03 junho 2009

Breviário das Almas

"e levantar-se de madrugada, logo depois de o galo pedrês cantar, ir à arramada fazer as necessidades, voltar para casa e colocar um pau de azinho e uns gravetos de esteva para atear o fogo; depois, lavar a cara na bacia de esmalte azul, pentear o cabelo e fazer o monho, preso com uma peneta; despir a camisa de dormir, de flanela, e vestir o vestido preto, comprido, e as meias pretas de lã grossa e calçar os sapatos de couro, cardados; ir ver a cafeteira que está ao lume, entornando o café, pois já cheira por toda a casa; abrir a arca de castanho e retirar o tarro de esmalte cinzento com flores vermelhas, onde guarda o conduto; cortar o toucinho e a linguiça e o queijinho de cabra, ir ao tabuleiro do pão e levantar o pano de linho branco, tirar um pão, fazer sobre ele o sinal da cruz com o dedo e benzer-se, sentar-se numa cadeira a beber o café, junto ao fogo..."
Joaquim Mestre, in Breviário das Almas, Oficina do Livro (2009)
Pintura Lúcia Maia ("Uma Vida" óleo s/ tela)
Joaquim Mestre faleceu precocemente, aos 54 anos, faz hoje 1 mês (em 3 de Maio de 2009).
Director da Biblioteca de Beja, transformou-a num espaço de convívio e culto do livro e da leitura de expressão nacional. A este propósito, é conhecida a história de, após a inauguração da Biblioteca em 1993, e não manifestando os habitantes da cidade grande interesse em ali se deslocarem, Joaquim Mestre levou um burro pelas escadas até aos espaço de leitura, declarando que, se até um asno entrava naquele antro de cultura, seria uma vergonha os bejenses estarem ausentes...
Não só por isto, mas pelo intenso trabalho que desenvolveu, conseguiu mudar os hábitos de leitura de muitos habitantes, designadamente jovens.
Foi igualmente escritor de relevo, sendo Breviário das Almas, uma Antologia de Contos que obteve o Prémio Manuel da Fonseca 2008.
É imprescindível conhecer os seus livros.

1 comentário:

vaandando disse...

foi com agradável surpresa que vi a fotografia e um excerto de um conto do Joaquim Mestre, mas rapidamente levei um murro no estômago... Sabia-o doente , mas tanto não ...
Os seus contos são verdadeiras pérolas literárias, comprei na feira do livro »a imperfeição do amor», procuro tempo para o ler ...
Mestre era também um excelente bibliotecário, grande animador cultural e tinha um sonho de fazer um bom vinho ...
Deixou-nos ... Estou triste
___________ JRMARTo