31 agosto 2009

Uma insuportável aridez no conforto

Passar mais tempo na companhia dos residentes de Starfish Beach era outra possibilidade insuportável. Ao contrário dele, muitos conseguiam não só construir conversas inteiras que giravam à volta dos netos mas também encontrar na existência dos netos razões para eles próprios existirem. Apanhado na companhia deles, experimentava por vezes a solidão naquela que era talvez a sua forma mais pura. E mesmo com aqueles residentes que eram pessoas ponderadas e de conversa agradável, só era interessante estar de vez em quando. Na sua maioria, os residentes idosos tinham casamentos que duravam há décadas e continuavam de tal maneira ligados ao que restava da sua felicidade conjugal que raramente conseguia convencer um marido a ir com ele almoçar fora sem levar a mulher. Embora por vezes olhasse com nostalgia para aqueles casais quando descia a noite ou nas tardes de domingo, havia a considerar as restantes horas da semana, e aquilo não era vida que desejasse para si quando estava no auge da melancolia. A conclusão a tirar era de que nunca devia ter ido viver para uma comunidade como aquela. Tinha-se desenraizado precisamente na altura em que aquilo que a idade mais exigia dele era que estivesse enraizado como tinha estado durante todos os anos em que dirigiu o departamento criativo da agência. Sempre tinha sido revigorado pela estabilidade, não pela estase. E aquilo era estagnação. O que tinha agora era a ausência de todas as formas de consolação, uma total aridez a que chamavam conforto, e nenhuma hipótese de voltar ao que era antes. Tinha-se apoderado dele uma sensação de "alteridade", uma palavra que no seu léxico pessoal descrevia um estado que lhe era quase estranho até que a sua aluna de pintura Millicent Kramer a tinha usado em tom lancinante para lamentar o estado a que tinha chegado.Já nada lhe despertava a curiosidade ou satisfazia as necessidades, nem a pintura, nem os vizinhos, nada a não ser as mulheres jovens que de manhã se cruzavam com ele no passeio marítimo, a fazer jogging. Meu Deus, pensava, o homem que eu era! A vida que me rodeava! A força que eu tinha! Não sentia nenhuma "alteridade"! Em tempos que já lá vão fui um ser humano completo.


Philip Roth, Todo-O-Mundo, Dom Quixote, 2006

5 comentários:

manuel poppe disse...

Gostaria muito que lesse outro grande escritor (a verdade é que não considero Roth grande...): Isaac Bhasevis Singer, em inglês, preferivelmente. É um Mestre de tudo...

Manuel Poppe

Bruce disse...

A verdade é que sempre achei aqueles casais de 80 anos que ainda têm a força de andar na rua de mão dada, uma das coisas mais belas que uma pessoa pode, durante toda a sua vida, ver.

É, realmente, belo, muito belo.

A solidão não é nada bela e são muito aqueles que se vêem completamente cercados de mágoa e aridez sem se darem conta.
Com a idade vem a sabedoria, mas toda a gente falha na percepção da sua própria decadência. Contudo nada é eterno e enquanto há vida e força num coração, mesmo que envelhecido, existe esperança e espaço para mudar.

Austeriana disse...

Não conheço esta obra. O excerto é belíssimo (e estimula a leitura da obra), bem diferente do Roth avassalador que conheço (de "Goodbye, Columbus" e "The Human Stain"). Ao contrário do comentador anterior, considero Roth um dos grandes escritores norte-americanos.

Marta disse...

Pois! Vontade de ler. é o que é.
Obrigada, Paulo.

Paulo disse...

manuel poppe, obrigado pela visita.
Vou procurar Singer,claro. Aqui darei o "feed back".Espero encontrar alguma tradução... ah, antes que esqueça, o Roth é mesmo, para mim, um grande escritor. Abraço.
Bruce,fico sempre tocado com a sua sensibilidade para questões que geralmente estão longe das preocupações de um jovem. Saúdo-o especialmente por isso. Austeriana, há (outras) páginas belíssimas neste "Todo-o-Mundo". Acho que vai gostar. Marta, é uma satisfação muito grande quando suscitamos em alguém a vontade de procurar uma leitura que nos tocou. Obrigado também.