09 agosto 2009

A terceira mãe

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Tive de ser eu a fazer as perguntas todas e a encontrar respostas. Encontrá-las no mínimo som de uma porta a fechar-se. Havia as tardes do estrondo e as tardes do sussurro, as tardes da pressa e as da hesitação. E através dos movimentos da porta, das vozes e não-vozes atrás dela, dos diálogos entre as mãos à mesa, dos recantos interiores e exteriores aos corpos, fui formulando as perguntas e capturando respostas à socapa.
A vontade nunca foi o teu forte, muito menos o de clarificar as coisas. O teu forte é a humildade, é a paciência, são os ombros tantas vezes encolhidos que se tornaram covas e engoliram a alegria, a tua e a dos teus, de tanto lhes quereres bem. Mereces ser condecorada no treze de Maio, Grã-Cruz da Ordem da Renúncia. Melhor ainda, a beatificação em vida, na próxima visita do Papa ao nosso queridíssimo Santuário.
Mas para isso era preciso fazeres milagres, e não consegues. Está provado que não consegues. Tentaste tanto. Querias curar-me as dores de barriga com a mão e conseguias acalmar-me o choro, mas depois ias a correr chamar o médico. Com o pai a mesma coisa. Passavas-lhe a mão pela testa suada, entravas em tudo quanto fosse ervanária à procura de chás, xaropes, poções.
E depois foi o que se viu. Até desistires sem sequer chorar.
Eu não desisto. Sou uma Fúria desintegrada da tragédia. Rasgo as vestes, choro prantos de sangue, firo o corpo nas lages do chão. Mas nunca mais de meia hora. A decisão sacode-me, grito por uma caneta.

Julieta Monginho, A Terceira Mãe, Campo das Letras, 2008.
Pintura de Paula Rego, Prey, 1986
* Nick Cave & The Bad Seeds, People Ain't No Good

2 comentários:

JOSÉ RIBEIRO MARTO disse...

Ando à procura deste livro já há algum tempo porque ainda não li nenhum livro desta escritora ! Este excerto ainda aguçou ainda mais a minha curiosidade ...
abraço
________ JRmarto

Ana Paula disse...

Belo. Belíssimo. Tudo.

Deixo um beijinho :)