18 junho 2009

Espelhos

O brilho do sol encandeou-a quando abriu a porta da cozinha e olhou o quintal.
Despertado pelo ruído, o cão correu para ela, latindo…
-“Quieto, Fiel. Quieto!” - exclamou rindo… “Chega-te pra lá, tens as patas com terra e vais sujar-me a saia!”.
Foi buscar a tigela com os restos do jantar e despejou-a no prato do cão.
- “Come devagar! Vais engasgar-te”- disse, rindo de novo.
Despejou o tacho com a água num canteiro e, depois de lhe pôr água limpa, sentou-se na soleira da porta com um pão seco e uma caneca de cevada nas mãos, beberricando e sentindo o calor que os primeiros raios de sol do dia lhe traziam à pele.
Chovera toda a noite e o vapor saído da terra molhada trazia um cheiro intenso a erva que gostava de sentir bem. Passados uns minutos, descalçou as socas e, com os pés nus, avançou pelo quintal pisando com gosto o chão humedecido.
Na extrema do terreno ficou de olhar perdido, saboreando o pão molhado no café e olhando a Ria que, como um espelho, lhe devolvia o brilho intenso do sol.
A casa ficava dentro duma pequena propriedade, numa minúscula península que, na margem direita da Ria, fazia a terra chegar até ao meio da água.
Mexeu os dedos dos pés, enterrando-os na lama, e fechou os olhos saboreando um prazer imenso que lhe vinha da pele aquecida pelo sol, espalhando-se
pelo corpo todo, e a levava a afundar os pés na terra molhada.
Ficou perdida neste sentir doce e só os latidos do cão a fizeram regressar.
Olhou-o desinteressada, pois sabia que o seu sinal não era mais do que uma saudação ao vizinho que passava de bicicleta no estreito caminho junto ao portão.
Não fosse o padre da Vila tê-la vindo avisar deste vizinho e teria ficado assustada quando começou a notar as suas idas e vindas.
Um engenheiro do Porto, a recuperar da morte da mulher - dissera-lhe o padre - pessoa muito séria, apenas quer sossego e não ser perturbado… acrescentou. não é preciso ajudar em nada. Ele tem amigos no Porto que, de vez em quando, o virão visitar. Às vezes ficarão um ou dois dias com ele. Tu, fica à distância Maria do Carmo… rematou.

Depois do acontecido na aldeia no final do Verão, que tinha forçado a sua vinda para aquele antigo palheiro, o Padre era a única pessoa que a visitava.
Era, sobretudo, um amigo mas nunca deixava de a querer trazer de volta "para o rebanho", como dizia para sua irritação.
Durante algum tempo ignorou a presença do enigmático vizinho e das suas idas e vindas, mas na última semana pensou por mais de uma vez atravessar-se no seu caminho e saudá-lo. Só para o ver melhor…
Parecera-lhe bem apessoado, alto, magro, da sua idade, sempre com o mesmo casaco de pescador e umas calças largas.
Via-o de manhã cedo, quando saía na bicicleta e, por vezes, perto da hora do almoço, quando voltava, caminhando e transportando uma cesta de compras apoiada no selim.
A pequena casa onde estava instalado não se via muito bem do terreno dela, nem de lado nenhum a não ser de dentro da Ria e uma vez espreitara subindo a uma nogueira, mas não observou nada de interesse. Com estranheza, reparou que todas as janelas estavam com as portadas fechadas. Notou que havia uma luz acesa na cozinha apesar de ser dia.
Tentava não pensar no homem, mas a curiosidade era superior à sua vontade… “Maria do Carmo, Maria do Carmo, não tens já problemas que cheguem?” dizia baixinho, enquanto preparava o barco para sair ao moliço… “”só queria dizer bom dia” desculpava-se, “só um cumprimento e ver bem o seu olhar”....


Fotografia Pedro G. Prata

14 comentários:

clara disse...

Muito bom texto, Paulo.
Tens fibra de romancista,não páres o texto, não transformes em conto.
É um texto para continuar..

AC disse...

É sem dúvida um excelente texto para continuar... uma escrita viciante, que nos transporta para o cenário real, que apetece desvendar... Devorei mas não fiquei saciada! Aguardo...

AC

PAS[Ç]SOS disse...

Há um cheiro que se experimenta vindo das palavras para as memórias. Há prazeres que se adivinham trazidos dos gestos para a imaginação. E há uma curiosidade que esvoaça viajando da protagonista para o leitor.

Marta disse...

Paulo: temos contador de histórias, ah pois temos :)

Gostei muitíssimo. E já somos alguns, bastante atentos, à espera de mais!

Paulo disse...

Clara, é para continuar, mas não cries expectativas (sobre a fibra...); são exercícios como sabes. AC, um abraço e vem aí mais:):); Pas(ç)sos, obrigado, sábias e densas palavras. Marta, obrigado pela energia e a simpatia.

Anónimo disse...

senti o cheiro da erva molhada e tive vontade de a pisar descalça a olhar a ria.
texto muito bonito que nos conduz com facilidade aos caminhos da imaginação..
fico a aguardar mais...
CM

Brazeau's Best disse...

stunning photographs. I am learning spanish; although slowly. Magnifico!

Brazeau's Best disse...

magnifico!

Paulo disse...

CM, a ria está lá, com manhãs (e tardes e dias) lindíssimos e inspiradores. Obrigado pela sensibilidade. Brazeau, bem vinda e obrigado pelo comentário. Se aqui continuar vai ver que aprende português rápido! Comente em inglês, castelhano, português...afinal estamos na aldeia. Obrigado

Anónimo disse...

Com mão firme se traçam estas pinceladas de vida.
Parabéns!

E, claro, junto a minha às vozes que exigem mais! :)

LM

vaandando disse...

...já o tinha »ouvido», e lido e relido , não vai acabar aqui pois não ? Segue-se linha a linha sem nada perder , sem pestanejar , tal é o pacto em que somos envolvidos, ahn!
à espera de mais !
Abraço
_______ JRMARTp

Paulo disse...

LM, obrigado (começamos cedo na blogosfera!). Vaandando abraço fraterno e claro que virão mais "esquiços".

Anónimo disse...

Texto de beleza admiravel, faz-nos voar nas asas de um sonho lindo numa tarde solarenga sentada á beira Tejo.

Aguardo a chegada de mais...

Hanna

Paulo disse...

Obrigado, Hanna. De facto, a maravilha da leitura é possibilidad de cada um construir a sua ficção, o seu sonho. Bem haja.