22 abril 2010

Os videirinhos e o reino do faz-de-conta

Houve um tempo em que se militava neste ou naquele Partido porque se queria lutar por isto ou aquilo. Geralmente motivações importantes, tipo mudar o mundo e assim. Chegava-se por convite de quem estava, às vezes por iniciativa própria e, depois de um rigoroso escrutínio dos quadros, tarimbava-se...
 Formado num outro tempo onde, noutros lados, até se recomendava internamente que só fossem aceites os melhores filhos e filhas do povo, os de comportamento, digamos, exemplar, acertado e imaculado, no emprego, na rua,  na escola, no bairro e na família. Era assim, nos finais do século XX, antes da modernidade por assim dizer.
Intriga-me e ainda não tenho cabal esclarecimento sobre  o que leva alguém  a ser hoje convidado para aderir a um Partido. Que critérios, que exigência, que competência, que desafios ...
O País interroga-se tanto sobre  a qualidade (intelectual e política) dos deputados, que é interessante ter como elemento informativo  que, ao mais alto nível de decisão, o critério de escolha dos representantes que agora impera é o grau de conhecimento que, quinhentos cidaddãos, deles possam ter.
Delirante.
Ver AQUI e, sobretudo, AQUI

21 abril 2010

Legalidade, vidinhas e Ética. Decididamente, o meu mundo não é deste reino.

O presidente da Assembleia da República (AR), Jaime Gama, enviou um ofício para o Conselho de Administração (CA) em que acolhe os argumentos do parecer realizado pelo auditor jurídico do Parlamento - um documento que defende o pagamento de uma viagem semanal à deputada Inês de Medeiros, para esta se deslocar à sua residência em Paris.
O parecer aponta dois argumentos na defesa da tese de que a deputada – eleita pelas listas do PS em Lisboa, mas residente na capital francesa - tem direito ao pagamento da viagem a casa, todas as semanas. Por um lado, o princípio da igualdade entre todos os deputados. Por outro, o princípio constitucional de que os parlamentares devem dispor dos meios para cumprir as suas funções.
Nesse sentido, o documento sustenta que Inês de Medeiros tem direito a uma viagem semanal de avião para Paris; às ajudas de custo correspondentes aos 25 quilómetros da deslocação entre o aeroporto e a sua residência; e a ajudas de custo equiparadas a um deputado não residente em Lisboa. Um parlamentar eleito por Lisboa e que viva na capital ou nos concelhos limítrofes recebe 23 euros por cada dia de presença nos trabalhos parlamentares. Os restantes recebem 69 euros por dia.
O relatório sublinha, no entanto, que sendo a situação de Inês Medeiros omissa (eleita por um círculo nacional, mas residente no estrangeiro) no regimento da Assembleia, o parecer vale apenas para este caso. O mesmo é dizer que a partir desta decisão não fica criada uma regra no Parlamento – se o mesmo cenário se voltar a colocar, terá de ser novamente analisado.
O parecer foi enviado a Jaime Gama, que o reenviou ao Conselho de Administração, acompanhado de um ofício sobre os ‘princípios orientadores’ para esta decisão, em que acolhe a argumentação expressa pelo auditor jurídico. O presidente do Parlamento pede ainda ao CA que tome uma posição (que não será vinculativa), após o que Gama emitirá um despacho final, fechando assim uma controvérsia que se arrasta desde o início da legislatura.
(AQUI)

...e, já agora, porque raio têm alguns cidadãos de receber dinheiro (extra, além do vencimento) para estarem presentes no local onde se comprometeram estar? 

19 abril 2010

A expressão das emoções


Em 1872, um ano depois de Proust nascer, Claude Monet exibiu uma tela intitulada Impressão: Nascer do Sol. O quadro representava o porto de Le Havre ao amanhecer, deixando entrever, através de um denso nevoeiro matinal e uma amálgama de pinceladas invulgarmente espessas, o contorno de uma orla marítima industrial, com um conjunto de guindastes, chaminés fumarentas, edifícios. A tela pareceu uma confusão desconcertante para a maioria das pessoas que a observaram e irritou particularmente os críticos da época que apelidaram pejorativamente o seu criador e o grupo disperso a que pertencia de “impressionistas”, referindo que o domínio que Monet tinha da vertente técnica da pintura era tão limitado que só conseguia produzir uma representação infantil, com muito poucas semelhanças com as verdadeiras manhãs de Le Havre.
O contraste com o julgamento feito, alguns anos depois, pela elite do mundo da arte, não podia ter sido maior. Afinal de contas, parecia que os Impressionistas não só sabiam usar o pincel, como a técnica que usavam era extraordinária para captar uma dimensão da realidade visual ignorada por contemporâneos menos talentosos.
O que poderia explicar uma reavaliação tão díspar? (…).
A resposta proustiana começa com a ideia de que todos temos o hábito de atribuir ao que sentimos uma forma de expressão que difere tanto da realidade e que, ainda assim, após algum tempo, acabamos por tomar como sendo a própria realidade.(...)
Se Monet é um herói neste contexto, é porque se libertou das representações tradicionais e, em certos aspectos, tradicionais do Le Havre, para se concentrar mais de perto nas suas próprias e incorruptas impressões da cena.
Numa homenagem aos pintores Impressionistas, Proust incluiu um deles no seu romance, o fictício Elstir, que partilha características com Renoir, Degas e Monet.(...) Nas paisagens de Elstir não existe demarcação entre o mar e o céu, o céu parece-se com o mar, o mar parece-se com o céu.(...)
Tal como Proust disse: a nossa vaidade, as nossas paixões, o nosso espírito de imitação, a nossa inteligência abstracta, os nossos hábitos estão em actividade há muito tempo e a tarefa da arte é desfazer essa actividade, fazendo-nos recuar na direcção de onde viemos para as profundezas onde o que existiu verdadeiramente permanece desconhecido dentro de nós.
E o que permanece desconhecido dentro de nós inclui coisas tão surpreendentes como navios que atravessam cidades, mares que não se distinguem momentaneamente dos céus e sentimentos intensos desencadeados pelo contacto de uma pele macia.

Alain De Botton, Como Proust pode mudar a sua vida, D.Quixote, 2009

17 abril 2010

Momentos mágicos


Ontem, 19h, no Grande Auditório da Gulbenkian: A Tentação do Jazz, em Concertos comentados
Orquestra Gulbenkian com o Maestro Cesário Costa; Piano: Mário Laginha,
Comentador: Alexandre Delgado
Participaram também: Jorge Reis (Sax Alto), João Moreira (Trompete), Pedro Moreira (Sax Tenor), Bernardo Moreira (Contrabaixo) e Alexandre Frazão (Bateria)


Num fantástico ambiente, com uma plateia cheia de crianças atentas, curiosas e interessadas, ouviu-se G. Schuller (A Journey to Jazz); Geoge Gershwin (Rhapsody in Blue) e Duke Ellington (Ellington Portrait).
Uma fusão perfeita da música e dos músicos, do jazz e da música sinfónica, num fim de tarde mágico.
Repete hoje!...

Era uma vez, num país a preto e branco...

15 abril 2010

O tempo só faz falta no fim


"...o sargento olhou para o relógio: eram oito e quarenta e quatro minutos. Tinha de esperar que dessem as nove. Hladik, mais insignificante que infeliz, sentou-se num montão de lenha. Reparou que os olhos dos soldados fugiam dos seus. Para aliviar a espera, o sargento entregou-lhe um cigarro. Hladik não fumava; aceitou-o por cortesia ou por humildade. Ao acendê-lo, viu que lhe tremiam as mãos. O dia enevoou-se; os soldados falavam em voz baixa como se ele já estivesse morto.(...)
O piquete formou e perfilou-se. Hladik, de pé contra a parede do quartel, esperou a descarga. Alguém receou que a parede ficasse manchada de sangue; então ordenaram ao réu que avançasse alguns passos. Hladik, absurdamente, lembrou-se das vacilações preliminares dos fotógrafos. Uma pesada gota de chuva tocou uma das faces de Hladik e rolou lentamente pela sua bochecha; o sargento vociferou a ordem final.
O universo físico parou.
As armas convergiam sobre Hladik, mas os homens que iam matá-lo estavam imóveis.O braço do sargento eternizava um gesto inacabado. Numa ardósia do pátio uma abelha projectava uma sombra fixa. O vento havia cessado, como num quadro. Hladik tentou um grito, uma sílaba, o torcer de uma mão. Compreendeu que estava paralisado. Não lhe chegava nem o mais ténue rumor do tolhido mundo. Pensou estou no inferno, estou morto. Pensou estou louco. Pensou o tempo parou. A seguir reflectiu que nesse caso também se lhe teria parado o pensamento. Quis pô-lo à prova: repetiu (sem mover os lábios) a misteriosa quarta écloga de Virgílio. Imaginou que os já longínquos soldados compartilhavam a sua angústia: ansiou por comunicar com eles (...). Dormiu, ao cabo de um prazo indeterminado. Ao acordar, o mundo continuava imóvel e surdo. Na sua bochecha perdurava a gota de água; no pátio a sombra da abelha; O fumo do cigarro que expelira nunca mais acabava de se dispersar. Outro "dia" passou, antes que Hladik compreendesse.
Um ano inteiro havia solicitado de Deus para terminar o seu trabalho: um ano lhe outorgava a sua omnipotência. Deus operava para ele um milagre secreto: matá-lo-ia o chumbo alemão, na hora determinada, porém na sua mente um ano decorria entre a ordem e a execução da ordem.
Não dispunha de outro documento além da memória (...) Minucioso, imóvel, secreto, urdiu no tempo o seu elevado labirinto invisível. Refez o terceiro acto duas vezes. Apagou um ou outro símbolo demasiado evidente: as repetidas badaladas, a música. Omitiu, abreviou, ampliou; nalguns casos, optou pela versão primitiva. Chegou a gostar do pátio, do quartel (...) deu fim ao seu drama: já só lhe faltava resolver um único epíteto. Achou-o; a gota de água resvalou-lhe pela bochecha. Iniciou um grito enlouquecido, mexeu a cara, a quádrupla descarga abateu-o.
Jaromir Hladik morreu a vinte e nove de março, às nove horas e dois minutos da manhã."

1943
Jorge Luis Borges, Ficções
Foto C.

13 abril 2010

A vida pode ser bela


Uma casa simpática, uma ideia genial.
Como se pode viver a sorrir com um pouco de imaginação:

"Trata-se do Inntel Hotels Amsterdam-Zaandam, um hotel em forma de aglomerado de casas tradicionais que, segundo o jornal britânico The Guardian, tem 12 andares e 160 quartos.
Na última década, formas neo-tradicionais surgiram nas cidades holandesas, e este é mais um exemplo.

Van Winden, o arquitecto responsável pela obra que custou 15 milhões de euros, referiu ao diário britânico que não tinha qualquer intenção de chocar quando criou o hotel.
O responsável disse ainda que é um edifício sem rodeios e que está em sintonia com a região. Ainda que reconheça que uma construção desta dimensão não possa ser totalmente tradicional, esclarece que é uma obra racional e com um interior planeado.
As suites podem ser comparadas a verdadeiras casas.
Van Winden disse ainda que o melhor elogio que os amigos lhe fizeram foi dizerem-lhe «que os edifícios os fazem sorrir».

«Isso devia ser suficiente para qualquer arquitecto», acrescentou o autor.

SOL"

11 abril 2010

A música, a escrita e o prazer de ler


"... No entretanto já se desencadeou o apocalipse, porque Louis não faz mais do que levantar a sua espada de ouro, e a primeira frase de When it's sleepy time down South cai sobre as gentes como uma carícia de leopardo. A música sai do trompete de Louis como os filmes falados das bocas dos santos primitivos, desenha-se no ar a sua quente escrita amarela, e atrás desse primeiro sinal solta-se Muskat Ramble enquanto nós nos agarramos nos nossos lugares a tudo aquilo que temos à mão, e também àquilo que é dos vizinhos, de forma que a sala parece uma vasta sociedade de polvos enlouquecidos, e ao centro está Louis com os olhos em branco atrás do seu trompete, com o seu lenço a flutuar numa despedida contínua de algo que não se sabe bem o que é, como se Louis precisasse de dizer um adeus perpétuo a essa música que cria e se desfaz no mesmo instante, como se soubesse o preço terrível dessa maravilhosa liberdade que é a sua."

Julio Cortázar, A Volta ao Dia em 80 Mundos

A fantástica narrativa de J.Cortázar em torno de um concerto de Louis Armstrong nos anos 60 do século XX, conduz-nos num voo pleno de referências literárias, mergulhando os sentidos na música (que na leitura não se ouve mas se sente), nos movimentos que se adivinham e na emoção que nos invade. Um texto que é uma homenagem à música, à sensibilidade e à cultura universal.

"No meio de tudo isto Louis escondeu o copo, tem um lenço fresco na mão, e então vem-lhe a vontade de cantar e canta, mas quando Louis canta a ordem estabelecida das coisas detém-se não por qualquer razão explicável, mas porque tem de deter-se quando Louis canta, e naquela boca de onde antes saíram bandeirolas de ouro cresce agora um mugido de cervo apaixonado, um bramido de antílope para as estrelas, um murmúrio de abelhão durante a sesta das plantações. Perdido na imensa abóbada do seu canto eu fecho os olhos, e com a voz deste Louis de hoje chegam-me todas as suas outras vozes a partir de outro tempo, a sua voz a partir de velhos discos perdidos para sempre, a sua voz a cantar Confessin', a cantar Dusky Stevedore.(...) E abro os olhos e ele ali está num palco de Paris, e abro os olhos e ele ali está, depois de vinte e dois anos de amor sul-americano ele ali está, depois de vinte e dois anos está ali a cantar, rindo-se com toda a sua cara de criança incorrigível, Louis cronópio, Louis enormíssimo cronópio, Louis alegria dos homens que te merecem".

Julio Cortázar, A Volta ao Dia em 80 Mundos

10 abril 2010

O Duplo


Sugerido ou estimulado pelos espelhos, as águas e os irmãos gémeos, o conceito do Duplo é comum a muitas nações. É verosímil supor que sentenças como "um amigo é um outro eu" de Pitágoras ou o "Conhece-te a ti mesmo" platónico se inspiraram nele. Na Alemanha chamam-lhe o Doppelgunger, na Escócia o Fetch, porque vem buscar os homens (fetch) para os levar à morte. Encontrar-se consigo mesmo é, portanto, ignominioso (...). Para os judeus, em contrapartida, o aparecimento do Duplo não era presságio de uma morte próxima. Era a certeza de ter encontrado o estado profético...

Jorge Luis Borges, O Livro dos Seres Imaginários

07 abril 2010

E-s-c-o-l-a... será o quê?


O bom humor é uma forma excelente para falar de coisas sérias.
Mesmo que, por vezes, o ritmo e o jargão dificultem a compreensão do discurso, e tudo pareça muito longínquo e diferente, a paródia serve-nos amargamente, na perfeição, uma ideia de escola. Em mudança vertiginosa.

04 abril 2010

Human(a)idade


Lisa Kokin - Remembrance

--*

Falaram-me os homens em humanidade,
Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade.
Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si.
Cada um separado do outro por um espaço sem homens.

Alberto Caeiro, Fragmentos
* Philip Glass - Truman Sleeps

01 abril 2010

Fazes-nos mesmo falta, Mário!


Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera!
e zás, comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar o que acontece.

in Novos Contos do Gin, de Mário-Henrique Leiria

Fazes-nos falta, Mário!

Mário Viegas 10 / 11 / 1948  -  1 / 04 / 1996

Mário Viegas faleceu há 14 anos. Faz-nos falta a sua sensibilidade e o amor pela poesia, o humor cáustico e o riso implacável perante a  hipocrisia e o novoriquismo com que nos querem dominar o espírito. Faz-nos muita falta.

Isto não pára...



Vale-nos a atenção de Suas Excelências (AQUI)

31 março 2010

O presságio dos noitibós


Toda a noite os noitibós chiaram lá para os lados da ribeira, e eu, que agora estou aqui sentada ao pé do lume, sei que nada de bom está para acontecer.
A minha mãe contava-me que, quando o meu pai saiu de casa para ir viver com uma mulher que conheceu numa feira, também os noitibós não se calaram toda a noite.
Não sei o que me espera, mas o meu homem saiu de manhã, dizendo que ia fazer o avio à vila, e já o sol se pôs, já a lua vai alta e ele não aparece. Por duas vezes os cães soaram lá fora a ladrar, enfurecidos. Até parecia que alguém andava a rondar o monte. E eu aqui sozinha, à espera que ele volte. Já pensei em tanta coisa: a ribeira vai cheia e pode ter caído à água ao passar o açude do moinho; podem tê-lo morto em alguma taberna; ou estar caído de bêbado aí numa vereda da serra.
Logo aquele homem se havia de lembrar de fazer o avio hoje, que eu estava de amassadura e não podia deixar o monte para ir com ele, como sempre faço.
Fiquei cabeceando de sono à volta do lume, pensando que ainda tinha de passajar as calças do homem, para ele levar à feira no outro dia.
Levantei-me, fui ao quarto de dormir, abri a arca e nem uma peça de roupa do meu homem lá estava.
A minha mãe dizia-me que, quando os noitibós chiam à noite, anunciam sempre alguma desgraça. E olhem que ela tinha razão.

Joaquim Mestre, Breviário das Almas, Oficina Do Livro,2009
Imagem: Karl Addison

29 março 2010

Em tempo de crise

Não esquecemos o Goofus Bird, pássaro que constrói o ninho ao contrário e voa para trás, porque não lhe interessa para onde vai, mas onde já esteve.

Jorge Luis Borges, O Livro dos Seres Imaginários, Ed. Teorema

28 março 2010

Texto Privado


«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.»

José Saramago - Cadernos de Lanzarote - Diário III - pag. 148

cámone man, dá-me um travão (ou give me a break)



roubado(stolen) aqui(here)

27 março 2010

Para os que gostam de jazz e boa literatura (e para os outros, claro)

Sugestão: Leia o texto, veja e ouça o videoclip e leia de novo
(depois, volte a ouvir e a ler as vezes que apetecer).


...Quando Thelonious se senta ao piano, toda a sala se senta com ele e produz um murmúrio colectivo do tamanho exacto do alívio, porque o percurso tangencial de Thelonious pelo palco tem qualquer coisa de rigorosa cabotagem fenícia com prováveis encalhamentos nas Sirtes, e quando a nave de mel obscuro e capitão barbudo chega ao porto, é recebida pelo cais maçónico do Victória Hall com um suspiro como que de alas apaziguadas, de cais alcançado. Então é o Pannonica ou o Blue Monk, três sombras como espigas rodeiam o urso entretido a investigar as colmeias do teclado, as garras toscas e bondosas vão e vêm por entre abelhas desconcertadas e hexágonos de sustenido, passou apenas um minuto e já estamos na noite fora do tempo, a noite primitiva e delicada de Thelonious Monk.(...)Depois, quando Charles Rouse dá um passo na direcção do microfone e o seu saxo desenha imperiosamente as razões pelas quais ali está, Thelonious deixa cair as mãos, ouve por um instante, pousa ainda um leve acorde com a esquerda, e o urso levanta-se e abana-se, farto de mel ou à procura de um musgo propício para a modorra, sai do tamborete e apoia-se na ponta do piano, marcando o ritmo com um sapato e o barrete (...) dando imperceptivelmente início a um safari de dedos pela borda da caixa do piano enquanto se balança cadenciadamente porque Rouse, o contrabaixista e o percussionista estão enredados no próprio mistério da sua trindade, enquanto Thelonious viaja vertiginoso sem se mover (...) Charles Rouse está a deixar as últimas, veementes, largas e admiráveis pinceladas de roxo e vermelho, sentimos o vazio de Thelonious,(...) a interminável diástole de um só coração imenso onde latem todas as nossas dores, e é exactamente nesse momento que a sua outra mão se apropria do piano, regressa nuvem a nuvem até ao teclado, passeia os dedos indecisos pelo ar, deixa-os cair e estamos salvos, temos Thelonious capitão, há rumo para um bom bocado, e o gesto de Rouse ao recuar, enquanto desprende o saxo do suporte, tem algo de entrega de poderes, de legado que devolve ao Doge as chaves da sereníssima.

Julio Cortázar, A Volta ao Piano de Thelonious Monk

A fantástica descrição de J. Cortázar do Concerto de Telonious Monk no Victória Hall de Genebra (Março de 1966), de que transcrevi um fragmento, é uma peça literária que mostra e sublinha o valor de um dos maiores escritores do século XX. Aqui

24 março 2010

O genocídio de uma geração

Argentina, 24 de Março de 1976, faz hoje 34 anos. Uma Junta Militar composta pelos comandantes dos três ramos das Forças Armadas - o general Jorge Rafael Videla, o almirante Emílio Eduardo Massera e o brigadeiro Orlando Ramón Agosti – desencadeia um golpe militar, toma o poder e dissolve o Congresso.
Inicia-se nesse dia a ditadura militar mais violenta da história da Argentina,
a chamada guerra sucia, em que uma brutal maquina repressiva estatal, impôs um verdadeiro genocídio.
Entre 1976 e 1979, foram dadas como desaparecidas cerca de 9 mil pessoas identificadas pela Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas. Outras fontes apontam até 30 mil desaparecidos. Nesse período ainda, foram criados mais de 350 campos de concentração.
De todas as atrocidades cometidas pela ditadura, o assassínio das jovens mulheres que davam à luz, com a entrega dos filhos aos seus torturadores ficará para a história da Humanidade como uma das suas mais horrorosas perversidades.
Nestes dias de 2010, continua a exemplar acção das Avós da Praça de Maio na recuperação destas vítimas. O neto 101: Francisco Madariaga Quintela, filho de Silvia, jovem médica presa em 17 de Janeiro de 1977 grávida de 4 meses, foi finalmente "descoberto". Viveu 32 anos com o militar responsável pelo assassínio da mãe.
Anos con un vacío adentro inexplicable, disse.

Ler também Aqui

23 março 2010

Marcelas Owens, um herói do nosso tempo



Esteve, por direito próprio, ao lado de Barack Obama no momento da assinatura da Lei que consagrou o acesso a cuidados médicos para 36 milhões de americanos.
Marcelas Owens, o menino de 11 anos, foi um dos rostos visíveis do combate para aprovação da Lei.
Enfrentou com exemplar coragem uma miserável campanha de calúnias e provocações, apenas por querer que mais ninguém tivesse o destino de sua mãe, falecida aos 27 anos sem poder ser tratada por não ter dinheiro.

21 março 2010

amor de palavras


Tenho por ti um amor como palavras
de lugares guardados e suspensos
um amor de renúncia de cuidados
fechado em cada pedra de caminho
Sinto por ti um amor 
como dizer
um amor descontinuado
solitário
e no entanto
nele tropeço e me magoo
nele renasço e me suplico
me divino
e me liberto.

Dia Mundial da Poesia



queria de ti um país de bondade e de bruma
queria de ti o mar de uma rosa de espuma!
(Mário Cesariny )

20 março 2010

(Re) começos




Equinócio significa, a partir do latim, "noites iguais". Os Equinócios acontecem em Março e Setembro, nas duas ocasiões em que o dia e a noite tem duração igual. No hemisfério Norte, em Março, Equinócio de Primavera (chamado de Verão ou Vernal), e em Setembro, o Equinócio de Outono.
O "nosso"Equinócio de Primavera (hemisfério Norte) ocorre nos dias 20 ou 21 de Março e o de Outono em 22 ou 23 de Setembro. A data varia devido aos anos bissextos, que deslocam o calendário das estações em um dia.
A partir de hoje, façam como os passaritos, sintam, sorriam e cantem, mesmo que não vejam o sol... É Primavera, ele está lá.
* Nigel Kennedy, Primavera I, Vivaldi

18 março 2010

Para chinês ver

**

Dados mais relevantes da Expo 2010 Shanghai:

• Recinto de exposição: 528 ha
• Países participantes esperados: 192
• Organizações internacionais: 50
• Duração da exposição: 184 dias – de 1 de Maio a 31 de Outubro de 2010
• Previsão de visitantes: 70 milhões
• Área do pavilhão de Portugal: 2.000m2
• Previsão de visitantes do Pavilhão de Portugal: 3 milhões

O Pavilhão de Portugal, com uma área de 2.000 m2, está em construção e estará terminado até dia 15 de Abril, duas semanas antes do arranque oficial da Expo 2010 Shanghai, a 1 de Maio de 2010. Este Pavilhão apresenta uma fachada revestida de cortiça, material nacional, reciclável e ecológico. Trata-se de um exemplo de inovação e de boas práticas ambientais que potenciam a imagem de Portugal na maior Exposição Universal alguma vez realizada. Reflecte o conceito de sustentabilidade dos edifícios das cidades contemporâneas e realça-o como elemento-chave das políticas nacionais em termos económicos e ambientais.

Portugal terá investido 10 milhões de euros - dos quais três são aplicados nas obras do interior do pavilhão - para se promover na principal montra do mundo, que a China pretende transformar na "maior e melhor" de toda a História, e "potenciar a actividade económica" com o gigante asiático, considerado pela AICEP um "mercado estratégico e prioritário" para diversificar as exportações.
Com base no lema da Expo 2010 "Melhor Cidade, Melhor Qualidade de Vida", Portugal vai apresentar-se como "uma praça para o mundo"e "um mundo de energias", e irá, por isso, dispor de uma recriação da Praça do Comércio no interior do pavilhão como "lugar central da vida e actividades urbanas, de memórias e mudanças". Mais aqui.

** Asseguraram-me que a tradução do ideograma em cima é: "crise". É formado pelos ideogramas : risco (perigo) e oportunidade.

(vou ali perguntar à Catarina se ela quer aprender a lengalenga: ...shangai-xeque/xeque-mate/mate quem?/mate o senhor/senhor-dos-passos/paços-do-concelho/conselho-de-guerra/guerra da china/china- shangai/shangai-xeque......acho que era assim.)

15 março 2010

O PEC, a crise e o túnel sem luz ao fundo


...O grande raciocínio que sustenta a actual estratégia económica é importado da caça: o importante é não afugentar. Não convém taxar os lucros dos bancos e das grandes empresas para não afugentar o investimento. É desaconselhável taxar as transacções da bolsa para não afugentar o capital. Quem sobra? Os trabalhadores - que, além de serem muitos, são gente que não se deixa afugentar, porque precisa mesmo do emprego. Um trabalhador por conta de outrem trabalha, na verdade, por conta de dois, digamos, outrens: por conta do empregador e por conta do Estado. São os trabalhadores, e não as empresas e os bancos, os grandes "criadores de riqueza". Criam a riqueza dos patrões e a do Estado, que depois toma essa parte da riqueza e a devolve às empresas e aos bancos, sob a forma de nacionalização do que der prejuízo e privatização do que der lucro. Nota-se muito que estou a assobiar a Internacional enquanto escrevo isto?

A política fiscal é igualmente clara: as pessoas que ganham menos do que eu pagam menos impostos do que eu; a generalidade das que ganham mais também paga menos impostos do que eu. O governo alega que irá aumentar a taxa de impostos a quem ganha mais de 150 mil euros por ano, o que seria uma excelente medida, mas não é exactamente verdadeiro. O governo vai aumentar a taxa de impostos a quem declara mais de 150 mil euros por ano, o que é ligeiramente diferente. Não há assim tantos contribuintes nessas condições...

Ricardo Araújo Pereira (Aqui)

13 março 2010

Refazer o puzzle

Ana, a mãe, fala-nos de si e da sua batalha contra essa indescritível dor de perder Inês, a filha,antes de completar os 16 anos.
Sem ti, Inês (Ed. Caderno, LeYa, 2010) é uma narrativa profunda, dolorosa e sentida, escrita na primeira pessoa por uma mulher de 46 anos obrigada a viver e a sobreviver ao que todos mais tememos, a perda de um filho.
Um diário da mãe que diz que foi em luta e agora se sente em luto. Um diário onde Ana procura encontrar sentido para os dias seguintes na poesia, nas canções e nas viagens. Uma intensa e dolorosa reflexão sobre o que fazer da memória, onde encaixar esta perda absoluta no futuro dos que a ela sobrevivem.

Quando entrávamos numa loja de roupa entretinha-me
a adivinhar as peças que escolherias. O tempo
encarregava-se de me confirmar a minha pontaria certeira.
Sabes uma coisa, Inês? Não consigo abandonar esse velho hábito…
Em cada nova colecção continuo a antecipar
as tuas escolhas, e embora não as confirmes, tenho a certeza
de que continuam certeiras…
Sempre contrariaste a lógica uniformizadora dos adolescentes.
Lembro-me como ficavas irritada quando as tuas amigas teimosamente
te imitavam a forma de vestir. Gostavas de ser diferente
e procuravas lojas que satisfizessem essa necessidade de exclusividade.
Havia entre nós uma cumplicidade estética
(sensatamente contrariada pela diferença de idades) que não me deixava dispensar
os teus conselhos. Lembro-me de ti, ainda com 10/11 anos,
sentada no meu quarto enquanto eu desfilava as várias opções
até tomares a decisão final. Foi essa cumplicidade que alimentou a paixão
que ambas sentimos por “aqueles” sapatos verdes. Em conjunto,
tentamos encontrar pretextos (patetas) para os comprar,
que contrariassem os argumentos (lógicos) para o não fazer.
Ambas sabíamos que os saltos eram excessivamente altos para a tua pouca idade,
e o design demasiado ousado para a minha.
Quem me dera que a sensatez não tivesse levado a melhor…
Quem me dera que tivéssemos comprado “aqueles” sapatos verdes,
marca da nossa cumplicidade que já não podemos alimentar…
Quem me dera ter no meu quarto (ou no teu) “aqueles” sapatos verdes,
apenas como objecto de pura fruição estética… (quem disse que os sapatos são para usar?)

Foto: C.

11 março 2010

Sinto-me um idiota

Hoje em dia tenho a certeza de que não ser idiota é das coisas mais importantes na vida de um homem, até que pouco a pouco o vou esquecendo, porque o pior é que no final me esqueço; por exemplo, acabo de ver um pato que nadava num dos lagos do Bois de Boulogne, e ele era de uma beleza tão maravilhosa que não pude evitar agachar-me junto ao lago e deixar-me ficar não sei quanto tempo a observar a sua formosura, a alegria petulante dos seus olhos, aquela dupla linha delicada que corta o seu peito na água do lago e se vai abrindo até se perder com a distância. O meu entusiasmo não nasce apenas com o pato, trata-se antes de qualquer coisa que o pato cristaliza num dado momento, porque às vezes pode ser uma folha seca que se balança na ponta de um banco, ou uma grua alaranjada, enorme e delicada contra o céu azul da tarde, ou o cheiro de um vagão de comboio quando uma pessoa entra e se tem um bilhete para uma viagem de muitas horas e tudo se vai sucedendo prodigiosamente (....) e tudo me preenche como uma espécie de salgueiro interior, de uma verde chuva de delícia que nunca mais devia terminar. Porém, já muita gente me disse que o meu entusiasmo é uma prova de imaturidade (de idiotice, querem eles dizer, mas escolhem as palavras) e que não nos podemos entusiasmar assim por causa de uma teia de aranha que brilha ao sol, uma vez que se uma pessoa incorre em semelhantes excessos por causa de uma teia de aranha cheia de orvalho, o que é que vai guardar para a noite em que houver o King Lear? A mim isso surpreende-me um pouco, porque na verdade o entusiasmo não é uma coisa que se gaste quando se é realmente idiota, gasta-se quando uma pessoa é inteligente e tem a noção dos valores e da historicidade das coisas, e é por isso que mesmo que eu ande a correr de um lado para o outro no Bois de Boulogne para ver melhor o pato, isso não me vai impedir de nessa mesma noite dar saltos enormes de entusiasmo se gostar da forma como Fisher Dieskau canta. Agora que penso nesse assunto, a idiotice deve ser isso: o poder entusiasmar-se a toda a hora com qualquer coisa de que uma pessoa goste, sem que um desenhito numa parede tenha de se ver diminuído pela memória dos frescos de Giotto em Pádua. A idiotice deve ser uma espécie de presença ou de recomeço constante: agora gosto desta pedrinha amarela, agora gosto de L'année dernière à Marienbad, agora gosto de ti, ratita, agora gosto dessa locomotora incrível a bufar na Gare de Lyon, agora gosto desse cartaz arrancado e sujo. Agora gosto, gosto tanto, agora sou eu, um eu reincidente, idiota perfeito na sua idiotice que não sabe que é idiota e desfruta perdido no seu prazer, até que a primeira frase inteligente o devolva à consciência da sua idiotice e o faça procurar apressadamente um cigarro com as mãos desajeitadas, olhando para o chão compreendendo e às vezes aceitando porque um idiota também tem de viver, claro que até que outro pato ou outro cartaz, e assim sempre.

Julio Cortazar, A Volta ao Dia em 80 Mundos, Cavalo de Ferro, 2009
Foto: C.

09 março 2010

O perigo da história única e dos machos alfa

Confesso que os chamados "dias internacionais de" [qualquer coisa] não me empolgam por aí além. De resto, muitas dessas datas comemorativas trazem acoplada uma série de técnicas de marketing que apelam ao consumo de ocasião e me fazem descrer da eficácia "da coisa". Bem sei que por um dia, por um diazito apenas, a nossa atenção é canalizada especialmente para o tema em celebração. Mas quanto do conteúdo se dilui na superficialidade dos celofanes e laços com que se embrulha o presente?

Vem isto a propósito de eu ter recebido hoje, via email, num dia que já não é especificamente o da mulher, a indicação destes vídeos. Talvez por este facto eles tenham ainda mais força e sentido. Por serem vistos num dia qualquer.
São as palavras de duas mulheres que partilham, se não outras qualidades, pelo menos uma inteligência sensível, uma fina ironia e uma inegável paixão pela vida. São duas mulheres lindíssimas. Ambas escritoras. E só pelo facto de serem "contadas" é que as suas histórias ficam a dever à realidade.

Adorei esta bonita homenagem. Feita por um homem que, contrariamente ao que afirma, parece ligar, afinal, a estas comemorações. Obrigada, Paulo Mendes.

[Em baixo, à esquerda, podem facilmente accionar as legendas.]


06 março 2010

Yo Leo en el Bar


Amo desparramarme en la mesa de un bar, bien típico de Buenos Aires, y quedarme leyendo horas junto a un café con leche. Esto sólo se puede hacer en algunos bares, los de mesa de fórmica, mozos de más de 40, dueño generalmente gallego, AM de fondo -a veces muy fuerte-. Allí donde pasan con dos jarras metálicas, en una leche, en otra café, y te lo sirven frente a tus ojos. (Recomiendo la esquina de Azcuenaga y Paraguay, el bar del gallego. Pedir un café con leche con un CAMPERO, si les preguntan… Sí! con huevo, completo)
Me dejé llevar, perdón. El Gobierno de la Ciudad lanzó el programa “Yo leo en el bar” una propuesta que incluye la instalación, en 15 bares, de bibliotecas con la obra completa del Jorge Luis Borges.
Algunos de los libros que se podrán leer son: El Aleph, Atlas, El libro de arena, El libro de los seres imaginarios, Fervor de Buenos Aires, Los mejores cuentos policiales y las Obras Completas I, II, III y IV, donados por la editorial Planeta.
Los 15 bares son:
TORTONI, Av. De Mayo 825, 4342-4328
EL GATO NEGRO, Av. Corrientes 1669, 4371-6942
EL PROGRESO, Av. Montes de Oca 1700, 4301-0671
MAR AZUL, Tucumán 1700, 4374-0307
CONFITERIA SAINT MORITZ, Esmeralda 894, 4311-7311
MARGOT, Boedo 857, 4957-0001
36 BILLARES, Av. De Mayo 1048, 4381-5696
BAR HOTEL CASTELAR, Av. de Mayo, 1152, 4383-5001/9
BARoBAR, Tres Sargentos 415, 4311-6856
LA GIRALDA, Av. Corrientes 1453, 4371-3846
LOS LAURELES, Av. Iriarte 2290, 4303-3393
LA POESÍA Chile 502, 4300-7340
IBERIA Av. de Mayo 1196, 4381 6300
EL FEDERAL, Carlos Calvo 395 / 99, 4300 4313
EL QUERANDI, Perú 302, 4345-1770
Texto "roubado" AQUI
Buenos Aires continua a exercer o seu fascínio. O Ministério da Cultura lança na cidade o projecto Yo Leo en el Bar, que consiste na instalação de Bibliotecas com obras de Jorge Luis Borges em cafés e bares da cidade. A proposta foi anunciada ontem e tem a adesão da maioria dos cafés com tradição nas tertúlias culturais da cidade.
É seguramente uma das melhores homenagens que poderia ser feita ao escritor, à leitura e ao livro.
E mais uma (boa) razão para ir ou voltar a Buenos Aires: são tantos os cafés para visitar.
Ler também AQUI e AQUI

04 março 2010

Leandro

Agora sabemos todos.
Leandro, o menino feito saco de pancada pelos colegas.

"Humilde, tão humilde", conta a avó Zélia, "todos os dias vinha saber de mim".
Não custa imaginar Leandro, o quarto frio e o choro escondido nas noites sem fim. A busca diária do calor morno da avó.
Não custa imaginar o desespero do menino, sistematicamente insultado e ferido, a correr até ao rio gelado à procura do alívio para aquela dor sem nome. Sozinho.
Também não custa sentir, com orgulho, a coragem de Christian, o amigo, que se despiu indiferente ao frio e ao medo, e mergulhou no escuro em busca de Leandro. O que guarda dele é uma ténue presença no afago do canito.
Até já nem custa sentir que há um País esvaziado, frívolo e castrado, que assiste a tudo isto e deixa Leandro mergulhar, não tendo vergonha de que apenas Christian o queira salvar.
O que custa mesmo, é saber que no dia seguinte a Escola destes meninos abriu as portas como se não tivesse havido um crime.

Reportagem exemplar de Helena Teixeira da Silva Aqui
Foto: C.

03 março 2010

Isto é do melhor que tenho ouvido

Com um repertório essencialmente constituído por clássicos de sempre e pérolas perdidas da música portuguesa o Real Combo Lisbonense é uma formação que recupera, sob uma perspectiva actual, o espírito e o repertório das orquestras e conjuntos de baile dos anos 50 e 60.
Apesar do seu código genético revelar marcas vincadas de raiz popular, a morfologia do RCL incorpora múltiplas componentes de modernidade, instrumentais e cénicas, que estabelecem a ponte entre o passado e o presente. A sua música aspira, dessa forma, a ser congregadora, transgeracional, transsocial e transcultural.

Novos e menos novos, ricos, pobres e remediados – a todos, com um piscar de olho, o Real Combo Lisbonense convida para a dança!
(Aqui)

01 março 2010

Recado a Miguel



Acabei de ver o seu programa "Sinais de Fogo".
A primeira parte, constituída por duas reportagens e posteriores e avisados comentários, pareceu-me interessante, bem trabalhada, certeira e digna de um jornalismo moderno e inteligente.
Na segunda parte, propunha-se entrevistar o inspector Gonçalo Amaral, o autor do livro apreendido,"A verdade da Mentira".
Não tenho nenhuma simpatia especial pelo inspector, não o conheço. Não sei se a menina inglesa morreu ou foi raptada, não sei quem mente ou fala verdade, não sei.
E fiquei sem saber, não percebi nada, rigorosamente, das respostas que ele, o inspector, quis dar e não deu. Porquê? Porque o jornalista, você, pura e simplesmente não deixou falar o entrevistado.
Nunca vi nada assim . Vi parecido. Como é que se faz televisão deste modo? Como se chama alguém a um estúdio e não se permite a essa pessoa que se defenda, se expresse, contraponha?
Sinceramente, gostava que me explicasse. É essa a noção que tem de liberdade?
É só isso, lamento. 
Gostei do seu livro "No Teu Deserto". Apreciei a sua sensibilidade e escrita no feminino, a visão do mundo, dos sentimentos, da mulher, do homem.
Nada disso condiz com o jornalista que hoje, em" Sinais De Fogo", com um só tiro, trucidou o seu convidado.

27 fevereiro 2010

Canalhices, canalhas, PDMs e lucro



Eu vou reconstruir isto, diz o outro.

Agora deixem-no, com os amigos construtores, sem vigilância, a reconstruir "isto".

25 fevereiro 2010

As memórias da Memória


O momento mais antigo que a minha memória recorda decorre aos três anos de idade, quando nasceu um bebé lá em casa.
Segundo vários investigadores, os adultos não conseguem recordar acontecimentos ocorridos antes dos três anos de idade. Este facto, chamado por alguns de amnésia infantil, é um fenómeno sentido por quase toda a gente. Por vezes surge alguma confusão entre o que realmente temos como memórias da infância e aquilo que sobre os acontecimentos foi sendo construído por relatos ouvidos mais tarde, na adolescência ou já na idade adulta.
Sabe-se, no entanto, que as crianças têm, até aos cinco ou seis anos, excelentes capacidades mnésicas. Para onde irão, então, essas recordações mais iniciais?
As teorias freudianas dão-nas como reprimidas no inconsciente e, embora podendo influenciar os comportamentos adultos, não serão nunca acessíveis a não ser por métodos regressivos especiais.
Outros tentam explicar esta incapacidade de lembrar com o tipo de codificação infantil usado no seu armazenamento que será o que as torna inacessíveis. Ou seja, as incapacidades cognitivas próprias da primeira infância originam registos ilegíveis (tal como o estudante que memoriza sem entender, esquece rapidamente o que memorizou).
Outras teses perspectivam a referida amnésia na imaturidade do sentido de si, próprio da criança. Segundo estas, a criança só guardará memórias autobiográficas na idade em que tenha um conjunto de referências que lhe possibilitem ver-se nos acontecimentos. Isto não é possível antes dos quatro, cinco anos, quando as suas capacidades cognitivas lho permitem.
É por isso, e antes que me escape, que guardo ciosamente e recordo com tanto prazer aquele dia de Agosto, quando nasceu um bebé lá em casa.


(leitura Aqui , Aqui, Aqui)

23 fevereiro 2010

Rui

Auf Widersehen

Dificilmente poderiamos ser mais diferentes.
Eu de direita, ele de esquerda;
eu católico praticante, ele sem Deus nem transcendência;
eu pró-vida, ele liberal;
eu com 41, ele com 63;
eu casado militante, ele solteirão inveterado;
eu falador compulsivo, ele calado e reservado.
Partilhamos o mesmo escritório oito horas por dia, durante dezassete anos.
De manhã cumprimentavamo-nos invariavelmente em japonês ou em chinês,
encerravamos o dia com um sonoro e bem disposto auf wiedersehen.
Pelo meio discutiamos projectos, trocavamos ideias,
discordavamos abundantemente e respeitavamo-nos sempre,
sem excepção.
Lentamente ficamos amigos.
Lentamente, aprendi a apreciar o seu espirito delicado,
a admirar a sua inquebrantável verticalidade,
a compreender a sua rebelde independência.
Compreendia a amizade que me tinha quando,
aqui e ali,
se permitia partilhar o orgulho embevecido que sentia
com os sucessos do sobrinho,
a admiração com que seguia discreto a vida da irmã.
Não lhe era fácil esta partilha, mas confiava em mim a esse ponto.
Quando me trazia um livro ou um disco, deixava-o silenciosa e discretamente na minha secretária.
Quando eu lhe agradecia, murmurava: pensei que pudesse interessar-lhe...
Era o meu amigo Rui.
Partiu hoje, discreto como só ele, com a voz sumida, mas com o espirito indomável, como sempre.
A esta hora acredito que o meu Deus esteja impaciente, confuso, quase a duvidar da sua própria existência, é que o Rui não é para brincadeiras, nem cederá.
O Rui recusar-se-á a aceitar, mas estará no sitio dos rectos, dos dignos e dos justos; de lá, olhará pelas suas ovelhas
e seguirá a vida dos que sem saberem lhe importam muito.
Vai fazer-me falta.
Como nos bons tempos,
Sayonara Sacramento San!

Este o testemunho de um homem digno, falando de outro que foi livre e dono do seu destino como nenhum. (Aqui).
Com o Rui, aprendi eu o encanto da Ria nos verões da adolescência, a dureza do exílio quando ainda tanto se sonhava e, agora na sua última lição, como se enfrenta a morte com os olhos abertos, um cigarro nos lábios e o jazz a tocar em fundo.
Foto: "Amanhecer na Ria" Aqui

21 fevereiro 2010

O Pequeno Pastor


tudo no teu sorriso diz
que só te falta um pretexto
para seres feliz

uma querela talvez chegasse
ou um pequeno pastor que passasse
na estrada, com suas ovelhas

um rio, um pormenor
que no momento se pousasse
e o tornasse melhor
eu
vou pensando em coisas velhas
-sem sombra de desdém-
na vida
naquele lampejo fugace
que o teu sorriso já não tem

e que é do passado
porque a nossa grande sabedoria
não soube tratar ente tão delicado
e declina, o dia
o pequeno pastor já não vem

(poema e imagem de Mário de Cesariny)


Das coisas da Natureza ou da natureza das coisas


Quando surgem cataclismos como o que ocorreu na Madeira, e que nos deixam sem palavras, chego a pensar que a Natureza se revolta em formas catastróficas de aviso. Bem sei que o retrocesso é impossível e que o futuro do homem é sempre o de um tempo a haver. Mas interrogo-me: que tempo será?
E só me vem à memória o Caeiro - natural, antimetafísico, simples como um girassol.

Ah querem uma luz melhor que a do Sol!
Querem prados mais verdes do que estes!
Querem flores mais belas do que estas que vejo!
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me.
Mas, se acaso me descontentam,
O que quero é um sol mais sol que o Sol,
O que quero é prados mais prados que estes prados,
O que quero é flores mais flores que estas flores –
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!

Aquela coisa que está ali estava mais ali que ali está!
Sim, choro às vezes o corpo perfeito que não existe.
Mas o corpo perfeito é o corpo mais corpo que pode haver,
E o resto são os sonhos dos homens,
A miopia de quem vê pouco,
E o desejo de estar sentado de quem não sabe estar de pé.
Todo o cristianismo é um sonho de cadeiras.

E como a alma é aquilo que não aparece,
A alma mais perfeita é aquela que não apareça nunca —
A alma que está feita com o corpo
O absoluto corpo das coisas,
A existência absolutamente real sem sombras nem erros
A coincidência exacta (e inteira) de uma coisa consigo mesma.

Poesia de Alberto Caeiro, Colecção: "Obras de Fernando Pessoa", Assírio & Alvim, 2009.

18 fevereiro 2010

Eu sou o dono do meu destino

No mais recente filme de Clint Eastwood, Invictus, há um momento determinante para o futuro do jovem capitão da equipa de rugby sul africana: Mandela ensina-lhe, através da leitura de um poema, como encontrou a força necessária para vencer a adversidade, a dor e as constantes tentativas de humilhação do apartheid. Um poema "vitoriano" escrito por William Ernest Henley em 1875.
Pela oportunidade, pela beleza e pela homenagem a todos os que enfrentam o mal de frente e, com a força das convicções são donos dos seus destinos, aqui fica na voz de Alan Bates.
(esqueçam o patrocínio da UBS).




Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

Despontando


Não gosto que me tirem as coisas do sítio
O sítio pode ser o Mundo ou o meu País
A minha cidade o bairro a rua a casa
Os papeis da secretária os talheres da gaveta
A coleira do cão os óculos de ver ao perto
Nem os óculos de ver ao longe
Isso então nunca ah nunca
Sou dona do meu olhar
E o que vejo está lá
Não me desarrumem a cidade
Por favor

Citando Arsélio Martins:
O que se vê de Aveiro, do mesmo modo se vê dos outros lugares. Tentamos ler e escrever do nosso ponto de vista. Tanto pode ser diferente como igual ao ponto de vista dos outros, quem quer que sejam. Não lutamos pela diferença nem pela igualdade na escrita. Interessam-nos outras igualdades e respeitamos muitas diferenças, mas nem todas.


16 fevereiro 2010

Entrudo lusitano



O amor a Portugal e a mágoa, a dor e a melancolia incurável de ter visto a luz «neste país perdido», é um topos camoniano que percorre como um veneno, como uma maldição e às vezes como uma utopia regeneradora e uma visão futurante a literatura portuguesa, desde Garrett e sobretudo desde o tempo finissecular oitocentista até Pessoa, Torga, Manuel Alegre, Ruy Belo e outros autores, e que eu vivo dramaticamente. Um topos camoniano que se converte irremediavelmente num tropo do camonismo. Felizes, neste país cronicamente pobre, endividado, injusto, em estado permanente de «ruína cultural», como disse Pessoa, só alguns gestores e alguns economistas…


Victor Aguiar e Silva na Angelus Novus, em entrevista sobre Jorge de Sena e Camões, Janeiro de 2010
Desenho de C. - "Desolação"