10 agosto 2010

Diário da Bicicleta


... estas pessoas que andam a trabalhar para revigorar as suas cidades estão todas em dívida para com Jane Jacobs, que em 1968 lutou contra o plano de Robert Moses de fazer atravessar uma auto - estrada pelo meio da baixa de Nova Iorque.(...)
Nesses tempos - entre o final dos anos 60 e o início dos anos 70 -, muita gente nos Estados Unidos parecia acreditar que as cidades depressa se iriam transformar em coisas do passado, que a vida moderna só poderia ser genuinamente vivida numa casa dos subúrbios com um quintal, ligada ao local de trabalho urbano - um amontoado de prédios altos de escritórios - por uma rede de auto-estradas.
Um sítio para trabalhar, outro para viver. (...) O que veio a acontecer foi que, hoje em dia, cada vez mais pessoas se inclinam para aquilo que Jacobs compreendeu, que a fórmula da separação entre a vida e o trabalho tem como resultado inevitável acabar por haver muito pouca vida a acontecer verdadeiramente em ambas as áreas. (...)
Ficou famoso o nome que Jacobs deu àquilo que acontece no seu quarteirão em Greenwich Village, "um ballet no passeio".
«Eu faço a minha primeira entrada nele um bocadinho depois das 8 da manhã, quando vou pôr o lixo lá fora...Pouco depois, homens e mulheres com pastas e bem vestidos, até mesmo elegantes, saem das portas e das ruas secundárias, e, em simultâneo, um grande número de mulheres com vestidos de trazer por casa vem cá para fora; e à medida que se cruzam uns com os outros, param durante uns segundos para conversas rápidas que ressoam ou com gargalhadas ou indignação conjunta, nunca, ao que parece, algo entre ambas as coisas».
Ela percebeu que a utilização mista era essencial. Que quando uma rua ou um parque estão a ser utilizados por diferentes tipos de pessoas em diferentes alturas do dia, acabam por se manter económica e socialmente saudáveis e ficam mais seguros. Não são precisos mais polícias nem leis duras para tornar um bairro mais seguro. É preciso não lhe sugarmos vida...



David Byrne é conhecido como músico e compositor. Foi o fundador da banda Talking Heads e é também fotógrafo amador. Desde há alguns anos tem um interessante blog (david byrne's journal) onde relata regularmente viagens de bicicleta que realiza em várias cidades do mundo (Berlim, Londres, Instambul, Buenos Aires, Nova Iorque, etc.). A compilação de alguns desses textos saiu recentemente em livro. É uma obra com um traço descritivo dos locais, mas com uma importante vertente de análise e estudo das cidades vistas sob o ponto de vista de um visitante que se desloca em bicicleta. O excerto de texto que se reproduz acima diz respeito a Nova Iorque, mas poderia ser aplicado a qualquer outra grande cidade do mundo. Com particularidade, para nós, que damos ares de grande modernidade, insistindo em praticar erros urbanísticos com importantes consequências sociais, erros esses que já foram diagnosticados há trinta ou quarenta anos noutras paragens.
É importante referir que todos os combates feitos na defesa dum urbanismo moderno e que coloque as pessoas no centro das decisões têm o nosso apoio. Aliás, temos um grande orgulho em ter sido a Clara a dinamizadora duma recente luta em Aveiro, justamente na defesa destes valores (conhecer AQUI)

2 comentários:

relogio.de.corda disse...

Ora aqui está uma das funções da blogosfera:informar.
Conhecia a faceta musical de David Byrne mas desconhecia a existência deste seu livro.
Obrigada pela dica.

Paulo disse...

relogio.de.corda, aconselho a leitura, sim. Sobretudo para quem gosta de ser viajante nas cidades. Há, neste livro, elementos de análise muito interessantes vindos de um homem informado e com opinião. Obrigado.