14 setembro 2009

Middle sex


… Enquanto Miss Grotowski escreve as suas equações no quadro, todos os colegas à minha voltam começam a transformar-se. As coxas de Jane Blunt, por exemplo, todas as semanas parecem crescer mais um bocadinho. A sua camisola vai inflando à frente. Um belo dia, Berveley Maas, que se senta mesmo ao meu lado, põe o dedo no ar e eu vejo uma mancha escura pela sua manga acima: um tufo de pelos castanho- claros. (…..)
A voz de Peter Quail é agora duas oitavas mais baixa do que o mês passado, sem que ele dê por isso. E porquê? Está a voar demasiado depressa. Os rapazes começam a ganhar uma penugem de pêssego por cima dos lábios. As testas e os narizes começam-lhes a rebentar. Mais espectacularmente ainda, as raparigas começam a tornar-se mulheres. (….)
Só Calliope, na segunda fila, permanece imutável, como que paralisada na sua secretária, de modo que é ela a única a reconhecer a verdadeira amplitude das metamorfoses em curso à sua volta. Enquanto resolve os problemas, está ciente da carteira de Tricia Lamb no chão na mesa ao lado, e do tampão que lobrigou lá nessa manhã – e como é que isso se usa ao certo?- e a quem perguntar? Embora ainda seja bonita, Calliope não tarda a tornar-se a rapariga mais baixa da turma. Deixa cair a borracha, mas já ninguém lha vem apanhar. Na peça de Natal da escola, já não é escolhida para fazer de Maria, como nos últimos anos, mas sim de elfo…Mas ainda há esperança, não haverá? ( ....) os alunos voam vertiginosamente através do tempo, de tal modo que um dia, ao levantar os olhos do seu papel manchado de tinta, Callie vê que é Primavera, as flores a desabrochar, forsítias em flor, ulmeiros verdejantes; no recreio, meninos e meninas de mãos dadas, beijando-se por vezes atrás das árvores, e Calliope sente-se enganada, traída. “Então e eu?”, diz ela à natureza. Estou à espera. Ainda aqui estou”.

Jeffrey Eugenides, Middlesex, D. Quixote, 2oo4
Fotografia Diana Arbus
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O fascinante Middlesex de Jeffrey Eugenides (acima citado) começa assim: nasci duas vezes: primeiro como menina bébé, num dia invulgarmente limpo na cidade de Detroit, em Janeiro de 1960. Depois outra vez, como rapaz adolescente, numa sala de urgências perto de Petoskey, Michigan, em Agosto de 1974. O narrador e figura central do livro é Calliope / Cal , um intersexo.
Intersexo é alguém que, ao nascer, tem uma ambiguidade sexual : há uma discrepância entre o sexo cromossómico e o aspecto dos genitais. A "definição" social do bébé é feita, naturalmente, a partir da aparência dos genitais (nome, educação, roupa, penteado, brinquedos, etc.).
No caso de Calliope / Cal, o sexo cromossómico era 46XY, masculino, mas os genitais tinham uma aparência feminina. Educada como menina, foi na adolescência que o conflito se manifestou.
O nome "Caster Semenya" (atleta da África do Sul recentemente "desclassificada" numa prova feminina de velocidade) introduzido no motor de busca Google remete-nos para 2.710.000 entradas.
A forma absolutamente preversa e sem princípios como os mídia abriram a vida de Caster e a vasculharam, expondo os detalhes mais íntimos à vista de todos sem o mínimo pudor, terá consequências irreparáveis na sua vida e dos que lhe são próximos.
A enorme complexidade desta questão decorre da existência de uma identidade de género oposta à configuração dos genitais e coloca problemas dificílimos, como se compreende, relacionados com equilíbrios em múltiplos planos. Mas não é, seguramente, matéria para jornalismo de escândalos.

3 comentários:

clara disse...

Deve ser, Paulo,o sofrimento maior, o desespero total não ter identificação sexual definida, nem se consegue vislumbrar o nível de angústia.
Depois disso tudo, apanhar com a discriminação na família, na escola, na cidade.E, cúmulo dos cúmulos, no Mundo, nos media.
Foi bom teres lembrado isto, a voracidade das televisões, a insensibilidade do espectador que já nada sente, a não ser a adrenalina.
Como os bobos da corte, ou aos anões do circo. Será que a natureza humana não evolui?
É que parece que vamos sempre parar às mesmas encruzilhadas.

marteodora disse...

Parece-me que esta questão é até um pouco mais profunda. Este comportamento dos media ou dos responsáveis das altas esferas do desporto teriam o mesmo tipo de comportamento ou de desconfiança caso se tratasse de uma atleta europeia ou norte americana?
Com certeza que não.
É de uma vergonha atroz a falta de respeito pelo ser humano demonstrada em todo o decorrer deste caso; a violação dos mais elementares direitos do homem, sem qualquer espécie de puder e, ainda por cima, alimentada pelo rasteiro gosto da intriga.
Que se a verdade fosse apurada? Concordo em absoluto!
Que a intimidade de um ser humano e da sua família (cujos valores da ética e da honra e do sentimento de vergonha longe estão dos nossos) seja devassada desta forma?
Merece o meu mais completo repúdio!

Ana Paula disse...

Concordo, Paulo, é uma questão bem séria e profunda, e a preservar, no bom sentido, dos media e sua voracidade. A tratar com a delicadeza que se impõe perante viveres tão complexos, como é o caso de um intersexo.

Obrigada pelo excelente momento de reflexão, aqui proporcionado.

P.S. - Gosto imenso do universo da Diana Arbus.