08 outubro 2010

A varanda

O meu avô está sentado na varanda.
Fico contente quando chego a casa e o vejo, sentado, a tomar chá na varanda. É sinal de que está bem e quer conversar. Quando não quer conversar, senta-se no sofá da sala, afundado em frente à televisão.
Veste os jeans gastos do costume, uma T shirt azul escura e sapatos leves, sem meias. O meu avô veste agora sempre jeans e Tshirt , nunca põe meias e hoje tem restos de óleo nas mãos, sinal de que esteve na garagem a desmontar um motor. Isso, para mim, também é muito bom sinal.
Olha-me, esconde o sorriso atrás da chávena onde bebe o chá e, com um gesto de sobrancelhas que conheço, convida-me a sentar ao seu lado.
Respondo-lhe com um beijo na testa e entro em casa para tirar as compras dos sacos, encher o frigorífico e lavar alguma louça.
Sei que me olha as costas, enquanto se recosta a saborear o chá.
Desde o Inverno que lhe trago as compras de comida e o correio que se acumula no apartamento e que, depois, fica ali, por abrir, no sítio onde o deixo.
O meu avô foi o amigo que mais encheu a minha vida. Vivia junto aos meus pais e está ali desde que adoeceu e assinou uns papéis para sair do hospital sem fazer os tratamentos que lhe propuseram.
Foi com o meu avô que eu aprendi a pescar, o que me tornava especial entra as colegas do colégio. Nesse tempo, passávamos todo o tempo livre no mar onde, com uma infinita paciência, ele me punha o isco no anzol, ensinava a calcular a distância para o fundo e qual era a melhor hora a que o peixe ferrava.
Quando eu tinha dez anos, no fim da primária, o meu avô levou-me a acampar na Arrábida, que era um sonho meu, o que deu numa enorme discussão entre os meus pais que não tinham opiniões coincidentes sobre as saídas das meninas em aventuras daquelas.
Há marcas do meu avô em muitos outros momentos da minha vida: a minha primeira cerveja, a primeira saída a guiar um carro – o dele – e que ia acabando mal, ou a viagem de avião que fizemos juntos à Madeira para caminhar nas levadas. Foi o meu avô que me comprou o meu primeiro bilhete de InterRail, quando acabei o secundário - sai daqui sempre que puderes, nunca te canses de ir... mas volta sempre - sussurrou-me, olhos nos olhos, a sorrir.
O meu avô ensinou-me a crescer, eu aprendo com ele a envelhecer e isso é mais uma coisa que fazemos juntos.
Hoje fiquei contente quando cheguei a casa e o vi sentado na varanda.

11 comentários:

clara disse...

Lindo, muito lindo.

mariana disse...

Gostei muito.
Beijinhos

Austeriana disse...

Uma ternura, este texto.
Pela parte que me toca, obrigada pela publicação pois, além da oportunidade de ler este belo escrito, o post também me fez lembrar a minha doce avó Arminda,mulher inteligentíssima que, apesar de nunca ter aprendido a ler e a escrever, tinha entre outras virtudes uma capacidade genial para contar (criar) histórias. Depois, havia as caminhadas que fazia comigo às cavalitas até à vinha; as barrigadas de uvas e figos que comiamos, debaixo da figueira, enquanto conversavamos sobre coisas de nada; e as lágrimas quando as férias acabavam e tinhamos que nos separar; e etc...

Gostei mesmo muito.

TERESA SANTOS disse...

Marcas que "marcam", marcas que ficam. Presenças que nos acompanham vida fora.
Que felizes são aqueles que tiveram(têm) a sorte de ter um avô/avó atento, que ensina não só o caminho, como o sonho.
Haverá muitos?!

Anónimo disse...

Gostei muito, Paulo.
mmanuel

Paulo disse...

Clara, até podia ser um texto encontrado na tal caixa de madeira...

Mariana, tu sabes.

Austeriana, eu é que agradeço. Quando temos o privilégio de aprender a vida com seres de excepção, tudo flui desta forma, mesmo nos momentos mais difíceis.

Teresa, há, certamente, muitos. Só que os tempos são agrestes e pouco propícios à memória.

mmanuel, obrigado. Gosto, eu, de te ter por aqui. Bjinho

relogio.de.corda disse...

Uma bonita dedicatória, sem dúvida.

Ana Paula Sena disse...

Que bonito, Paulo!

Adorei ler, é cheio de ternura e de todas as coisas boas que há entre nós e aqueles que amamos.

Keila Costa disse...

Belíssima essa memória tranfigurada em literatura...esse encontro na varanda que nunca cessa...Beijo

Branca disse...

Lindo Paulo , só hoje li.

Quando o amor é autêntico está sempre a dizer ao outro « quero que vivas» .

Um beijo .

Anónimo disse...

Muito bonito..
Repleto de sensibilidade e ternura..
Trouxe à memória a imagem dos nossos avós, rica de mimos e encantos mil
CM