10 março 2011

Bomarzo

Vim ao mundo em tempos de violência. Nesse ano de 1512 o velho Júlio II – o papa terrível, infatigável, que, apesar do mal gálico e da gota que o retorciam, arrastava cardeais, príncipes e chefes militares em furiosas cavalgadas, e que vivia entre soldados, com a pele de carneiro que punha sobre a couraça suja de sangue e lama – trocou as armas da guerra pelas da astúcia e fingiu estar morto, com um ardil de raposa que passa da rigidez à dentada, para atrair à armadilha de Roma os prelados hostis que, obedecendo à política estrangeira, se haviam reunido em concílio em Pisa. Quando os teve em seu poder aterrorizou-os e reduziu-os à obediência. Nesse ano faleceu Pandolfo Petrucci, déspota de Siena, sem ninguém que o chorasse já que a sua vida era plena de crimes. Depois de um longo interregno republicano, os Médicis tornaram a Florença, também nesse ano, com os seus dois futuros papas e os seus dois duques anódinos e bem parecidos, o "Pensieroso" e o tio, que se contemplam eternamente nos sepulcros de Miguel Ângelo; e Maquiavel, contra sua vontade, retirou-se para meditar sobre as décadas de Tito Lívio e planear o seu retrato do Príncipe, breviário de sábia perfídia.
Nesse ano subiu ao trono o sultão Selim I, o poeta parricida que assassinou toda a sua família e viveu para guerrear. E a Europa eriçou-se de pânico. O mais insigne dos antepassados do pobre Toulouse – Lautrec (que herdou, se não o seu porte, a sua desdenhosa audácia senhoril), Odet de Foix, visconde de Lautrec, em cujas fileiras o meu pai se bateu, foi perigosamente ferido em Ravena nesse ano. Nesse ano morreu Gastão de Foix, um jovem sobrinho de Luís XII, com quinze cutiladas no rosto, e o rei perdeu a Itália. Toda a Itália ressoava e crepitava com o fragor das armaduras que se entrechocavam. E nesse ano começou a mostrar as garras Alexandre Farnese, esse que viria a ser Paulo III, recebendo ordens de diácono. Mas também nesse ano, seis meses depois do meu nascimento, Miguel Ângelo Buonarroti mandou retirar os andaimes que cingiam como diques de enredado madeiramento as pinturas da Capela Sistina; desceu, qual ermitão profeta que sai da sua longa clausura, e a criação do mundo revelou-se, potente, gloriosa, voluptuosa, intimidante, num apaixonado entrelaçado de músculos ágeis e jovens, perante o espanto da corte pontifícia que acorria dos campos de batalha, sacudida pela constante presença da morte e do rancor nos acampamentos militares, para ver, lá em cima, lá no alto, sobre os perfis torcidos, sobre a dor das nucas, sobre o arquejar das respirações e o trémulo silêncio, algo que parecia, na sua robusta confusão, um mar multicolorido de espumas prestes a precipitar-se, gritando, bramindo, livre dos diques e do mago de nariz partido que o imobilizavam, sobre a Itália frenética, órfã de Deus.

Manuel Mujica Lainez, Bomarzo, Trad. Pedro Tamen, Sextante Editora

Atrevo-me a dizer que os amantes da leitura se podem dividir entre os que já leram Bomarzo e os que, por enquanto,  ainda não o leram...
Bomarzo é um romance que nos conduz numa magnífica e vertiginosa aventura . É  um extenso fresco do Renascimento, um retrato fantástico da Itália do século XVI, dado através da vida do atroz Pier Francesco Orsini, Duque de Bomarzo e construtor do seu Sacro Bosque.
Nas 630 páginas desta fabulosa narrativa, Manuel Mujica Lainez pinta a Renascença ´em toda a sua glória e nas suas mais tenebrosas misérias.
No final fica a vontade de continuar, seguir os passos daqueles que fomos conhecendo, amando e desprezando,  através do retrato psicológico denso e profundo feito por este autor tão pouco conhecido.
Belíssima tradução de Pedro Tamen

2 comentários:

Ivone Costa disse...

Tem razão. Fabuloso e um prazer imenso na leitura. Até para sentir os passos de felpa da ursa dos Orsini.

Paulo disse...

...e adivinhar a ternura da avó do duque de Orsini. Que fantástico filme daria o livro, diz um amigo meu!
Abraço