27 fevereiro 2009

Aprendizagem dos afectos

(imagem daqui)
Seguramente não teriam mais de quinze anos e eram estudantes, as mochilas às costas pesando, atrapalhando. Riam-se e olhavam para quem estava, ela mais reservada nos gestos, ele eufórico.
De início pensei que o rapaz segredara à rapariga qualquer coisa que a deliciou. Mas não. O gesto dela foi largo na tentativa de afastar o amigo – Está quieto, Mateus, não vês que me aleijas?!
O jovem insistia, impaciente, tentando beijá-la, tocar-lhe os seios, enfiando a mão desajeitada pelo decote da T-Shirt com uma falsa ternura que começava a incomodar quem parava à porta da pastelaria. A jovem, de braços cruzados sob o queixo, segurava com cada uma das mãos a alça contrária da mochila. – Vá lá, Soninha, não me curtes? – e roçava a face, ainda imberbe, nos cabelos dela, na testa dela, lutando contra o desaconchego dela. – Anda daí, tá? Não vês que tou cheio de tusa?A garota sacudiu-o, acossada na sua aparente fragilidade, e num gesto brutal lançou as mãos ao peito do rapaz, projectando-o contra a parede do edifício. – Pára lá com isso, pá, és mesmo bruto! Vai mas é curtir a bezana pra casa. Valia mais era ter ido à merda da aula.E desandou para o passeio contrário da estrada, em direcção à tabacaria, onde comprou uma caixa de Trident Ice azul, de mentol. Também reparei nisso.
O mancebo ainda a chamou, em gargalhada desafiadora: – Ó Sónia, dá aí uma pastilha!
Qual quê! A jovem descobrira que uma merda nunca vem só... e foi à vida.

Acabei o meu cigarro e entrei na pastelaria. Antes que me confundissem com algum figurante dos Morangos com Açúcar.

C.

1 comentário:

vaandando disse...

Excelente, e simbolicamente forte no detalhe...
Eu que ando agora por razões várias a ler crónicas, encontro agora aqui »uma», talvez !
abraço

_________ JRMARTo