14 junho 2009

As palavras

A casa junto ao mar fora um sonho antigo.“Com a varanda virada ao mar”, repetiam rindo, sempre que disso falavam, sentindo na pele os olhares cruzados.
Hoje, imperturbáveis, os rituais antes criados a dois.
A porta aberta com cuidado, elevando suavemente a fechadura, chaves no prato de estanho sobre mesa à esquerda; alarme, os números mágicos 9-10-17-1: os aniversários dos meninos.
Depois, tudo mais demorado, suave, ritualizado: luz na cozinha, fruta na taça de vidro, pão no tabuleiro, iogurte e leite no frigorífico, congelados na arca, sacos pequenos no saco grande pendurado atrás da porta.
Na passagem para o quarto sorri, sozinha, olhando a varanda. Portadas do quarto abertas e a roupa pendurada, arrumada. Na sala o CD, invariavelmente Betânia, que as palavras e o riso dele iriam depois abafar. Ginger Ale com 2 pedras de gelo, portas de acesso à varanda abertas e, finalmente, o namoro.

Agora a voz dele já não chega a partir da sala ou da cozinha, mas sim do outro lado. Na varanda, tem os olhos bem fechados e, reclinada, sente em toda a pele, de novo por cima do som da música, o murmúrio que lhe chega do lado do mar e o som claro, nítido, da voz dele que, entre risos, lhe sussurra: ficas linda na nossa casa…

5 comentários:

clara disse...

Lindo texto, parabéns,Paulo.
Mas parece querer continuar.
Mais um pouco e dá um livro.

Anónimo disse...

Um texto fabuloso, impregnado da sensibilidade que sempre resulta, do melhor dos nossos afectos.
Parabéns...
Fico a aguardar mais ....
CM

Marta disse...

Sim. Pede continuação.
tanto.tudo.íssimo.

vaandando disse...

Pois, eu fico também à espera !
Das ist normal , nicht war ?
abraço!
__________ JRmarto

Paulo disse...

Clara, os livros são para os escritores... este aqui(sem falsas modéstias) esforça-se em fazer uns textos... CM, Marta, Vaandando, preciso do vosso eco.Se o sentir, claro que irei tentando:):):)e obrigado