23 março 2010

Marcelas Owens, um herói do nosso tempo



Esteve, por direito próprio, ao lado de Barack Obama no momento da assinatura da Lei que consagrou o acesso a cuidados médicos para 36 milhões de americanos.
Marcelas Owens, o menino de 11 anos, foi um dos rostos visíveis do combate para aprovação da Lei.
Enfrentou com exemplar coragem uma miserável campanha de calúnias e provocações, apenas por querer que mais ninguém tivesse o destino de sua mãe, falecida aos 27 anos sem poder ser tratada por não ter dinheiro.

21 março 2010

amor de palavras


Tenho por ti um amor como palavras
de lugares guardados e suspensos
um amor de renúncia de cuidados
fechado em cada pedra de caminho
Sinto por ti um amor 
como dizer
um amor descontinuado
solitário
e no entanto
nele tropeço e me magoo
nele renasço e me suplico
me divino
e me liberto.

Dia Mundial da Poesia



queria de ti um país de bondade e de bruma
queria de ti o mar de uma rosa de espuma!
(Mário Cesariny )

20 março 2010

(Re) começos




Equinócio significa, a partir do latim, "noites iguais". Os Equinócios acontecem em Março e Setembro, nas duas ocasiões em que o dia e a noite tem duração igual. No hemisfério Norte, em Março, Equinócio de Primavera (chamado de Verão ou Vernal), e em Setembro, o Equinócio de Outono.
O "nosso"Equinócio de Primavera (hemisfério Norte) ocorre nos dias 20 ou 21 de Março e o de Outono em 22 ou 23 de Setembro. A data varia devido aos anos bissextos, que deslocam o calendário das estações em um dia.
A partir de hoje, façam como os passaritos, sintam, sorriam e cantem, mesmo que não vejam o sol... É Primavera, ele está lá.
* Nigel Kennedy, Primavera I, Vivaldi

18 março 2010

Para chinês ver

**

Dados mais relevantes da Expo 2010 Shanghai:

• Recinto de exposição: 528 ha
• Países participantes esperados: 192
• Organizações internacionais: 50
• Duração da exposição: 184 dias – de 1 de Maio a 31 de Outubro de 2010
• Previsão de visitantes: 70 milhões
• Área do pavilhão de Portugal: 2.000m2
• Previsão de visitantes do Pavilhão de Portugal: 3 milhões

O Pavilhão de Portugal, com uma área de 2.000 m2, está em construção e estará terminado até dia 15 de Abril, duas semanas antes do arranque oficial da Expo 2010 Shanghai, a 1 de Maio de 2010. Este Pavilhão apresenta uma fachada revestida de cortiça, material nacional, reciclável e ecológico. Trata-se de um exemplo de inovação e de boas práticas ambientais que potenciam a imagem de Portugal na maior Exposição Universal alguma vez realizada. Reflecte o conceito de sustentabilidade dos edifícios das cidades contemporâneas e realça-o como elemento-chave das políticas nacionais em termos económicos e ambientais.

Portugal terá investido 10 milhões de euros - dos quais três são aplicados nas obras do interior do pavilhão - para se promover na principal montra do mundo, que a China pretende transformar na "maior e melhor" de toda a História, e "potenciar a actividade económica" com o gigante asiático, considerado pela AICEP um "mercado estratégico e prioritário" para diversificar as exportações.
Com base no lema da Expo 2010 "Melhor Cidade, Melhor Qualidade de Vida", Portugal vai apresentar-se como "uma praça para o mundo"e "um mundo de energias", e irá, por isso, dispor de uma recriação da Praça do Comércio no interior do pavilhão como "lugar central da vida e actividades urbanas, de memórias e mudanças". Mais aqui.

** Asseguraram-me que a tradução do ideograma em cima é: "crise". É formado pelos ideogramas : risco (perigo) e oportunidade.

(vou ali perguntar à Catarina se ela quer aprender a lengalenga: ...shangai-xeque/xeque-mate/mate quem?/mate o senhor/senhor-dos-passos/paços-do-concelho/conselho-de-guerra/guerra da china/china- shangai/shangai-xeque......acho que era assim.)

15 março 2010

O PEC, a crise e o túnel sem luz ao fundo


...O grande raciocínio que sustenta a actual estratégia económica é importado da caça: o importante é não afugentar. Não convém taxar os lucros dos bancos e das grandes empresas para não afugentar o investimento. É desaconselhável taxar as transacções da bolsa para não afugentar o capital. Quem sobra? Os trabalhadores - que, além de serem muitos, são gente que não se deixa afugentar, porque precisa mesmo do emprego. Um trabalhador por conta de outrem trabalha, na verdade, por conta de dois, digamos, outrens: por conta do empregador e por conta do Estado. São os trabalhadores, e não as empresas e os bancos, os grandes "criadores de riqueza". Criam a riqueza dos patrões e a do Estado, que depois toma essa parte da riqueza e a devolve às empresas e aos bancos, sob a forma de nacionalização do que der prejuízo e privatização do que der lucro. Nota-se muito que estou a assobiar a Internacional enquanto escrevo isto?

A política fiscal é igualmente clara: as pessoas que ganham menos do que eu pagam menos impostos do que eu; a generalidade das que ganham mais também paga menos impostos do que eu. O governo alega que irá aumentar a taxa de impostos a quem ganha mais de 150 mil euros por ano, o que seria uma excelente medida, mas não é exactamente verdadeiro. O governo vai aumentar a taxa de impostos a quem declara mais de 150 mil euros por ano, o que é ligeiramente diferente. Não há assim tantos contribuintes nessas condições...

Ricardo Araújo Pereira (Aqui)

13 março 2010

Refazer o puzzle

Ana, a mãe, fala-nos de si e da sua batalha contra essa indescritível dor de perder Inês, a filha,antes de completar os 16 anos.
Sem ti, Inês (Ed. Caderno, LeYa, 2010) é uma narrativa profunda, dolorosa e sentida, escrita na primeira pessoa por uma mulher de 46 anos obrigada a viver e a sobreviver ao que todos mais tememos, a perda de um filho.
Um diário da mãe que diz que foi em luta e agora se sente em luto. Um diário onde Ana procura encontrar sentido para os dias seguintes na poesia, nas canções e nas viagens. Uma intensa e dolorosa reflexão sobre o que fazer da memória, onde encaixar esta perda absoluta no futuro dos que a ela sobrevivem.

Quando entrávamos numa loja de roupa entretinha-me
a adivinhar as peças que escolherias. O tempo
encarregava-se de me confirmar a minha pontaria certeira.
Sabes uma coisa, Inês? Não consigo abandonar esse velho hábito…
Em cada nova colecção continuo a antecipar
as tuas escolhas, e embora não as confirmes, tenho a certeza
de que continuam certeiras…
Sempre contrariaste a lógica uniformizadora dos adolescentes.
Lembro-me como ficavas irritada quando as tuas amigas teimosamente
te imitavam a forma de vestir. Gostavas de ser diferente
e procuravas lojas que satisfizessem essa necessidade de exclusividade.
Havia entre nós uma cumplicidade estética
(sensatamente contrariada pela diferença de idades) que não me deixava dispensar
os teus conselhos. Lembro-me de ti, ainda com 10/11 anos,
sentada no meu quarto enquanto eu desfilava as várias opções
até tomares a decisão final. Foi essa cumplicidade que alimentou a paixão
que ambas sentimos por “aqueles” sapatos verdes. Em conjunto,
tentamos encontrar pretextos (patetas) para os comprar,
que contrariassem os argumentos (lógicos) para o não fazer.
Ambas sabíamos que os saltos eram excessivamente altos para a tua pouca idade,
e o design demasiado ousado para a minha.
Quem me dera que a sensatez não tivesse levado a melhor…
Quem me dera que tivéssemos comprado “aqueles” sapatos verdes,
marca da nossa cumplicidade que já não podemos alimentar…
Quem me dera ter no meu quarto (ou no teu) “aqueles” sapatos verdes,
apenas como objecto de pura fruição estética… (quem disse que os sapatos são para usar?)

Foto: C.

11 março 2010

Sinto-me um idiota

Hoje em dia tenho a certeza de que não ser idiota é das coisas mais importantes na vida de um homem, até que pouco a pouco o vou esquecendo, porque o pior é que no final me esqueço; por exemplo, acabo de ver um pato que nadava num dos lagos do Bois de Boulogne, e ele era de uma beleza tão maravilhosa que não pude evitar agachar-me junto ao lago e deixar-me ficar não sei quanto tempo a observar a sua formosura, a alegria petulante dos seus olhos, aquela dupla linha delicada que corta o seu peito na água do lago e se vai abrindo até se perder com a distância. O meu entusiasmo não nasce apenas com o pato, trata-se antes de qualquer coisa que o pato cristaliza num dado momento, porque às vezes pode ser uma folha seca que se balança na ponta de um banco, ou uma grua alaranjada, enorme e delicada contra o céu azul da tarde, ou o cheiro de um vagão de comboio quando uma pessoa entra e se tem um bilhete para uma viagem de muitas horas e tudo se vai sucedendo prodigiosamente (....) e tudo me preenche como uma espécie de salgueiro interior, de uma verde chuva de delícia que nunca mais devia terminar. Porém, já muita gente me disse que o meu entusiasmo é uma prova de imaturidade (de idiotice, querem eles dizer, mas escolhem as palavras) e que não nos podemos entusiasmar assim por causa de uma teia de aranha que brilha ao sol, uma vez que se uma pessoa incorre em semelhantes excessos por causa de uma teia de aranha cheia de orvalho, o que é que vai guardar para a noite em que houver o King Lear? A mim isso surpreende-me um pouco, porque na verdade o entusiasmo não é uma coisa que se gaste quando se é realmente idiota, gasta-se quando uma pessoa é inteligente e tem a noção dos valores e da historicidade das coisas, e é por isso que mesmo que eu ande a correr de um lado para o outro no Bois de Boulogne para ver melhor o pato, isso não me vai impedir de nessa mesma noite dar saltos enormes de entusiasmo se gostar da forma como Fisher Dieskau canta. Agora que penso nesse assunto, a idiotice deve ser isso: o poder entusiasmar-se a toda a hora com qualquer coisa de que uma pessoa goste, sem que um desenhito numa parede tenha de se ver diminuído pela memória dos frescos de Giotto em Pádua. A idiotice deve ser uma espécie de presença ou de recomeço constante: agora gosto desta pedrinha amarela, agora gosto de L'année dernière à Marienbad, agora gosto de ti, ratita, agora gosto dessa locomotora incrível a bufar na Gare de Lyon, agora gosto desse cartaz arrancado e sujo. Agora gosto, gosto tanto, agora sou eu, um eu reincidente, idiota perfeito na sua idiotice que não sabe que é idiota e desfruta perdido no seu prazer, até que a primeira frase inteligente o devolva à consciência da sua idiotice e o faça procurar apressadamente um cigarro com as mãos desajeitadas, olhando para o chão compreendendo e às vezes aceitando porque um idiota também tem de viver, claro que até que outro pato ou outro cartaz, e assim sempre.

Julio Cortazar, A Volta ao Dia em 80 Mundos, Cavalo de Ferro, 2009
Foto: C.

09 março 2010

O perigo da história única e dos machos alfa

Confesso que os chamados "dias internacionais de" [qualquer coisa] não me empolgam por aí além. De resto, muitas dessas datas comemorativas trazem acoplada uma série de técnicas de marketing que apelam ao consumo de ocasião e me fazem descrer da eficácia "da coisa". Bem sei que por um dia, por um diazito apenas, a nossa atenção é canalizada especialmente para o tema em celebração. Mas quanto do conteúdo se dilui na superficialidade dos celofanes e laços com que se embrulha o presente?

Vem isto a propósito de eu ter recebido hoje, via email, num dia que já não é especificamente o da mulher, a indicação destes vídeos. Talvez por este facto eles tenham ainda mais força e sentido. Por serem vistos num dia qualquer.
São as palavras de duas mulheres que partilham, se não outras qualidades, pelo menos uma inteligência sensível, uma fina ironia e uma inegável paixão pela vida. São duas mulheres lindíssimas. Ambas escritoras. E só pelo facto de serem "contadas" é que as suas histórias ficam a dever à realidade.

Adorei esta bonita homenagem. Feita por um homem que, contrariamente ao que afirma, parece ligar, afinal, a estas comemorações. Obrigada, Paulo Mendes.

[Em baixo, à esquerda, podem facilmente accionar as legendas.]


06 março 2010

Yo Leo en el Bar


Amo desparramarme en la mesa de un bar, bien típico de Buenos Aires, y quedarme leyendo horas junto a un café con leche. Esto sólo se puede hacer en algunos bares, los de mesa de fórmica, mozos de más de 40, dueño generalmente gallego, AM de fondo -a veces muy fuerte-. Allí donde pasan con dos jarras metálicas, en una leche, en otra café, y te lo sirven frente a tus ojos. (Recomiendo la esquina de Azcuenaga y Paraguay, el bar del gallego. Pedir un café con leche con un CAMPERO, si les preguntan… Sí! con huevo, completo)
Me dejé llevar, perdón. El Gobierno de la Ciudad lanzó el programa “Yo leo en el bar” una propuesta que incluye la instalación, en 15 bares, de bibliotecas con la obra completa del Jorge Luis Borges.
Algunos de los libros que se podrán leer son: El Aleph, Atlas, El libro de arena, El libro de los seres imaginarios, Fervor de Buenos Aires, Los mejores cuentos policiales y las Obras Completas I, II, III y IV, donados por la editorial Planeta.
Los 15 bares son:
TORTONI, Av. De Mayo 825, 4342-4328
EL GATO NEGRO, Av. Corrientes 1669, 4371-6942
EL PROGRESO, Av. Montes de Oca 1700, 4301-0671
MAR AZUL, Tucumán 1700, 4374-0307
CONFITERIA SAINT MORITZ, Esmeralda 894, 4311-7311
MARGOT, Boedo 857, 4957-0001
36 BILLARES, Av. De Mayo 1048, 4381-5696
BAR HOTEL CASTELAR, Av. de Mayo, 1152, 4383-5001/9
BARoBAR, Tres Sargentos 415, 4311-6856
LA GIRALDA, Av. Corrientes 1453, 4371-3846
LOS LAURELES, Av. Iriarte 2290, 4303-3393
LA POESÍA Chile 502, 4300-7340
IBERIA Av. de Mayo 1196, 4381 6300
EL FEDERAL, Carlos Calvo 395 / 99, 4300 4313
EL QUERANDI, Perú 302, 4345-1770
Texto "roubado" AQUI
Buenos Aires continua a exercer o seu fascínio. O Ministério da Cultura lança na cidade o projecto Yo Leo en el Bar, que consiste na instalação de Bibliotecas com obras de Jorge Luis Borges em cafés e bares da cidade. A proposta foi anunciada ontem e tem a adesão da maioria dos cafés com tradição nas tertúlias culturais da cidade.
É seguramente uma das melhores homenagens que poderia ser feita ao escritor, à leitura e ao livro.
E mais uma (boa) razão para ir ou voltar a Buenos Aires: são tantos os cafés para visitar.
Ler também AQUI e AQUI

04 março 2010

Leandro

Agora sabemos todos.
Leandro, o menino feito saco de pancada pelos colegas.

"Humilde, tão humilde", conta a avó Zélia, "todos os dias vinha saber de mim".
Não custa imaginar Leandro, o quarto frio e o choro escondido nas noites sem fim. A busca diária do calor morno da avó.
Não custa imaginar o desespero do menino, sistematicamente insultado e ferido, a correr até ao rio gelado à procura do alívio para aquela dor sem nome. Sozinho.
Também não custa sentir, com orgulho, a coragem de Christian, o amigo, que se despiu indiferente ao frio e ao medo, e mergulhou no escuro em busca de Leandro. O que guarda dele é uma ténue presença no afago do canito.
Até já nem custa sentir que há um País esvaziado, frívolo e castrado, que assiste a tudo isto e deixa Leandro mergulhar, não tendo vergonha de que apenas Christian o queira salvar.
O que custa mesmo, é saber que no dia seguinte a Escola destes meninos abriu as portas como se não tivesse havido um crime.

Reportagem exemplar de Helena Teixeira da Silva Aqui
Foto: C.

03 março 2010

Isto é do melhor que tenho ouvido

Com um repertório essencialmente constituído por clássicos de sempre e pérolas perdidas da música portuguesa o Real Combo Lisbonense é uma formação que recupera, sob uma perspectiva actual, o espírito e o repertório das orquestras e conjuntos de baile dos anos 50 e 60.
Apesar do seu código genético revelar marcas vincadas de raiz popular, a morfologia do RCL incorpora múltiplas componentes de modernidade, instrumentais e cénicas, que estabelecem a ponte entre o passado e o presente. A sua música aspira, dessa forma, a ser congregadora, transgeracional, transsocial e transcultural.

Novos e menos novos, ricos, pobres e remediados – a todos, com um piscar de olho, o Real Combo Lisbonense convida para a dança!
(Aqui)

01 março 2010

Recado a Miguel



Acabei de ver o seu programa "Sinais de Fogo".
A primeira parte, constituída por duas reportagens e posteriores e avisados comentários, pareceu-me interessante, bem trabalhada, certeira e digna de um jornalismo moderno e inteligente.
Na segunda parte, propunha-se entrevistar o inspector Gonçalo Amaral, o autor do livro apreendido,"A verdade da Mentira".
Não tenho nenhuma simpatia especial pelo inspector, não o conheço. Não sei se a menina inglesa morreu ou foi raptada, não sei quem mente ou fala verdade, não sei.
E fiquei sem saber, não percebi nada, rigorosamente, das respostas que ele, o inspector, quis dar e não deu. Porquê? Porque o jornalista, você, pura e simplesmente não deixou falar o entrevistado.
Nunca vi nada assim . Vi parecido. Como é que se faz televisão deste modo? Como se chama alguém a um estúdio e não se permite a essa pessoa que se defenda, se expresse, contraponha?
Sinceramente, gostava que me explicasse. É essa a noção que tem de liberdade?
É só isso, lamento. 
Gostei do seu livro "No Teu Deserto". Apreciei a sua sensibilidade e escrita no feminino, a visão do mundo, dos sentimentos, da mulher, do homem.
Nada disso condiz com o jornalista que hoje, em" Sinais De Fogo", com um só tiro, trucidou o seu convidado.

27 fevereiro 2010

Canalhices, canalhas, PDMs e lucro



Eu vou reconstruir isto, diz o outro.

Agora deixem-no, com os amigos construtores, sem vigilância, a reconstruir "isto".

25 fevereiro 2010

As memórias da Memória


O momento mais antigo que a minha memória recorda decorre aos três anos de idade, quando nasceu um bebé lá em casa.
Segundo vários investigadores, os adultos não conseguem recordar acontecimentos ocorridos antes dos três anos de idade. Este facto, chamado por alguns de amnésia infantil, é um fenómeno sentido por quase toda a gente. Por vezes surge alguma confusão entre o que realmente temos como memórias da infância e aquilo que sobre os acontecimentos foi sendo construído por relatos ouvidos mais tarde, na adolescência ou já na idade adulta.
Sabe-se, no entanto, que as crianças têm, até aos cinco ou seis anos, excelentes capacidades mnésicas. Para onde irão, então, essas recordações mais iniciais?
As teorias freudianas dão-nas como reprimidas no inconsciente e, embora podendo influenciar os comportamentos adultos, não serão nunca acessíveis a não ser por métodos regressivos especiais.
Outros tentam explicar esta incapacidade de lembrar com o tipo de codificação infantil usado no seu armazenamento que será o que as torna inacessíveis. Ou seja, as incapacidades cognitivas próprias da primeira infância originam registos ilegíveis (tal como o estudante que memoriza sem entender, esquece rapidamente o que memorizou).
Outras teses perspectivam a referida amnésia na imaturidade do sentido de si, próprio da criança. Segundo estas, a criança só guardará memórias autobiográficas na idade em que tenha um conjunto de referências que lhe possibilitem ver-se nos acontecimentos. Isto não é possível antes dos quatro, cinco anos, quando as suas capacidades cognitivas lho permitem.
É por isso, e antes que me escape, que guardo ciosamente e recordo com tanto prazer aquele dia de Agosto, quando nasceu um bebé lá em casa.


(leitura Aqui , Aqui, Aqui)

23 fevereiro 2010

Rui

Auf Widersehen

Dificilmente poderiamos ser mais diferentes.
Eu de direita, ele de esquerda;
eu católico praticante, ele sem Deus nem transcendência;
eu pró-vida, ele liberal;
eu com 41, ele com 63;
eu casado militante, ele solteirão inveterado;
eu falador compulsivo, ele calado e reservado.
Partilhamos o mesmo escritório oito horas por dia, durante dezassete anos.
De manhã cumprimentavamo-nos invariavelmente em japonês ou em chinês,
encerravamos o dia com um sonoro e bem disposto auf wiedersehen.
Pelo meio discutiamos projectos, trocavamos ideias,
discordavamos abundantemente e respeitavamo-nos sempre,
sem excepção.
Lentamente ficamos amigos.
Lentamente, aprendi a apreciar o seu espirito delicado,
a admirar a sua inquebrantável verticalidade,
a compreender a sua rebelde independência.
Compreendia a amizade que me tinha quando,
aqui e ali,
se permitia partilhar o orgulho embevecido que sentia
com os sucessos do sobrinho,
a admiração com que seguia discreto a vida da irmã.
Não lhe era fácil esta partilha, mas confiava em mim a esse ponto.
Quando me trazia um livro ou um disco, deixava-o silenciosa e discretamente na minha secretária.
Quando eu lhe agradecia, murmurava: pensei que pudesse interessar-lhe...
Era o meu amigo Rui.
Partiu hoje, discreto como só ele, com a voz sumida, mas com o espirito indomável, como sempre.
A esta hora acredito que o meu Deus esteja impaciente, confuso, quase a duvidar da sua própria existência, é que o Rui não é para brincadeiras, nem cederá.
O Rui recusar-se-á a aceitar, mas estará no sitio dos rectos, dos dignos e dos justos; de lá, olhará pelas suas ovelhas
e seguirá a vida dos que sem saberem lhe importam muito.
Vai fazer-me falta.
Como nos bons tempos,
Sayonara Sacramento San!

Este o testemunho de um homem digno, falando de outro que foi livre e dono do seu destino como nenhum. (Aqui).
Com o Rui, aprendi eu o encanto da Ria nos verões da adolescência, a dureza do exílio quando ainda tanto se sonhava e, agora na sua última lição, como se enfrenta a morte com os olhos abertos, um cigarro nos lábios e o jazz a tocar em fundo.
Foto: "Amanhecer na Ria" Aqui

21 fevereiro 2010

O Pequeno Pastor


tudo no teu sorriso diz
que só te falta um pretexto
para seres feliz

uma querela talvez chegasse
ou um pequeno pastor que passasse
na estrada, com suas ovelhas

um rio, um pormenor
que no momento se pousasse
e o tornasse melhor
eu
vou pensando em coisas velhas
-sem sombra de desdém-
na vida
naquele lampejo fugace
que o teu sorriso já não tem

e que é do passado
porque a nossa grande sabedoria
não soube tratar ente tão delicado
e declina, o dia
o pequeno pastor já não vem

(poema e imagem de Mário de Cesariny)


Das coisas da Natureza ou da natureza das coisas


Quando surgem cataclismos como o que ocorreu na Madeira, e que nos deixam sem palavras, chego a pensar que a Natureza se revolta em formas catastróficas de aviso. Bem sei que o retrocesso é impossível e que o futuro do homem é sempre o de um tempo a haver. Mas interrogo-me: que tempo será?
E só me vem à memória o Caeiro - natural, antimetafísico, simples como um girassol.

Ah querem uma luz melhor que a do Sol!
Querem prados mais verdes do que estes!
Querem flores mais belas do que estas que vejo!
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me.
Mas, se acaso me descontentam,
O que quero é um sol mais sol que o Sol,
O que quero é prados mais prados que estes prados,
O que quero é flores mais flores que estas flores –
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!

Aquela coisa que está ali estava mais ali que ali está!
Sim, choro às vezes o corpo perfeito que não existe.
Mas o corpo perfeito é o corpo mais corpo que pode haver,
E o resto são os sonhos dos homens,
A miopia de quem vê pouco,
E o desejo de estar sentado de quem não sabe estar de pé.
Todo o cristianismo é um sonho de cadeiras.

E como a alma é aquilo que não aparece,
A alma mais perfeita é aquela que não apareça nunca —
A alma que está feita com o corpo
O absoluto corpo das coisas,
A existência absolutamente real sem sombras nem erros
A coincidência exacta (e inteira) de uma coisa consigo mesma.

Poesia de Alberto Caeiro, Colecção: "Obras de Fernando Pessoa", Assírio & Alvim, 2009.

18 fevereiro 2010

Eu sou o dono do meu destino

No mais recente filme de Clint Eastwood, Invictus, há um momento determinante para o futuro do jovem capitão da equipa de rugby sul africana: Mandela ensina-lhe, através da leitura de um poema, como encontrou a força necessária para vencer a adversidade, a dor e as constantes tentativas de humilhação do apartheid. Um poema "vitoriano" escrito por William Ernest Henley em 1875.
Pela oportunidade, pela beleza e pela homenagem a todos os que enfrentam o mal de frente e, com a força das convicções são donos dos seus destinos, aqui fica na voz de Alan Bates.
(esqueçam o patrocínio da UBS).




Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

Despontando


Não gosto que me tirem as coisas do sítio
O sítio pode ser o Mundo ou o meu País
A minha cidade o bairro a rua a casa
Os papeis da secretária os talheres da gaveta
A coleira do cão os óculos de ver ao perto
Nem os óculos de ver ao longe
Isso então nunca ah nunca
Sou dona do meu olhar
E o que vejo está lá
Não me desarrumem a cidade
Por favor

Citando Arsélio Martins:
O que se vê de Aveiro, do mesmo modo se vê dos outros lugares. Tentamos ler e escrever do nosso ponto de vista. Tanto pode ser diferente como igual ao ponto de vista dos outros, quem quer que sejam. Não lutamos pela diferença nem pela igualdade na escrita. Interessam-nos outras igualdades e respeitamos muitas diferenças, mas nem todas.


16 fevereiro 2010

Entrudo lusitano



O amor a Portugal e a mágoa, a dor e a melancolia incurável de ter visto a luz «neste país perdido», é um topos camoniano que percorre como um veneno, como uma maldição e às vezes como uma utopia regeneradora e uma visão futurante a literatura portuguesa, desde Garrett e sobretudo desde o tempo finissecular oitocentista até Pessoa, Torga, Manuel Alegre, Ruy Belo e outros autores, e que eu vivo dramaticamente. Um topos camoniano que se converte irremediavelmente num tropo do camonismo. Felizes, neste país cronicamente pobre, endividado, injusto, em estado permanente de «ruína cultural», como disse Pessoa, só alguns gestores e alguns economistas…


Victor Aguiar e Silva na Angelus Novus, em entrevista sobre Jorge de Sena e Camões, Janeiro de 2010
Desenho de C. - "Desolação"

14 fevereiro 2010

Autoridade e Liberdade são uma e a mesma coisa


Autoridade é do que é autor.
Só a autoridade confere autoridade.
A autoridade não é quantidade.
Todo o homem é teatro de uma inexpugnável autoridade.
Aquele que julga ser possível autorizar ou desautorizar a autoridade de outrem não sabe no que se mete.
Liberdade.
A liberdade conhece-se pelo seu fulgor.
Quatro homens livres não são mais liberdade do que um só.
Mas são mais reverbero no mesmo fulgor.
Trocar a liberdade em liberdades é a moda corrente do libertino.
Pode prender-se um homem e pô-lo a pão e água.
Pode tirar-se-lhe o pão e não se lhe dar a água.
Pode-se pô-lo a morrer, pendurado no ar, ou à dentada, com cães.
Mas é impossível tirar-lhe seja que parte for da liberdade que ele é.
Ser-se livre é possuir-se a capacidade de lutar contra o que nos oprime.
Quanto mais perseguido mais perigoso.
Quanto mais livre mais capaz.
Do cadáver dum homem que morre livre pode sair acentuado mau cheiro – nunca será um escravo.
Autoridade e Liberdade são uma e a mesma coisa.

Mário Cesariny
Pintura: Mark Rothko

13 fevereiro 2010

O segredo da mulher descalça (2)


O narrador vem com as mãos molhadas e procura secá-las na camisa suada enquanto se senta de novo. Observa como a mulher se inclina para o barman e lhe dá uma ordem em tom decidido. Tem uma mão pousada no ombro do cego, o que parece acalmá-lo.
Então, meu caro, que sabe você do casalinho desavindo? Pergunta, num tom sussurrado, olhando o homem da pasta. O poeta chega-se à frente e apoia os cotovelos na mesa, secundando a pergunta do parceiro.
Além de ser secretário do Dr. Osvaldo há cinco anos, menos um do que os que leva de cegueira total, conheço toda a história dos dois. Triste, muito triste.
O narrador olha o casal com redobrada atenção. Vê-lhes as costas, estão inclinados sobre o balcão e conversam num tom que lhe é desconhecido quando pensa em casos de rotura amorosa. Não fora a alça rasgada do vestido da mulher e dir-se-ia que namoravam.
Parece terem feito as pazes, acrescenta o poeta com curiosidade mal disfarçada .
Procura constantemente temas que façam ponte para o diálogo com o homem. A ansiedade e angústia para conhecer toda a trama assim lho exigem.
Medeia, murmura o oriental de olhar fixo nas costas do casal.
Medeia, repete de rosto fixo, perante o espanto dos companheiros de mesa.
O narrador entrega-lhe uma cerveja fresca, enquanto sugere hesitante:
Isso é Sófocles, não? Tragédia grega…
Eurípedes, quatrocentos e trinta depois de Cristo, mas a história repete-se. Na vida destes dois, assim foi. Uma paixão que teve tanto de súbita como de avassaladora. A jovem universitária que há vinte anos se apaixona pelo mestre durante uma conferência, que abandona todos os projectos que tinha e o segue para Israel onde vão viver, num Kibutz. Ali trabalham, amam e vivem mil aventuras sonhadas. Têm dois filhos, gémeos, hoje adultos. São felizes, saboreiam o amor.
Os dois homens, sedentos de outras vidas, bebem as palavras que lhes chegam como um elixir milagroso.
Você conheceu-os lá? O jovem poeta anseia por mais.
Não, nesse tempo estava longe, terminava os meus estudos em Hong Kong. Esclarece em tom confidencial. Foi pouco depois de terem nascido os gémeos que tudo se passou numa vertigem: a paixão dele que fenece, a chegada da filha do chefe ao Kibutz e a sua rápida ligação com Osvaldo.
O narrador lança um olhar jornalístico ao casal no balcão, de costas voltado para eles, à procura de um detalhe que revelasse a sua história.
Ouve, a confirmação das piores previsões com a mulher a ficar sozinha, em terra estranha, responsável pelos gémeos, o homem a mudar de casa para ficar junto do Rabi do Kibutz e da filha.
Creusa? Interrogou o jovem.
Como? O secretário, distraído, não acompanhava o poeta.
Chamava-se Creusa, a filha do chefe?
Não, nem o pai Creonte. Agora sorri e acrescenta: mas, como um raio, sabe-se em todo o Kibutz que Ester, assim se chamava, estava grávida.
A traição deixou a mulher destroçada mas, nas palavras do secretário, determinada a tomar o destino nas mãos.
Vingou-se? Perguntou, atento, o poeta.
O secretário interrompe a narrativa e fica pensativo uns segundos. Não é a primeira vez que a questão se lhe põe, tem a resposta preparada.
Conhecendo-a como conheço hoje, não creio que tenha pensado nesses termos. A vida é que é muito ardilosa e ela sabia-o bem.
Conta-lhes como ela, numa manhã, algumas semanas depois, levou os filhos de jipe até ao deserto, num passeio habitual e que eles adoravam, fotografou-os e fotografou-se em mil brincadeiras com eles. As películas ficaram nas mochilas das crianças quando os deixou no infantário estatal. Saiu do Kibutz a pé.
Ninguém mais soube dela, nem mesmo aos filhos deixou qualquer outra mensagem que eles pudessem vir a conhecer. Alguém afirmou que a vira mais tarde perto de Beirute, outros na Síria, mas nada de concreto.
E foi nessa mesma tarde que Osvaldo deixou de ver, acrescentou.
Cego? Indaga, espantado, o narrador, enquanto prolonga o olhar até à rua. Repara nas janelas do prédio em frente onde se espelha, amarelado, o sol que agora se põe.
Assim, sem mais? Interroga o jovem poeta, incrédulo, enquanto acende um cigarro.
O homem confirma, acrescentando dados estranhos: a cegueira foi tão dramática pela sua súbita instalação como pela aceitação que Osvaldo manifestou, recusando ser visto por qualquer médico. Naquele dia e sempre.
Sentiu como um castigo, afirma o poeta, cada vez mais envolvido.
Como Jasão, acrescenta espantado. E Ester? Pergunta a medo.
Não suportou o embate, nunca entendeu a recusa dele em ser tratado. Separaram-se logo a seguir e foi viver com a filha para Tel Aviv.
As frases do secretário são disparadas com rapidez, enquanto olha atento o casal, há longos minutos em conversa confessional no balcão.
Está mais solto, agora que três novas cervejas vão refrescando as três bocas e a sua memória. Parece esperar a pergunta inevitável que o narrador jornalista tem quase a obrigação de fazer.
E você, como conheceu o seu patrão?
Conheci-o em Buenos Aires, por acaso, cerca de um ano depois de ter cegado.

10 fevereiro 2010

Quadros urbanos

Título: Interacções verbais e o significado pragmático -------- dos enunciados
Série: Quadros urbanos
Técnica mista - 25x20cm
2010

1.  

2.

Há poucos dias, pelo fim da tarde e à saída da escola, no calor da discussão um dos dois jovens vira-se para o colega e dispara, aguerrido:
- Olha lá, mas porque é que estás a falar assim pra mim, pá? Pensas que estás a falar com um professor, ou quê?

 (Desculpem lá.  Sei que a ministra mudou, e parece dialogante. Mas eu tenho andado com pouca imaginação para escrever sobre as moscas.)

09 fevereiro 2010

Um Ano


Um ano Marcante:



Para cortar o silêncio e (a)largar o canto das tribos, fomos construindo o marcasdagua, um blogue articulado por três pessoas que se gostam, reconhecem e respeitam.

Festejamos hoje um ano de alegre partilha.



---------------- Fizemos amigos,


----------------------------------gritámos,----------chorámos,


----------------------------------- rimos,


-----------------festejámos, ---------convocámos.





Viva o Marcas!


Clara

C.

Paulo

06 fevereiro 2010

O segredo da mulher descalça



Vemos este homem e esta mulher juntos no final de uma sufocante tarde de Verão em Lisboa. Entram no Bar, primeiro ela, de vestido rasgado e um pé descalço, depois ele, com o sapato que pensa ser dela na mão.
Veste de forma irrepreensível, segue-a cambaleando, passa com dificuldade entre as mesas, parece hesitar, mas quer o perdão dela, o homem de quarenta anos, cego há cinco.
A mão que agora o impede de cair está agarrada ao balcão enquanto diz à mulher, ferida pelo seu amor, que ela cheira a Verão.

O narrador, sentado numa mesa junto à janela, observa um segundo homem que entra logo a seguir ao casal.
Troca um olhar de surpresa com o jovem poeta que está sentado há horas a seu lado.
Estão apaixonados, confidencia-lhe o poeta, segurando uma imperial meia vazia e já quente.
Conhece-os? O jovem abana a cabeça sem o olhar, vira-se agora também para a porta.
E aquele, quem será?
O segundo homem permanece de pé junto à porta, estático, ar oriental, cabelo de corte militar com tons aloirados, magro, com um fato escuro de péssimo corte que contrasta com o fato elegante do primeiro. Segura na mão direita a bengala do cego e tem uma pasta moderna presa por uma algema dourada ao pulso esquerdo.

O Bar está cheio, mas todas as conversas estão suspensas, com a maioria dos clientes a olharem fixamente a cena.
Em pouco tempo as vozes sobem de novo de tom e, progressivamente, apaga-se o silêncio.
O narrador termina a imperial num golo demorado inclinando a cabeça para trás e convida o segundo homem a sentar-se com eles à mesa.
Pede três imperiais e fazem espaço para se sentarem confortavelmente. O empregado pousa as imperiais na mesa, deixando um longo e não disfarçado olhar de curiosidade sobre o segundo homem. Sai depois para a esplanada.
O homem fala com um estranho sotaque. Nasceu em Macau, diz. É o secretário do primeiro homem e mantém uma espessa reserva sobre os acontecimentos.
O jovem poeta insiste no vestido rasgado, no pé descalço, mas o secretário olha o vazio com o rosto sem expressão. Abraça a pasta no colo com indisfarçável cuidado.
O narrador não retribui o silêncio do homem: identifica-se como jornalista, mas oculta os três casamentos e os filhos mal conhecidos. Fala duma ida a Macau, sem outra resposta senão o silêncio.
Quando se levanta para ir à casa de banho, o oriental parece ficar mais distendido com o poeta.
Olha com curiosidade o seu ar vagamente nórdico, fato de linho branco com sapatilhas azuis e, sobretudo, o relógio colorido no pulso direito. Indaga do conteúdo do saco de plástico pousado no chão e fica tranquilo com a resposta do jovem:
Livros, são poemas da minha autoria
Sabe, tudo isto vai ser ainda uma grande tragédia diz, inclinando o corpo sobre a mesa e olhando agora o poeta nos olhos
Ia continuar, mas a súbita chegada do narrador fá-lo calar-se de novo.
(continua)

04 fevereiro 2010

As revoltas da Madeira, quando o povo não brincava ao Carnaval



A 4 de fevereiro de 1931,celebram-se hoje 79 anos, os madeirenses revoltaram-se num movimento que ficou conhecido como a Revolta da Farinha.
Esta revolta foi seguida, cerca de um mês depois, pela chamada Revolta da Madeira um dos primeiros fortes movimentos de massas contra a ditadura saída do 28 de maio de 1926.
Na origem da Revolta da Farinha esteve um Decreto de Janeiro desse ano (1931), que estabelecia o monopólio da moagem e que ficou, então, conhecido como o "Decreto da Fome".
Este diploma entregava a importação de trigo e farinhas para a região, até aí livre, a um grupo monopolista de moageiros.
A contestação popular começou com uma grande manifestação pública em 29 de Janeiro.
A 4 de Fevereiro, a divulgação na imprensa da decisão do governo da ditadura levou à rebelião popular, originando motins de rua que duraram até ao dia 9, tendo a repressão provocado 5 mortos e muitos feridos.
Do governo central chegou no dia 9 uma força militar para a região com poderes especiais, discricionários, para realizar prisões e deportações.
A revolta foi esmagada, mas todo o terror repressivo desencadeado levou a que em Abril surgisse a Revolta da Madeira com a criação de um Governo democrático que governou, até se render, entre 11 de Abril e 2 de Maio.

02 fevereiro 2010

O Caçador


É uma pessoa agradável, conhece bem um vinho, balança o copo com destreza, a ver o tom, a sentir o perfume, senta-se com elegância, pega bem nos talheres, não põe os cotovelos na mesa, sabe contar uma graça a propósito, levanta-se quando chega uma senhora, se for casada ou viúva saberá beijar-lhe a mão, aflorando simplesmente, usa bem um lenço de seda, talvez com o colarinho aberto, oscila entre a calça de bombazine com bota alentejana, ou prefere a fazenda .cinzenta e o blazer azul escuro,ah,, sim, os botões de metal, já me esquecia.
Sim, gosta de carros antigos, ou então do jipe, porque com os cães, quando há batidas, ou caçadas, já se sabe como é.
Eu vou olhando, comparando, os homens da minha terra são do mar, passeiam na avenida como se fora no convés de um navio, as mãos atrás das costas, boné na cabeça e um andar balanceado,
por causa da nortada.
Este não, pisa terra firme e tem olhar certeiro, na mira, cofiando o bigode retorcido.
À saída, veste a samarra com pele de uma belo animal.
-De que é essa gola, pergunto.
-De raposa.
E remata, orgulhoso:
-Fui eu que a matei.
Abre-me a porta do carro, solícito.


(imagem do Google, sem autor)

01 fevereiro 2010

Mário Crespo, querem silenciar uma voz livre


O jornalista Mário Crespo vai abandonar a sua colaboração como colunista no Jornal de Notícias, depois de ter sido informado que a sua coluna semanal de opinião – onde revelava conversas hostis de membros do Governo - não ia ser hoje publicada no jornal.
O artigo em causa descreve conversas mantidas entre José Sócrates, o ministro da presidência, Silva Pereira, o ministro dos assuntos parlamentares, Jorge Lacão, e um executivo de media, onde os membros do governo se referiram a Mário Crespo como “mais um problema a resolver”. Em declarações ao Negócios, o jornalista revela que foi informado à meia-noite de hoje, por José Leite Pereira, director do título, de que o artigo não ia ser publicado.
“Ficou assente a não publicação do artigo e que eu não voltaria a escrever num jornal sob a direcção dele [José Leite Pereira]”, diz Mário Crespo. Até ao momento, não foi possível entrar em contacto com o director do jornal da Controlinveste...
Filipe Pacheco, Jornal de Negócios

Lemos, relemos e já nem náusea se sente. Parece tudo aceitável, toda a indignidade possível, toda a prepotência natural. E, no entanto, paulatinamente vão construindo o medo, calando as vozes livres, excluindo a dignidade da cidade onde cada vez mais impera a maldade e o nojo.

Avaliação, mérito e golpe de vista


Esqueçam o nome da pessoa mencionada no louvor. Vamos cingir-nos ao que é importante.
Os dirigentes são credíveis, quando pautam os seus comportamentos pela coerência. Já conhecíamos as inflexíveis exigências antitabágicas de alguém que fumava em transgressão à lei sempre que tinha oportunidade. Ou que não se importou de "dar o nome" para aparecer como responsável de projectos de marquises em vivendas de gosto duvidoso.

Com este despacho, ficamos a saber como avalia os seus colaboradores, aquele que, em tempos, foi o paladino das avaliações (dos outros) na função pública. Bastaram-lhe 4 (quatro?!) dias de (excelente) observação.
Notável.

31 janeiro 2010

31 de Janeiro


A 31 de Janeiro de 1891, decorre na cidade do Porto um levantamento militar contra a aceitação do Rei de portugal à imposição da Coroa Inglesa contida no Ultimatum de 1890 e que previa a saída de tropas portuguesas do território entre Angola e Moçambique que ficou, assim, sob o controle dos ingleses.
A revolta do 31 de Janeiro, esmagada no mesmo dia, com a prisão dos seus autores, foi a precursora da implantação da República em 1910.
Em 31 de Janeiro de 1969, nas comemorações da revolta, Mário Sacramento profere um discurso no Teatro Aveirense de que aqui reproduzimos alguns excertos.
É interessante notar que, apesar das limitações da censura que obrigavam a um texto fortemente metafórico, há uma análise do acontecimento histórico que é extremamente crítica para os que apelam e propõem a mudança das coisas na sua superfície, sem que haja transformações estruturais que levem a reais mudanças no País.
O que foi dito há 40 anos, tem hoje, com as adaptações necessárias, uma indiscutível actualidade.

Em 1507, Afonso de Albuquerque — o terrível fundador do Império Português do Oriente — enviou ao sultão de Ormuz um ultimato impondo-lhe a submissão ao rei de Portugal e dos Algarves. Em 1890, sua majestade britânica — rainha dos mares há muito navegados, mandou ao último rei de Portugal e dos Algarves, senhor já da África e do mais que sabeis, um ultimato semelhante, em que exigia a desguarnição do território interposto entre Angola e Moçambique. (Como haveis notado, chamei a D. Carlos o último rei português. D. Manuel foi, de facto, um "post scriptum" da monarquia apenas, pois a data que hoje comemoramos é a da implantação virtual da República entre nós - a sua data-chave).
Entre aqueles dois marcos - o de 1507 e o de 1891 - medeia uma viagem histórica, que fez de um país pioneiro de progresso a lanterna vermelha de todas as nações europeias.(...)
Em 1507, o porto de Ormuz ficara cor-de-rosa também, mas do sangue que correu, pois Albuquerque não aguardou a rendição dos atacados e abriu fogo de bombardas, mandando às almadias que lançassem os que pelas águas do naufrágio bracejavam. Em 1891, a cor de rosa que enfeitava as lapelas dos cortesãos parasitários do trono retingiu-se na cor rubra da primeira bandeira da República. O navio de guerra que aguardara em Vigo o embaixador inglês, um ano antes, para o repatriar no Caso de o ultimato não ser aceite, não precisou sequer de recolher o passageiro, pois o rei de Portugal, súbdito inglês — como lhe chamou Guerra Junqueiro — apressara-se a ceder, sem regateio, o que cobiçara não se sabia bem para quê, já que se mostrava inepto para prospectar, propulsionar e desenvolver o que há muito possuía.
É neste para quê que se joga toda a nossa História, do século XV até hoje. E adquirir a consciência disso é conhecer (de fonte viva) o passado e programar (de fronte lúcida) o futuro. Habituados a viver de recursos estranhos ao nosso solo europeu e à nossa iniciativa doméstica, saqueámos e mercadejámos a pimenta, o gengibre, o cravo, o sândalo, o pau-brasil, o benjoím, o azougue, a seda, o ouro, o aljôfar, as pedrarias, os chamalotes, o açafrão, a cera, o cardamomo, os brocados, o marfim, a prata, o cobre, os escravos, o café, a emigração e o petróleo. Mas não soubemos investir na metrópole toda essa riqueza.(...)
O 31 de Janeiro de 1891 foi, assim, o estrebuchar de um povo que supôs bastar-lhe a mudança de patrão — o rei, no caso — para resolver os seus dramáticos problemas. Não há dúvida que o patrão se tornara um mero feitor de interesses absentistas, pois Os verdadeiros donos do País eram os proprietários ingleses do vinho do Porto, por exemplo, ou as companhias estrangeiras que exploravam os nossos recursos metropolitanos e ultramarinos. Merecia que o escorraçassem, e a quantos partilhavam tais despojos! Mas mudar de feitor não é transformar as estruturas que administre por conta alheia. Distinguir o falso dono do verdadeiro proprietário — seja ele inglês, americano ou alemão — é o passo fundamental que desde sempre se nos impôs dar para que a Pátria seja verdadeiramente nossa e, como tal, soberana, independente e livre.

Mário Sacramento, Teatro Aveirense, 31 de Janeiro de 1969
Quadro: Proclamação da República na varanda da Câmara Municipal do Porto 31 Janeiro.

30 janeiro 2010

Janelas para lugar nenhum (fim)


...Talvez a mulher não se lembre, mas em vindas anteriores, os olhos do homem eram pássaros coloridos, esvoaçando novidades, descobertas que fazia e de que falava sem cessar: a viagem bordejando a margem do rio, os petiscos comidos debaixo da latada, o trabalho enfim retomado para clientes que começavam a aparecer e dos filhos, finalmente, reconciliados. De tudo isto falava aquele homem agora esfíngico.
No verão passado, começou com frio. Veja lá, nós a querermos a casa fresca, a procurarmos a sombra e ele no quarto com dois aquecedores ligados. A princípio não liguei, depois comecei a estranhar, achei que estaria doente, levei-o ao centro de saúde. Não encontraram nada e ele fechado no quarto. Olhe que nem para fumar saía. Deixou quase por completo, sempre deitado, embrulhado num cobertor, “tenho frio, mulher, tenho frio”, era isto sempre. De repente, foi o comer. Começou a comer de dia e de noite como se fosse sempre de dia. Jantava às 7h, que nós somos de comer cedo, mesmo no verão; à meia-noite tomava o pequeno-almoço, o café e a carcaça, vá; às 3 ou 4 da manhã o caldo, o conduto e alguma fruta; às 8 da manhã era como se jantasse e por aí fora. Sem dormir como nós, isso é que me assustou. Deixou de dormir de todo, quer dizer, dormia uns bocados, mas começou a baralhar as horas todas.Já se esqueceu, a mulher, de tudo o que viveram depois da primeira operação. De como teve de o ajudar a fazer a paz com o corpo mutilado.
Foi a primeira vez que falou do inesquecível olhar que sentia quando chegava perto dele. Levou tempo, mas a vida entrou outra vez nos seus dias quando ele, sereno, lho trouxe de novo.
Um dia, pouco antes da festa da aldeia, o padre chamou-me. O pretexto era pedir para ele fazer um estrado de madeira. Fomos os dois, já se vê, eu quis mesmo porque era uma oportunidade de sermos aceites. Foi um desastre, uma vergonha. Comportou-se como uma criança: à frente do padre, enquanto falávamos sujou-se todo. Imagine, pelas pernas abaixo… o padre a fazer que não via nada, eu só pensava em desaparecer e terminar aquele momento gelado de qualquer forma.
Pensa que ele deu por isso? Qual nada, o mesmo ar apalermado e indiferente, trouxe-o pela mão e acabei a dar-lhe um banho. Depois meti-o na cama, fechei as portadas e chorei até de manhã
.
Falámos um dia do significado que o encontro com este homem tivera na vida dela. Dizia viver agora no meio do azul forte, depois de ter vivido a negrura da adolescência e no vazio branco do namoro com o irmão dele. Sentiu, mais tarde, ser, afinal, este cruzar de mãos e pele que procurava quando queria saltar para fora de tudo o que a tolhia e odiava: a aldeia fechada a mãe conformada e o pai brutal e alcoolizado.
Só tive um tempo feliz antes deste. Foi azul, mesmo azul, o último verão com a Inês.
A Inês foi a única pessoa, antes dele, que gostou de mim por eu ser quem era. Aprendemos juntas o riso doce da fruta no verão, corríamos pelo outeiro e nadávamos no rio até ao fim do dia, sem ninguém saber onde estávamos. Sonhávamos futuros à sombra da velha figueira perto do fundão. Quando ela teve de partir, foi uma tristeza tão escura que chegámos a falar em ir até lá e deixarmo-nos ir ao fundo juntas. Faltou-nos depois a coragem.
A sua voz carrega agora um cansaço amargo, que torna ásperas as palavras e inunda de desilusão o olhar que continua preso na janela suja.
Vamos voltar. Hoje faço-lhe um almoço especial, talvez tomemos um vinho e ele queira fumar um cigarro na porta da oficina. Os comprimidos não lhe têm melhorado a memória, continua a perguntar-me quem eu sou a cada hora que passa, mas trouxeram-lhe de novo a vontade do cigarro, o que é bom.
Está a chegar o tempo da limpeza das árvores. Vamos fazê-la os dois, depois quando nascer um dia bem azul, vou levá-lo pelo outeiro, mostro-lhe a figueira e, juntos, ficamos por lá.
Foto: C.

27 janeiro 2010

Janelas para lugar nenhum



A vida pode ser muito perra, digo-lhe eu. E digo isto agora, mesmo sabendo que no próximo mês é o aniversário da primeira operação. Fixa o olhar por cima do meu ombro na janela suja com o vidro estalado.
A mulher que assim fala, carrega um olhar baço e triste nos ombros frágeis. Conta do homem que traz pela mão como se ele ali não estivesse, como se a sua presença fosse o espesso vazio que lhe enche o peito.
Acordou de madrugada, noite ainda, vestiu-lhe o fato gasto, escovou a caspa dos ombros do casaco e sentou-o à mesa, na cozinha húmida, em frente a uma caneca de cevada quente.
Antes viu-o, como sempre nos últimos meses, deitado na cama a seu lado, olhos abertos, fixos no tecto de madeira. Parece-lhe desperto, mas duvida. Imóvel apenas. Não sabe quando dorme.
Lembro-me sempre dessa operação porque foi no começo do ano em que ele fez os cinquenta e dois, estávamos juntos há cinco. Pensávamos ter um filho nesse ano.



O toque do telefone não lhe perturba a fala, e nem o facto de me ver desligá-lo, sem atender, a leva a inflectir o tom.
Demoram sempre mais de duas horas para percorrer os trinta quilómetros que separam a casa onde moram desta sala, da secretária que agora nos liga e da janela suja que continua a fixar enquanto fala.

Diz-se perdida na vida que tem agora, na casa e na aldeia onde vive e, sobretudo, dos sonhos que tiveram no princípio.
A lonjura foi uma necessidade para construir um amor proibido e reprovado. Por isso tinham vindo para a aldeia. O mesmo lugar de onde ela tinha saído para casar um ano antes. Arranjaram a velha casa com as próprias mãos, pois ninguém lhes dera mais do que olhares curiosos.
Conta que quem agora observar a casa de fora, com a oficina de carpintaria anexa, de porta escancarada, chão forrado de aparas e serradura, pode sentir ainda o respirar dos sonhos que a habitaram.

Era um artista, sabe, um marceneiro de primeira, lá no norte tinha encomendas de gente a mais de 100 quilómetros, do Porto e tudo, um homem bom em tudo o que fazia, mas do que eu gostava mais era do olhar que me trazia quando eu entrava na oficina e ele, inclinado na bancada, se virava para mim. Era um brilho de estrela e depois, o cigarro ao canto da boca dava-lhe um tal ar… não resisti.


A carpintaria está agora ocupada com restos de móveis nunca acabados, serve de abrigo a dois velhos cães e tem uma tristeza negra a escorrer das paredes.
A mãe da mulher olhou-a por trás da sua janela, manhã cedo, quando ela saiu com o homem. Moram casa com casa e mal se falam. Nem a doença dele fez recuar o marido na decisão de afastar a filha. Vê-os a caminharem para a paragem da carreira e nota como parecem dois bêbados em fim de festa.

Ao menos a minha mãe pensei que entendesse e me ajudasse. Bem sei que eu voltava à aldeia acompanhada dum homem que era o irmão mais velho daquele com quem tinha saído para casar. Para mais, o falatório tinha vindo antes de nós, este era casado, tinha deixado a mulher e os filhos para viver com a noiva do irmão. E o irmão era como um filho para ele... Mas a gente não manda no coração, não é?


Na casa da mãe, o silêncio de chumbo amplia a solidão que ali habita. A velha mulher, quando os perde de vista na curva, senta-se, mergulha o pão seco no café e come devagar as sopas. A filha toda a vida fora diferente das outras, sempre de se isolar, muita leitura, muito passeio sozinha, nunca de se preocupar com empregos, com dinheiro, nada. Ajudava, contrariada, no campo e pouco mais. Apenas lhe conheceu uma amiga, a Inês, vivia com os avós, os pais estão emigrados. Tinha um defeito numa perna, coxeava, houve um tempo que não se largavam. Estará com os pais na Suiça.
Foi uma surpresa quando um dia a filha apareceu com um namorado. Assim, sem aviso. E para mais, com a decisão de ir para a terra dele e casar. Deu cabo do pai, já se sabe. E do resto, claro.


A doença quase nos deitou abaixo. Valeu-nos o riso dele, a força que punha quando me falava do que sonhava, parece que os olhos mudavam de cor, ficavam mais azuis. São bonitos aqueles olhos, mesmo agora que não dizem nada.
Quatro vezes operado. Depois da primeira, nunca acreditei que recuperasse. Ele, sim, tinha força e ficava mais forte ainda quando vinha aqui. Consigo sentia-se bem, dizia: "este olha para mim quando fala e deixa-me fumar." Confiava sempre no que lhe falava da doença, confiava muito. Agora já não sei, este golpe foi tão inesperado, fiquei à deriva.
Não se estranha o discurso feito no passado, referido a alguém que está vivo e, mais ainda, presente. A nossa estranheza não desponta porque esta presença é uma dolorosa visão dum ausente.


(continua)