21 janeiro 2010

Sobreviveremos?


Amamos porque somos uma espécie que nutre os filhos. A união sexual pode ser aleatória, tal como a dispersão do fruto dessa união. Muitas espécies que se reproduzem sexualmente põem os ovos e abandonam-nos, fundando a sua posteridade no acaso, na sorte, na contingência e no excesso de produção. No entanto a assistência paterna aos filhos tem as suas vantagens. Os pais podem proteger os filhos, dar-lhes o alimento que estes não são capazes de obter sozinhos, reservar território num mundo de território escasso e transmitir aos filhos uma série de conhecimentos, incluindo coisas que não devem fazer pois os animais jovens aprendem observando as trapalhadas dos mais velhos, tal como aprendem observando os seus sucessos. O comportamento paternal tem tantos aspectos positivos que pode ser encontrado em todo o espectro filogenético, entre os peixes e os insectos, bem como entre os peixes e os mamíferos, estes famosos por serem paternais.
Diz Cort Pedersen, da Universidade da Carolina do Norte A protecção paterna sustentada e a criação dos filhos até estes serem capazes de tomarem conta de si mesmos deram origem a uma taxa de sobrevivência muito mais elevada e proporcionaram um período de desenvolvimento cerebral muito mais longo. Os cuidados paternos foram, portanto, um pré - requisito para a evolução da inteligência superior. As espécies que tomam conta dos filhos têm vindo a dominar todos os nichos ecológicos que habitam. (...)
Um progenitor, uma mãe tem de se sentir ligada aos filhos, os quais, por sua vez, têm de sentir-se ligados à mãe, e o corpo e cérebro de uma espécie que nutre os filhos têm de saber amar e ser amados.
Natalie Angier, in Mulher, Uma Geografia Íntima, Gradiva 2001
(no texto paterno ou paternal tem, quanto a mim, o significado de parental, Paulo).
Esta a teoria. Parte do estudo dos biólogos, como a Autora, a que juntam conceitos vindos da antropologia e da sociologia, para obter uma caracterização científica da nossa espécie.
Um grupo, os Humanos, que se terá tornado dominante porque pensa, comunica e, sobretudo, ama. Segundo parece desde que nasce.
Como integrar hoje nesta marca de amor da espécie humana, inerente a partir do seu núcleo primordial, uma marca de onde vem a sua energia vital, como se pode considerar ser seu o desprezo crescente dos filhos pelos pais que deixam abandonados nos hospitais ou nos asilos, ou as brutais agressões a que são sujeitas algumas crianças por parte dos próprios pais, muitas vezes até lhes tirarem a vida, ou mesmo os genocídios em massa que fazemos uns aos outros, humanos como nós, também eles filhos e pais, mas com cor, ideias ou sonhos diferentes.
Não há ciência que explique.

4 comentários:

CNS disse...

Sem essa capacidade de amar, as pessoas esvaziam-se. E não há vida no vazio.

Austeriana disse...

Não sei. Há alturas em que acredito. Noutras, não.

*Há um "certificado" para este blogue no «B-c».

Paulo disse...

CNS, não posso concordar mais. A ironia está em que a espécie que se diferenciou de todas as outras e que é capaz tem o amor como força vital, tem hoje manifestações de desamor (para não dizer pior)em relação aos que lhe deram origem ou deles sairam que não tem explicação.

Austeriana, há que acreditar, ou tudo perde sentido.
Abraço

clara disse...

Este texto é extraordinário.
E os abusos sexuais? E a pancadaria? E o próprio aborto?
Ha a matriz animal, mas depois a social que baralha tudo.
Vamos acreditando.