11 junho 2009

Campos sem Erva

"...O que muitos de nós gostariam de saber acerca do cabelo é a razão porque o perdemos. O número de homens que sofrem de "alopécia androgenética" ou calvice de padrão masculino" depende da definição, mas parece correcto admitir que esta pode ser detectada em 20 por cento dos homens americanos na casa dos 20 anos, 50 por cento nas idades compreendidas entre os 30 e os 50 anos e 80 por cento na classe 70 a 80. A calvice é verdadeiramente um fardo do homem branco: os africanos, os este-asiáticos e os ameríndios (nativo-americanos) apresentam todos probabilidades inferiores a 20 por cento de sofrerem calvice ao longo de toda a vida. Medicamente inócua, a calvice é uma doença desanimadora. Ovídio falou por milhares quando escreveu na sua Ars Amatoria: "Um campo sem erva é uma visão chocante - assim também uma árvore sem folhas / ou uma cabeça sem cabelo". Ao longo de pelo menos um século, os Americanos têm demonstrado uma nítida aversão a eleger carecas para o posto mais elevado da nação. À excepção de Gerald Ford (1974-77), que era calvo mas não foi eleito, o último presidente careca foi Dwight D. Eisenhower (1953). Os europeus têm-se revelado mais complacentes com os políticos calvos (Churchill, Papandreou, Giscard d'Estaing, Mitterrand, Chirac, Craxi, Mussolini), mas até eles ficaram atrás dos soviéticos que, de forma inexplicável, levaram ao poder, ainda que não propriamente por eleição, líderes calvos e hirsutos em rigorosa alternância: Lenine (careca), Estaline (cabeludo), Brezhnev (cabeludo), Andropov (careca), Chernenko (cabeludo), Gorbachov (careca) - tradição que tem sido mantida na República Russa com Yeltsin (cabeludo) e Putin (cabelo penteado sobre a calva)."

Armand Marie Leroi, in Mutantes, Gradiva 2009
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A derrota de Sansão depois de lhe ser cortado o cabelo é, talvez, o mais antigo relato da associação do cabelo à ideia de Força e Poder.
Sabe-se hoje que a calvice de padrão masculino está ligada a vários genes, nenhum dos quais foi identificado até agora. A sua conexão à testosterona foi suscitada desde tempos muito antigos na observação de que os homens castrados antes do final da adolescência não tinham calvice. Mais tarde, isso foi confirmado em investigações realizadas em grupos submetidos a programas eugénicos para homens com atraso mental, realizados em algumas regiões dos Estados Unidos até à década de 60 do século XX.
Para alguns investigadores, no entanto, embora exista uma evidente ligação com a testosterona, a tese de virilidade associada à calvice é um mito aceite sobretudo pela necessidade de compensar os que dela padecem e que sentem perder o "poder" que está culturalmente ligado à condição masculina.
Haverá uma esperança para os carecas? Seguramente que sim. Mais tarde ou mais cedo, a causa da calvice será identificada e corrigida. Até lá, os dados históricos vindos da Rússia são animadores para a existência (pelo menos) de paridade com os "cabeludos" no acesso ao Poder do Estado.

3 comentários:

Austeriana disse...

Curioso post, este!
Não vou remeter para um daqueles esterótipos de que a aparência não interessa, bla,bla,bla,bla... Mas aqui, no nosso cantinho à beira do mar plantado, mais valia que tivessemos governantes com "carequice" crónica e clarividência de raciocínio do que "cabeludos lerdos"...
:-)

Paulo disse...

...ou, se o cabelo é determinante, que vão as mulheres para o poder já que não o perdem :):)

Austeriana disse...

=:-)
==:-)