23 fevereiro 2010

Rui

Auf Widersehen

Dificilmente poderiamos ser mais diferentes.
Eu de direita, ele de esquerda;
eu católico praticante, ele sem Deus nem transcendência;
eu pró-vida, ele liberal;
eu com 41, ele com 63;
eu casado militante, ele solteirão inveterado;
eu falador compulsivo, ele calado e reservado.
Partilhamos o mesmo escritório oito horas por dia, durante dezassete anos.
De manhã cumprimentavamo-nos invariavelmente em japonês ou em chinês,
encerravamos o dia com um sonoro e bem disposto auf wiedersehen.
Pelo meio discutiamos projectos, trocavamos ideias,
discordavamos abundantemente e respeitavamo-nos sempre,
sem excepção.
Lentamente ficamos amigos.
Lentamente, aprendi a apreciar o seu espirito delicado,
a admirar a sua inquebrantável verticalidade,
a compreender a sua rebelde independência.
Compreendia a amizade que me tinha quando,
aqui e ali,
se permitia partilhar o orgulho embevecido que sentia
com os sucessos do sobrinho,
a admiração com que seguia discreto a vida da irmã.
Não lhe era fácil esta partilha, mas confiava em mim a esse ponto.
Quando me trazia um livro ou um disco, deixava-o silenciosa e discretamente na minha secretária.
Quando eu lhe agradecia, murmurava: pensei que pudesse interessar-lhe...
Era o meu amigo Rui.
Partiu hoje, discreto como só ele, com a voz sumida, mas com o espirito indomável, como sempre.
A esta hora acredito que o meu Deus esteja impaciente, confuso, quase a duvidar da sua própria existência, é que o Rui não é para brincadeiras, nem cederá.
O Rui recusar-se-á a aceitar, mas estará no sitio dos rectos, dos dignos e dos justos; de lá, olhará pelas suas ovelhas
e seguirá a vida dos que sem saberem lhe importam muito.
Vai fazer-me falta.
Como nos bons tempos,
Sayonara Sacramento San!

Este o testemunho de um homem digno, falando de outro que foi livre e dono do seu destino como nenhum. (Aqui).
Com o Rui, aprendi eu o encanto da Ria nos verões da adolescência, a dureza do exílio quando ainda tanto se sonhava e, agora na sua última lição, como se enfrenta a morte com os olhos abertos, um cigarro nos lábios e o jazz a tocar em fundo.
Foto: "Amanhecer na Ria" Aqui

8 comentários:

MJ FALCÃO disse...

Muito bonito!
Fiquei comovida. Lindo o poema, belos os sentimentos e as palavras.
Sayonara, au revoir, até à vista, lehitraot!

Austeriana disse...

É uma dor terrível... o desaparecimento de um Amigo.

Mar Arável disse...

Um beijo

simplesmente um beijo

Paulo disse...

MJ FALCÃO, o texto, que é um poema, tem a particularidade (como é expresso) de ter sido escrito por um homem que se situa no extremo oposto da vida, em todos os aspectos, daquele de quem fala. Afinal, entre homens honrados há respeito e pontos de convergência possíveis.Obrigado.

Austeriana, uma das maiores dores, sem dúvida. Sobretudo porque com o amigo desaparece uma parte de nós. Obrigado

Mar Arável, um beijo cheio de significado foi o que sentimos.
Abraço.

clara disse...

Só para vos enviar um grande abraço.

via disse...

belo texto, há pessoas assim, perto, muito perto, mas reservando-se uma certa distância.

António disse...

Que compreendeu o Rui?
Parece que um antípoda.
Abraços a toda a família Sacramento

Anónimo disse...

Rui quem escreveu o texto conhecia-te Encontramo-nos no Carnaval com a mascara de palhaço. Senão fica para a próxima.
Sayonara
Carlos Soares