31 dezembro 2010

Exercício de reconhecimento



Cada viajante constrói, das cidades que ama, uma ideia que raramente coincide com a lógica da geografia urbana. Na sua forma de amar uma cidade, desenha percursos, associações imaginárias, mitos instrumentais que o fazem ver fachadas, os monumentos, as praças e as gentes de uma determinada zona como os melhores sinais identificadores do espírito do lugar.

António Mega Ferreira, ROMA, Exercícios de reconhecimento, Sextante Editora, 2010.
Foto: Paulo - Via Frattina, Roma, (9 graus temp.)

27 dezembro 2010

Um dia, a luz do sol afagou pela última vez as roseiras


... Esta conta não pagarás:
- ficará sob uma cinza que não sabes.
Sob a cinza que ainda não sabes
ficará teu filho por nascer
e também os meninos que já sabiam desenhar nos muros.


Ficarão os figos que ontem puseste na cesta.
Ficarão as pinturas da tua sala
e as plantas do teu jardim, de estátuas felizes,
sob a cinza que não sabes.


Os gladiadores anunciados não lutarão
e amanhã não verás, próximo às termas,
a mulher que desejavas...

Tu ficarás com a chave da tua porta na mão;

tu, com o rosto da amada no peito;
amo e servo se unirão, no mesmo grito;
os cães se debaterão com mordaças de lava;
a mão não poderá encontrar a parede;
os olhos não poderão ver a rua.


As cinzas que não sabes voarão sobre Apolo e Ísis.
É uma noite ardente, a que se prepara,
enquanto a luz contorna a coluna e o jato d’água:
- a luz do sol que afaga pela última vez as roseiras verdes.



Cecília Meireles, Presença em Pompeia
Foto: C.

24 dezembro 2010

Natais, bebendo o vinho da alegria

Minha alma debate-se, tentada à tristeza e seus requintes. Meu pai morto não vai repetir este ano: "Nada como um frango com arroz depois da missa". Minha irmã chora porque seu marido é amarradinho com dinheiro e ela queria muito comprar uns festões, uns presentinhos mais regalados, ô vida, e ele acha tudo bobagem e só quer saber de encher a geladeira com mortadela e cerveja.
Talvez, por isto, ou porque me achei velha demais no espelho da loja, sinto dificuldades em ajudar Corália. Queria muito chorar, deveras estou chorando, às vésperas do nascimento do Senhor, eu que estremeço recém-nascidos. Estou achando o mundo triste, querendo pai e mãe, eu também. Corália disse: você é tão criativa! E sou mesmo, poderia inventar agora um sofrimento tão insuportável que murcharia tudo à minha volta. Mas não quero. E ainda que quisesse, por destino, não posso.
Este musgo entre as pedras não consente, é muito verde. E esta areia. São bonitos demais! À meia-noite o Menino vem, à meia-noite em ponto. Forro o cocho de palha. Ele vem, as coisas sabem, pois estão pulsando, os carneiros de gesso, a estrela de purpurina, a lagoa feita de espelhos. Vou fazer as guirlandas para Corália enfeitar sua loja. A radiação da "luz que não fere os olhos" abre caminho entre escombros, avança imperceptível e os brutos, até os brutos, banhados. Desfoco um pouco o olhar e lá está o halo, a expectante claridade, em Corália, em Joana com seu marido e em mim, também em mim que escolho beber o vinho da alegria, porque deste lugar, onde "o leão come a palha com o boi", esta certeza me toma: "um menino pequeno nos conduzirá".

Adélia Prado, No Presépio
Imagem: Caravaggio, Adoração (fragmento)




22 dezembro 2010

As time goes by


A minha primeira prenda de Natal: o tema do inesquecível Casablanca, na voz de Caryl Simon. Oferecido gentilmente por esta amiga da "blogga", como ela diz. Obrigada, mais uma vez.

18 dezembro 2010

15 dezembro 2010

A luz do sonho


 Esta noite o sonho voltou.
Nisto de sonhos sou pouco versado, sei que há os bons, os pesadelos e os outros, de que nem nos lembramos.
Este de que falo é recorrente nas minhas noites. Não o sei traduzir nem interpretar, sei apenas que me sinto bem nele. Quando acordo, conservo uma desmedida sensação de bem-estar, de conforto e de regresso.
“Chego a casa e está tudo igual. Os aromas, as cores e a luz oblíqua que entra como uma neblina pela varanda e se espalha no soalho encerado. Percebo ali uma espécie de desarrumação morna e colorida onde me sinto bem.
Subo os dois degraus que continuam a ranger e entro na sala onde o pick up de botões de baquelite toca como da última vez. Na mesa está um prato com um resto de pudim de caramelo. Por cima da música, ouço a algazarra familiar dos vizinhos e pela fresta da porta chegam os sons iluminados da cozinha. Não identifico vozes, sinto apenas um intenso aconchego que me faz sorrir, enquanto me viro e pouso as mãos no couro gasto do orelhudo junto à lareira.
 Enquanto a porta se fecha, sento-me no degrau... e apetece-me  guardar este tempo, na redoma dos dias bons”.

12 dezembro 2010

Gosto!


Não conheci a Leopoldina.  Nessa altura ainda não havia CDs e os gravadores Geloso tinham umas bobines que faziam um sussurro irritante ao rodar.
Mas ouvir este conjunto de reinterpretações das nossas músicas infantis é recordar um tempo bom. Algumas estão muito bem conseguidas, outras nem tanto (digo eu), mas experimentem pôr uma criança de dois anos a ouvir e olhem se ela se importa.

Preço: três euros. E um vai para a Missão Sorriso.
Para os Deolinda vão cinco estrelas.

But don't give up!



11 dezembro 2010

A estrela dos reis magos foi despedida.



Fartei-me de rir com este clip excentric(o) e pleno de criatividade.
Não encontrei as barras de ouro na Amazon, mas devem ter sido todas compradas pelos Baltazares que andam por aí, a fazer-nos crer que a crise é de todos. Fiquei a saber que a Maria de Belém, pelos vistos, ficou mais aflita do que Alegre, e que o José vai juntando mais animais naquele jogo do facebook. Não percam e depois rezem, pelo twitter, ao Espírito Santo, para que vos não falte a esperança, nos dias que aí vêm.

Obrigada, mana, por esta pérola.

08 dezembro 2010

Viagem na minha rua

Hoje é uma rua sem trânsito, pedonal, como se diz agora. Não o foi sempre e espanto-me como até ali cabiam imponentes carros que levavam as mães até às janelas, clamando perigos iminentes.
A calçada continua gasta, as pedras redondas ali estão, eternas, mas as portas das casas, para nós inacessíveis, encimando degraus majestosos, têm agora o batente à altura da minha mão.
A rua ficou alheia ao circuito dos meus dias e do meu olhar, mas é ele que me conduz de novo ali, numa viagem de memória. Nela sinto o recordar tumultuoso do cheiro da sopa quente vindo de cozinhas agora secas; lembro os encontros e desencontros com polícias ágeis, perseguidores de bolas e meninos, e hoje velhos asmáticos sem farda nos bancos da praça.
Ao peso da cor daquela experiência, quis até o meu corpo mudar de forma e tom, procurando a impossível transformação do regresso à infantil dimensão que deixasse a rua alargar, os carros buzinarem de novo, os degraus crescerem e as mães serem, outra vez, ouvidas.


06 dezembro 2010

Dizer

                
                  Exercício Espiritual

É Preciso dizer Rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora

Mário Césariny, in Manual de Prestidigitação, Assírio e Alvim, 1981.
Foto: C.

05 dezembro 2010

A magia dos dias

  

...Vivíamos então em Esposende numa pequena casa de praia que comprámos à senhoria, uma senhora não sei se dinamarquesa. Foram quatro anos em que escrevi muito e conheci dias bons com o mundo e comigo mesma. Minha filha estava no colégio interna, meu marido advogava no Porto e saía de tarde, voltando à noite, ficando eu e os gatos numa espécie de encantamento, a ouvir o suspiro do mar. Vinha à porta o carrinho da fruta, e a mulher que vendia dizia: " não sei como se dá nesta pasmaceira". Para ela toda a boa fruta era do Douro, inclusive as bananas. Não passava ninguém na rua, os tamarindos vergavam com o vento. A peixeira Cravelha ensinou-me a tirar a pele às azevias...

Agustina Bessa-Luis, O Livro de Agustina Bressa-Luis, Guerra e Paz, 2007
Música: Erik Satie, Gnossienne nº5 (Reinbert De Leeuw)
Foto: C.

04 dezembro 2010

A aprendizagem do medo


 Conheci o medo assim que dei por que existia. No entanto, adultos debruçavam-se, informando de que "um homem não tem medo".
"E se tiver?", perguntei.
"Nesse caso, não é um homem, é um cobarde".
Cobarde: esta palavra assustava-me, não fosse eu merecê-la. Ao que parece, abundavam na família exemplos de coragem. Tios robustos, socadores. Bisavós remotos, frenéticos de audácias variadas. E eu?
Uma manhã, cruzei-me com outros dois garotos. Inesperadamente, recebo nas feições um bochecho de água volumoso, que um dos rapazes sorvera sabe-se lá aonde. Fez isto e ficou na minha frente, a rir-se. Pensei: esta é a prova. Não encontrei em mim qualquer capacidade de agressão, paralisado que ficara com receio de chumbar, por muito que soubesso de cor o catecismo de como um homem age quando insultado. Pelo que retomei o meu caminho.
Deliberadamente não limpei a cara até chegar a casa. Fui direito ao primeiro espelho, e só pensava: "Sou um cobarde". Fui ver-me ao espelho. Percebo agora como era novíssimo, porque fiquei sinceramente estupefacto ao me reconhecer. Ao perceber que continuava a ser o mesmo. Bom. Cobarde? Porque não?
Depois tive uma outra discussão na praia com outro garoto mais novo mas  mais robusto.
"Prega dois selos se te atreves", disse-me ele. Pregar dois selos consistia em molhar os dedos médio e indicador com saliva, e esfregá-los no rosto do oponente. Era um insulto dos mais graves.
"E se eu não pregar dois selos?", perguntei.
"Então és um cobarde".
Fiquei imóvel. A gozar um sossego interior de maravilha, que se acentuou quando ele pregou dois selos na minha face direita.
"És um cobarde", disse o tipo.
"Eu sei que sou", disse eu. "E tu?" Lembro-me da calma maré baixa desse fim de tarde  como de algumas pequenas grandes coisas que vivi ( as ondas de encontro aos tornozelos, reboladinhas e suaves, como gatos às voltas com pernas de peixeira). Sem perder um átomo dessa paz total, molhei os meus dois dedos na língua com um vagar de ritual. Depois preguei na cara do rapaz, não dois selos, mas uma bofetada colossal. Também nunca mais esquecerei o espanto furioso, bolachudo, daquele rosto, no segundo decorrido entre a estalada e a multidão de socos que acertámos um no outro antes que um guarda fiscal nos separasse chamando-nos selvagens.
Este segundo incidente não veio estragar oa experiência do primeiro, sublinhou-a. Relembro-os ambos como um só passo dos primeiros que me foi dado dar na direcção da inteligência. O que me paralisara da primeira vez fora a dúvida absurda de ser ou não ser. A segunda experiência de confronto foi o que foi porque eu perdera o medo de ter medo. Dali em diante aceitei a possibilidade de ter medo como aceitaria muitas outras coisas naturais (...).

Nuno Bragança, O Tempo e o Modo, Revista de Pensamento e Acção - Antologia,
Fundação Calouste Gulbenkian, Centro Nacional de Cultura pp. 140-1

Pintura de Gaugin

01 dezembro 2010

Atirem-lhes o O'Neill

O Medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no múrmurio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
Ouvidos nos teus ouvidos
O Medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talveza minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes e angustiados


Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O Medo vai ter tudo
que se tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos


Sim
a ratos
(Alexandre O'Neill)

Se quiserem, leiam AQUI

30 novembro 2010

Pessoa(s)














              (13/06/1888 - 30/11/1935)


O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.

Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.

Alberto Caeiro, Poema XLVI (excerto), in Poemas, Ática, 1970
Foto daqui

28 novembro 2010

Conflitos da Modernidade

Sabe-se desde Durkheim que o casamento prejudica as mulheres e beneficia os homens. Um século mais tarde, devemos acrescentar alguns matizes a esta afirmação, mas a injustiça doméstica subsiste: a vida conjugal tem sempre um custo social e cultural para as mulheres, tanto na partilha das tarefas domésticas e na educação das crianças, como na evolução das suas carreiras profissionais e na remuneração. Hoje, mais do que o casamento, que perdeu o seu carácter  de necessidade, é a vida a dois e sobretudo o nascimento da criança que pesa sobre as mulheres. A união de facto, muito vulgarizada, não pôs fim à desigualdade doméstica ainda que os inquéritos demonstrem que é mais favorável ao  casamento. Pelo menos no início da vida a dois, porque a chegada de um filho aumenta muito as horas domésticas da mulher, enquanto o homem, como pai, se dedica mais à profissão. Segundo F. de Singly. " a dimensão do trabalho doméstico - e a sua justificação - resulta menos das necessidades dos homens do que das exigências, supostas ou não, das crianças. A saída de casa dos filhos demonstra de modo quase experimental que o custo da vida conjugal deriva em grande parte do custo dos filhos".
É verdade que quanto mais qualificadas são as mulheres, menos trabalhos domésticos fazem e mais trabalho profissional têm, sem que por isso  o companheiro trabalhe mais em casa.
O capital escolar da mulher, nota François de Singly, serve antes de mais para recorrer a serviços exteriores à família, situação a que não se podem permitir as mães menos dotadas que têm uma actividade profissional. Daí, esta observação do sociólogo que não deixa de ter reflexos sobre a maternidade: " A revolução dos costumes aproximou os homens e as mulheres mais qualificados ao mesmo tempo que afastou estas mulheres das ooutras menos qualificadas". Enquanto as primeiras tendem a investir mais no seu trabalho, ao ponto de por vezes renunciarem à maternidade, as segundas fazem a escolha contrária sobretudo quando o trabalho é raro e mal pago! A desigualdade social que se junta à dos géneros tem uma influência enorme no desejo de ter filhos.

Elizabeth Badinter, O Conflito a Mulher e a Mãe, Relógio D'Água, 2010
Pintura Jusepe de Ribera

25 novembro 2010

Honrados com a distinção


Fiquei então a saber que «O Prémio Dardos é o reconhecimento dos ideais que cada bloguista emprega na transmitissão de valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc... que em suma, demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras, e as suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web».

Muito reconhecidos estamos à Austeriana, do blogue Bicho Carpinteiro, e à Ana Paula, do Catharsis, por tão gentilmente nos terem distinguido desta forma. É uma cumplicidade saborosa, a da partilha deste prémio. A verdade seja dita: cá "por casa", quem tem estado à altura dele é o nosso indefectível Paulo, aqui sempre de pé firme, sem desanimar. Aquilo é que é uma disciplina! As outras duas blogueiras bem terão de fazer por merecê-lo.

O prémio Dardos requer o cumprimento de algumas regras, a saber:

- Exibir a imagem do Selo no blogue;
- Revelar o link do blogue que atribuiu o Prémio;
- Escolher 10, 15 ou 30 blogues para premiar.

Assim, nomearemos de seguida 10 lugares que, entre outros, e seguramente tão merecedores quanto estes, vão enriquecendo este largo espaço virtual. 











O nosso obrigado a todos quantos nos têm enriquecido, proporcionando a reflexão através  da sua voz, do seu pensamento, e nos têm deleitado com  a sua arte e imaginação.

19 novembro 2010

A cara do chefe

Lideramos, implantamos, penetramos, evoluímos, massificamos, impulsionamos,substituímos as redes de cobre, penetramos mais, desenvolvemos, não sei quê do sucesso, mais sector competitivo, mais a nova agenda digital, penetramos outra vez, o impulso, as metas, o digital (e o manual), a liberalização e o novo mundo.... 

 Eh pá, e fazemos, - todas e todos - a partir de agora, o mesmo discurso (literalmente).
Não dá chatice nenhuma e assim como assim, já ninguém ouve. Não faltará muito para se instituir um único texto para todas as ocasiões (inaugurações, simpósios, prós e contras, e outros).É só mudar as datas.
AQUI

15 novembro 2010

A vida sonhada


O homem que cavalga longamente por terrenos bravios sente o desejo de uma cidade. Finalmente chega a Isidora, cidade onde os prédios têm escadas de caracol incrustadas de búzios marinhos, onde se fabricam artísticos óculos e violinos, onde quando o forasteiro está indeciso entre duas mulheres encontra sempre uma terceira, onde as lutas de galos degeneram em brigas sangrentas entre os apostantes. Era em todas estas coisas que ele pensava quando desejava uma cidade. Assim Isidora é a cidade dos seus sonhos: com uma diferença. A vida sonhada continha-o jovem; a Isidora chega em idade tardia. Na praça há um paredão dos velhos que vêem passar a juventude; ele está sentado em fila com eles. Os desejos são já recordações.

Italo Calvino, As Cidades Invisíveis
Pintura: De Chirico

12 novembro 2010

Chamando os aníbais pelos nomes

Na semana que passou, o candidato Cavaco desperdiçou uma bela oportunidade para não alardear o estilo viscoso e rasteiro do seu eleitoralismo. Como um abutre salivando por carniça, despejou no «twitter» resumo do que extraiu do debate parlamentar sobre o Orçamento: «Vejo com muita apreensão o desprestígio da classe política e a impaciência com que os cidadãos assistem a alguns debates.»
Com uma só bicada, ensacou por junto todos os partidos e deputados que intervieram no debate, quando, em rigor só lhe seria legítimo verberar os que ele, Cavaco, tanto se esforçou por amigar: o PS/Governo e o PSD/Belém. CDS, PCP, Bloco de Esquerda e Verdes produziram intervenções dignas e pensadas, chegando mesmo a reprovar o desmando argumentativo do Arrufo Central. Mereciam ser excepcionados e louvados pelo dito magistrado de influência, mas como o pensamento deste voa tão alto como um crocodilo, lá ficaram na roda de serem todos iguais. Só ele, o apreensivo, não.
Ele, que tanto prestigiou a política envolvendo-se na mais velhaca urdidura que jamais um Presidente se tinha permitido, ao fazer soprar suspeitas de escutas do Governo sobre Belém, e isto DEZASSEIS meses antes de ter ocorrido o episódio do Estatuto dos Açores, que os sabujanalistas do costume dizem ter sido o momento da ruptura com Sócrates, o único vilão.
Ele, que tanto prestigiou Portugal quando o ferrabrás de Praga, Vaclav Klaus, fez estentórica chacota da gestão lusa do défice e Cavaco só encontrou, para resposta, uma saída de poltrão: que não tinha responsabilidades governativas.
Ele, que se gabou de nunca ter sido tão lesto a promulgar como na nacionalização do BPN - e nunca saberemos se o fez por um tremendo imperativo nacional ou se pela térrea preocupação de pôr a salvo cabedais que ali deixara a levedar.
Ele, que recomenda que se explique ao povo os sacrifícios que lhe são pedidos mas que nunca teve a lembrança de dar uma aula prática de fidalguia e recusar a pilha de reformas com que se aboleta, desprezando o exemplo de Ramalho Eanes. Veremos se, agora que se diz que vai haver lei sobre a matéria, a promulgará tão asinha e alegremente como o fez com a outra...
A rasteira maior foi ter usado o «twitter», uma rede social muito frequentada por jovens, possivelmente os mais carentes de exemplo cívico e de sentido para o seu futuro colectivo, que escusavam de saber que o candidato Cavaco não tem mais filosofia do que um avinagrado motorista de táxi: «São todos iguais.»

Óscar Mascarenhas AQUI

09 novembro 2010

Hiromi Uehara



I love Bach, I love Oscar Peterson, I love Franz Liszt, I love Ahmad Jamal. I also love people like Sly and the Family Stone, Dream Theatre and King Crimson. Also, I'm so much inspired by sports players like Carl Lewis and Michael Jordan. Basically, I'm inspired by anyone who has big, big energy. They really come straight to my heart. (Hiromi Uehara)

Hiromi Uehara nasceu em 1979, no Japão.
Aprendeu piano aos 6 anos, com 8 iniciou-se no Jazz e aos 14 tocou com a Orquestra Filarmónica da República Checa. Conheceu Chick Corea por mero acaso, quando tinha 17 anos, em Tóquio. Depois de a ouvir tocar, ele convidou-a para actuar no seu concerto do dia seguinte.
É uma fantástica música, compositora e performer. Completamente original, não é enquadrável em escolas ou correntes.
O clip, que mostra um diálogo musical com Chick Corea, é apenas um esboço do imenso talento de Hiromi, mas permite, também, assistir à imensa grandeza de um "monstro" consagrado da música, como Chick Corea, aqui fascinado com a qualidade da sua jovem parceira.

07 novembro 2010

Jordi Savall

Jordi Savall é um dos músicos mais polivalentes da sua geração. Concertista, pedagogo e um profundo estudioso de Música Antiga, é, também um dos principais artífices da renovação da Música Histórica. Com ele, deu-se a redescoberta da  viola de gamba, que popularizou  e tornou acessível.
A participação que teve no filme de Alain Corneau, Tous les Matins du Monde, onde foi responsável pela banda sonora, representou a chegada da sua música ao grande público.





Há um Concerto de Jordi Savall hoje (7/11),
às 19h, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa




05 novembro 2010

Nem o Paleolítico escapa


Na hora de agradar aos mercados, até o Paleolítico precisa de uma gestão "moderna e eficiente.
Enquanto houver genta na fila, o saque dos dinheiros públicos continua. Cortando na Segurança Social, claro e aumentando o leite achocolatado.

...A proposta de estatutos, a que o PÚBLICO teve acesso, prevê que o Ministério da Cultura (MC) nomeie o presidente do conselho de administração, que os ministérios da Economia, Finanças e Ambiente, e ainda a Câmara de Foz Côa, indiquem um administrador cada um, e que a escolha dos restantes dois fique a cargo do conselho geral da fundação. AQUI

03 novembro 2010

A espera

Esperei trinta e cinco anos por este dia. Nunca o toque a finados me tinha alegrado tanto. O filho da puta morreu. Até já parecia que a morte se havia esquecido dele. Não que ele me tenha feito qualquer mal. Ele apenas casou, sem o saber, com a mulher que eu amava.
Estive na Guerra de 14-18 e fui dado como morto. Quando voltei, ela tinha casado e, durante estes anos, contentei-me em vê-la de longe, sabendo que ela esperava por mim, como eu esperava por ela. Vivíamos os dois à espera que ele morresse. Qualquer doença, por simples que fosse, uma constipação, uma gripe, um resfriado, uma tosse, fazia-me rejubilar de esperança. Quando sabia que ele estava doente, dizia para mim próprio: "Será que é desta?" Mas o filho da puta enganava sempre a morte.
O tanger do sino, hoje, apenas veio confirmar aquilo que eu já sabia. Levantei-me e fiz o que faço religiosamente desde há trinta e cinco anos. Abri a gaveta da cómoda para cheirar a rosa seca e delida que ela me ofereceu em tempos, com o compromisso de só casar comigo. Olhei e nem queria acreditar, a flor reverdescera, como se tivesse acabado de ser colhida. Tanto tempo que eu esperei por isto, pensei, sorrindo.
Talvez seja já um pouco tarde, mas a minha mãe dizia-me sempre: "Mais vale tarde do que nunca". Por isso, vesti o fato que tinha comprado havia muito tempo para me casar com ela, calcei os sapatos pretos, pus a gravata, penteei os cabelos e coloquei a rosa na lapela do casaco. Depois, saí de casa, com a certeza de que nessa noite ia dormir com ela.
E foi mesmo isso que aconteceu.

Joaquim Mestre, Breviário das Almas, Oficina do LIvro, 2009

31 outubro 2010

Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me
sentir como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater
os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava
os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira
Que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
E o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto
Quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera
um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos
a ver se contraía a febre do império
mas a única coisa que consegui apanhar
foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar
uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Se tivesse dinheiro comprava um império e dava-to
Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito
e idiota como tu
mas que tem o coração doce, ainda mais doce
que os pasteis de Tentúgal
e o corpo cheio de pontos negros
para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete
Salazar estava no poder
nada de ressentimentos
O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram
nada de ressentimentos
um dia bebi vinagre
nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas
a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional
Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho
Que Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca

Jorge de Sousa Braga, O Poeta Nú, Ed Fenda, 1991

28 outubro 2010

Os campeões à procura do fumo branco


...Portugal é o país europeu com o maior número de PPP (Parcerias Público-Privadas), quer em relação ao PIB quer em relação ao Orçamento de Estado. Em 2009, o nosso país, cuja população é semelhante à da grande Paris, contratou três vezes mais PPP do que a França e mais ainda do que qualquer outro país da Europa.
Portugal é o campeão europeu das PPP - mas das PPP que afogam os contribuintes em dívidas, em especial os das gerações futuras, como revela a análise caso a caso a que a seguir procedo. Segundo a "League Tables Project Finance International", Portugal aparece distanciado, no topo da lista, com 1.559 mil milhões de euros de empréstimos, seguido de França com 467, da Polónia com 418, da Espanha com 289, da Irlanda com 141 e da Itália com 66 mil milhões.(...)
A partir dos anos 1990, as PPP tornaram-se a regra em Portugal, ao arrepio do que sucedia na generalidade dos países europeus. Tudo o que os governos retiram a partir de então do Orçamento do Estado como investimento público, por força das restrições orçamentais impostas por Bruxelas, passa sistematicamente para investimento privado em regime de PPP.
A habilidade é notória: os responsáveis continuam a mostrar obra, mas não a pagam agora. Agora quem a paga são os privados. A factura para os contribuintes virá depois. No imediato, todos ficam satisfeitos. A União Europeia deixa de se preocupar com o défice e a dívida. Os governantes e os governados aumentam as respectivas expectativas de mais votos e melhor nível de vida. Os parceiros privados fazem excelentes negócios.
O negativo da fotografia não se vê: está reservado para as gerações futuras.
Muito de tal investimento privado passa a ser, não só remunerado pelas receitas geradas pelo próprio projecto, ao longo dos 30 ou 35 anos das concessões, como beneficia igualmente de compensações várias que o concedente público caso a caso negoceia (ou renegoceia) pagar ao concessionário, ao longo da vida do contrato.
E assim sendo, há uma factura que sobra para os contribuintes das gerações vindouras, durante longos anos...

Carlos Moreno, Como o Estado Gasta o Nosso Dinheiro, Edição Leya, 2010

Carlos Moreno é Juiz Jubilado do Tribunal de Contas. No seu livro analisa duas décadas de "despesismo público". Curiosamente, durante  mais de vinte anos fomos conduzidos ao abismo por esta gente que persiste, agora, em nos convencer que a culpa é "dos mercados" e nossa, porque insistimos em "viver acima das nossas possibilidades".
Ou seja, mais de duas décadas de negociatas, enriquecimentos ilícitos, voragem do Aparelho de Estado e do dinheiro dos contribuintes por toda a espécie de oportunistas - como o livro enuncia - não têm responsabilidade no desastre. As grandes causas da caminhada para o abismo estão nos gastos com as reformas, nos salários e no subsídio de aleitamento.
Depois confiem neles outra vez e fiquem à espera do fumo branco.

27 outubro 2010

Eça dixit


Disse o nosso Eça de Queirós. Parece hoje:

O País Perdeu a Inteligência e a Consciência Moral - Eça de Queirós - 1871.

"O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já se não crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Todo o viver espiritual, intelectual, parado. O tédio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce... O comércio definha, A indústria enfraquece. O salário diminui. A renda diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo."

Eça de Queirós

24 outubro 2010

O Bernardo, o Paulo, a Catarina e os meninos todos


O Bernardo lança desafios e sorrisos aos meninos. São fitas coloridas de sons, suaves como sussurros que saem do piano e os meninos têm os olhos gulosos de espanto. O Paulo Lameiro e as amigas trazem tabuleiros carregados de danças, flores e notas musicais que são canções de acordar.
Os meninos rebolam, gatinham, abraçam e são abraçados por sons e cores que apertam muito contra o peito, porque é ali o lugar onde a música deve ser guardada. Ali, onde batem os corações. Depois riem muito, ou dançam, como a Catarina.


(Hoje de manhã, no Centro Cultural Olga Cadaval em Sintra, Bernardo Sasseti, Paulo Lameiro e os amigos, deram aos meninos música a provar e eles não se fizeram rogados... beberam tudo até ao fim)

23 outubro 2010

Lamento de um pai de família


Como pode um homem carregado de filhos e sem fortuna alguma
ser poeta neste tempo de filhos só da puta ou só de putas
sem filhos? Neste espernear de canalhas, como pode ser?
Antes ser gigolô para machos e ou fêmeas, ser pederasta
profissional que optou pelo riso enternecido dos virtuosos
que se revêem nele e o decepcionado dos polícias que com ele
não fazem chantage porque não vale a pena. Antes ser denunciante
de amigos e inimigos, para ganhar a estima dos poderosos ou
dos partidos políticos que nos chamarão seus génios. Antes
ser corneador de maridos mansos com as mulheres deles fáceis.
Antes reunir conferências de  S. Vicente de Paula, para roçar
o cu da virtude pelas distracções das sacristias escuras e
ter o prazer de acudir com camisolinhas aos pobres entre os quais
às vezes aparece um ou uma que dá gosto ver assim tão pobre por
se lhe verem os pêlos pelos rasgões da camisa ou algo de mais
impressionante para o subconsciente que sempre está nos olhos
que docemente se comovem com a miséria. Antes ir para as guerras
da civilização cristã ou da outra, matar os inimigos da conta corrente
e das fábricas de celofânicas bombas. Antes ser militar.
Ou marafona de circo. Ou santo. Ou demónio doméstico
torcendo as orelhas dos filhos à falta de torcê-las aos filhos
da puta . Ou gato. Ou cão. Ou piolho. Antes correr os riscos do
DDT, das carroças que os municípios têm para os cães suspeitos
de raivosos como todos os cães que se vê não lamberem as partes
das donas ou mesmo dos donos. Antes tudo isso que assistir a tudo,
sofrer de tudo e tudo, e ainda por cima ter de aturar o amor
paterno e os sorrisos displicentes dos homens de juízo
que deram pílulas às esposas, ou as mandaram à parteira secreta e
elas quiseram ir. Antes morrer. (....)

Jorge de Sena, 40 Anos de Servidão, Edições 70, 1989
Fotografia: Misha Gordin

20 outubro 2010

Anouar Brahem


Alaudista Tunisino, criador de um jazz moderno que beneficia  da mistura com a sua profunda experiência em música árabe, está no dia 25 na Gulbenkian Música.

18 outubro 2010

Paradoxos

Jorge Eduardo, 54 anos, antigo piloto de gincanas e ralis, uma perícia que faz inveja a todos os amigos e conhecidos. Talvez mais do que a perícia, só as impecáveis calças cinza claro vincadas, que coleciona a par de blazers azuis escuros de botões dourados, são objecto de uma inveja superior.
Hoje, pela tardinha, quando o viram dentro do Triumph Spitfire Mark IV descapotável, vermelho baton, estofos de pele sintética branco pérola, pendurado no talude da ribeira do Xarrama, ninguém reparou na forma como estava vestido.

14 outubro 2010

Do abismo ao abraço


... Os dias não se descartam nem se somam, são abelhas
que arderam de doçura ou enfureceram
o aguilhão: o certame continua,
vão e vêm as viagens do mel à dor.
(Pablo Neruda)

12 outubro 2010

Palavras


Um bando de palavras agrediu-me.
Primeiro, de soslaio, temerosas, ao de leve.
Depois, aos safanões, bruscamente.
Seguiu-se o rodopio de bofetadas, o caos, o desesperante muro de silêncio partilhado.
Atordoada, infeliz, miserável, as mãos na cabeça, a tentar defender-me das bicadas dos rês e dos vês, a torturante veemência dos tês, a sibilância dos sês, a vulgaridade de um mê ou a secura final do nê de Não.
Despojada, envolta em farrapos de mim, jazia, inerte. As dores atormentavam-me  frases por dizer.
Finalmente o silêncio na planura.
O bando de palavras dispersou, extenuado. Algumas ficaram suspensas nas árvores, outras caíram ao rio e afogaram-se.

Deste lado, do silêncio, sairão borboletas azuis pinceladas a ouro.

Olivia

10 outubro 2010

Bug melancólico no meu software


A vida fica uma coisa chat quando penso na  minha face lunar, que nunca levaria para um book. Todavia, é com esse template que insisto no upload  e activação do script da minha memória. Já tentei o Esc, mas, sem  firewall, o plugin da versão trial teima em ficar, como um virus. O melhor será alterar as rotinas da  interface e procurar brevemente um novo hosting para as minhas coisas.