decidiu contra as autoridades israelenses de segurança em relação aos limites do muro de concreto que divide o país da Cisjordânia. Em veredicto anteontem, a Corte pediu revisão dos limites perto da aldeia de Bilin, divida em duas pelo 'muro de segurança'. A decisão ainda pode ter implicações para outras áreas próximas.
Segundo a Corte, o caminho alternativo sugerido pelo governo israelense para contornar o muro avança em grande parte por terras palestinas privadas. Além disso, não se baseia puramente em medidas de segurança, levando em consideração também planos para a construção de mais assentamentos israelenses na Cisjordânia.
As autoridades de segurança de Israel insistem, no entanto, que a barreira foi erguida para evitar ataques de homens-bomba em Israel e que seus limites foram ditados pela segurança.
Em casos anteriores, a Corte já havia apoiado peticionários palestinos e grupos de direitos humanos no esforço de redesenhar os limites, levando-os para perto da situação antes da Guerra dos Seis Dias, em 1967. Atualmente, grande parte da barreira engloba assentamentos israelenses que estão fora do estabelecido em 1967. "In blog hebreu.