22 maio 2010

A irreprimível tentação do acessório



A prova de vida parlamentar das deputadas Teresa Venda e Rosário Carneiro vem ao encontro de "l'air du temps" e avança com mais uma medida de austeridade: cortar nos feriados, eliminando quatro (Corpo de Deus, Dia de Todos os Santos, 5 de Outubro e 1.º de Dezembro) e acrescentando um (o "Dia da Família") de modo a obter mais três dias de trabalho por ano, o que, ninguém duvida, contribuiria decisivamente para a resolução dos problemas do país, mesmo faltando à gregoriana proposta o golpe de asa bastante para arranjar trabalho nesses dias aos 730 000 portugueses desempregados.
E, já que o Governo suspendeu a terceira ponte (a ponte suspensa) sobre o Tejo, as deputadas propõem que se acabe também com as pontes do calendário, transferindo o 25 de Abril , o 1.º de Maio, o 15 de Agosto e o 8 de Dezembro para segundas ou sextas-feiras e passando a terça-feira de Carnaval a ser, conforme os anos, a "segunda-feira de Carnaval" ou a "sexta-feira de Carnaval".
Comemorar o 25 de Abril a 24 de Abril (e porque não o 1.º de Maio em 28 de Maio?) é, além do mais, uma ideia capaz decerto de render muitos votos.

Manuel António Pina, AQUI
Foto Richard Avedon

De vez em quando, gente que se senta no Parlamento por razões dificilmente compreensíveis tem uns assomos de opinião. E opina.
O País está sob o ataque mais violento das últimas décadas por parte da pior cáfila de agiotas de que há memória, o desemprego atinge números duma insuportável indignidade, a fome e a miséria adivinham-se e há personagens que saem da sua mudez para largar bacoradas que só servirão para agradar aos chefes & amigos.
M. A. Pina, como é hábito, topa-os à légua e zurze-os como ninguém.

2 comentários:

Austeriana disse...

A inteligência nunca foi critério para seleccionar deputados. A escolha faz-se com base na capacidade de articular demagogia com desenvoltura; uso desempoeirado de chavão batido (depois de consulta - sempre muito breve - nos principais media); e tom de voz acertivo e pesporrente.

Na sequência do caso em apreço, o próximo lugar-comum será, porventura, o de que «Natal é quando um Homem quiser»... Talvez o Natal no Verão, para aproveitar as férias grandes e acabar com a pausa de Natal e Ano Novo! Uma espécie de dois em um!

É que não se enxergam mesmo!

Paulo disse...

Austeriana, nem mais!
Não há melhor definição para os critérios de escolha dos yesman (e woman)que nos enchem diariamente os ouvidos.
Acrescentaria, claro, a abnegação de pensar pela própria cabeça e o irreprimível apetite de agradar ao chefe.
Abraço