03 julho 2010

Carlos Souto


Fotografias, Mentiras e Tudo

Uma noite, estávamos no Litoral, o semanário histórico de Aveiro, a fazer a paginação do próximo número, sempre com dificuldades por carência de meios, mas animados com o amor que tínhamos por aquele trabalho.
Eu, Carlos Souto e Artur Fino.
As páginas íam ficando prontas, a noite avançava e nós inventando novas técnicas que nos ajudassem a suprir a total ausência de jornalistas, fotógrafos,redactores,enfim, a penúria criativa do costume.
Chegados à página onze, tínhamos que encontrar uma ilustração, uma foto, ou um desenho que encimasse uma carta de amor, escrita com mestria, imitando os velhos tempos do amor platónico.-E agora? O que é que pomos?
-Já sei, disse o nosso inventivo Carlos Souto. Vamos às gavetas procurar fotos antigas que estão para aí.
-Mas isso é muito perigoso. Imagina que alguém reconhece o avô ou a avó, disse eu, podem processar-nos e com razão.
-Não te preocupes, eu ponho-lhes uns bigodes, uns chapéus e ninguém dá por ela.
Dito e feito. As fotos do fundo dos armários saíram, assim, enchapeladas e de bigodes retorcidos.
No dia seguinte à tarde, cheguei à redacção do jornal e sentei-me a ver o correio e a saborear mais um número do nosso semanário.
Trim!- Está? Desejava falar com a directora do Litoral.
-Sou eu mesma,boa-tarde.
- Ó minha senhora, eu venho protestar. Estou, estamos muito ofendidos com o que fizeram no último número.
-O que foi?
-Então os senhores usaram as fotos do meu avô  e da minha avó para ilustrar um texto ridículo? Eles eram pessoas muito sérias, a minha avó era uma senhora!
-Ah, desculpe, que lhe posso dizer, estou desolada, foi sem intenção.
-Sem intenção? Ó minha senhora, ponha-se no meu lugar.
-Tem razão, estou a ver, e se nós fizermos um pedido de desculpa no próximo número?
- Não, não aceito, vou processar-vos, vou fechar esse jornal, vou para a justiça, vou fazer um escândalo.
Eu nem sabia o que dizer. Só pensava"eu bem dizia, mas aquele Souto, é sempre o mesmo."
-Mas reconsidere, vamos reunir e conversar. Vai ver que encontramos uma solução.
-Uma solução? É a honra da minha família...ai, ai, ó minha senhora desculpe, ...este engenheiro Souto mete-nos em cada embrulhada.
E ria-se! E riam todos à volta dele, de entre os quais o nosso amigo. Estavam todos na Lacticoop, liderados pelo Carlos, a pregar-me aquela partida.
-Foi aqui o engenheiro que me convenceu a fazer este papel...desculpe.
E riam, riam, riam.

Felizmente, a história foi toda encenada pelo Souto.
Apanhei um valente susto.
Felizmente, o meu, nosso amigo, fez-nos sorrir, uma vez mais, sempre.

2 comentários:

relogio.de.corda disse...

:) sim senhora... a História é interessante, enquadradada no seu tempo, como se vê! Antigamente, tudo isto tinha outro sabor, imagino... Quanto à brincadeira; foram bem apanhados!!!

clara disse...

Infelizmente, o autor destas brincadeiras permanentes e imperdíveis, acabou de falecer.
Era uma pessoa muito invulgar, sempre pronto a provocar-nos um sorriso.
Foram tempos memoráveis.