Uma noite, estávamos no Litoral, o semanário histórico de Aveiro, a fazer a paginação do próximo número, sempre com dificuldades por carência de meios, mas animados com o amor que tínhamos por aquele trabalho. Eu, Carlos Souto e Artur Fino. As páginas íam ficando prontas, a noite avançava e nós inventando novas técnicas que nos ajudassem a suprir a total ausência de jornalistas, fotógrafos,redactores,enfim, a penúria criativa do costume. Chegados à página onze, tínhamos que encontrar uma ilustração, uma foto, ou um desenho que encimasse uma carta de amor, escrita com mestria, imitando os velhos tempos do amor platónico.-E agora? O que é que pomos? -Já sei, disse o nosso inventivo Carlos Souto. Vamos às gavetas procurar fotos antigas que estão para aí. -Mas isso é muito perigoso. Imagina que alguém reconhece o avô ou a avó, disse eu, podem processar-nos e com razão. -Não te preocupes, eu ponho-lhes uns bigodes, uns chapéus e ninguém dá por ela. Dito e feito. As fotos do fundo dos armários saíram, assim, enchapeladas e de bigodes retorcidos. No dia seguinte à tarde, cheguei à redacção do jornal e sentei-me a ver o correio e a saborear mais um número do nosso semanário. Trim!- Está? Desejava falar com a directora do Litoral. -Sou eu mesma,boa-tarde. - Ó minha senhora, eu venho protestar. Estou, estamos muito ofendidos com o que fizeram no último número. -O que foi? -Então os senhores usaram as fotos do meu avô e da minha avó para ilustrar um texto ridículo? Eles eram pessoas muito sérias, a minha avó era uma senhora! -Ah, desculpe, que lhe posso dizer, estou desolada, foi sem intenção. -Sem intenção? Ó minha senhora, ponha-se no meu lugar. -Tem razão, estou a ver, e se nós fizermos um pedido de desculpa no próximo número? - Não, não aceito, vou processar-vos, vou fechar esse jornal, vou para a justiça, vou fazer um escândalo. Eu nem sabia o que dizer. Só pensava"eu bem dizia, mas aquele Souto, é sempre o mesmo." -Mas reconsidere, vamos reunir e conversar. Vai ver que encontramos uma solução. -Uma solução? É a honra da minha família...ai, ai, ó minha senhora desculpe, ...este engenheiro Souto mete-nos em cada embrulhada. E ria-se! E riam todos à volta dele, de entre os quais o nosso amigo. Estavam todos na Lacticoop, liderados pelo Carlos, a pregar-me aquela partida. -Foi aqui o engenheiro que me convenceu a fazer este papel...desculpe. E riam, riam, riam.
Felizmente, a história foi toda encenada pelo Souto. Apanhei um valente susto. Felizmente, o meu, nosso amigo, fez-nos sorrir, uma vez mais, sempre.
:) sim senhora... a História é interessante, enquadradada no seu tempo, como se vê! Antigamente, tudo isto tinha outro sabor, imagino... Quanto à brincadeira; foram bem apanhados!!!
Infelizmente, o autor destas brincadeiras permanentes e imperdíveis, acabou de falecer. Era uma pessoa muito invulgar, sempre pronto a provocar-nos um sorriso. Foram tempos memoráveis.
2 comentários:
:) sim senhora... a História é interessante, enquadradada no seu tempo, como se vê! Antigamente, tudo isto tinha outro sabor, imagino... Quanto à brincadeira; foram bem apanhados!!!
Infelizmente, o autor destas brincadeiras permanentes e imperdíveis, acabou de falecer.
Era uma pessoa muito invulgar, sempre pronto a provocar-nos um sorriso.
Foram tempos memoráveis.
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