05 novembro 2009

Rasoiras, rebarbadoras e tiros no pé



O que é preciso é pô-los, a todos, na Universidade!

Em 1997- 98 havia 105941 alunos em formação profissional e em 2007-08  92038, ou seja, contrariamente ao discurso, não houve acréscimo mas diminuição (questão do galopante sufoco das escolas profissionais, substituídas pelos cursos de lápis e papel das escolas públicas); 146.000 licenciados (números da OCDE e Banco Mundial), pagos por nós, emigraram e foram enriquecer outros países, que estamos a financiar; 100 licenciados por mês deixam o país e vão procurar trabalho lá fora; 44700 licenciados trabalham em restaurantes, supermercados ou "call centers", etc, etc. ).

(excerto da comunicação de Santana Castilho no debate promovido ontem pelo Grupo Parlamentar do PSD na Assembleia da República.)

Foto: tentativa improvisada de um grupo de alunos para protecção contra a gripe A H1N1. (net)

04 novembro 2009

caminhando sozinha pela berma da estrada


Fui ao quarto fazer-lhe umas festas na cabeça, mas ela nem se mexeu. "Não tinhas aulas, hoje? Não queres tomar o pequeno almoço? Queres que te vá buscar o comprimido?" A minha mulher está com umas olheiras roxas, já nem consegue chorar, fica de olhos abertos a seco toda a noite. "Fizeste o exercício que te ensinei?" Os dardos ainda estão em cima da mesinha-de-cabeceira e a fotografia pregada na parede. Devagar virou-se para mim, pegou-me na mão, pediu numa vozinha sumida: "Não me obrigues a ir à escola, tiozinho, eu não aguento mais ir à escola!" Quando é que acaba o atestado, desta vez?" Já tinha acabado há uma semana. "Não queres atirar uns dardos, que te sentes logo melhor?" Ela gemeu. "Não consigo pôr-me agora a atirar dardos à fotografia do 8ºC! Como é que vou ter cara para os enfrentar?" "Eles não sabem que tu atiras dardos à fotografia". "Nem podem saber!" disse ela. "É completamente antipedagógico." O "antipedagógico" já foi dito num guincho, porque a pedagogia é uma coisa que inquieta a minha mulher. Abracei-a e dei-lhe o comprimido. "Não consigo enfrentar as aulas da tarde" disse ela. E voltou a deitar-se. "Nem sequer estou afónica!" (...) Tapou-se e ficou a olhar para a janela. Era um molusco, a minha mulher, uma esquiva trouxa mole, escorregadia, que se ia embora sozinha, com apenas um par de meias lavadas, numa jornada impossível. Era isso que eu via, quando chegava a casa e a encontrava deitada e tapada até às orelhas: uma trouxa de roupa espetada num pau caminhando sozinha pela berma da estrada, peregrina. Era uma maldita viagem interior à escuridão dela, onde não podia acompanhá-la. Naquele momento senti-me tão abandonado que fiquei capaz de lhe bater. Fui eu mesmo que atirei um dardo à fotografia da turma-problema. Cheguei-me à parede e vi que a minha mulher tinha escrito em letras muito pequeninas nas testas dos miúdos: "amar o próximo como a nós mesmos e outros legítimos superiores". Era amor não correspondido o que ela sentia pelo 8ºC.
Luisa Costa Gomes, in Ilusão (Ou o Que Quiserem), D.Quixote,2009
Fotografia G. Crewdson


Ilusão ( Ou o Que Quiserem), o romance de Luisa Costa Gomes, é a esplêndida narrativa de uma viagem de busca de projectos e de procura de sentido para a vida; de uma separação e de uma paixão. Afinal, um relato do quotidiano. Uma leitura necessária.

02 novembro 2009

À Espera De Godinho


Enquanto estamos à espera de Godinho, porque nos faz muita falta, nomeadamente,para animar os telejornais, para incentivar o fabrico de luvas em fábricas à beira da ruptura, para distraír os juízes que têm férias a mais, para animar lixeiras a céu aberto de resíduos tóxicos, para apressar a construção do TGV, já que vai recolhendo carris envelhecidos tão úteis à alta velocidade,para melhorar a recolha de inertes nas praias, a fim de, numa jogada genial, aproveitar o buraco resultante e construir piscinas radioactivas ecológicas, com vista à construção de resorts de luxo para o Vale De Azevedo poder ser importado de Londres, porque temos cá falta de larápios com pinta, enquanto esperamos ansiosamente por Godinho, eu ando a caçar um rato que me entrou pela varanda e se escondeu atrás de um sofá. Já pensei em chamar a Protecção Civil, mas tenho medo que me apareça de Vara em punho e, assim, queira assassinar o pobre ratito, ou atirá-lo pelos Penedos e provocar mais um desastre incontornável.
Enquanto esperamos por Godinho...amigos, continuem este brilhante texto...vá lá, é um desafio, fico à espera.

Instigante

Recebemos do Bichocarpinteiro o prémio de Blog Instigante.
Agradecemos a gentileza da Austeriana, realçando que a sua presença no Marcas representa um acréscimo de qualidade no trabalho que fazemos.
O prémio destaca os Blogs que (cito) : além da assiduidade das postagens e do esmero com que são feitos, nos provocam a necessidade de reflectir, questionar, aprender e – sobretudo – que instigam almas e mentes à procura de conhecimento e sabedoria.
Renovando o nosso reconhecimento, nomeio - de acordo com o "regulamento" - 7 Blogs (entre muitos outros) que considero, por várias razões, instigantes.








01 novembro 2009

E o velho Tejo beija a cidade enamorada


O terramoto que, no dia 1 de Novembro de 1755, abalou a cidade de Lisboa, foi um dos mais destruidores de sempre. Um quarto dos cerca de 250 000 habitantes pereceu e cerca de 30 000 habitações ruiram. Lisboa era, no séc. XVIII, uma das cidades comerciais mais ricas do mundo.
O inquérito do Marquês do Pombal, enviado a todas as paróquias do país para apurar a ocorrência e efeitos do terramoto, foi a primeira iniciativa de descrição objectiva no campo da sismologia, razão pela qual o estadista português é considerado um precursor dessa ciência.



É impressionante que os 35 arcos que constituem o Aqueduto, habitual paisagem do quotidiano lisboeta, tenham sobrevivido intactos. Afirma quem sabe, que ficam situados na junção de duas placas do Cretácio Superior, muito perto de uma falha sísmica, a de Campo de Ourique. Por isso se diz que quando alguma coisa escapou, como por milagre, “foi resvés Campo de Ourique”.
As causas geológicas do terramoto e da actividade sísmica na região de Lisboa são ainda motivo de debate científico, mas existem indícios geológicos da ocorrência de grandes abalos sísmicos com uma periodicidade de aproximadamente 300 anos.



Imposta pelo Marquês de Pombal, ministro de D. José, a reconstrução de Lisboa tornou-se uma prioridade imediata. Seguindo um modelo iluminista, esta “nova” cidade constituiu uma das mais audaciosas propostas urbanísticas da Europa da época. No então novo centro da cidade, hoje conhecido por Baixa Pombalina, encontram-se os primeiros edifícios, a nível mundial, construídos com protecções anti-sísmicas, que foram testadas em modelos de madeira, as chamadas "gaiolas pombalinas". Essa reedificação contou com alguns maçons operativos, entre os quais o arquitecto húngaro Carlos Mardel, pertencentes à Casa Real dos Pedreiros-livres da Lusitânia, primeira estrutura maçónica especulativa portuguesa.
Nesta nova Lisboa reconstruída:
**as ruas passaram a ser largas, com um traçado geométrico e com passeios calcetados;
**as casas foram construídas todas da mesma altura (4 ou 5 pisos), com fachadas iguais e com uma estrutura que resistia melhor a possíveis novos sismos. Para tentar evitar futuros incêndios, as casas assentavam em estacas de madeira que mergulhavam nas águas do subsolo e, entre os edifícios, fizeram-se muros (os corta – fogos) para evitar a propagação das chamas;
**construiu-se uma rede geral de esgotos, acabando com o velho hábito dos despejos lançados pelas janelas;
**o Terreiro do Paço deu lugar à actual Praça do Comércio, homenagem do Marquês de Pombal aos comerciantes que, com o seu dinheiro, ajudaram a reconstruir a cidade.



O terramoto provocou um efeito ciclópico também ao nível das mentalidades. Por um lado, assistiu-se à tendência generalizada para interpretá-lo como uma determinação divina, provocando na população um sentimento de expiação perante um castigo do Altíssimo. Por outro lado, defendidas por algumas correntes do pensamento iluminista, surgiram outras interpretações, que encontraram nas causas naturais a justificação para tão terrível acontecimento, considerado como um dos que tiveram maior impacto mediático em todo o mundo.

(Texto construído a partir de várias fontes )

31 outubro 2009

Com um nó na garganta

Por alguma razão dizemos frequentemente que os pais são a nossa casa.
Aqui, testemunhamos um encontro amoroso.
Pai e filho, afastados pela mais estúpida das razões, encontram na música toda a força do afecto e da ternura, num amor sem tempo, lugar ou distância.
Sente-se, como diz o autor do clip, com um nó na garganta.


30 outubro 2009

estórias de Portugal



- A Polícia Judiciária desencadeou em 27 de Outubro a operação Face Oculta, em ligação com corrupção, tráfico de influências e branqueamento de capitais. Realizaram buscas a escritórios e instalações de empresas em Aveiro, Ovar, Lisboa, Oeiras, Sines, Santa Maria da Feira, Alcochete, Faro, Ponte de Sôr e Viseu. Manuel Godinho, dono de empresas fornecedoras da REFER e das siderurgias espanholas, foi preso. Os outros doze arguidos continuam em liberdade.
Armando Vara é um deles, foi apanhado em escutas telefónicas com o empresário Manuel Godinho. Na conversa com Godinho – preso ontem pela PJ de Aveiro – Vara pede pelo menos dez mil euros "pelas diligências por si encetadas".
(dos Jornais)


- Entretanto, em comunicado, a Polícia Judiciária (PJ) precisou que a "investigação em curso tem como objecto a actividade de um grupo empresarial, da zona de Aveiro, que, através de um esquema organizado, terá sido beneficiado na adjudicação de concursos e consultas públicas, na área de recolha e gestão de resíduos industriais".
(Público 28/10/2009)

- A 10 de Fevereiro de 2009, Manuel Godinho e o advogado Paulo Penedos (filho de José Penedos, ex- Secretário de Estado e administrador da REN) falam ao telefone. Nessa altura, como consta dos mandados de busca ontem apresentados aos arguidos, Godinho oferece 270 mil euros a Penedos caso consiga 'concretizar a renovação do contrato de gestão global de resíduos'. Há ainda outro telefonema, cinco dias antes, em que Paulo Penedos já pedira 25 mil euros a Godinho.
(Correio da Manhã 29/10/2009)

-Presidente da REN também é arguido
(SOL 30 de Outubro)

-Testemunhos recolhidos pelo Ministério Público no caso dos submarinos indiciam que o ex-ministro da Defesa, Paulo Portas, não terá acautelado devidamente os interesses do Estado na negociação com o consórcio alemão German Submarine Consortium (GSC).
(SOL 30 de Outubro)

- O presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), Francisco Van Zeller, considera que deve haver muita contenção no que toca aos aumentos salariais em 2010, uma vez que há muitas empresas que dependem de baixos salários... Francisco Van Zeller explicou que existem muitos milhares de empresas que dependem de salários baixos, aquelas que exportam, acrescentando que cerca de um quarto das exportações depende de salários baixos, e uma alteração ao modelo salarial a estas empresas leva tempo. (notícias.potugalmail 20/10/2009)


Trinta e cinco por cento dos portugueses que vivem numa situação de pobreza tem um emprego, segundo o estudo "Um Olhar Sobre a Pobreza - Vulnerabilidade e Exclusão Social no Portugal Contemporâneo", entregue pelo Presidente do Conselho Económico e Social ao Presidente da República em 2008.
É uma situação única na União Europeia, esta de se trabalhar e viver na miséria e diz bem do presente e futuro deste País. Entretanto os ministros transitam de e para as Empresas Públicas, que hoje se sabe serem o centro nevrálgico da corrupção e não do impulso económico. Este está reservado para a "classe empresarial" desde que haja garantia de baixos salários, subsídios da Europa e favores do Estado.

29 outubro 2009

os medos, a dor e os outros

"...Os nossos antepassados, habituados a sentir medo dos ursos e das cascavéis, demoraram tanto ou mais tempo do que o que levou a invenção da matemática a perceber que a felicidade ou a infelicidade também podiam brotar das suas entranhas e não apenas do universo que os rodeava. À força de experimentarem sensações parecidas mas desencadeadas por estímulos diferentes, como um leão ou uma aranha, acabaram por reparar nas semelhanças e deduzir que sentiam o mesmo. No preciso momento em que um deles deu conta que a repentina aceleração do ritmo cardíaco era disparado por acontecimentos tão diferentes como a vertigem ao deparar com um precipício, a falta de respiração ao mergulhar uma e outra vez, exausto, para alcançar a outra margem do rio, ou as ameaças por um grupo de canibais pintados de vermelho; no preciso momento em que a diversidade mostra o seu denominador comum e, mediante um processo de abstracção,descobre-se o conceito que a define, nasce, sem querer, no interior do homem primitivo a consciência da emoção do pânico.
O que aqui foi resumido em poucas linhas demorou milhares de anos a acontecer.(...)
Se bem que as comparações sejam sempre odiosas, em termos emocionais estamos na fase equivalente ao número 2 na evolução da matemática; isto é, na pré - história. Continuamos a pensar que a felicidade ou infelicidade são induzidas pelas emoções desencadeadas pelos outros, por medos provocados pelo trabalho, pela segurança dada por uns bons estudos ou pelo dinheiro. Continuamos a acreditar que tanto a fonte da felicidade como a da desgraça depende de outros ou do resto da matilha. "

Eduardo Punset, in Viagem à Felicidade, D. Quixote, 2008
Foto: Gregory Crewdson

26 outubro 2009

A plena liberdade na espontânea ordem das coisas

A tendência para o sincronismo é uma das constantes mais enigmáticas da natureza.
Trata-se de um objecto de estudo filosófico, matemático e das neurociências, desde finais do século XIX, com um interesse e aprofundamento muito significativos neste milénio.
Sempre se partiu do princípio de que todos os sistemas da natureza (ou de actividade humana) necessitavam de ordem e que essa ordem viria de um comando que lhes era interior. Hoje sabe-se (e investiga-se) que a existência de sincronismo é universal e que, em liberdade plena de organização, há uma evolução natural para uma qualquer forma de organização "espontaneamente ordeira" - algo resultante da acção e movimento dos homens, sem design prévio.
A investigação e a chamada Science of Spontaneous Order envolvem áreas do conhecimento tão diversas como a Biologia, a Economia, a Medicina ou a Política e estudam questões tão distantes entre si como o sincronismo dos batimentos cardíacos, o voo ordenado dos pássaros, o facto de as mulheres, vivendo juntas por muito tempo, passarem a menstruar em momentos coincidentes, ou a evolução da economia de mercado.
Curiosamente, a necessidade de os sistemas serem deixados livres de se organizarem, como condição essencial ao aparecimento da ordem, é, em termos políticos, colocada no final do séc. XIX por Proudhon na defesa do anarquismo ( "a liberdade é mãe da ordem e não sua filha", disse).
O tema é de indiscutível interesse e este não diminui mesmo se considerarmos a utilização perversa da sua aplicação nas teorias económicas neo liberais que levaram ao colapso recente do sistema financeiro assente na auto regulação do mercado, deixado em plena liberdade.
O video que se mostra procura mostrar a existência de autoregulação espontânea em inúmeros acontecimentos do quotidiano no planeta e na vida.

25 outubro 2009

A Ver Navios



Estava eu a ver navios, em frente ao Tejo. Olhei o céu, muitas nuvens. Umas brilhantes, promissoras, leves. Outras plúmbeas, espessas, pesadas, mesmo assim fantásticas.
Eis o resumo de tudo, da vida, da vida e da morte, do belo, do frio, de tudo, de ti e de mim, de nós.
Se formos ver, analisar, testar, é apenas água,tão somente, e ar, ilusão, sonho, pesadelo, esperança,tristeza,sorriso.
Por muito que se pense, se escreva, se polemize, estamos todos ali, somos essa dualidade,fazemos parte, diluídos nesse imenso desconhecido.

24 outubro 2009

Uma nesga de luz


Foto:Paulo

A nave central do Museu de Arte Moderna de S. Francisco (SFMOMA) permite observar um fantástico jogo de luz e sombras aproveitando uma clarabóia cuja configuração, curiosamente, faz lembrar a cobertura da Bibliteca de Alexandria.
É um projecto dos anos 80 do século XX, do aquitecto italiano Mario Botta e é considerada uma das obras "pós modernas" mais marcantes da Costa Oeste dos EUA.

23 outubro 2009

21 outubro 2009

...depois vêm estes com a conversa do costume


O eurodeputado Mário David não gostou do que ouviu, sente-se insultado, e por isso escreveu no blog da Internet, tendo-o repetido depois à TSF, que Saramago devia renunciar à nacionalidade portuguesa. (aqui)

Um dos embustes mais marcantes da nossa democracia é a confusão entre liberdade e cidadania. A ideia de que, uma vez derrubada a ditadura, haveria uma democracia porque se votava e não havia censura, excluiu a noção de cidadania dos valores fundamentais que guiam o comportamento e as escolhas dos homens e mulheres deste país.
Temos, assim, guindados aos mais altos cargos do regime gente com uma absoluta falta de valor. Estão onde estão, representam os seus concidadãos e o país, mesmo em areópagos internacionais, com o nível e a elevação que a sua formação, feita a abrir portas nos corredores dos ministérios, lhes deu.
Depois, olhem, dá nisto.

Gravura: João Abel Manta

20 outubro 2009

A Cegueira de Saramago


As declarações de Saramago,durante a apresentação do seu novo livro "Caim", são inusitadas, violentas, intemporais.

Numa altura em que o Mundo anseia por pontes de diálogo ecuménico, quando se extremam posições acéfalas conducentes à manipulação política de crenças religiosas, quando Obama se compromete na esperança, na paz, eis que Saramago pontapeia o assunto da fé, num radicalismo serôdio e insensato.

Assim, vai contra todos os esforços da diplomacia mundial, opõe-se, na prática, a Mandela, Luther King, Gandhi e tantos outros construtores da convivência dos povos.

É assim o nosso Nobel, mas, quando foi receber o dito prémio, não o vimos radical, ao fazer, de fraque, a vénia reverencial aos monarcas suecos.

18 outubro 2009

Indignação

Nessa manhã de segunda feira parecia de novo igual a si mesma, invicta e invencível. Depois de eu a ter tranquilizado com as providências tomadas pela universidade para o meu regresso, a primeira coisa que disse foi: "Não vou divorciar-me dele, Marcus. Já decidi. Vou aturá-lo. Vou fazer tudo o que puder para o ajudar, se é que alguma coisa pode ajudá-lo. Se é isso que queres que eu faça, também é o que eu quero. Não queres pais divorciados, e eu não quero que tu tenhas pais divorciados. Lamento mesmo ter-me permitido tais pensamentos. (...)
Vieram-me as lágrimas aos olhos e rapidamente os tapei com a mão como se pudesse esconder as lágrimas ou empurrá-las para dentro com os dedos.
"Podes chorar, Markie. Não é a primeira vez que eu te vejo chorar".
"Eu sei que não. Eu sei que posso. Mas não quero. Só que estou tão feliz..."
Tive de parar por momentos para recuperar a voz e me refazer do facto de ter sido reduzido pelas palavras dela à condição da criatura minúscula que não é mais do que a sua necessidade de perpétuo alimento. "Estou muito feliz por ouvir o que a mãe acabou de dizer. Sabe, esse comportamento dele pode ser coisa passageira. Coisas que acontecem quando as pessoas chegam a uma certa idade, não é verdade?"
"Claro que sim", disse ela em tom tranquilizador.
"Obrigado, mãe. É um grande alívio para mim. Não conseguia imaginá-lo a viver sozinho. Só com o talho e o trabalho e nada à sua espera ao regressar a casa à noite, sozinho aos fins de semana... era inimaginável".
"Era pior do que inimaginável", disse ela, "por isso nem imagines.
Mas agora tenho de te pedir uma coisa em troca. Porque há uma coisa inimaginável para mim. Eu nunca te pedi nada. Nunca te pedi nada porque nunca foi preciso. No que toca a filhos tu és perfeito. Nunca quiseste outra coisa senão ser um menino que faz tudo bem. Sempre foste o melhor filho que uma mãe pode ter. Mas vou pedir que nunca mais tenhas nada a ver com miss Hutton. Porque estares com ela é para mim inimaginável. Markie, tu estás aqui para ser um estudante e para estudar o Supremo Tribunal e para estudar o Thomas Jefferson e para te preparar para entrar na Faculdade de Direito." (...) Não estás aqui para arranjar sarilhos com uma rapariga que pegou numa lâmina para cortar os pulsos"
"O pulso", disse eu. "Só cortou um pulso".
"Um chega. Só temos dois, e um já é de mais. Markie, eu vou ficar com o teu pai e em troca vou pedir que a largues antes que te enterres nisto até à ponta dos cabelos e não saibas como hás-de sair. Quero fazer um contrato contigo. Tu fazes esse contrato comigo?"
"Sim", respondi eu.

Philip Roth, in Indignação, D. Quixote (2009)


O 27º livro de Roth rompe com as suas recorrentes narrativas sobre o envelhecimento e a decadência. Ambiente de campus universitário do interior rural dos Estados Unidos, no início dos anos 50. O narrador, jovem judeu numa perturbante experiência de conquista da autonomia, da busca de caminhos para idade adulta em luta com a família, a universidade, o ambiente social, as convenções e com ele próprio. Uma estória de aprendizagem, descoberta e desilusão.

Foto: My son John (Filme, 1952)

16 outubro 2009

Uma História Radical


Tinha-lhe dito - não te esqueças, é preciso pactuar com os anjos. Ele sabia-o, melhor do que eu, melhor do que ninguém.
Naquele último domingo de Setembro, o vento estava favorável a Sul, como convém ao desporto do parapente.
Em pouco tempo, Leonardo conseguiu arrastar atrás de si todo aquele enorme pano colorido e, com a ajuda dum motor, levantou voo, passando sorridente sobre a minha cabeça. Depois, ganhou altura por cima das casas, afastando-se para nascente. Deixei de o ver e, como era minha tarefa, comecei a cronometrar o tempo da sua ausência; sete minutos, quarenta e três segundos. Quando voltou a aparecer, deu-se ao prazer de planar ao longo da praia, paralelo à linha do horizonte.
Um homem feito Deus, pensei.
As gaivotas de pedra, espalhadas pela areia, acordaram por um instante da sua melancolia, depois voltaram a apodrecer. Parecia que tinham os corpos envenenados pela corrosibilidade daquele áspero salitre. As pessoas passeavam-se, tristonhas e arrepiadas - haviam sido apanhadas desprevenidas por um súbito Outono. A época balnear tinha chegado ao fim, mas mantinha intacta a mácula de todos os detritos. Até os gestos estavam poluídos. Seria necessário um Inverno rigoroso para que os pensamentos pudessem ficar lúcidos de novo.
Leonardo era um pássaro vermelho e amarelo - tinha o corpo coberto por fios de arame. A partir de certa altura, a orientação começa a ser instintiva. Voava às cegas e, apesar disso, continuava a desenhar um círculo quase perfeito. O que lhe importava era melhorar o seu próprio tempo e eu não me podia esquecer dessa exigência.
As pessoas iam de um lado para o outro, enfastiadas e sem qualquer tipo de entusiasmo. Às vezes apetecia-me gritar - ELE VOA! - , mas há muito que o homem aprendeu a voar e nisso já não existe novidade nenhuma.
Eu nascia ali, a cada instante, e por isso os meus olhos espantavam-se. Mal podia acreditar na mecânica daquele sonho - de concrecto só conhecia a queda dos corpos e a natural superioridade das aves.
Desenhou mais uns círculos e melhorou seis segundos. É tudo uma questão de treino. E de agilidade.
Mas a tarde estava a ficar demasiado cinzenta, havia um nevoeiro que crescia do mar e ameaçava engolir tudo.
Naquelas condições, o melhor seria desistir, mas Leonardo tinha subido às alturas e nem queria ver os sinais dos meus braços.
Era um Deus que se negava a voltar a ser homem. Subir é melhor que descer, nisto faz-se a semelhança entre Deus e o homem.
Leonardo usou e abusou dessa semelhança.
O vento virou a Norte, eu já não via um palmo à minha frente e gritava, mas era demasiado enigmático, o meu grito. Dir-se-ia um sorriso. Um sorriso de quem sabe que nos sonhos não há limites, de quem conhece a sublimação de todos os abismos.
Em menos de cinco minutos, desapareceu a linha do horizonte. Desapareceram as casas, as pessoas, os cães, as trelas, a monotonia, a praia, as gaivotas...
Leonardo!... eu gritava, mas o meu rosto ficou preso dentro de um quadro.
Clara
Pintura Marc Chagall

... chacun pour soi...

Um emigrante português morreu, há dois anos, na sua casa, nos arredores de Paris. Mas só na passada segunda-feira, 12 de Outubro, foi encontrado.
Sentado num cadeirão e "literalmente mumificado”. Foi assim que os bombeiros encontraram o homem, de 62 anos, morto desde 2007, num apartamento dos arredores de Paris, para onde emigrara. Apesar do cheiro do corpo em decomposição, ninguém (ali) deu pela sua morte. A identificação do corpo foi possível pelo número de série da prótese auditiva.
José Macedo, parece que tinha 4 irmãos (quatro), 4 filhos (quatro), vários sobrinhos e ex-mulher (com quem continuava legalmente casado). Parece que no frigorífico havia iogurtes de 2007.
Dois anos, mais de setecentos dias.
Noite, dia, natais, páscoas e aniversários....
Um vizinho, interrogado por um jornalista, diz que, aos poucos, se foram habituando ao cheiro e, de toute façon, ici, c'est chacun pour soi...

Imagem aqui

15 outubro 2009

Sonhos, matéria obscura

--*


Una patria es la lengua en la que sueñas

La patria es estar lejos de la patria:
una nostalgia de la infancia en noches
en que te sientes viejo, una nostalgia
que sube a tu garganta como el agrio
sabor del vino en las resacas duras.

La patria es un estado: pero de ánimo.
Un viejo invernadero de pasiones.
La patria es la familia: ese lugar
en el que dan paella los domingos.

Una patria es la lengua en la que sueñas.
Y el patio del colegio donde un día
bajo una lámina de cielo oscuro
decidiste escapar por vez primera.

Mi patria está en el cuerpo de Patricia:
mi himno es su gemido, mi bandera
su desnudez de doce de la noche
a ocho de la mañana. Tras la ducha
mi patria va al trabajo, yo me exilio.
*
* Albinoni, Oboe Concerto Op. 9, No. 05 in C Major - II - Adagio

14 outubro 2009

Vertigem

A tarde vai entrando na noite quando D.Arlete Caldeira abre suavemente a janela e deixa o ar morno da rua penetrar na pele e no quarto. Debruçada no parapeito, prende o cabelo, oferecendo o pescoço húmido ao vento, deixa o olhar doce percorrer com vagar a rua detendo-se na porta envidraçada do stand. Ventura Bolhão, latejando de calor e anseio, deixa à vista a placa do "volto já" e voa sobre o chão quente, indiferente ao trânsito e ao perigo. A porta aberta do prédio recebe-o como um convite e uma promessa. O ar fresco, que agora lhe toca o rosto, não enfraquece o ardor que o puxa para cima e que cresce ainda mais quando, ao toque combinado, sente a voz rouca:
- Ventura?
(Imagem aqui )

13 outubro 2009

??????

Rituais de iniciação?! Prova de virilidade?! Para serem considerados adultos?!



NÃO!

LEIAM E Assinem.

Horror na Dinamarca


Escrevo este texto com a cor do sangue derramado dos golfinhos Calderon.
Passa-se na ilha Feroe, na Dinamarca, terra de gente supostamente civilizada. Os matadores são essencialmente jovens que fazem deste acto uma passagem à idade adulta, num ritual iniciático afirmativo de virilidade.
Os golfinhos são esfaqueados até se esvaírem em sangue, lentamente. O mar fica vermelho e todos assistem, ou participam nesta crueldade.
Como se sabe, diz-se que estes animais são os mais inteligentes e afectuosos de todos. Aproximam-se do ser humano para o saudar e brincar.
Por favor, divulguem esta barbárie.


momentos


--*

Não ouças o rouxinol. Ou a cotovia.
É dentro de ti
que toda a música é ave.

Eugénio de Andrade, in Branco no Branco
*Anouar Brahem Trio, Astrakan Cafe
Foto: Paulo

10 outubro 2009

Design português no Guggenheim NYC

No Sackler Center for Arts Education, do Museu Guggenheim, em Nova Iorque, um projecto português faz parte dos trabalhos finalistas apresentados ao concurso Design It: Shelter Competition. O desafio era o de construir, em 3D, um abrigo para qualquer lugar do mundo. Cerca de 600 concorrentes de 68 países submeteram ao júri os seus trabalhos. Estudantes da Frank Lloyd Wright School of Architecture seleccionaram dez para o Prémio People's Price. O concorrente português é David Mares, um jovem de 26 anos, cujo percurso se pode descobrir aqui. Não percam os links e, já agora, não deixem de votar.



Agradeço ao Paulo Mendes a partilha desta excelente informação. Com um abraço.

Escutas na Presidência

Segundo A.C., repórter privado do Marcas, houve, efectivamente, escutas no Palácio de Belém.


09 outubro 2009

As mãos e os donos delas


Os cirurgiões, enquanto grupo, aderem a um igualitarismo curioso. Acreditam na prática, não no talento.
As pessoas frequentemente presumem que temos de ter grandes mãos para sermos cirurgiões, mas não é verdade. Quando fui entrevistado para entrar em programas de cirurgia ninguém me mandou coser, ou fazer um teste de destreza, ou verificar se as minhas mãos eram firmes. Nem sequer é preciso ter os dez dedos para se ser aceite. (…). Os professores dizem que a cada dois ou três anos vêm uma pessoa verdadeiramente dotada – alguém que atinge capacidades manuais complexas invulgarmente depressa, vê o campo operatório como um conjunto, apercebe-se de problemas antes que eles aconteçam. Mesmo assim, os Cirurgiões Assistentes dizem que o que é mais importante para eles é encontrar pessoas meticulosas, diligentes e suficientemente teimosas para continuarem a praticar uma coisa difícil dia e noite, anos a fio. Como me disse um professor de cirurgia, se tivesse de escolher entre um doutorado que tivesse clonado um gene com muito esforço e um escultor de talento, escolheria o primeiro. (…) A competência, acreditam os cirurgiões, pode ser ensinada, a tenacidade não. É uma estranha abordagem ao recrutamento, mas é sempre assim, até nas categorias profissionais mais altas, mesmo em serviços cirúrgicos excelentes. Pegam em alguns favoritos sem nenhuma experiência cirúrgica, passam anos a formá-los e depois estabelecem a maior parte da sua competência a partir dessas fileiras criadas por si.
E resulta. Actualmente, já existem muitos estudos sobre executantes de elite – violinistas internacionais, grandes mestres do xadrez, patinadores no gelo profissionais, matemáticos e por aí fora – e a maior diferença que os investigadores encontram entre eles e outros executantes de menor qualidade é a quantidade de prática que eles acumularam deliberadamente. Na verdade, o talento mais importante poderá ser o talento para a própria prática. K. Anders Ericsson, um psicólogo cognitivo e perito em desempenho, comenta que a manifestação mais importante do papel dos factores inatos pode ser a motivação que alguém tem para se lançar numa formação contínua. Descobriu, por exemplo, que os executantes de topo gostam tão pouco de praticar como os outros (é por isso que os atletas e os músicos desistem de praticar depois de se reformarem), mas possuem uma força de vontade para continuar a praticar superior à dos outros.

Atul Gawande, in A mão que nos opera, Lua de Papel, 2007

Uma visão puramente técnica do gesto, o de curar como o de criar, pode levar-nos a alguns exageros. O livro de Atul Gawande, que agora revisitei, prende o leitor, sobretudo se tem interesse pelo mundo médico, por dois aspectos principais: um, a clareza com que fala dos temas mais sérios e complexos. Outro, pela forma séria e empenhada com que trata a difícil questão do erro em medicina e, por consequência, da responsabilidade médica. No entanto, o texto acima transcrito é controverso. Sobretudo ao despir de qualquer envolvimento pessoal aquele que pratica o acto. Ou seja, reduz o cirurgião, que é, antes de tudo médico, a um mero executante - operador - que, desde que pratique o acto com rigor, tem o sucesso do seu gesto garantido. Ora, uma intervenção cirúrgica tem um tempo prévio de preparação e um tempo posterior de acompanhamento que exigem um forte envolvimento pessoal e, nestes vários momentos, como num concerto de piano ou na pintura duma tela, é preciso que, a par do rigor técnico,esteja presente a alma do artista.

08 outubro 2009

Nobel

A escritora alemã, de origem romena Herta Müller recebeu o prémio Nobel da Literatura 2009.

Herta Müller nasceu em 1953 e, segundo a Academia Sueca tem uma escrita onde se "retrata o universo dos desapossados".
Müller está publicada em Portugal com “O homem é um grande faisão sobre a terra”, editado pela Cotovia, e “A terra das ameixas verdes”, publicado pela Difel.
Nascida na Roménia, aldeia de Nitzkydorf, que hoje já se declarou em festa, estudou alemão e literatura romena na sua terra natal e trabalhou depois como tradutora numa fábrica de Timisoara, antes de ser demitida das suas funções em 1979 por se ter recusado a colaborar com a polícia política de Nicolae Ceaucescu.
Vive na Alemanha desde 1987.
Pessoalmente teria preferido Roth ou Auster, mas isso sou eu que não estou na Academia Sueca. Agora, há que ler e conhecer Herta Müller.


Outra medalha ... (assim, ficamos vaidosos)


A delicadeza e a simpatia do Bichocarpinteiro são inesgotáveis. Austeriana entrega-nos agora mais uma (inesperada) distinção.
Tem sido um enorme prazer tê-la como "comentadora" regular dos nossos posts. São escritos recheados de inteligência, sensatez e conhecimento, o que tem feito com que cresça, em nós, o desafio para os criar e publicar. Isto são razões para lhe enviarmos um grande obrigado pela atribuição do Selo, convidando quem nos lê a conhecer o Bichocarpinteiro.

Temos, de acordo com o Regulamento, de responder a quatro perguntas e enviar Selo e perguntas a três blogues, avisando os destinatários.
Quanto às Perguntas, aqui estão, com as respectivas respostas:


1) Se o azul não existisse de que cor pintaria o céu?
Acho difícil que existisse Céu, sem haver azul. Seria como existir um mar sem água. Mas se, caso absurdo, não houvesse azul, iria arranjar um arco íris em bom estado e propunha-lhe que se dilatasse, alargasse e se fosse transformando num imenso céu colorido.

2) Há um mar vago. Onde o põe?
Punha-o no deserto mais próximo e fazia uma nova praia.


3) Se encontrar um sonho perdido o que é que lhe faz?
Procurava o dono para lho devolver. Deve ser péssimo perder um sonho.


4) Ir por aqui ou por ali. Qual a escolha?
A escolha não é fácil. Acho que começo por rejeitar essa obrigação de escolher. Por que não ir por aqui até um certo momento e depois passar a ir por ali, até acharmos que está na hora de ir por acoli... afinal, não é isto que fazemos sempre na vida?

Os destinatários que escolhemos:

07 outubro 2009

28, 968192 Km de livros



Uma manhã solarenga de Outono em Nova Iorque convida a andar.
Descendo a Broadway em direcção a Greenwich Village, no cruzamento com a rua 17, desembocamos na Union Square onde, à 2ª, 4ª 6ª e ao sábado, decorre um esplêndido mercado de rua que permite comprar produtos alimentares trazidos do campo e ali vendidos directamente pelos produtores. É também um espaço aproveitado por artistas "alternativos" para exporem e venderem as suas obras.
...
À distância de um olhar, imersa na confusão do trânsito, mas distinta pela cor do toldo , está a Strand Bookstore.
O nome foi-lhe dado a partir da rua que, em Londres, alberga dezenas de livrarias, alfarrabistas e editoras.
A Strand de Nova Iorque foi fundada em 1890 e é a sobrevivente de uma fileira de 48 livrarias que ocupavam todo aquele quarteirão. A publicidade define-a como a loja com 18 milhas (de livros)...
O que se nota é que é um sólido espaço de cultura, ancorado numa experiência recheada de modernidade, onde apetece estar e ficar, misturando-nos com as centenas de visitantes e compradores que deambulam pelos corredores recheados de livros até ao tecto.
A consulta posterior que fizemos ao site da Strand trouxe-nos a informação de que se pode comprar livros pela net , como em qualquer outra livraria actual, mas aqui existe uma outra modalidade (quiçá fruto do seu subtítulo...): pode-se comprar livros "a metro de estante" - meio metro de livros de arte, ou de História ou 1 metro e meio de Culinária, Ficção, Biografias...
No melhor pano cai a nódoa.

05 outubro 2009

The White Ship, de Hector Lemieux

Vale mesmo a pena ver o filme
Em 1966, Hector Lemieux, da televisão canadiana, faria este documentário, de cerca de quinze minutos, sobre a faina a bordo do Santa Maria Manuela.
Glória aos grandes hérois da pesca à linha. Em memória desses ilhavenses.
Pesca do Bacalhau

Na pesca do bacalhau, tudo era duplamente complicado. "Maus tratos, má comida, má dormida... Trabalhavam vinte horas, com quatro horas de descanso e isto, durante seis meses. A fragilidade das embarcações ameaçava a vida dos tripulantes", dizia Mário Neto, um pescador que viveu estes episódios e pode falar deles com conhecimento de causa.
Quando chegava à Terra Nova ou Gronelândia, o navio ancorava e largava os botes. Os pescadores saíam do navio às quatro da manhã e só regressavam à mesma hora do dia seguinte, com ou sem peixe e uma mínima refeição: chá num termo, pão e peixe frito. No navio, o bacalhau era preparado até às duas ou três da manhã. Às cinco ou seis horas retomava-se a mesma faina. Isto, dias e dias a fio, rodeados apenas de mar e céu.

Teresa Reis, "A pesca do bacalhau"
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A pesca do bacalhau realizada pelos pescadores portugueses na Terra Nova e Gronelândia, encontra-se intimamente associada à saga das navegações e descobertas, datando do séc. XIV. Há registo da partida, da ilha do Faial, de Diogo, de Teive em 1452. A partir da viagem dos Corte-Real, em meados do século XVI, foi elaborado o Planisfério de Cantino, onde se divulgava um primeiro mapa menos fantasioso dessas regiões (Terra Nova e Labrador) e com o qual a navegação se tornou mais segura e maior a presença portuguesa na pesca do bacalhau.

Em 1504 havia na Terra Nova colónias de pescadores de Aveiro e de Viana do Minho. Em 1506 um dos principais portos bacalhoeiros era Aveiro. Entre 1520 e 1525 existiu, na Terra Nova, uma colónia de pescadores de Viana do Minho que se dedicava à pesca sedentária - pescavam e secavam o peixe ali mesmo. A permanência ia de Abril a Setembro.

No reinado de D. Manuel I (1465-1521) Aveiro foi o porto que mais navios enviou para a Terra Nova (cerca de 60 naus) e em 1550 saíram cerca de 150 naus. O período de dominação dos Filipes (1580-1640) levou quase à extinção da pesca do bacalhau (em 1624 não havia qualquer barco nos portos de Aveiro). A recuperação da Pesca do Bacalhau só se faz no séc. XIX. Até lá, 90% do consumo interno do bacalhau é importado. Em 1830 foram criados incentivos à pesca com a extinção do pagamento dos dízimos e com a construção de 19 barcos.

Sem alterações notórias, através dos séculos, a tripulação dos Bacalhoeiros era composta por:
· Capitão
· Piloto
· Marinheiros (pescadores)
· Cozinheiro
· 1 ou 2 moços (mais recentemente passaram a ser 6, 8 ou 10) conforme a capacidade do navio.

Entre os marinheiros - pescadores, a divisão era:
Escalador
Salgador
Simples pescador
"Os verdes" (os que se iniciavam na faina)

Havia tripulantes com funções específicas: troteiro, cabeças, porão, garfo, celhas, etc. E muitos estão enterrados num cemitério em St. John's, do qual ninguém fala, e que nem sequer atrai visitantes.
As iscas usadas eram amêijoas, lulas.... Só na década de 20, apareceu a assistência aos barcos feita por 2 barcos a vapor - Carvalho Araújo, em 1923, e Gil Eanes, em 1927.

O atraso português no processo de industrialização determinou que esta pesca se prolongasse pelo século XX (até 25 de Abril de 1974) com base numa tecnologia ultrapassada: pesca à linha de mão, munida dum único anzol, a bordo dos dóris, pequenas embarcações individuais de fundo chato e tabuado rincado, com um comprimento de 4 a 5 metros e 80 a 100 Kg de peso, apoiando-se nos tradicionais veleiros de madeira. Tratava-se, contudo, de uma técnica de pesca bastante menos agressiva dos recursos dos que as redes de emalhar ou de arrasto.
Em 1934 foi feita a organização corporativa da Indústria Bacalhoeira. Planeou-se uma grande reorganização da Pesca do Bacalhau, através de:

Empréstimos do Estado a armadores portugueses
Criação da Comissão Reguladora do Comércio do Bacalhau e da Cooperativa dos Armadores de Navios de Pesca do Bacalhau entre outras.
Renovação da frota
Desenvolvimento da Pesca do Arrasto

Mas em Portugal continuou-se a insistir na pesca à linha. Os últimos grandes veleiros foram construídos em 1937: Argus, Santa Maria Manuela e Creoula, mas poucos anos se mantiveram nesta faina. A última viagem dum lugre - o Gazela Primeiro - ocorreu em 1969. As capturas tinham começado a diminuir e em 1974 a situação estava num caos. Era difícil recrutar pescadores, que preferiam emigrar, o que lhes proporcionava menos sofrimento e melhor perspectiva de vida. O total de barcos era então de 55, sendo 5 de pesca à linha, 13 com redes de malha e 37 de arrasto.

Créditos: texto parcialmente adaptado de História da Pesca do Bacalhau
Foto de Henri Lumieux
Quem tiver curiosidade, pode seguir os links que salpicam o texto.

04 outubro 2009

Richard Avedon no SFMOMA



Richard Avedon (1923-2004) é considerado um dos mais geniais fotógrafos americanos do século XX.
A sua obra é marcada pela inovação e por uma originalidade muito especiais. Iniciou-se nos anos 40 na fotografia de moda, onde associou, de forma pioneira, o movimento às imagens dos modelos. Os seu trabalhos iniciais são publicados na revista Harper's Bazaar. Mais tarde continuou a carreira na Vogue.O seu maior destaque surge através da revista Rolling Stone onde nos finais dos anos 60 e na década seguinte produz fotografias de marcada originalidade dos maiores ícones da cultura pop.
O trabalho de Avedon é quase exclusivamente constituído por retratos que transmitem de forma acentuada o seu olhar pessoal.
Avedon dizia que, como fotógrafo, não era um observador, mas um criador e isso é patente na sua obra. Sobre fundos quase sempre brancos ou cinzentos,sem qualquer fundo natural, as pessoas são fotografadas em planos grandes ou médios, num intencional contraste entre a simplicidade do fundo com a complexidade do "objecto".
A possibilidade de conhecer a obra completa de Avedon na mostra actualmente patente no S. Francisco Museum Of Modern Art (SFMOMA) pode ser enriquecida se se fizer uma visita orientada.
Ser guiado por uma senhora de 80 anos, fotógrafa amadora, conhecedora profunda de fotografia, pintura e literatura americana e voluntária no museu para esta tarefa foi uma experiência inesquecível.

Gracias

*

Mercedes Sosa
(9 de Julho de 1935 - 4 de Outubro de 2009)

*Mercedes Sosa Todo Cambia

03 outubro 2009

Uma casa com histórias e mulheres dentro




Aproximamo-nos da "casa" atravessando um jardim verde e arborizado, de uma simplicidade quase infantil, como a dos desenhos que ilustravam as histórias tradicionais. Depois o edifício, as cores,  numa harmoniosa arquitectura tangente a esse imaginário.
Ainda que se tenha visto vezes sem conta, é sempre impressionante o poder interpelador dos quadros, dos desenhos, da obra de Paula Rego. A sedução da cor vai dando lugar à perplexidade, pela força com que as imagens provocatoriamente recusam os estereótipos, num love affair with tradition, como diz Germaine Greer, uma das analistas do trabalho da pintora.
Na Casa das Histórias há "histórias visuais" com mulheres dentro - anjos-demónios, grotescas, insurrectas, desamparadas, mulheres-bichos, sublimes - e toda a ironia que desconstrói a imagem do feminino segundo  um processo de parodização profundamente ideológico.
Em entrevista a Melanie Roberts, por altura de uma exposição colectiva que reuniu oito pintoras inglesas em torno do tema "From the Interior. Female Perspectives on Figuration", disse a artista:
As minhas pinturas são pinturas feitas por uma artista mulher. As histórias que eu conto são histórias que as mulheres contam. O que é isso de uma arte sem género? Uma arte neutra? Isso não faz sentido, pois não? (...) Há histórias à espera de serem contadas, e que nunca o foram antes. Têm a ver com tudo aquilo sobre o que jamais se ousou tocar - a experiência das mulheres.

Confesso que sei pouco sobre o "olhar masculino" em torno de quadros como, por exemplo, o Mulher-Cão, mas aquando da minha visita, pude perceber alguns comentários, feitos por homens, de franca repulsa. Que terão eles visto, no quadro, de tão desagradável? Verão o mesmo que as mulheres que dizem, também, que "é horrível"?
Relembro aqui as palavras da pintora, citadas pela Professora Ana Gabriela Macedo, no JL de 19 de Maio de 1999, sobre essa figuração da mulher:
A "Mulher-Cão é a coisa que eu tenho mais orgulho de ter feito, porque é uma mulher sozinha, mas que ainda morde. Uma mulher só, num canto, contra a parede, que não pode fugir, mas que arreganha o dente e que morde! Morde até ao fim, luta até ao fim, apanha pancada, mas lá vai lutando sempre! E depois, essa "Mulher-Cão" apareceu, "apareceu-me"! Essas coisas acontecem, não é? E então eu pensei, esta mulher vai levar-me a sítios onde eu nunca fui, vai ser o meu guia. E assim foi. E comecei através da "Mulher-Cão" a tocar partes da minha vida que eu não tinha tido nunca coragem, nem oportunidade de fazer, nem sabia como lá chegar. Mas com ela, lá fui fazendo: o "Bad Dog", a humilhação, o amor, a lealdade e a submissão cúmplice das mulheres, um certo masoquismo das mulheres, no amor e na traição … O casamento é uma espécie de mortalha, não é? É a "mulher-bicho" que tem força através da sua animalidade, é a parte física, dos instintos, que é muito importante! O silêncio tácito das mulheres, a sua "endurance" e o seu sentido de honra.

Toda a força pode criar medo.

02 outubro 2009

Resistir ou não resistir... às tentações

Em maré de trabalho, numa busca sobre questões ligadas à falta de resiliência, a formas de negociação, superação de conflitos interiores, etc., deparei-me com isto. Um mimo. Não resisti à tentação de partilhar. Eu, pecadora, me confesso.

Casa dos Livros

*


Localizada numa esquina da Broadway com a Columbus Avenue, depois de se passar por imensos cafés italianos com esplanadas cheias de gente, na zona de North Beach, em S. Francisco fica a City Lights Bookstore. São 3 pisos cheios de livros, cultura e afectividade.
Por entre estantes e mesas cheias de livros há cadeiras confortáveis - na cave há mesmo 2 ou 3 bancos de jardim - e, nas paredes, cartazes convidam Have a seat and read a book. Do piso térreo chega-se por uma escada a uma sala ampla no 1º piso, com uma secretária junto a uma janela por onde entra luz a jorros. Na secretária um dístico: Poetry Room.
A City Lights Bookstore foi fundada pelo poeta Lawrence Ferlinghetti em 1953.
É considerada uma das poucas editoras independentes dos Estados Unidos, mas o seu maior mérito foi ter sido o local de convívio da que ficou conhecida por geração Beat.
Jack Kerouac, amigo de Ferlinghetti publicou nela a sua obra On The Road e todos os autores ligados àquele movimento tiveram aqui acolhimento.
Ao lado da livraria, atravessando uma rua estreita, fica o café Vesúvio, espaço único de convívio e tertúlia, com paredes forradas de fotografias, pinturas e textos poéticos.
A rua (que separa / liga) chama-se Jack Kerouac.

* Bob Dylan (frequentador da City Lights) Blowin' In the Wind

01 outubro 2009

Postais de Viagem

*

Há uma praça luminosa no centro de S. Francisco, a Union Square. Pouca gente sabe a razão do nome, embora este tenha um valor simbólico para os Estados Unidos. Foi aqui se realizaram importantes comícios políticos que trouxeram apoio popular à causa do Norte, progressista, durante a Guerra Civil Americana (1861-65).Na sequência desse apoio, a Califónia juntou-se à União no combate contra as forças da Sessão.
Nessa época enfrentaram-se duas forças antagónicas: o Norte, industrializado, defensor do desenvolvimento económico e de valores que implicavam o fim da escravatura e o Sul, composto por 11 Estados, partidários do liberalismo económico e da escravatura, que declararam a secessão da União, não aceitando a eleição de Lincoln.
....
Hoje viveu-se um magnífico dia de Verão na Union Square. As esplanadas estiveram apinhadas de gente que saboreou o sol até a noite chegar, enquanto uma banda country nos deliciou com as baladas dos anos 60, distanciando-nos, por horas, de um sítio onde há um presidente com medo, um computador vigiado e não sei o quê dos mails.


* Scott McKenzie, If You Go to S. Francisco (1967)

30 setembro 2009

"Notas & Neurónios" ou o poder da escala pentatónica



O que nos faz acreditar que a linguagem musical está "internalizada" e pode ser antecipada por qualquer um de nós.
Bobby McFerrin assegura que, onde quer que ele faça este show, as pessoas produzem os mesmos sons. Conclusão: todos nascemos a saber música. O problema é que só uma minoria é estimulada a desenvolver essa capacidade artística.
Bobby McFerrin  é conhecido pela sua enorme extensão vocal (até quatro oitavas), pela habilidade de usar a voz para criar diversos efeitos e ainda por ser capaz de entoar o canto difónico (produção de intervalos harmónicos e acordes a partir de uma só voz), prática muito comum em certos países asiáticos.

Ver mais de Bobby M. aqui

País


Anda um rato no meu computador.
É um rato que se transforma em jornalista, assessor, comentador.
Às vezes parece-me um gato reflectido no ecran.
Será um vírus, a gripe H1N1, ou a sazonal?
Sinto-me vigiada, insegura, não sei se me andam a escutar, a filmar.
O rato não está esclarecido, salta de tecla em tecla, desenfreado, à procura de fontes criminosas.
Se eu mudar de país, será que ele vai atrás de mim?

29 setembro 2009

Há dias assim...

---*













Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo nos cai
em cima. Depois
ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam.
Não lhes sei o nome. Uma
ou outra parece-se comigo.
Quero eu dizer: com o que fui
quando cheguei a ser
luminosa presença
da graça,
ou da alegria.
Um sorriso abre-se então
num verão antigo.
E dura, dura ainda.

Eugénio de Andrade, Os Lugares do Lume, Fundação Eugénio de Andrade, 2ª ed, 1998
Charles Lloyd - Fish out of water

28 setembro 2009

Esta gente não aprende



O presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP) afirmou, esta segunda-feira, que gostava que o actual ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, continuasse no cargo, no novo governo socialista saído das eleições de ontem. Ao mesmo tempo, Francisco Van Zeller deixou avisos ao PS quanto a acordos à esquerda.


...................

Os que constantemente exigem mundos e (sobretudo) fundos para desenvolver a economia - ao mesmo tempo que estão no centro do descalabro da economia, com as apostas na especulação e nos off shores, cá estão, de novo, a dar conselhos. "Oportunos" e incansáveis.

Pintura Paula Rego

27 setembro 2009

O caminho faz-se a caminhar


Sonho (de silêncio)



Vejo muitos turistas vestindo camisas da Nazaré. Dum grupo deles, à varanda de um grande hotel de luxo, digo: como estão pobres os que deveriam frequentar esses lugares. Estou com uma família inglesa. Vestem fatos de teweed de cores admiráveis. Pergunto: is it hand woven? Estou sentada a uma mesa com os turistas, falo do canto dos pássaros. Digo: sei imitar muito bem o melro. Então surge à janela um pásssaro fulvo, ruivo, que identifico com um falcão mas que na verdade era um pequeno faisão. Chama, parece pedir qualquer coisa. Parece cansado duma viagem. Dou-lhe pedacinhos de pão, mas ele não come. Surge então um gato preto que se atira ao pássaro e o mata. Vejo o gato agarrá-lo pelo pescoço. Vejo o sangue dele. O gato vai comer o pássaro. Num restaurante onde parece que faltou a luz, uma senhora turista manda tirar de cima da mesa o maior número de coisas possível e diz: é preciso deixar espaço para o silêncio.

Ana Hatherly, ANACRUSA 68 sonhos, Cosmorama Edições
Pintura Eric Fischl

Fazendo pirraça pra sobreviver



No novo tempo apesar dos castigos
Estamos crescidos, estamos atentos
Estamos mais vivos pra nos socorrer
No novo tempo, apesar dos perigos
Da forma mais bruta, da noite que assusta
Estamos na luta pra sobreviver
Pra que nossa esperança
Seja mais que a vingança
Seja sempre um caminho
Que se deixa de herança
No novo tempo, apesar dos castigos
De toda fadiga, de toda injustiça
Estamos na briga pra nos socorrer
No novo tempo, apesar dos perigos
De todos pecados, de todos enganos
Estamos marcados pra sobreviver
No novo tempo, apesar dos castigos
Estamos em cena, estamos nas ruas
Quebrando as algemas pra nos socorrer
No novo tempo, apesar dos perigos
A gente se encontra cantando na praça
Fazendo pirraça pra sobreviver