01 julho 2011

Aí estão: a frescura de pensamento e as soluções criativas da nova maioria...

Há um provérbio popular que, devidamente adaptado, se pode aplicar com proveito a governos: "Pelo andar da política fiscal se vê quem vai lá dentro". Porque, sendo a política fiscal um instrumento de redistribuição da riqueza e do rendimento, ela espelha, mais do que nenhuma outra, o rosto de uma governação.
Como se propõe um governo obter recursos?; como se propõe redistribui-los?, são questões cujas respostas dizem quase tudo o que quisermos saber sobre esse governo mas tivermos vergonha de perguntar.
Com o corte de 50% dos subsídios de Natal, o novo Governo tenciona obter 800 milhões de euros, saídos (na verdade nem lá chegarão a entrar) dos bolsos de trabalhadores e reformados.
E para onde irá tanto dinheiro? Com mais 800 milhões poupados em "acomodações" na despesa do Estado que "o senhor ministro das Finanças detalhará nas próximas semanas" (preparemo-nos para o pior, designadamente para mais cortes nos apoios sociais e na saúde), servirá para compensar os 1 600 milhões que o Estado deixará de cobrar com a redução de 4% da TSU das empresas. O que é o mesmo que dizer que 50% dos subsídios de Natal dos trabalhadores e reformados, mais as "acomodações" ainda a anunciar, irão parar às contas bancárias dos empresários. Será reconfortante ver passar um Ferrari (pelo menos em regiões deprimidas como a do Vale do Ave) e imaginar que talvez uma porca de um daqueles pneus seja o nosso subsídio de Natal.

Manuel António Pina, AQUI

29 junho 2011

Gonçalo M. Tavares

Mas não se aprende a ser sábio como se aprende
a resolver uma equação.
Nas duas aprendizagens exige-se atenção total, é certo,
mas há no caminho para a sabedoria mais obstáculos,
como se algures, deuses de voz rouca tivessem assumido o
                                                                  [compromisso
de não deixar a filosofia sensata
ocupar por completo os homens.
E talvez a causa seja puramente egoísta, pois se todos
                                                           [fossem sábios
quem precisaria de templos?

(Gonçalo M. Tavares,Uma Viagem à Índia, Ed Caminho, 2010)

Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores 2010

23 junho 2011

14 de Junho de 2011




E como tudo (tudo mesmo) se concentrou entretanto no teu nome!
Digo mãe para dizer filha, e me dizer a mim.
Afago-te o rosto e os dias ficam rutilantes nestes laços;
Aninho-me na tua pequenez e viajo por dentro contigo,
no sono, no choro,
em segredos que esqueci.

Julgo, enfim, possível um tempo reencontrado.
Nesta breve e cálida exaltação silenciosa.


Foto C.

13 junho 2011

Son "mis" huellas el camino


Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.

Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.


Pintura de Graça Neves

11 junho 2011

vadiagem em letra minúscula

 

corto uma fatia da tarde e dou-me ao luxo da preguiça.

curiosa dessas portas meio abertas, navego, mas todo o jogo de reflexos é próximo da miragem: há muito que não me encontro com as leituras de auster, e cansada dos trabalhos de babel, vou adiando a catharsis dos meus dramas filosóficos.
abro a janela. por ela entram ainda paisagens salvíficas para o meu olhar breve que, enublado de teimosa melancolia, viaja no tempo, caminha por entre abencerragens, falcoeiros e castelos mouriscos, como quem limpa o aos livros ou refaz a trama de um velho agasalho .  

regresso à natureza do meu mal: dou corda a um relógio parado no tempo de vermeer; limpo do texto os excessos e risco símbolos, ruídos de horas extraordinárias que ensurdecem qualquer pensamento musical. desço por vezes à matriz de outros sonhos, descubro outros lugares, novos mundos povoados de fantasmas ou barcos com flores, perfeitos para as minhas provas de contacto com a realidade que me importa.

Tornei-me desgraçadamente sensível à anarquia do riso por entre todas as dúvidas metódicas. dizem-me alguns que há vida noutros planetas, mas eu descubro nessa ronda dos astros a irónica comédia de todos os cais de partida em amsterdam.

[devaneio estranho, este, pois o que interessa mesmo é irmos andando, num thriller de mortos-vivos e salmos de david.
com ou sem arrastão, e a jugular exposta ao golpe, sentar-nos-emos à direita de deus pátria, sem  meditação à esquerda que nos reflicta, ou brumas de avalon que nos encantem.]

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29 maio 2011

Senhor doutor, dói-me a alma, aqui do lado esquerdo...


Mário Sacramento (1920-1969) marcou a vida cultural e política de Portugal de forma determinante entre a década de 40 e 60 do século XX.
Médico, Ensaísta, Crítico e Activista Político (com cinco detenções durante a ditadura) foi sempre uma voz livre e um pensamento crítico e inovador.
Em Sementes de Liberdade - Tese de Eunice Voulliot sobre M.Sacramento apresentada na Sorbonne - descobre-se o Homem e o combate no seu Tempo.
O filme de José António Paradela é um belíssimo testemunho sobre Mário Sacramento, feito a partir do livro de Eunice.

25 maio 2011

Para os que tinham, pelo menos, treze anos no Verão de 1967


A canção foi lançada em Maio em Londres e (com era hábito na época) foi, entre nós um sucesso depois de Julho.
As meninas começavam, timidamente a usar mini saia e os rapazes, ainda longe dos blue jeans, equipavam-se de calças boca-de-sino e camisas justas com colarinhos tão longos como o cabelo que lhes tapava as orelhas até meio.
Era tudo a preto e branco, mas a música dava para dançar de cara encostada o que só lhe acrescentava qualidades...

21 maio 2011

A fazedora de ilusões

Como lá em casa o dinheiro andava a cavalo e nós a pé, quando chegava à Mina algum filme que o meu pai – só pelo nome do actor ou actriz principal – achava que era bom, juntavam-se as moedas uma a uma, à justa para o bilhete, e mandavam-me ir vê-lo.
Depois, à vinda do cinema, eu tinha de o contar à família reunida em pleno na divisão do "living".

Era lindo, depois de ver o filme, encontrar o meu pai e os meus irmãos à espera em casa, ansiosos, sentados em fila como no cinema, penteadinhos de fresco e com a roupa mudada.
O meu pai, com uma manta boliviana sobre as pernas, ocupava o único cadeirão que nós tínhamos, e era aí a plateia. No chão, ao lado do cadeirão, reluzia a sua garrafa de vinho tinto e o único copo que restava em casa. A galeria era o banco comprido, de madeira bruta, onde os meus irmãos se instalavam por ordem, do mais novo ao mais velho. Depois, quando alguns amigos deles começaram a assomar à janela, passou a ser aí o balcão.
Eu chegava do cinema, bebia depressinha uma caneca de chá (que já tinham preparado para mim) e dava início à sessão. De pé diante deles, de costas para a parede caiada, branca como o ecrã do cinema, punha-me a contar-lhes o filme “de pé a pá”, como dizia o meu pai, procurando não esquecer nenhum pormenor, nem do argumento, nem dos diálogos, nem das personagens.
A propósito, devo esclarecer aqui que não me mandavam a mim ao cinema por ser a única mulher da família e eles – o meu pai e os meus irmãos -, uns cavalheiros com as damas. Não, senhor. Mandavam-me porque eu era melhor do que eles todos a contar filmes. É como digo: a melhor contadora de filmes da família. Depois passei a ser a melhor da correnteza e, daí a pouco tempo, do acampamento. Que eu soubesse, não havia ninguém na Mina que me ganhasse a contar filmes. De qualquer género: de "cow boys", de terror, de guerra, de marcianos, de amor. E, claro está, mexicanos, que eram os que o meu papá, como bom sulino, mais apreciava.
E foi precisamente com um mexicano, daqueles bem contados e chorados que ganhei o título. Porque o título, foi preciso ganhá-lo.
Ou julgam que fui eleita pelo meu físico?....

Hernán Rivera Letelier, A Contadora de Filmes, Ed. Presença, 2011

19 maio 2011

Almocemos, pois!

Sábado próximo haverá muitos almoços pelo País. Contudo, um terá um significado muito especial para um empenhado grupo de dezenas de homens e mulheres que, juntos, irão celebrar, na maior alegria, um tempo.
Com a impressionante dinâmica que estes movimentos têm adquirido na era Facebook, vão juntar-se na Figueira da Foz amigos, amigas, conhecidas, conhecidos, companheiros, companheiras, colegas, ex colegas e assim-assim, cujas vidas se cruzaram um dia no Liceu da cidade.
Será, certamente, uma festa bonita.
Por mim, celebro ali a maravilha de ter tido dezassete anos.

17 maio 2011

À mesa do café com o Tomás, o Gil e a Joana (...e o Hélder)



Ontem à noite, no Bar da Barraca- Cinearte, confrontaram ideias e ideais, Tomás de Torquemada, Gil Vicente e Joana d'Arc.
Num diálogo vivo e acutilante, suscitado por Hélder Costa, promotor e moderador da reunião, foi possível juntar à mesa três personagens históricos do século XV num debate sobre as grandes questões da Humanidade e os respectivos percursos pessoais.
Ali, pelo menos, não dominou a finança.
Interessante, pedagógico e lúdico, os Encontros Imaginários são uma iniciativa muito estimulante  da Barraca, que merece ser vista e participada .

Em 6 de Junho, estarão a tomar café: Luther King, Maria Callas e Ku-Klux-Klan

14 maio 2011

"É a vida!", o caraças! A ver se me animas, Frank!


12/12/1915 - 14/05/1998


That's life,
that's what all the people say
You're riding high in April,
Shot down in May
But I know I'm gonna change that tune,
When I'm back on top, back on top in June.
I said that's life, and as funny as it may seem
Some people get their kicks,
Stompin' on a dream
But I don't let it, let it get me down,
'Cause this fine old world it keeps spinning around.

I've been a puppet, a pauper, a pirate,
A poet, a pawn and a king.
I've been up and down and over and out
And I know one thing:
Each time I find myself, flat on my face,
I pick myself up and get back in the race.

That's life

12 maio 2011

Manuel António Pina


O Prémio Camões, o mais importante galardão de literatura portuguesa, foi hoje atribuído por unanimidade a Manuel António Pina.

Finalmente uma boa notícia!

08 maio 2011

Roth

Nada fazia prever - principalmente porque Pegeen Mike Stapleford vivia como lésbica desde os vinte e três anos - que quando ela tivesse quarenta anos e Axler sessenta e cinco se tornassem amantes que se telefonariam todas as manhãs ao acordar e sofregamente passariam juntos o tempo livre em casa dele, onde, para gáudio dele, ela se apropriou de dois compartimentos para seu uso, um dos três quartos de dormir no primeiro andar para as roupas e o escritório do rés-do-chão, ao lado da sala de estar, para o portátil. Havia lareiras em todos os compartimentos do rés-do-chão, mesmo na cozinha, e quando Pegeen estava a trabalhar no escritório tinha sempre a lareira acesa. Vivia a pouco mais de uma hora de distância dali, percorrendo estradas de montanha sinuosas e onduladas, por entre campos de cultivo, que a traziam até à propriedade dele, vinte e dois hectares de campo aberto e uma grande e antiga casa de campo branca com portadas pretas, emoldurada por plátanos antigos e grandes freixos, e muros altos de pedra tosca. Não vivia ninguém, além deles, nas redondezas. Durante os primeiros meses raramente saíam da cama antes do meio-dia. Não conseguiam estar um sem o outro.
E no entanto, antes de ela chegar, ele tinha a certeza de estar acabado: acabado para o teatro, acabado para as mulheres, para as pessoas, definitivamente acabado para a felicidade. Estava há mais de um ano com graves problemas físicos, mal conseguindo dar dois passos ou estar muito tempo de pé ou sentado, por causa das dores da coluna que tinha conseguido suportar durante toda a idade adulta mas cuja evolução debilitante se tinha acelerado com a idade - e portanto tinha a certeza de que estava arrumado em todos os aspectos.

Philip Roth, A Humilhação, Ed. Dom Quixote, 2011
Pintura: Eric Fischl

06 maio 2011

Para a Catarina, que fará dezoito anos num domingo de 2027


Hoje
és ainda um cálido sopro de ternura,
e vida enchendo as memórias com o riso
aprendido nas aves.
Olhamos o céu com os mesmos olhos,
e andarei contigo onde estiveres.
Porque nós somos os passos que dermos
e tu já és tanto

Foto: C.

26 abril 2011

A falta que faz o romantismo!


Até já?!
Mas esta gente pensa que haverá mesmo quem responda? Não acredito, sinceramente.
Bom, sei lá eu a precisão que para aí vai... Se calhar respondem. Romantismo a pagar?!
Não pagas para aderir, mas pagas para receber. É como votares num programa eleitoral e não receberes as promessas em troca, a não ser que pagues. E bem!
25 cêntimos de romantismo à la tmn é dinheiro. Ele há cada uma!: "Anime a sua vida". ... Pfff!

25 abril 2011

Para que é que a noite chega senão para procurar pássaros. Sobre a profundidade que abraça a minha varanda, assisto sem palavras à maré cega e astuta, aos seus lápis infatigáveis, ao pausado latejar concêntrico do seu coração. Por isso abandonei o sonho, saindo das suas mãos graças a um infinito estudo e a uma segura consagração. Agora estou inteiramente na atitude nocturna que as horas mais graves exigem. Fujo dos relógios, estabeleço distâncias invariáveis entre o meu corpo e o chamamento de campainhas e sinos. Apoiado na minha varanda por uma paciência ousada, vejo a rua encher-se de topázios, numa surda batalha de substituições até que as arestas de toda a construção são arrastadas pela maré daquilo que vem e as águas da sombra ascendem, com aspirados torvelinhos silenciosos até ao meu refúgio. Para que é que a noite chega se não é para procurar pássaros. Quando está junto a mim, abro os braços, bebo-a profundamente e deixo-me ir, já esquecido de resistências, como um falcão fulminado ou uma construção gótica.
(Julio Denis, XLI)

Julio Cortázar, Papéis Inesperados, Ed. Cavalo de Ferro,2010

20 abril 2011

Patrões e Capatazes


Passos Coelho disse-o com despudorada clareza: o programa de governo do PSD será o do FMI. E o mesmo acontecerá necessariamente com o do PS e o do CDS, partidos que, juntamente com o PSD, continuam em reuniões com os mandatários do FMI, BCE e UE para receber instruções ("negociações", chamam-lhes eles: o FMI, BCE e UE ditam e PS, PSD e CDS tomam nota, atrevendo-se eventualmente a alguma sugestão respeitosa...). Restam os programas do BE e do PCP, que conterão certamente medidas alternativas, mas não poderão, seja numa improvável participação no Governo seja na AR, alterar nada do que já tiver sido decidido pela coligação FMI/PS/PSD/CDS.
Pode, pois, perguntar-se para que é que haverá eleições senão para, à falta de pão, oferecer ao país duas ou três semanas de circo. As políticas para os próximos anos estarão, de facto, determinadas antes das eleições e independentemente dos resultados eleitorais e, depois delas, qualquer medida com impacto orçamental, mínimo que seja, do Governo ou do Parlamento, terá que ir a despacho aos tutores do país.
A suspensão da democracia sugerida por Manuela Ferreira Leite durará pelo menos três anos, durante os quais nos caberá tão só eleger capatazes que executem as ordens de Washington (FMI), Frankfurt (BCE) e Bruxelas (Comissão).
Por muito menos foi a estátua de Camões, quando do ultimato inglês, coberta de crepes pelos antepassados políticos do actual PS.

Manuel António Pina, JN
Fotografia: Richard Avedon

18 abril 2011

Haeven



Preconceito, intolerância, violência, mais preconceito, intolerância, violência.
Na Europa ou em África. Na escola, no deserto e na oficina.
Estes são alguns dos elementos que compõem o quotidiano do mundo actual, onde se cruzam as pequenas tragédias individuais e domésticas, que não chegam a ser notícia, com as devastadoras calamidades que enchem os noticiários e a “boa consciência” dos países ricos.
No filme de Susanne Bier, a origem, o ponto de partida é o mesmo: a intolerância. Ela é a presença constante em todos os conflitos da narrativa.
Um dos protagonistas é, aliás,  levado a combater a (mesma) estrutura mental dos déspotas em África num ambiente de absoluta carência e na sua pequena e confortável cidade dinamarquesa. Apenas muda a escala.
Em UM MUNDO MELHOR (Hæven)  está o retrato rigoroso e adequado do lugar onde vivemos.
Com uma realização muito segura, uma deslumbrante fotografia e uma música fantástica.

13 abril 2011

O engraxador


Há descobertas saborosas... vozes a despontar com grande segurança, e que sabe bem ouvir em dias de algum descanso e descontracção, pois assim podemos apreciá-las melhor.
Com temas em português e inglês, Luisa Sobral - cantora, compositora, letrista e instrumentista - traz-nos ritmos pop e jazzísticos com um timbre bem agradável. Aos 23 anos, com um percurso entre Lisboa e os Estados Unidos, a jovem promete. Digam lá que não...   
Mais informação sobre o seu primeiro trabalho pode ser encontrada aqui ou ali.
Abram os links em novos separadores e, entretanto, vão ouvindo, lá em cima, outros temas do seu álbum de estreia:  The cherry on my cake. 

11 abril 2011

Mutatis mutandis...*


Foi nos idos de 80, os jovens já não são os mesmos, e há aqueles com quem o sistema conta, que ele apadrinha.
E, todavia, *há que mudar o que tem de ser mudado.

10 abril 2011

Sobre a Fé


"Às oito da manhã, o padre Duncan, o padre Heriberto e o padre Luis começam a insuflar o templo, isto é, estão na orla de um rio ou numa clareira na selva ou numa aldeia qualquer quanto mais tropical melhor e, com a ajuda da bomba instalada no camião, começam a insuflar o templo enquanto os índios das redondezas os contemplam de longe e um pouco estupefactos porque o templo que a princípio era como uma bexiga esmagada começa a endireitar-se, arredondar-se, esponja-se, no alto aparecem as três janelinhas de plástico colorido que vêm a ser os vitrais do templo, e por fim salta uma cruz no ponto mais alto e já está, plop, hossana, soa a buzina do camião à falta de sino, os índios aproximam-se assombrados e respeitosos e o padre Duncan incita-os a entrar enquanto o padre Luis e o padre Heriberto os empurram para que não mudem de ideias, de maneira que a missa começa assim que o padre Heriberto instala a mesinha do altar e dois ou três adornos com muitas cores que portanto têm de ser extremamente santos, e o padre Duncan canta um cântico que os índios acham extremamente parecido com os balidos das suas cabras quando um puma anda perto, e tudo isto acontece numa atmosfera extremamente mística e uma nuvem de mosquitos atraídos pela novidade do templo, e dura até um indiozinho que se aborrece começar a brincar com a parede do templo, isto é crava-lhe um ferro apenas para ver como é aquilo que se insufla e obtém exactamente o contrário, o templo desinsufla precipitadamente e na confusão todo o mundo se atropela à procura da saída e o templo envolve-os, esmaga-os, abriga-os sem lhes fazer mal algum claro mas criando uma confusão nada propícia à doutrina, principalmente quando os índios têm ampla ocasião de ouvir a chuva de coños e caralhos que os padres Heriberto e Luis distribuem enquanto se debatem debaixo do templo à procura da saída".

Julio Cortazar, Papéis Inesperados, Ed. Cavalo de Ferro, 2010

Pintura: Antonio Berni

06 abril 2011

A essencialidade da escrita


...O comboio arrancou. Logo a seguir começaram a desfilar pelas janelas o relógio, o chefe da estação, o vulto de um velhote sacudindo uma lanterna, as sentinas HOMENS, SENHORAS; e, pronto, a luz recortou-se nas vidraças, correu por terrenos baldios.
"Vai assim o cabo". O revisor fez um gesto com os dedos a explicar a que ponto o outro ia encolhido. "Assim", disse ele. "A esta hora nem um feijão lhe cabe no rabo".
Foi assim, neste quadro, que o Oito-Correio partiu da estação de Pinhal Novo, levando na carruagem da cauda um revisor de terceira, um negociante e três correços sentados no banco fundeiro, conduzidos por uma escolta de seis praças e um cabo. E todos eles, passageiros e militares, iam envolvidos numa poeira pesada de fumo de tabaco e de luz bacienta, e todos gingavam os corpos aos solavancos da carruagem..."

José Cardoso Pires, Carta a Garcia in Jogos de Azar, Ed. Leya 2011

A escrita depurada de José Cardoso Pires transporta  o leitor  em viagens fascinantes.
A reedição da coletânea de contos Jogos de Azar coloca-nos nas mãos alguns dos melhores textos do género escritos no século XX em Portugal.
É uma escrita com fortíssimos traços cinematográficos, adoptando um ritmo e sequências narrativas vigorosas que nos prendem desde as primeiras linhas. 
Acresce a excelente Introdução (A Charrua entre os Corvos), onde Cardoso Pires, em 1963, defende a importância da abordagem literária de alguns fenómenos de exclusão social, traduzida na maioria destes contos sobre os  desocupados, "gente destituída de autoridade e, por isso, condenada a tropeçar a cada passo nos caprichos daqueles que a detêm como exclusivo".
A sua análise, apesar da linguagem cifrada dado o contexto em que foi escrita, não podia ser mais actual.

04 abril 2011

Uma história de amor entre dois eunucos chineses


«Os quatrocentos eunucos da velha casa imperial chinesa foram desterrados e apenas dois permaneceram no mosteiro, nascendo entre eles uma grande amizade, a tal ponto que não podiam mover-se nos corredores e no jardim sem estarem juntos.
Falavam das nuvens que vagam e das sombras dos pássaros pelas pedras do horto. Mas alguma coisa cavou um espaço entre eles. Como se, inexplicavelmente, estivessem melhor isolados. Pelo menos um dos dois, o mais velho, parecia comportar-se assim. Arrastava-se pelas esquinas e preferia os confins do jardim. O outro seguia-o à distância. Observava-o, estudava-o para perceber o que poderia ter acontecido. Talvez estivesse mal e quisesse morrer sem perturbar e sem ser perturbado. Um dia notou que escrevia sobre uma folha de papel. Mesmo à luz da candeia o via escrever coisas que depois, secretamente, em alguma parte escondia. Procurou aquelas folhas. Devorava-o um desejo de alcançar aquele diário íntimo. Como lhe parecia ter visto o amigo fazer, removeu as pedras do jardim e revistou o interior das fendas do velhíssimo pavimento. Finalmente um dia encontrou-o. Leu às escondidas o que estava escrito:

Segunda Feira
Desde que comecei a escrita do diário vejo que te interessas ainda muito por mim.

Terça Feira
Sinto que desejas ler o que escrevo.

Quarta Feira
Hoje removi as pedras no horto para que pensasses que escondia aí estas páginas. E, de facto, tu repetiste os meus gestos e ficaste desiludido.

Quinta Feira
Leio nos teus olhos que estás a sofrer. Então é verdade que ainda me queres bem.

Sexta Feira
Hoje quero que encontres estas pequenas linhas e percebas que és a minha vida.

Depois de ler chorou. E viu que, junto ao canavial, também o outro chorava.»


Tonino Guerra, Histórias para uma Noite de Calmaria, Ed. Assírio e Alvim, 2002.
Fotografia: Maleonn Ma

03 abril 2011

Celebrar um amigo



INSTANTES

Que o instante seja água,
gota de sol declinada nas mãos.

Que o brilho se desfaça em nó solto
num castelo de frutos, no longe sôfrego.

Todas as árvores são a minha solidão,
O meu duelo de passeios,
A grande sombra de um céu quebrado a meio,

Eu passo pelo sonho no declive,
pelos pássaros perdidos augurando água,
todos vêm aos meus ombros pousar, são de vento,
Desfazem-se das ramadas,
colhem a finitude do tempo.

Eu sonho muito além, onde o sangue pulsa ainda o coração do sol
E as minhas mãos de solidão defesa, estão lavadas.

José Ribeiro Marto

30 março 2011

Samanta Schweblin


Tego fez uns ovos mexidos mas quando finalmente se sentou à mesa e olhou para o prato, descobriu que era incapaz de os comer.
- O que é que se passa?- perguntei-lhe.
Demorou a tirar os olhos dos ovos.
- Estou preocupado - disse, - acho que estou a perder velocidade.
Mexeu o braço de um lado para o outro, de uma forma lenta e exasperante, suponho que de propósito, e ficou a olhar para mim, à espera do meu veredicto.
- Não faço a menor ideia do que estás a falar - disse, - ainda estou demasiado a dormir.
- Não viste o tempo que eu demoro a atender o telefone? A ir até à porta, a beber um copo de água, a escovar os dentes... É um calvário.
Houve um tempo em que Tego voava a quarenta quilómetros por hora. O circo era o céu; eu arrastava o canhão até ao centro da pista. As luzes ocultavam o público, mas ouvíamos o clamor. As cortinas aveludadas abriam-se e Tego aparecia com o seu capacete prateado. Levantava os braços para receber os aplausos. O seu fato vermelho brilhava sobre a arena. Eu encarregava-me da pólvora enquanto ele trepava e enfiava o seu corpo magro no canhão. Os tambores da orquestra pediam silêncio e ficava tudo nas minhas mãos. Nessa altura, as únicas coisas que se ouviam eram os pacotes de pipocas e uma ou outra tosse nervosa. Eu tirava os fóforos dos bolsos. Levava-os numa caixa de prata que ainda conservo. Uma caixa pequena, mas tão brilhante que podia ver-se do útimo degrau da bancada. Abria-a, tirava um fósforo e encostava-o à lixa da base da caixa. Nesse momento todos os olhares estavam sobre mim.Com um movimento rápido, o fogo surgia. Acendia a mecha. O som das faíscas expandia-se em todas as direcções. Eu dava alguns passos teatrais para trás, dando a entender que algo terrível ia acontecer - o público atento à mecha que se consumia -, e de repente: Bum. E Tego, uma seta vermelha e brilhante, saía disparado a toda a velocidade.
Tego afastou os ovos e levantou-se com esforço da cadeira. Estava gordo e estava velho. Respirava com um ronco pesado, porque a coluna lhe apertava não sei o quê nos pulmões, e deslocava-se pela cozinha usando as cadeiras e a bancada para se aparar, parando a cada instante para pensar, ou para descansar. Às vezes suspirava simplesmente e proseguia descansado. Caminhou em silêncio até à porta da cozinha e parou:
- Eu acho mesmo que estou a perder velocidade - disse.
Olhou para os ovos
- Acho que estou à beira da morte.
Encostei o prato ao meu lado da mesa, apenas para o irritar.
- Isso acontece quando uma pessoa deixa de fazer bem o que sabe fazer melhor - continuou -. Foi nisso que estive a pensar, que uma pessoa morre.
Provei os ovos mas já estavam frios. Foi a última conversa que tivemos; depois disso deu três passos torpes em direcção à sala e caiu morto no chão.

Uma jornalista de um jornal diário vem entrevistar-me alguns dias depois. Assino-lhe uma fotografia para a notícia, na qual estamos, eu e Tego, ao lado do canhão, ele com o capacete e o seu fato encarnado, eu de azul, com a caixa de fósforos na mão. A rapariga fica encantada. Quer saber mais sobre Tego, pergunta se há alguma coisa especial que eu queira dizer sobre a sua morte, mas já não tenho vontade de continuar a falar disso, e não me ocorre nada.
Como não se vai embora, ofereço-lhe algo para beber.
- Café?- pergunto
- Claro! - diz ela. Parece estar disposta a ouvir-me uma eternidade. Mas risco um fósforo na minha caixa de prata, para acender o lume, várias vezes e não acontece nada.

Samanta Schweblin, Pássaros na Boca, Ed.Cavalo de Ferro, 2011

27 março 2011

Mas... onde está o Povo?



Um PS e um PSD que discutiam a posse de um Povo submeteram o caso ao julgamento de um FMI. Este, depois de ouvir uma longa argumentação, abriu a boca para proferir a sentença.

- Já sei qual vai ser a decisão – interrompeu o PSD. – Devido ao nosso fraco desempenho, o Povo não pertence a nenhum dos dois e serás tu mesmo a comê-lo. Permite-me que te diga que é uma decisão injusta, como provarei.

- Para mim – disse o PS – está claro que darás o Povo ao PSD, o PSD a mim e que tu ficas comigo. Já tenho experiência destas coisas.

- O que eu ia a dizer – disse o FMI, bocejando – é que, durante a argumentação deste caso, a propriedade em disputa pôs-se a andar. Talvez consigam arranjar outro Povo.

Nota: Inspirado numa fábula de Esopo.

retirado daqui, à descarada, mas com a devida vénia.

22 março 2011

Redacção para o exame da ludoteca: xeque-mate de rei e dama


É uma técnica simples, que apenas requer um trabalho de conjunto e dinamismo, por parte do rei e da dama atacantes, para restringir o rei adversário. Nunca se deve desprezar a chamada “jogada de espera”. Entretanto, há que limitar as filas de alcance do rei atacado (não sei como se faz, mas já vi que resulta noutros tabuleiros).

Para viabilizar (o que eu gosto deste termo!) a execução deste mate, o Rei precisa de apoiar a dama - tanto para forçar o movimento do Rei adversário para as bordas do tabuleiro, quanto para efectuar o mate.
Para que a dama tenha poder estratégico, deve estar colocada em L ou posição de cavalo com o rei adversário.
Quando o Rei estiver sem saída é só gritar bem alto "XEQUE-MATE!". Se disserem "vai-te embora antes que o cheque te mate", não vale. Não queremos cheques sem cobertura. 

Alguns peões, que neste jogo nunca podem retroceder, estão agora nos bastidores, com cara de parvos, porque nunca aprenderam jogos estratégicos - só se lembram do anelzinho e do jogo do ringue nas avenidas, idas, de restritas liberdades, quando ainda se cantava Ó-ai-ó-linda e não havia carros nem buzinas. Pensavam que era um jogo a brincar e estão quase a dar-se conta de que vai ser tudo a sério depois do torneio.

E há também peões a dar de frosques porque não querem ser obrigados a PEC(ar) sem fazer batotice, coisa a que seriam obrigados em caso de empate.

Esta redacção não foi escrita ao abrigo do novo Acordo Ortográfico, mas deu-me um grande gozo, porque aprendi imenso sobre a técnica de copipeiste.

imagem: Final de Partida, obra de Andrea Conde (Buenos Aires)

19 março 2011

Berceuse

 


Canção de embalar é talvez
demasiado melódico e além disso
um desuso. Já ninguém canta a adormecer
os filhos. Coisa imprópria para o crescimento
de criaturas autónomas
e hiper-activas que devem fugir
ao sedentarismo e à obesidade.
O Canal Panda faz isso muito melhor
ou qualquer brinquedo mecânico e perfeito.

Também já ninguém canta
nos lavadouros públicos ou nos campos. Os
únicos campos onde se cantam as brumas
da memória são os estádios. Os
pedreiros deixaram de cantar à pedra:

Hou! pedra, hou!
Hou! linda pedra, hou!

e as canções de trabalho (uma espécie
de berceuses da fadiga) passaram
a matéria etnográfica. Por isso os
estudantes de português já não entendem
Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura ou
Sete anos de pastor Jacob servira.

Mesmo o Schöne Müllerin do Schubert que
se ouve ainda nos concertos clássicos
com vaga subserviência patega
(porque em alemão, não se percebe nada),
só os amantes do lied reconhecem.

E se percebessem?
A moleira já não seria schön
e não teria 80 anos, bem bonito rol
como a de Junqueiro,
pela estrada fora, toc, toc, toc, mas agora reclusa
numa casa geriátrica, em contagem crescente
da inacção.

Muito pouco,
tão pouco, para um mundo
embalado na pesquisa espacial
de água em Marte.


Inês Lourenço, Coisas que nunca, & etc, 2010
Imagem: Pipas, tela de Cândido Portinari

17 março 2011

O horror






















Uma harpa envelhece.
Nada se ouve ao longo dos canais e os remadores
sonham junto às estátuas de treva.
A tua sombra está atrás da minha sombra e dança.
Tocas-me de tão longe, sobre a falésia, e não sei se
foi amor.
Certo rumor de cálices, uma súplica ao dealbar das
ruínas,
tudo se perdeu no solitário campo dos céus.
Uma estrela caía.
Esse fogo consumido queima ainda a lembrança do
sul, a sua extrema dor anoitecida.
Não vens jamais.
O teu rosto é a relva mutilada dos passos em que me
entristeço, a absoluta condenação.
Chove quando penso que um dia as tuas rosas floriam
no centro desta cidade.
Não quis, à volta dos lábios, a profanação do jasmim,
as tuas folhas de outubro.
Ocultarei, na agonia das casas, uma pena que esvoaça,
a nudez de quem sangra à vista das catedrais.
O meu peito abriga as tuas sementes, e morre.
Esta música é quase o vento.

José Agostinho Baptista, in Paixão e Cinzas

Foto: AQUI

14 março 2011

Womadelaide, música no outro lado do Mundo

Womadelaide é um importante Festival Internacional de Música e Dança que hoje termina em Adelaide, Austrália.
Para nós, acresce de importância pela presença, em lugar de reconhecido destaque, de Ana Moura.

13 março 2011

Melingo


Hoje acordámos com dois países.
Um, acomodado, medroso, engravatado, ancorado em esquemas e submissão e em fazer pela vidinha.
O outro, começa a gatinhar.


Melingo canta os inconformados, desalinhados e sonhadores de futuros.
Hoje, na Gulbenkian.


10 março 2011

Bomarzo

Vim ao mundo em tempos de violência. Nesse ano de 1512 o velho Júlio II – o papa terrível, infatigável, que, apesar do mal gálico e da gota que o retorciam, arrastava cardeais, príncipes e chefes militares em furiosas cavalgadas, e que vivia entre soldados, com a pele de carneiro que punha sobre a couraça suja de sangue e lama – trocou as armas da guerra pelas da astúcia e fingiu estar morto, com um ardil de raposa que passa da rigidez à dentada, para atrair à armadilha de Roma os prelados hostis que, obedecendo à política estrangeira, se haviam reunido em concílio em Pisa. Quando os teve em seu poder aterrorizou-os e reduziu-os à obediência. Nesse ano faleceu Pandolfo Petrucci, déspota de Siena, sem ninguém que o chorasse já que a sua vida era plena de crimes. Depois de um longo interregno republicano, os Médicis tornaram a Florença, também nesse ano, com os seus dois futuros papas e os seus dois duques anódinos e bem parecidos, o "Pensieroso" e o tio, que se contemplam eternamente nos sepulcros de Miguel Ângelo; e Maquiavel, contra sua vontade, retirou-se para meditar sobre as décadas de Tito Lívio e planear o seu retrato do Príncipe, breviário de sábia perfídia.
Nesse ano subiu ao trono o sultão Selim I, o poeta parricida que assassinou toda a sua família e viveu para guerrear. E a Europa eriçou-se de pânico. O mais insigne dos antepassados do pobre Toulouse – Lautrec (que herdou, se não o seu porte, a sua desdenhosa audácia senhoril), Odet de Foix, visconde de Lautrec, em cujas fileiras o meu pai se bateu, foi perigosamente ferido em Ravena nesse ano. Nesse ano morreu Gastão de Foix, um jovem sobrinho de Luís XII, com quinze cutiladas no rosto, e o rei perdeu a Itália. Toda a Itália ressoava e crepitava com o fragor das armaduras que se entrechocavam. E nesse ano começou a mostrar as garras Alexandre Farnese, esse que viria a ser Paulo III, recebendo ordens de diácono. Mas também nesse ano, seis meses depois do meu nascimento, Miguel Ângelo Buonarroti mandou retirar os andaimes que cingiam como diques de enredado madeiramento as pinturas da Capela Sistina; desceu, qual ermitão profeta que sai da sua longa clausura, e a criação do mundo revelou-se, potente, gloriosa, voluptuosa, intimidante, num apaixonado entrelaçado de músculos ágeis e jovens, perante o espanto da corte pontifícia que acorria dos campos de batalha, sacudida pela constante presença da morte e do rancor nos acampamentos militares, para ver, lá em cima, lá no alto, sobre os perfis torcidos, sobre a dor das nucas, sobre o arquejar das respirações e o trémulo silêncio, algo que parecia, na sua robusta confusão, um mar multicolorido de espumas prestes a precipitar-se, gritando, bramindo, livre dos diques e do mago de nariz partido que o imobilizavam, sobre a Itália frenética, órfã de Deus.

Manuel Mujica Lainez, Bomarzo, Trad. Pedro Tamen, Sextante Editora

Atrevo-me a dizer que os amantes da leitura se podem dividir entre os que já leram Bomarzo e os que, por enquanto,  ainda não o leram...
Bomarzo é um romance que nos conduz numa magnífica e vertiginosa aventura . É  um extenso fresco do Renascimento, um retrato fantástico da Itália do século XVI, dado através da vida do atroz Pier Francesco Orsini, Duque de Bomarzo e construtor do seu Sacro Bosque.
Nas 630 páginas desta fabulosa narrativa, Manuel Mujica Lainez pinta a Renascença ´em toda a sua glória e nas suas mais tenebrosas misérias.
No final fica a vontade de continuar, seguir os passos daqueles que fomos conhecendo, amando e desprezando,  através do retrato psicológico denso e profundo feito por este autor tão pouco conhecido.
Belíssima tradução de Pedro Tamen

03 março 2011

Gosto!



Aldo Romano (1941) baterista, compositor, um dos melhores músicos de jazz europeus na actualidade.

28 fevereiro 2011

Na Praça Tahrir, praticando a tolerância


Na praça Tahrir nem todos rezavam. Fazia-o quem queria, o que nunca foi a maior parte dos milhares de manifestantes. Há muitos egípcios muçulmanos que, cinco vezes por dia, fazem as orações prescritas pelo Corão. Quer estejam na praça Tahrir, quer noutro lugar qualquer. Outros egípcios muçulmanos só fazem as orações à sexta-feira, outros fazem-nas raramente, outros não as fazem nunca.
Não sei quais são as percentagens de uns e outros, nem a relação desses números com a classe social de cada um, a idade ou a região de onde provêm. Também não sei qual é a percentagem de portugueses que reza antes do deitar, e se isso depende da classe, idade ou região. Também ignoro se há estudos rigorosos sobre o número de portugueses que, nos anos 50, rezavam antes de dormir e de comer. E, desses, quantos ainda o fazem. E se os seu filhos o fazem. E os netos.
Também não sei qual é a percentagem de cidadãos dos EUA que rezam. E a dos que têm uma Bíblia à cabeceira, e a dos frequentam bruxos, videntes e "psíquicos". Já agora, também não sei o número de portugueses que o fazem.
Perdi a conta ao número de séculos durante os quais os padres cristãos impuseram às pessoas padrões de comportamento. Aliás, não sei bem quando deixaram de o fazer, nem o que ainda fariam se os deixassem.
Não sei quem disse aos muçulmanos que os judeus eram perversos, que o Ocidente conspira, as mulheres devem obedecer aos homens e os não-crentes são seres inferiores. Também não contei quantos milhões pereceram às mãos dos cristãos por serem infiéis, nem quantas mulheres da Cristandade nasceram e morreram sem terem tido vida.
Não investiguei se alguém violou uma jornalista americana na praça Tahrir, ou noutra qualquer praça ou rua do Cairo ou de Aveiro. Nem se o violador apoiava o não Mubarak, era devoto de Maomé ou da Virgem de Fátima, votava no PSD ou no Bloco. Em nenhum dos casos concluiria que a base de apoio do PSD são os violadores, que os bloquistas são frustrados sexuais ou que a vocação dos católicos é estuprar mulheres estrangeiras.
Não sei se há mais crime no mundo islâmico, judaico, cristão ou hindu, nem se há mais frustrações sexuais nos países do Norte ou do Sul, se há relação entre culpa e prosperidade económica, nem se a violência é mais própria dos climas quentes ou frios, ou a indolência directa ou inversamente proporcional à distância da praia.
O que eu sei é que na praça Tahrir nem todos rezavam. Sei, porque estive lá durante 21 dias seguidos. À hora da oração, organizava-se um cordão humano, de mãos dadas, para dar espaço a quem queria rezar. Faziam-no em conjunto, como é hábito entre os muçulmanos. Mas bastava olhar para o lado para ver a multidão que continuava de pé, a conversar. E também os grupos de cristãos que oravam juntos. Era assim, por mais que isto desoriente, incomode e fira a narrativa racista.
É admirável a capacidade humana de construir narrativas. Mas ainda mais a sua aptidão para as rasgar quando já não lhe servem. Leva tempo, porque a História mental é de longa duração. Mas não há nenhuma prova de que as civilizações árabe e muçulmana sejam incompatíveis com a democracia. Não há nada nos árabes e muçulmanos - nem a História, nem a tradição, a geografia, os textos sagrados ou o genoma - que os impeça de serem livres. O único impedimento seria não quererem, e a única ajuda que o Ocidente lhes pode dar é acreditar neles.

Paulo Moura, Em Tahrir nem todos rezavam, AQUI
Foto: C.

20 fevereiro 2011

Hereafter


O último filme de Clint Eastwood  (Hereafter) cruza três histórias de gente comum na sua relação com a perda, a morte e a possibilidade de existir alguma coisa depois do fim da vida.
Impressiona neste filme a forma séria e equilibrada com que Clint Eastwood aborda um tema que não é fácil de tratar em cinema, mas marca o espectador, uma vez mais, a sua genial direcção de actores.
Os irmãos Frankie e George MacLaren (Jason e Marcus) são duas presenças centrais na narrativa e conseguem  interpretações excepcionais em crianças sem qualquer experiência prévia de cinema. As suas personagens são marcadas por uma rara intensidade dramática que prende o espectador, e constituem um ponto alto de representação.
Ao realizador e à sua inesgotável mestria o ficam a dever.

16 fevereiro 2011

O peso escandaloso da insensibilidade

Velhos, ó meus queridos velhos, saltem-me para os joelhos: vamos brincar?
ALEXANDRE O'NEILL

O número perturbador de velhos portugueses que morreram sós, e estiveram anos sem ninguém disso dar conta, permitiu uma série de piedosas declarações. A "atomização da sociedade", de que falou, admiravelmente, Simone de Beauvoir, num ensaio esquecido mas não datado [La Vieillesse], facilitou o sistema em que sobrevivemos, e que "confina com a barbárie."
Os nossos velhos pagam, amarga e dolorosamente, as nevroses das suas infâncias e as consequências das suas vidas frustradas, esmagadas, irrealizadas e aceitas com a resignação de quem foi alienado para consentir o inevitável declínio. A velhice, tal como as sociedades modernas a tratam, é uma questão de anomalia política, uma mutilação. Podíamos, talvez, atenuar essa violência, essa desolação social, com um pouco de compaixão.
Porém, autorizámos que nos esburacassem os sentimentos. Reparem: deixámo-nos de nos cruzar uns com os outros: simplesmente, atravessamo-nos; afastámo-nos da cordialidade, expulsámo-nos dos laços que nos uniam e justificavam como seres humanos e como comunidade. O nosso coração está oco.
Um país que abandona assim os seus velhos, que assim deixa morrer os seus velhos, é um sítio sem memória, um vácuo no vácuo. Um local inóspito que perdeu a ligação do espiritual e foi ocupado pela desordem estabelecida. Mas os sobressaltos de emoção são momentâneos. A dialéctica da Imprensa impede a durabilidade das nossas indignações, já de si muito ténues e muito frágeis. Os velhos mortos na solidão de todas as mortes serão substituídos pela inclemência da eterna actualidade. Morrem e passam a número. A dissolução do humano assimilou os nossos mais pequenos gestos, as nossas mais escassas fraternidades. A vulgaridade dos factos torna-se banalidade. Chega a ser indecoroso o lado mau da vida que os jornais expõem. Mas é assim. E o que assim é tem muito peso. O peso escandaloso da insensibilidade.
Os nossos velhos não estão, apenas, a morrer nas suas casas geladas de calor humano. Estão a morrer nos jardins, sentados na distância de já haverem perdido o pessoal sentido de identidade. O tempo flui neles e sobre eles, e já lhes não interessa, sequer, a desolação do seu fim de vida. Estão a morrer em caixotes horrendos, os paióis para onde são despejados como inutilidades que se desprezam.
E os jornais vão fornecendo números, levando, finalmente, para as primeiras páginas, aqueles que sempre as tinham merecido. Não gostamos dos nossos velhos. Abandonamo-los nos hospitais, rasuramos da nossa memória os seus afagos de pais e avós, as atenções que nos concederam, o amor que nos ofereceram sem contingências.
Que estamos a fazer a nós próprios?

Baptista Bastos, AQUI

Quadro: Lucian Freud





13 fevereiro 2011

Oui Non

... a fotografia é uma celebração do mundo, a perseguição de um puro prazer estético, a exaustiva pesquisa da essência das coisas, a misteriosa transferência para as suas imagens do que constitui o foro íntimo do fotógrafo: os seus sonhos, fantasmas, receios, pulsões, esperanças, recordações.

 Gérard Castello-Lopes



“Oui Non” é o título da exposição de fotografias de Gérard Castello-Lopes, patente no CCB até 25 de Abril.