22 dezembro 2012

Uma canção célebre cantada por catorze portuguesas.
Boas Festas.

Vozes

(Sad Dream - Sky Ferreira)

 
(Beneath You're Beautiful - Labrinth e Emeli Sandé)

(Hope - Emeli Sandé)

02 dezembro 2012

Desabafo

"Português é uma língua cada vez mais global" (Ana Paula Laborinho)
(Notícia publicada hoje no jornal "Correio da Manhã", que poderá ser lida na íntegra em: http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/ultima-hora/portugues-e-uma-lingua-cada-vez-mais-global)
 
 
Há já algum tempo que este assunto me tem preocupado. Concordo com a divulgação e disseminação da nossa língua, tão rica e poderosa, quando bem feita, i.e. escrita e falada corretamente.
Porém, todos os dias assistimos/ouvimos algumas "pérolas" proferidas por muitas pessoas e em particular, por aqueles que têm por obrigação falar corretamente a nossa língua, nomeadamente os jornalistas, os políticos, as gentes da cultura e das artes...
Eis apenas alguns exemplos do nosso quotidiano:
"Há três anos atrás..."
"Devia de responder à sua pergunta..."
"Foi tudo feito à séria!"
 
O correto será escrever/dizer:

"Há três anos..." ou "Três anos atrás..."
"Devia responder à sua pergunta..." ou "Teria de/que responder à sua pergunta..."
"Foi tudo feito a sério!"
Se nos esforçamos por escrever/falar bem outras línguas, seria desejável fazê-lo igualmente em relação à nossa Língua que tem sido sucessivamente tão maltratada!
 
Pronto (e não, prontos)! Fica aqui o desabafo...

25 novembro 2012

Melancolia... em dia de chuva

Um beijinho para C.
                                                 Do filme "Melody" - "First of May" (Bee Gees)

13 novembro 2012

post 1000






Alguns sons
são tão suaves
que parecem a vibração do silêncio

Pintura: Arshile Gorky; Música de Mahler; Poema: de António Ramos Rosa.

Foi assim o marcas d' água nos seus 1000 post.

Aqui celebrámos as cores, os sons e as palavras, em tudo o que fazem tornando sublimes os  dias e a Vida.

08 novembro 2012

Ondjaki, o mágico

(    ....  )    -  ainda me diz qual e a cor desse fogo

o Cego falou em direcção á mão do miúdo que lhe segurava o corpo pelo braço, os dois num medo de estarem quietos para não serem engolidos pelas enormes línguas de fogo que saiam do chão a perseguir o céu de Luanda

- se eu soubesse explicar a cor do fogo, mais-velho, eu era um poeta desses de falar poemas.
    com voz hipnotizada o VendedorDeConchas acompanhava as tendências da temperatura e guiava o Cego por entre caminhos mais ou menos seguros onde a agua jorrante dos canos rebentados fazia corredor para quem se atrevia a circular por entre a selva de labaredas que o vento açoitava

-  te peço, vê você que tens vistas abertas, eu estou sentir na pele, mas quero ainda imaginar na cor desse fogo
     O Cego parecia implorar numa voz habituada a dar mais ordens que caricias, o VendedorDeConchas sentiu que era falta de respeito não responder áquela duvida tão concreta que pedia, numa voz de carinho, uma simples informação cromática,
   embora difícil e talvez impossível 
  O miúdo puxou de dentro de si umas lagrimas quentes que o levassem até á infância porque era aí , nesse reino desprevenido de pensamentos, que uma resposta florida podia nascer, viva e fiel ao que via

- não me deixe morrer sem saber a cor dessa luz quente...
as labaredas gritavam com  força e mesmo quem fosse cego de ver devia sentir uma sensação amarela de invocar memórias, peixe grelhado com feijão de óleo de palma, um sol quente de praia ao meio dia, ou o dia em que o ácido da bateria lhe roubou a animação de ver o mundo

-   mais-velho, estou a esperar um voz de criança para lhe dar uma resposta  (.....) 

Ondjaki, Os Transparentes , Ed. Caminho, 2012

07 novembro 2012

Em viagem ...

(If only - Dave Matthews Band)
Gostei de ouvir... e ainda mais quando vi a letra. Assim, sempre posso fazer um karaoke doméstico!

05 novembro 2012

Geração dos "...ados"


Não sou muito pró-Miguel Sousa Tavares. Pronto, já arranjei mais um/muitos "inimigo(s)"!
Contudo, hoje ao ouvi-lo falar no "Jornal da Noite" (SIC) sobre a geração dos "...ados", i.e. desempregados, emigrados e reformados, vi-me a engordar a lista de muitos outros "...ados":
- complicados
- desesperados
- extenuados
- desmotivados
- exasperados
- atafulhados
- anquilosados
- desfasados
... / ...
E a lista poderia ir por aí fora, não é? Apesar dos pesares, também os há:
- empenhados
- emancipados
- desapegados
- aperaltados
- alcandorados
... / ...
Quem me acaba este rol de "...ados", para que a nossa/vossa geração possa realmente ver a tal "luz ao fundo do túnel" que não seja outro comboio?

04 novembro 2012


.....Vitória era uma mulher tão poderosa como se um dia tivesse encontrado uma chave. Cuja porta, é verdade, havia anos se perdera. Mas, quando precisava, ela podia se pôr instantaneamente em contato com o velho poder. Já sem nomeá-lo, ela por dentro chamava de chave aquilo que sabia. Não se indagava mais o que tanto soubera; mas vivia disso.

Foi, pois, procurando o auxílio de tudo o que sabia que ela mais tarde olhou absorta o prato de comida que o homem esvaziara na cozinha. Tentou também imaginá-lo a instalar a porta do depósito de lenha. Ela lhe dera a porta do depósito, grande e estranho objeto a se dar. Como a vinda totalmente imprevisível do homem já tinha quebrado um certo círculo de ordem em que ela se movia como dentro de uma lei, com relutância foi obrigada pelo menos a reconhecer que alguma coisa sucedera, embora não soubesse dizer o quê. Então pensou, um pouco constrangida com seu próprio ato livre, e de algum modo curiosa: “é a primeira vez que dou uma porta a alguém”. O que a enraizou numa sensação sem saída. Era a segunda vez que o homem a perturbava....

(Clarice Lispector, A Maçã no Escuro)
Pintura Fernando Botero

30 outubro 2012



....a probabilidade do dinheiro ainda não estragou inteiramente o gato
mas de gato para cima  nem pensar nisso é bom!....


Mário Cesariny de Vasconcelos, Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos
Foto AQUI

29 outubro 2012


Há sempre uma outra história para além da história que os olhos vêem
A frase surge no final do filme e resume o trabalho de Claude Chabrol em Bellamy (2009): uma trama construida por camadas, cada uma abrindo para outra, levando o espectador a participar num jogo de descoberta entre o que está à vista e tudo o que, invisível no início, chega depois do mais fundo das personagens e das suas vidas passadas.
O último filme que C. Chabrol realizou. Uma boa despedida.

27 outubro 2012

... da solidão


.... A minha casa, ou lá o que é, assenta, entre outros, sobre dois duvidosos pilares: Nietzsche e Groucho Marx.... E sobre a sabedoria das nações correcta e aumentada: mais vale só do que acompanhado (mesmo que bem acompanhado). Pelo menos às vezes.
Nietzsche tem-me chegado por muitos lados, até directamente. Desta vez chegou-me por Visconti, via Burt Lencaster, na cozinha de um velho palácio veneziano, em "Violência e Paixão": as águias planam solitárias, os corvos é que andam em bandos. E Groucho orgulhosamente por ele próprio: "Nunca farei parte de um clube que aceite tipos como eu como membros".
Tudo isto a propósito de outro dia ter lido em "O Comércio do Porto", e em prosa, Eugénio de Andrade, um grande e generoso poeta, queixar-se da sua solidão. Porque ai de nós, acho eu, se não tivéssemos para nos recolher esse imenso país, a solidão; e esse outro país, igualmente único e imenso, o esquecimento. Compreendo, julgo que compreendo, e no fundo do coração, o que sente Eugénio de Andrade.(...) Mas viver sempre, e acompanhado, rodeado de gente, mesmo dos melhores e mais amados amigos, do ruído das vozes, do moroso calor dos corpos, da presença das coisas e dos sentidos, da imperiosa vida e do imperioso tempo, cansa também tanto! (...).
Os homens precisam (acho eu, que sou jornalista já vai para mais de 20 anos) da solidão, da sua pura e irreparável comida. Eu é que sei e, como eu, sabem-no os homens condenados ao ruído e à luz intolerável dos dias e das coisas comuns, dos telefonemas, das notícias, das exclamações, das escolhas, dos nomes, do comércio triste das palavras. 
Eugénio de Andrade nunca passará um dia na redacção de um jornal, mas sabe (eu sei que sabe) o que quero dizer.
Nem Frei Luis de Léon ( a crónica hoje virou-se definitivamente para os poetas ) penou o inferno quotidiano dos escritórios, das salas de espera, dos cafés, das gares ou de outras metáforas do obscuro vampiro da vida lá de fora. Mas também saberia (eu sei que saberia) o que quero dizer.
Conta Borges que Poe ( e Poe também saberia o que quero dizer!) conhecia de cor um poema juvenil de Frei Luis de Léon : "Vivir quiero conmigo / gozar quiero del bien que debo al Cielo / a solas, sin testigo / libre de amor, de celo / de ódio, de esperanza, de recelo ". 
Não queria pouco, o bom augustiniano : o Paraíso!

Manuel António Pina, JN 4/12/91

25 outubro 2012



A infância é um lugar de exílio. Se não tivermos, em qualquer sítio do coração, uma infância, onde nos refugiaremos quando os ladrões vierem para nos roubar a inocência e os sonhos e quando os assassinos baterem à porta? Se não tivermos uma pequena infância que seja  (um jardim longínquo, um vago quarto de dormir perdido), onde guardaremos os segredos mais secretos e onde brincaremos ainda? E quem nos responderá quando, diante do nosso rosto no espelho, nos virmos e não nos reconhecermos, ou quando, nos dias de infelicidade, chamarmos pelo nosso nome? (...) 
As estatísticas não falam disso, mas na nossa sociedade há uma enorme e perigosa carência de infância. Nos homens, nas instituições na vida de todos os dias. E uma enorme carência de sonhos e de coisas verdadeiramente grandes, razões ou desejos. Os sonhos, que pertencem a uma frágil e excessiva espécie, foram as principais vítimas da mortandade liberal dos últimos anos, substituídos por monstros gélidos chamados "planos", "programas", "projectos",. ( Que coração - de homem ou sociedade - sobreviverá alimentando-se, não do desmesurado sangue dos sonhos, mas de "programas" e "projectos"?).
Com o fito de receber o prémio do sucesso (intrigante e inquietante palavra !) muitos de nós procuraram, viva ou morta a infância dentro de si e entregaram-na, amarrada de pés e mãos, aos carrascos. E pior: vista daqui, parece que a própria sociedade, no seu conjunto, fez o mesmo.....

Manuel A. Pina, JN 29/1/92 

Foto Diane Arbus

24 outubro 2012

O Poeta que habitava os dias

...Outro dia caiu-me nas mãos um velho exemplar do "Diário de Notícias", também ele cheio de nomes de gente importante (ministros, deputados, militares, comerciantes), de tragédias, de "fait divers". E, todavia, o único acontecimento que, em todo o jornal, me dizia ainda alguma coisa, umas poucas dezenas de anos depois, era uma pequena nota de duas ou três linhas numa página interior: um certo "sr. Mário de Sá-Carneiro" tinha publicado um livro de versos! 
Daqui a 50 ou 100 anos, o mais que algum rato de Universidade conseguirá provavelmente sobre Cavaco Silva, depois de ter vasculhado em todos os arquivos, é que foi um primeiro-ministro do tempo de Eugénio de Andrade...

(Manuel A. Pina, JN, 2/9/92)

Manuel António Pina foi um Poeta maior. 
Foi-o, igualmente, na escrita diária, sofrida, exigente e comprometida das Crónicas. 
Dizia ele que as crónicas de jornal duram um dia e morrem. Enganou-se. 
Porque, como também escreveu: Às vezes, no fundo das páginas onde jazem e amarelecem, algo parecido com uma réstea de vida (será alguma misteriosa forma de alma, terão as crónicas alma?) nelas continua a pulsar.
 Aqui no Marcas faremos prova disso. Durante as próximas semanas tentaremos, diariamente, dar a conhecer a alma e o pulsar das Crónicas do Poeta.
Vai fazer-nos bem a todos.

23 outubro 2012

No rasto da tristeza


Há coisas tristíssimas
Um pássaro num ramo seco de árvore
O ramo sem peso
O homem pobre passa  e sopra
Diz
 - o  cabrão  fugiu –

 As  coisas  tristes voam sem grau
 O  tempo não tem distinção
 Chove na luz  do lodão
 Um outono fraco e vil de ruído

 Há uma dor tão fina
 Sem  saudação e olhos  
 Como o pássaro  sem peso  
 No sopro do homem à passagem

 Hoje à  tarde não esperei a folha caída da árvore
 O  homem adiante caminha desde ontem  
 Vai  a  soprar  o ar da fome escondida
  E  diz em frente da  loja do chinês
  Aqui  há de tudo

 Já  cortaram o ramo seco do lodão sem o pássaro
 E  o homem  vai  lá  a frente  e diz
 _o  cabrão  fugiu - 
Do nosso Luís Darocha:



22 outubro 2012

Não é Escritor Quem Quer



...e a minha mãe a tremer com mais força, assoando-se por engano à minha saia, não à dela   e, para ser honesta, até me agradou, operaram-me um peito, que se assoasse em mim, não vou para o estrangeiro, não vos deixo, as palmas na minha cara, o nariz quase encostado ao meu, os olhos, assim tão perto, só um, comigo curiosa, um peito

- É castanho ou preto?

o meu pai amansava o homem dos refrigerantes com uma garrafa, ambos sentados no degrau da cozinha onde se escutava o mar, o crucifixo no espelho retrovisor, abalado, dançaricava ainda, um peito e a axila, disfarço o soutien com um enchumaço que se desprende e eu a corrigi-lo, de cotovelo erguido, por cima da roupa, a minha mãe dois olhos de novo, castanhos, o meu irmão mais velho a examinar as ondas que de quando em quando se esquecem e recomeçam, culpadas

- Perdoem

para além dos arbustos, das casas, a anestesista, e eu nua e consciente que nua debaixo do lençol, não vou estender-me sobre isso

- É alérgica a alguma coisa?

não por senhora doutora, qualquer pessoa nua você, arrumei os búzios, comi uma bolacha que me soube a pó, teria podido conhecer a Tunísia e sacrifiquei-lhes a Tunísia, a ordem dos búzios errada na mesa e eu a trocá-los sem achar as posições, que eu saiba não sou alérgica a não ser, que eu saiba não sou alérgica, a minha mãe de feições ainda ao acaso....

António Lobo Antunes, Não é Meia Noite Quem Quer, 2012

Pintura de Mark Rothko, aqui

Entre uma sexta feira e o domingo seguinte, uma mulher de 52 anos, que teve um cancro da mama, perdeu um filho e vive um casamento falhado, despede-se da casa de praia da família, num longo adeus em que revive a infância, as amizades e os amores, num desconsolo sem fim, onde se cruzam personagens e vozes riquíssimas, como o irmão não surdo que vem louco da guerra, o pai que lhe chama sempre "menina," ou a mãe constantemente enraivecida com a vida. 
Por mim, reconciliei-me com A Lobo Antunes de quem andava distante desde o Fado Alexandrino e só lia as Crónicas. Este é um fantástico romance.

18 outubro 2012

Grito mudo

Amanda Todd (Canadá, 1996-2012)


Quantas mais haverá por aí, num grito mudo, pedindo ajuda?
(Filme "City of Angels"; Sarah Mclachlan - Angel) 


14 outubro 2012

Ian McEwan


Antes de ser um escritor, McEwan era um leitor apaixonado ( entrevista Ipsilon, 5 Out).
Informação preciosa para se entender o seu fascínio por conduzir o leitor em caminhos apaixonantes, numa leitura que se torna imparável.
A consciência que tem "dos inúmeros romances que todos começamos a ler e não acabamos" (Ipsilon), leva-o a ser capaz de uma clareza e de uma intensidade narrativa absolutamente únicas.
Um romance imperdível, pois.

13 outubro 2012

Cultura e Resistência

Chegam sozinhos ou em grupo, como gotas enchendo um caudal a desaguar na Praça.
Alegres, risonhos, festivos são, sobretudo, cultos. Bonitos, claro.
A emoção, a pressa e a impaciência dominam a cabeça e os corações dos que sentem que agora é que é e o sol outonal brilha no olhar dos que trilham carreiros conhecidos.
Enquanto o sol se põe, irão, juntos, saltar, dançar, aplaudir e cantar. Brilham sonhos nas pontas dos cigarros que acendem uns nos outros, enquanto vão descobrindo a música e as palavras que entram devagar na pele e na noite.

07 outubro 2012

Para o P.

























    *


Lembra-te


Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

Mário Cesariny, in Pena Capital

* da banda sonora do filme (de ontem) Até que o fim do mundo nos separe

03 outubro 2012

O peso da(s) sombra(s)

                




















A Razão Platónica

Há uma doutrina da caverna que consiste em
separar a luz da sombra. Dizem que, para os que
vivem na caverna, a luz é um sonho porque só
conhecem a sombra. Mas, dizem outros, como é
que se pode saber que a luz existe quando nunca
se saiu da sombra? Os teólogos, porém, acrescentam
a estas dúvidas que também o homem, que
nunca conviveu com os deuses, os pôde
imaginar à sua imagem e semelhança; e é
por isso, acrescentam, que a luz surgiu quando
o homem a criou à semelhança da sombra. Isto,
porém, nada tem a ver com a realidade. Quando
o dia nasce, vemos a luz que surge no horizonte em
que o sol se anuncia; e aquilo que era a sombra
que habita a noite dissipa-se quando o céu
se torna azul. Mas os que acreditam na caverna
voltam as costas à realidade; e quando o dia nasce
põem-se à sombra, tapando os olhos à luz,
para concluir que a razão é única,
e o mundo a sua caverna.

in Nuno Júdice, Fórmulas de uma luz inexplicável (poema dedicado a Eugénio Lisboa)

Foto: C.

30 setembro 2012

O estado das coisas

 
"Não estejas tão optimista. A luz que vês ao fundo do túnel pode ser outro combóio."
(Paul Dickson)
 
 
 
(de ramirolopesandrade.blogspot.com)
 

22 setembro 2012

contra a melancolia, outonal alegria!


Nas nervuras da luz,
um nevoento e cinza mas alado
é a figura:
brando, incandescente,
o temos,
nos defronta,
nos conduz.

(Pedro Tamen, Tábua das Matérias)

17 setembro 2012



É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem


É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora

(Mário Cesariny de Vasconcelos)
Foto: Paulo







16 setembro 2012

amanhece

Manifestação em Aveiro:
Dez mil pessoas.
Esta é a foto do manifestante que se imolou pelo fogo, a caminho do Hospital.
Um grande beijinho para ele e o desejo que melhore.


15 setembro 2012

Hoje


...não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade
desumanizada,
nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.

(Bertold Brecht)

13 setembro 2012

12 setembro 2012

Entardecer


a liberdade inteira no silêncio inteiro
de humildes assistirmos ao que somos
qual nascemos, qual somos, qual sorrimos,
na esplendorosa ressonância de estar vivo,
à face de uma luz que morre ou de uma luz que nasce

Jorge de Sena, in "O fim que não acaba"

Foto: C.

11 setembro 2012


Grand-Père


Quando um grande génio marca todo o mundo e se esquece de reparar nos que o cercam. O testemunho da neta Marina.
Marina viveu uma infância de grande pobreza e sofrimento. Por ironia, foi a mais beneficiada no testamento. Ocupa-se de grandes e consequentes obras sociais no Vietname. Um testemunho importante.





09 setembro 2012

Aniversário


Primeiro... estranhou-se e, passados 65 anos, ...entranhou-se. Quem se habituou a um terá dificuldade em passar sem ele. Do mais simples ao mais sofisticado, os que o usam reconhecem-lhe qualidades. Quanto aos malefícios que por vezes vêm à baila, ainda não está cientificamente provado!...

A Perfeição (circular) da Vida


João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Como no poema de Carlos Drummond de Andrade a vida de cada um de nós tem eco em outras vidas, mesmo em algumas que desconhecemos por completo. A forma como escolhemos caminhos,  quando a vida nos leva a uma "bifurcação", vai tocar e influenciar outras vidas, mais ou menos próximas.
Fernando Meirelles conduz um magnífico grupo de actores (Anthony Hopkins destaca-se numa interpretação fortíssima) numa trama muito intensa e bem construída. Um círculo perfeito. Como a vida. 

Diálogos transversais


Se eu pudesse dar-te aquilo que não tenho
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo com que sonhas
e o que só por mim poderá ter sonhado.

Se eu pudesse dar-te o sopro que me foge
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo que descubro
e descobrir-te o que de mim se esconde.

Então serias aquele que existe
e o que só por mim poderá ter sonhado.

Ana Haterly



(Hoje, alguém atento e sábio perguntava-me, a medo:
...e... a chama?
A chama...?! Bom... a chama constrói-se, não é? - respondi eu a sorrir.
Foi um dos mais bonitos diálogos que já me aconteceram.)

07 setembro 2012


porque tudo começa num amor envolvente
e termina
num punhado de terra
lançado ao acaso
numa tarde de chuva

no meio há o tempo

o sol assiste e sabe

(Dedicado a esta flor que fotografei em Junho e que jaz desfolhada)

30 agosto 2012


As línguas são imperfeitas
pra que os poemas existam
e eu pergunte donde vêm
os insetos alados e este afeto
seu braço roçando o meu.

(Adélia Prado)
 
Foto: C




29 agosto 2012

Insólito

A culpa foi.. dos saltos altos


Até gosto de saltos altos (não muito!), porque acho que favorecem as mulheres, sobretudo as mais baixas e as tornam mais elegantes... mas perante a notícia veiculada hoje pelo Jornal de Notícias, fico apreensiva - nunca me passaria pela cabeça que alguém pudesse perder a vida desta maneira.
A notícia pode ser lida em:
http://www.jn.pt/PaginaInicial/Gente/Interior.aspx?content_id=2740459






28 agosto 2012

Quando a chuva passar...



amanhecer cinzento, chuva mansa de agosto...


 

 

27 agosto 2012

Coincidências?


 2012 - 40 anos do lançamento de "Rocket man" (Elton John)

26 agosto 2012

Daí, desse lugar...



Um dia aconteceu que o homem desceu na Lua e nela caminhou pela primeira vez. "Um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade" - aprendemos a dizer.
Um feito para a História, testemunhado por mais de 600 milhões de olhos deslumbrados que viram, na caixinha mágica, tudo o que foi divulgado. Tudo o que muitos julgavam jamais poder ver.
Os portugueses assistiram a este momento crucial da história da humanidade na madrugada de 21 de Julho de 1969, às 3:56:20.
“Foram 18h de emissão ( ... ) vistas por dois milhões de portugueses que se deitaram mais tarde – ou se levantaram mais cedo... ou simplesmente não se deitaram – nessa madrugada de 21 de Julho, que caiu a uma 2ª feira, dia de trabalho”, como se afirma no livro: RTP, 50 anos de História.

Mas hoje, Armstrong, como será essa outra dimensão, rumo à qual iniciaste esta viagem?

Foto: NASA/AP

Samia


Na manhã de 19 de Agosto de 2008  Samia Yusuf Omar, 17 anos, competia nas eliminatórias dos 200m nos Jogos Olímpicos de Pequim. Foi a mais lenta das 52 atletas em prova. Nas suas palavras: Foi uma experiência espectacular. Levei a bandeira da Somália, desfilei com os melhores atletas do mundo.
Quatro anos depois, ninguém deu pela sua falta em Londres 2012.
Segundo o seu  treinador, Samia continuou sempre a treinar-se no Estádio Olímpico de Mogadíscio para conseguir um lugar em Londres 2012. Falhado esse objectivo, apostou em chegar à Europa de maneira a ter condições de treino. 
Agora, chega a notícia de que morreu quando tentava atravessar o Mediterrâneo, de barco, a caminho de Itália.

Contam os jornais que a mãe de Samia vendera um pequeno terreno que tinha para pagar a viagem à filha.
E, assim, disseram tudo..

24 agosto 2012

Paisagem


Vejo as cabras carregadas de calor
Por entre as pedras e os matos
Esfíngicas dobram as tardes
Pertencem à luz  e ao azul

Deitadas nas sombras
Clareiam a praia
Estão lá  em cima
Carregam a existência pobre  
Magras são sinais de companhia  viva
São ágeis são amadas
Na fertilidade do amor nos olhos da mulher  
Creio que  são tão azuis o  mar e o céu 
Como suas línguas saltitantes e vivas

Tudo é longe
Como o barco de fome do pescador
Que ali tem a casa e a mulher
E o neto que afirma ter cabeça de andorinha
Quando o deitam a voar
Diz  isto para que exista e o vejam
 
E a mulher do pescador que tem os brincos  limpos
Como o ouro  de um sol diferente de há muitos anos
Diz   das cabras  a beleza   
Como quem está certa de um  amor sempre  nascente 


Passam os carros  sujos  por areias e  caminhos  pobres
Exibem  presunção de viagem  e sol posto
São o  poder  móvel  a incerteza  e  o recreio
Na paisagem  
A par das cabras do pescador ausente
Da mulher  e  do neto  
Estive eu  mediterrânico  como um  destino
De olhos  levados  nas tardes

23 agosto 2012

Excerto 2


"Guten Tag", digo a Herr Schroeder quando o encontro. "Tag", acena ele com a cabeça e sorri vagamente. Herr Schroeder é o nosso carteiro. Embora não fale com ele com muita frequência, é a única pessoa que vejo todos os dias
Herr Schroeder colecciona selos. "Guarde-me todos os que forem interessantes, sobretudo aqueles novos, croatas" diz ele. "Basta que mos deixe em cima da sua caixa do correio".
E eu deixo, quase amorosamente.
Herr Schroeder vem todos os dias exactamente às 10h,30. Da minha varanda do primeiro andar, monitorizo a sua pontualidade. Se sinto que há alguma hipótese de me ver - basta-lhe olhar para cima - delizo par trás da cortina. E sinto uma vaga excitação ao fazê-lo.
Assim que ele se vai embora, corro até ao rés-do-chão, para ver se há algum correio. Do cimo das escadas vejo logo, com inexplicável satisfação, que ele levou os selos que lhe deixei na véspera.
Aquela sequência - o movimento da minha mão segurando a cortina fina enquanto deslizo para trás dela para me esconder, baixando a cabeça, e um pouco mais tarde a nuca cinzenta de Herr Schroeder enquanto avança pelo caminho para a direita ( sempre para a direita!) - aquela sequência vem-me muitas vezes à cabeça, como se estivesse a vingar. É a medida integral da minha solidão berlinense.

Dubravka  Ugresic, O Museu da Rendição Incondicional, Ed. Cavalo de Ferro, 2011

Foto: Nathalie Mohadjer, Weimar Paradies


Estilhaços

22 agosto 2012

Do filme "Catch and Release" - "What if you" (Joshua Radin)

Colaboração

Há sempre um "se" nas nossas vidas...
Se tivesse feito isto...
Se tivesse feito aquilo...
Se tivesse escolhido este rumo...
Ou, se pelo contrário, não tivesse agido...
Tropeçamos constantemente em "ses"! São eles que nos definem, nos condicionam, nos refreiam, nos fazem crescer.

"If" - escrito em 1895 pelo poeta britânico Rudyard Kipling

20 agosto 2012

Escrever


Ao sol o gato fez tantas contas invisíveis
Soube do raio do avião viu a pluma do carro
Ouviu a lagartixa na orquídea longe da água natural
Sem  mistério moveu o pêlo numa orelha de luz
Fez  parte do vaso do sol da brisa reuniu a tarde 
Leu-me a  lagartixa amorosa  na flor  rebelde
Deu-me o tempo na  unidade da minha tinta
No papel no vaso e no passeio da lagartixa  
 
 É inútil o que escrevo ou  vaso da orquídea
 Não se tem por balada a rosa ou a garganta 
 É  justa  a  tinta maculada e  o brio dos olhos do gato
 Justo  também se corta o coração com viva a tarde
 E não separa    
 A natureza junta-se ao vento porque escrevo

 Foi  isto
O gato  esteve  à espreita  no canavial de folhas quietas
Olhou  o  vaso com a lagartixa  migradora de azulejo
No seu  caminho de água na  luz  atónita e levantou-se 
Eu senti a tarde com uma só balada
Protegi o ouro dos olhos com precisão

19 agosto 2012

O Barco - A Aldeia


Uma traineira portuguesa, azul, enrola um bocado do Atlântico.
Bem ao longe, um ponto azul, mas eu estou lá - onde seis homens
  a bordo não veem que nós somos sete.

Assisti à construção de um barco destes, parecia um alaúde enor-
me sem cordas
na ravina de pobreza: a aldeia onde lavam e lavam sem parar, com
fúria, paciência, melancolia....


Tomas Tranströmer, 50 Poemas, Relógio D'Água, 2012
(Tradução Alexandre Pastor)

Foto: C.

17 agosto 2012

Em Montemor não beberei


Em  Montemor  bebi  
E com um lenço  na mão 
Brandamente escondi
A  morte

Eram  muitos  os   meus   amigos 
Presentes
Mas  só  eu  vi  a árvore de forca
À beira da estrada
Só  eu  vi o gavião  dobrar  asas
No  céu indiferente  a quem passava 
Só  eu  vi  e pela morte  passei

Bebi   com os  meus  amigos
E  com lenço  cru  escondi
A morte em  Montemor  

Quis  sozinho  esperar  por um  outono
Só  meu
Sem  beber  em  Montemor  
Devassado  pelo grito
Da  árvore  de forca
À beira  da estrada

Em  Montemor   não beberei
Nem  verei  a árvore  da forca
Onde  achei   o vagabundo  
O  errante  sem  luto
Morto  às expensas  da lei


Carlos Drummond de Andrade



.... As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.



15 agosto 2012

Canção


O que te canto à tarde
Nos dias do aloendro
São duas gotas
Precisas
Nos  dias  que andam
chovendo

O  que te canto à tarde
Nos   dias do aloendro
É  um tempo exacto
E denso
Nos  dias  que   vão
 nascendo

O  que te canto à  tarde
Nos  dias   que vão
passando
É  um pulo  vadio  na geometria
das  noites
Nos  dias do aloendro

 



14 agosto 2012

Badajoz, 1936. A barbárie


Silencio que naufraga en el silencio
de las bocas cerradas de la noche.
No cesa de callar ni atravesado.
Habla el lenguaje ahogado de los muertos.

Miguel Hernández, El tren de los heridos.
(mais sobre o assunto aqui)

13 agosto 2012

Luz

 É o rouxinol  de água
 No  lódão  de luz          
 Pela hora

 A  hora de pão
 E  sorvo de café

 É a hora  do  lódão  verde
 Contendo  o rouxinol
 E  o canto  da manhã

 O pão rasgado
 Contra o vidro da mesa
Está  nos  dedos  

 A  gota de café
 Luz  no sobreprato

 A  semente  de girassol  
 É do   pão 

 O lódão verde
 é o  canto  do rouxinol
 E a hora
 É o rouxinol  de água
 No  lódão  de luz          
 Pela hora

 A  hora de pão
 E  sorvo de café

 É a hora  do  lódão  verde
 Contendo  o rouxinol
 E  o canto  da manhã

 O pão rasgado
 Contra o vidro da mesa
Está  nos  dedos  

 A  gota de café
 Luz  no sobreprato

 A  semente  de girassol  
 É do   pão 

 O lódão verde
 é o  canto  do rouxinol
 E a hora