09 setembro 2010

Correm turvas as águas deste rio

Correm turvas as águas deste rio,
Que as do céu e as do monte as enturbaram;
Os campos florescidos se secaram,
Intratável se fez o vale, e frio.
Passou o Verão, passou o ardente Estio,
Úas cousas por outras se trocaram;
Os fementidos Fados já deixaram
Do mundo o regimento, ou desvario.
Tem o tempo sua ordem já sabida;
O mundo, não; mas anda tão confuso,
Que parece que dele Deus se esquece.
Casos, opiniões, natura e uso
Fazem que nos pareça desta vida
Que não há nela mais que o que parece.

Luis Vaz de Camões

3 comentários:

relogio.de.corda disse...

"Tem o tempo sua ordem já sabida;
O mundo, não; mas anda tão confuso,
Que parece que dele Deus se esquece"
Camões já andava na sua época, às voltas com o TEMPO e já o mundo lhe parecia confuso.
Sorte a dele, não estar aqui agora... para ver como o confuso do seu TEMPO ainda permanece por cá.
Bonitos versos.

César Ramos disse...

Camões também andou, de facto, num sarilho às voltas com a Justiça do seu Tempo!...

Quando passo na rua onde foi a prisão do Tronco (penso que se diz assim), impressiona-me que a pérola da nossa língua por lá tivesse dado com os costados (...) mesmo, sendo ele, por vezes, um pouco 'enfant terrible'!

Keila Costa disse...

Ah...essa confusão do mundo...na verdade, essa confusão em nós...Bela poesia do Camões!
Beijos