30 janeiro 2010

Janelas para lugar nenhum (fim)


...Talvez a mulher não se lembre, mas em vindas anteriores, os olhos do homem eram pássaros coloridos, esvoaçando novidades, descobertas que fazia e de que falava sem cessar: a viagem bordejando a margem do rio, os petiscos comidos debaixo da latada, o trabalho enfim retomado para clientes que começavam a aparecer e dos filhos, finalmente, reconciliados. De tudo isto falava aquele homem agora esfíngico.
No verão passado, começou com frio. Veja lá, nós a querermos a casa fresca, a procurarmos a sombra e ele no quarto com dois aquecedores ligados. A princípio não liguei, depois comecei a estranhar, achei que estaria doente, levei-o ao centro de saúde. Não encontraram nada e ele fechado no quarto. Olhe que nem para fumar saía. Deixou quase por completo, sempre deitado, embrulhado num cobertor, “tenho frio, mulher, tenho frio”, era isto sempre. De repente, foi o comer. Começou a comer de dia e de noite como se fosse sempre de dia. Jantava às 7h, que nós somos de comer cedo, mesmo no verão; à meia-noite tomava o pequeno-almoço, o café e a carcaça, vá; às 3 ou 4 da manhã o caldo, o conduto e alguma fruta; às 8 da manhã era como se jantasse e por aí fora. Sem dormir como nós, isso é que me assustou. Deixou de dormir de todo, quer dizer, dormia uns bocados, mas começou a baralhar as horas todas.Já se esqueceu, a mulher, de tudo o que viveram depois da primeira operação. De como teve de o ajudar a fazer a paz com o corpo mutilado.
Foi a primeira vez que falou do inesquecível olhar que sentia quando chegava perto dele. Levou tempo, mas a vida entrou outra vez nos seus dias quando ele, sereno, lho trouxe de novo.
Um dia, pouco antes da festa da aldeia, o padre chamou-me. O pretexto era pedir para ele fazer um estrado de madeira. Fomos os dois, já se vê, eu quis mesmo porque era uma oportunidade de sermos aceites. Foi um desastre, uma vergonha. Comportou-se como uma criança: à frente do padre, enquanto falávamos sujou-se todo. Imagine, pelas pernas abaixo… o padre a fazer que não via nada, eu só pensava em desaparecer e terminar aquele momento gelado de qualquer forma.
Pensa que ele deu por isso? Qual nada, o mesmo ar apalermado e indiferente, trouxe-o pela mão e acabei a dar-lhe um banho. Depois meti-o na cama, fechei as portadas e chorei até de manhã
.
Falámos um dia do significado que o encontro com este homem tivera na vida dela. Dizia viver agora no meio do azul forte, depois de ter vivido a negrura da adolescência e no vazio branco do namoro com o irmão dele. Sentiu, mais tarde, ser, afinal, este cruzar de mãos e pele que procurava quando queria saltar para fora de tudo o que a tolhia e odiava: a aldeia fechada a mãe conformada e o pai brutal e alcoolizado.
Só tive um tempo feliz antes deste. Foi azul, mesmo azul, o último verão com a Inês.
A Inês foi a única pessoa, antes dele, que gostou de mim por eu ser quem era. Aprendemos juntas o riso doce da fruta no verão, corríamos pelo outeiro e nadávamos no rio até ao fim do dia, sem ninguém saber onde estávamos. Sonhávamos futuros à sombra da velha figueira perto do fundão. Quando ela teve de partir, foi uma tristeza tão escura que chegámos a falar em ir até lá e deixarmo-nos ir ao fundo juntas. Faltou-nos depois a coragem.
A sua voz carrega agora um cansaço amargo, que torna ásperas as palavras e inunda de desilusão o olhar que continua preso na janela suja.
Vamos voltar. Hoje faço-lhe um almoço especial, talvez tomemos um vinho e ele queira fumar um cigarro na porta da oficina. Os comprimidos não lhe têm melhorado a memória, continua a perguntar-me quem eu sou a cada hora que passa, mas trouxeram-lhe de novo a vontade do cigarro, o que é bom.
Está a chegar o tempo da limpeza das árvores. Vamos fazê-la os dois, depois quando nascer um dia bem azul, vou levá-lo pelo outeiro, mostro-lhe a figueira e, juntos, ficamos por lá.
Foto: C.

9 comentários:

Austeriana disse...

Gostei muito do texto e
a imagem é linda!
Aguardo novo episódio...

Austeriana disse...

O "Fim" era a fingir, não era?

clara disse...

A memória é o elo mais importante na comunicação e relacionamento.
Sem ela,ficamos no deserto, ou pior, ficamos sem chão.
Parabéns, é muito intenso.

Anónimo disse...

Gostei muito.
Beijinho
Mariana

Paulo disse...

Austeriana, obrigado, colocar a palavra no título foi apenas para distinguir do post anterior, era, portanto, um fim que não é fim :):)
Clara, com a perda da memória vai o ser. Morremos vivos.
Mariana, gosto (gostei) muito que gostes. Beijinho.

Teresa disse...

Gostei Paulo e tenho tanto medo disto... A minha memória é o que mais aprecio em mim. É nela que guardo tudo o que sou e escondo o que não quero lembrar. Sem ela não existirei.

Paulo disse...

Teres, de facto sem memória não somos. Esse o drama, não só para quem é directamente atingido pela doença, como para os que lhe são próximos e que vivem um calvário inimaginável.Felzmente parace começar a surgir uma esperança.
Obrigado.

Marta disse...

tanto tudo íssimo.

e mais não sei dizer.

parabéns e obrigada
muito.

Paulo disse...

Eu é que agradeço, Marta. Muito, íssimo :):):)