09 janeiro 2010

A erosão da memória e o demónio do esquecimento

Tinha-me encaminhado automaticamente para o Pierluigi's na certeza de que tinha sugerido que jantássemos ali, e agora não me lembrava se tinha pedido a Amy que sugerisse um restaurante de que gostasse. Se tinha, é claro que não conseguia lembrar-me de qual era esse restaurante. E a ideia de que ela pudesse lá ter estado sentada este tempo todo sozinha a pensar que eu a tinha deixado plantada - por causa da forma como ela tinha descrito a sua aparência - levou-me a correr para o telefone da cave e telefonar para o hotel a saber se tinha mensagens. Tinha uma: "Esperei uma hora e fui-me embora. Compreendo."
Horas antes tinha entrado numa drogaria para comprar os artigos de higiene pessoal que me tinha esquecido de trazer de casa. Depois de pagar, pedi à empregada: " pode meter-me essas coisas numa caixa?" Ela olhou para mim espantada. "Nós não temos caixas", disse. "Eu queria dizer um saco", disse eu, "num saco, se faz favor". Um erro insignificante, mas ainda assim preocupante. Andava a ter disfasias como esta quase diariamente, e apesar dos apontamentos que aplicadamente tomava no meu caderno de tarefa, apesar de um esforço persistente de me concentrar naquilo que estava a fazer ou a planear fazer, esquecia-me frequentemente das coisas. (...)
E também não me parecia que a vigilância fosse de grande utilidade contra aquilo que, mais do que a erosão da memória, parecia ser um resvalar para a incongruência, como se alguma coisa diabólica que estivesse instalada no meu cérebro mas fosse dotada de mente própria - o diabinho da amnésia, o demónio do esquecimento, a cujos poderes de destruição eu não conseguia opor nenhuma força eficaz - me fizesse sofrer estes lapsos pelo simples prazer de assistir à minha degenerescência, a meta gloriosa e suprema na redução de alguém, cuja acuidade de escritor era alimentada pela memória e pela precisão verbal, à condição de homem inútil.
Philip Roth, O Fantasma Sai de Cena, D. Quixote,2008
Pintura: Eric Fischl

A cada segundo,tudo o que os sentidos nos trazem é transformado em percepções e estas em memórias. O processo de memorização é permanente e, na maior parte dos casos, independente da nossa vontade o que faz com que sejamos incapazes de prever o que guardaremos de tudo o que vemos e sentimos.
A consolidação da memória depende duma estrutura cerebral, com a forma de um cavalo marinho, o Hipocampo, espécie de entroncamento de inúmeras vias onde circula informação que aí é tratada, depois de triada em todo o sistema límbico e, depois, armazenada noutras zonas do cérebro.
A Doença de Alzheimer tem como característica determinante, na sua fase inicial, a alteração da memória. Sabe-se hoje que uma das causas é a acumulação tóxica no Hipocampo duma proteína que ali forma placas que destroem as suas células com as consequências dramáticas conhecidas. É a Proteina Beta Amiloide e a sua acção nefasta está identificada.
Há, neste momento, várias linhas de investigação em torno desta descoberta e os primeiros resultados da utilização de um anticorpo anti-P.Beta Amilóide usado já em 4000 pessoas (sem efeitos secundários) mostrou resultados muito promissores. Prevê-se que, em 4 ou 5 anos haja, finalmente, terapêuticas eficazes e sem risco.

6 comentários:

Austeriana disse...

É das situações que mais me assustam. Não que a minha memória seja por aí além... Tenho boa memória visual e afectiva, quanto a números, ligo-lhes pouco. Mas esta ideia não se saber quem se é, de não reconhecermos os outros e de não nos reconhecermos nos outros deve ser do mais angustiante que existe.
Ainda bem que a ciência está a avançar também nesta área. Excelente post.

Marta disse...

uma vez, Paulo, li a seguinte frase no início de um livro:

"a memória é o único paraíso do qual não podemos ser expulsos".

a doença de Alzheimer, pode!

e, confesso, é a doença que mais medo tenho de ter.

tomara que sim, que a ciência avance, também nesta matéria,

para que, de facto,

"a memória seja o único paraíso do qual não podemos ser expulsos".

gostei muito de ler este post. obrigada.

via disse...

a memória,apagá-la é assustador, que uma proteina qualquer possa dar cabo da identidade de uma pessoa é irrisório, há quem proponha práticas que evitam a doença, não sei se eficazes mas sem dúvida sedutoras.

Paulo disse...

Austeriana, todos conhecemos , com maior ou menor proximidade, pessoas que vivem ou viveram este drama. Penso ser uma tragédia para quem tem de a viver.
Felizmente há avanços importantes que estão a ser já testados, inclusivamente a detecção por ressonância magnética de alterações precursoras de D.A. anos antes de existir qualquer manifestação e numa fase em que será possível um corte na evolução.
Obrigado.

Marta,infelizmente pode ser-nos roubada a memória. Concordo consigo, é um bem precioso e fundamental para a identidade.

via, assustador, sim. Acho que todas as praticas de combate a este mal são úteis, pelo menos por conscencializarem as pessoas deste drama.

Ana Paula Sena disse...

Paulo, gostei muito deste seu importante apontamento.

Perder a memória parece-me realmente terrível, qualquer coisa como perder a identidade...
Um caso que me impressionou muito, a este nível, foi o da Iris Murdoch, filósofa e escritora brilhante, depois reduzida a nada :(

É algo que me assusta imenso. Tomara que se descubra alguma coisa rapidamente, além do importante papel da prevenção. Por sinal, a minha filha mais velha, esteve ligada recentemente a um projecto de investigação, na faculdade (Ciências Farmacêuticas), sobre um CYP qualquer (desculpe a minha ignorância e imprecisão) que pode ser importante para futuros tratamentos e prevenção. Pelo que ela me explicou, compreendi um pouco melhor como se desenvolve este processo degenerativo.

Obrigada e um abraço :)

Paulo disse...

Olá, Ana Paula, obrigado pelo comentário. É muito interessante a via de investigação em que a sua filha participa. Deve ser o CYP46 e procura-se ligar os mecanismos envolvidos no equilíbrio do colesterol cerebral e a génese da D. Alzheimer. Deve ser excelente poder estar na linha da frente da busca de soluções. Vão surgir, isso é certo.