11 junho 2011

vadiagem em letra minúscula

 

corto uma fatia da tarde e dou-me ao luxo da preguiça.

curiosa dessas portas meio abertas, navego, mas todo o jogo de reflexos é próximo da miragem: há muito que não me encontro com as leituras de auster, e cansada dos trabalhos de babel, vou adiando a catharsis dos meus dramas filosóficos.
abro a janela. por ela entram ainda paisagens salvíficas para o meu olhar breve que, enublado de teimosa melancolia, viaja no tempo, caminha por entre abencerragens, falcoeiros e castelos mouriscos, como quem limpa o aos livros ou refaz a trama de um velho agasalho .  

regresso à natureza do meu mal: dou corda a um relógio parado no tempo de vermeer; limpo do texto os excessos e risco símbolos, ruídos de horas extraordinárias que ensurdecem qualquer pensamento musical. desço por vezes à matriz de outros sonhos, descubro outros lugares, novos mundos povoados de fantasmas ou barcos com flores, perfeitos para as minhas provas de contacto com a realidade que me importa.

Tornei-me desgraçadamente sensível à anarquia do riso por entre todas as dúvidas metódicas. dizem-me alguns que há vida noutros planetas, mas eu descubro nessa ronda dos astros a irónica comédia de todos os cais de partida em amsterdam.

[devaneio estranho, este, pois o que interessa mesmo é irmos andando, num thriller de mortos-vivos e salmos de david.
com ou sem arrastão, e a jugular exposta ao golpe, sentar-nos-emos à direita de deus pátria, sem  meditação à esquerda que nos reflicta, ou brumas de avalon que nos encantem.]

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14 comentários:

Paulo disse...

lindo, digo eu!

relogio.de.corda disse...

É lindo! Parabéns pela originalidade, pela criatividade, pela lembrança de nos ter colocado no meio de tanta beleza.Obrigada.

RAA disse...

Bem giro!
um abraço

César Ramos disse...

... autêntico solfejo de palavras!

Comecei a ler, até que identifiquei a genialidade desta soldadura literária, contas de um rosário de sãs e belas cumplicidades.

Parabéns, por este post inédito.

Abraço
César

Austeriana disse...

Querida C.,
Belíssima reflexão sobre um estado de alma que partilho... Tenho dado por mim sem tempo para nada de jeito e acabo por me ir encontrando de fugida com alguns amigos da blogosfera no Facebook, lugar mais imediato...
Até na blogosfera a crise se reflecte...
Grande abraço.

Austeriana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mar Arável disse...

Texto saboroso

num péssimo tempo

para agricultura

TERESA SANTOS disse...

Que bem me soube ler este belissimo texto!
Obrigada.
Abraço grande.

C. disse...

Eu é que agradeço a vossa generosidade e a vossa presença nessas esquinas onde me ponho a vadiar.

:-)

Abraço a todos

Ivone Costa disse...

Bem bonito! Obrigada por fazer parte da deambulação.

Marta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Keila Costa disse...

Belíssimo!

Marta disse...

sempre criativa e original, querida C. :)

uma honra constar neste périplo!

beijinho e obg.

JOSÉ RIBEIRO MARTO disse...

Linda deambulação encontrei neste luxo de palavras .
Um abraço
________ zé