07 setembro 2009

Viajando pelas mulheres

....Por isso, ao longo da região (Beira Litoral), as mulheres impõem saborosas diferenças. Não evidenciam um tipo tão definido como as de outras terras mas, apesar de viverem numa região tão desfigurada, entregue à pior construção civil e à confusão urbanística, percebem-se sensuais por todo o lado e a corrupção do ambiente parece fortalecer-lhes a arte. Guardo as melhores recordações das mulheres da Bairrada em cima das suas bicicletas pela Anadia, Cantanhede, Mogofores, OLiveira do Bairro, Mamarrosa. Relembro os fornos de cal e as fábricas de cerâmica à beira dessas estradas percorridas por mulheres pedalando lenta e sensualmente, cruzando-se, na Primavera, com os peregrinos pedestres que demandavam Fátima. E em Vagos e na Pateira de Fermentelos, mulheres tão fortes como o húmus que exala da terra úbere que pisam, dirigindo carros de bois carregados de moliço e estrume para as vessadas. E outras a mungir as vacas com os rostos afogueados. E lembro-me de ver as mulheres cansadas da xávega da Tocha e em Vagos, depois de escolherem o peixe, sentadas,na praia à tardinha, enquanto as nebelinas cada vez mais espessas iam envolvendo os bois e as pessoas, juntando o mar e os verdes prados. E as raparigas na Festa das Colheitas, em Arouca, a comparar os tamanhos dos nabos e das batatas e dos calondros? E as da Murtosa, de perna maciça e curtida pelo sol e pela salmoura? Para aumentar as diferenças, juntar-lhes-ia tricanas e lavadeiras de Ovar e de Coimbra e as jovens senhoras coimbrãs a olhar para as ruas por detrás das sedutoras janelas das suas vivendas. Todas estas mulheres são herdeiras dos mais refinados segredos das mais refinadas goluseimas conventuais e habilidosas no desfiar dos dulcíssimos ovos moles. Desde as castanhas doces de Arouca aos pastéis de Tentúgal. Reconheço, no entanto, a dificuldade em definir a mulher beirã do Atlântico. Com manifesta coragem, resolvi perguntar a algumas delas como se achavam a si próprias. A resposta vem de Leiria - da Laura, da Paula e da Isabel, e resulta da demorada reflexão com investigação sob competência psicológica e tudo. Como são as mulheres da Beira Litoral? Reproduzo ipsis verbis a sua resposta: "Muito sensuais. Bastante comunicativas, metediças na vida alheia. Faladoras: chegam a ser agressivas na fala. São espalha-brasas e abertas. Gostam de ostentar a riqueza dos atributos físicos e dos materiais. São muito invejosas das vizinhas. São declaradamente matriarcais. Mas paradoxalmente, e segundo pensamos, são submissas, com medo de arranjar um amante e têm medo que o homem lhes bata se gastam muito dinheiro. São limpas e asseadas elas, principalmente nas suas casas. Descuidam muito os filhos embora lhes comprem coisas muito caras, mas para se afirmarem pessoalmente. De resto são supersticiosas, tradicionalistas e religiosas. Lembramos Fátima, a Santa da Ladeira, etc. Quer dizer, são visionárias".
Só lamento que as estradas sejam tão velozes nesta província. Sugerem-se uns dias parados na Curia ou no Luso e ver o deslizar das lentas bicicletas ao entardecer. Regressam a casa deixando um rasto de luxuriosa santidade. Cresce então a lua insubmissa sobre os viçosos vales do litoral."

Manuel Hermínio Monteiro, Revista K,nº19, Abril 1992
Fotografia Rodrigo Budag

Um belíssmo texto carregado de luz, cheiros e poesia, numa viagem com um intenso e original roteiro.

3 comentários:

marteodora disse...

Ter-se-á, certamente, inspirado em Maria Lama.

Paulo disse...

Bem recordado! O trabalho de Maria Lamas (As Mulheres do meu País) deve ter sido o primeiro trabalho de análise sociológica das mulheres em Portugal e o Manuel Hermínio Monteiro pertence a uma geração que o leu como "livro de estudo".

Marta disse...

ah Paulo, nem imagina o quanto gostei de reler isto. aqui

obrigada.muito.