16 fevereiro 2010

Entrudo lusitano



O amor a Portugal e a mágoa, a dor e a melancolia incurável de ter visto a luz «neste país perdido», é um topos camoniano que percorre como um veneno, como uma maldição e às vezes como uma utopia regeneradora e uma visão futurante a literatura portuguesa, desde Garrett e sobretudo desde o tempo finissecular oitocentista até Pessoa, Torga, Manuel Alegre, Ruy Belo e outros autores, e que eu vivo dramaticamente. Um topos camoniano que se converte irremediavelmente num tropo do camonismo. Felizes, neste país cronicamente pobre, endividado, injusto, em estado permanente de «ruína cultural», como disse Pessoa, só alguns gestores e alguns economistas…


Victor Aguiar e Silva na Angelus Novus, em entrevista sobre Jorge de Sena e Camões, Janeiro de 2010
Desenho de C. - "Desolação"

7 comentários:

Paulo disse...

Fantástico texto, actualíssimo. Sublinhado por um belo desenho. Parabéns, C.

Austeriana disse...

Partilho da opinião exposta no comentário do Paulo.

Às vezes, passa-me pela cabeça que somos um povo de suicídas... Parece que gostamos desta colocação à beira do abismo. Terá que ver com a nossa geografia, no extremo da Europa? Será do "imaginário" colectivo do fado? Caramba! Dá vontade de nos /os abanarmos!

Anónimo disse...

Muito a propósito o texto (infelizmente). O desenho teu é simplesmente fantástico, miúda.
mmanuel

experimental disse...

Bastante interessante, que toca bem nas «feridas» do nosso descontentamento e desassossego...
Bjs,
Nela

Ana Paula Sena disse...

Um texto muito bom, e muito bem escolhido para este momento em que o nosso "fado" parece agudizar-se.
Esquecemos vezes demais que o "fado" (o destino)é feito por nós.

O seu desenho é uma maravilha, C.! Fiquei sua admiradora :) Um espectáculo, desde logo no esplêndido traço. Muitos parabéns!

...e um abraço.

clara disse...

Lindo desenho, muito expressivo.
parabéns, continua.

JOSÉ RIBEIRO MARTO disse...

Belíssimo desenho , C.
Aposto que veremos , mais!
O país é elegante e arruaceiro, conhece o avião , a electricidade , as feiras , a banha da cobra , é um país perfumado numa pocilga.
Somos Europa de chouriço.
Ai de quem gesticula a história invade-o logo, fica-se calado com a democracia nas mãos , a politica e a outra, afinal prisioneiros, não temos nenhuma .
Já não se aprende nada nem de pai para filho , nem de filho para neto , dizem alguns à boca fechada , certos nas suas contas , e eu estou de acordo.

E gostei muito da citação da Agustina , sabem bem como a aprecio .
Um abraço, ao Marcas!