02 fevereiro 2010

O Caçador


É uma pessoa agradável, conhece bem um vinho, balança o copo com destreza, a ver o tom, a sentir o perfume, senta-se com elegância, pega bem nos talheres, não põe os cotovelos na mesa, sabe contar uma graça a propósito, levanta-se quando chega uma senhora, se for casada ou viúva saberá beijar-lhe a mão, aflorando simplesmente, usa bem um lenço de seda, talvez com o colarinho aberto, oscila entre a calça de bombazine com bota alentejana, ou prefere a fazenda .cinzenta e o blazer azul escuro,ah,, sim, os botões de metal, já me esquecia.
Sim, gosta de carros antigos, ou então do jipe, porque com os cães, quando há batidas, ou caçadas, já se sabe como é.
Eu vou olhando, comparando, os homens da minha terra são do mar, passeiam na avenida como se fora no convés de um navio, as mãos atrás das costas, boné na cabeça e um andar balanceado,
por causa da nortada.
Este não, pisa terra firme e tem olhar certeiro, na mira, cofiando o bigode retorcido.
À saída, veste a samarra com pele de uma belo animal.
-De que é essa gola, pergunto.
-De raposa.
E remata, orgulhoso:
-Fui eu que a matei.
Abre-me a porta do carro, solícito.


(imagem do Google, sem autor)

9 comentários:

Paulo disse...

A minha mãe dizia: nunca confies em alguém que se gaba de matar um animal.
Conheço esta gente há décadas, Clara. Fedem.

Jaime Piedade Valente disse...

O Hitler era vegetariano e muito gentil com as pessoas com que contactava. Oferecia flores, presentes nos anos, perguntava pelos filhos, etc.

Há um poema de Sophia de Mello B. Andresen que diz: "as pessoas sensíveis não matam galinhas mas comem galinha".

São elementos um bocado contraditórios, não são? Eis os seres humanos! Ou... apenas os hipócritas?

clara disse...

Obrigada, Paulo, a tua mãe era sábia.
JaimeValente:
è uma questão de sobrevivência. Todos, ou quase todos comemos galinha. Mas o caso que pretendi retratar não é bem isso, é o gosto em matar que não consigo compreender. Daí abominar as touradas.
Creio que num futuro não muito longínquo, o ser humano há-de encontrar formas de contornar isso.
São opiniões que respeito. Eu votei no Manuel Alegre e ele é caçador.
Talvez seja uma utopia, quando era pequena morava numa quinta que ficava perto de um matadouro. Naquele tempo aquilo era à cacetada, ou quase,não me consigo esquecer dos gritos lancinantes.
Ainda não sou vegetariana, mas quase, só como bicharada quando estou com amigos,no
dia-a-dia ando pelos frutos e iogurtes.
Tenho pena de não lhe saber dizer, mas o texto é apenas um texto. Obrigada.

Silenciosamente ouvindo... disse...

Como diz e bem o texto é apenas
um texto, e é horrível a diferenç
que há entre o ser racional e o
irracional.
Cumprimentos/Irene

Niwi disse...

Adorei o texto.

clara disse...

Obrigada, Silenciosamente e Niwi, um abraço.

António disse...

Contradições. Se o homem não matasse durante a sua evolução dificilmente chegaria aos dia de hoje, pelo menos como é. Alimentação. peles para protecção do frio, etc.
O que não se percebe é continuar a matar nos dias de hoje como desporto. Até havia o "tiro aos pombos", espécie de desporto em que se abria uma caixa e dava-se (bondade) a oportunidade ao pombo para voar depressa e para onde quisesse ir a fugir dos chumbos.
Em Portugal o direito à caça era desde sempre e até há uns 12 anos um direito do povo e dos nobres, sem distinções de classes, sem reservas de caça.
Agora o texto é moralista e ficava bem em qualquer selecta para alunos do secundário.

clara disse...

Pois, antigamente tinha lógica e reconheço que pode ter várias leituras, mas o que mais me choca é o gozo que se pode ter em andar a caçar pardais e coelhos com todo aquele aparato.
Porque a caça vai rareando e as reservas são para os ricos.
Há gente de muita qualidade que se dedica a esse "desporto", ou que o defendeu (Torga,Alegre, p.ex.),mas nos dias de hoje,sinceramente, já me custa a perceber.
Se calhar do que eles gostam mesmo é de fugir à rotina e passear pelos montes.
Beijinho

Ana Paula Sena disse...

O texto está muito bem escrito.

Os meus parabéns :)