09 outubro 2009

As mãos e os donos delas


Os cirurgiões, enquanto grupo, aderem a um igualitarismo curioso. Acreditam na prática, não no talento.
As pessoas frequentemente presumem que temos de ter grandes mãos para sermos cirurgiões, mas não é verdade. Quando fui entrevistado para entrar em programas de cirurgia ninguém me mandou coser, ou fazer um teste de destreza, ou verificar se as minhas mãos eram firmes. Nem sequer é preciso ter os dez dedos para se ser aceite. (…). Os professores dizem que a cada dois ou três anos vêm uma pessoa verdadeiramente dotada – alguém que atinge capacidades manuais complexas invulgarmente depressa, vê o campo operatório como um conjunto, apercebe-se de problemas antes que eles aconteçam. Mesmo assim, os Cirurgiões Assistentes dizem que o que é mais importante para eles é encontrar pessoas meticulosas, diligentes e suficientemente teimosas para continuarem a praticar uma coisa difícil dia e noite, anos a fio. Como me disse um professor de cirurgia, se tivesse de escolher entre um doutorado que tivesse clonado um gene com muito esforço e um escultor de talento, escolheria o primeiro. (…) A competência, acreditam os cirurgiões, pode ser ensinada, a tenacidade não. É uma estranha abordagem ao recrutamento, mas é sempre assim, até nas categorias profissionais mais altas, mesmo em serviços cirúrgicos excelentes. Pegam em alguns favoritos sem nenhuma experiência cirúrgica, passam anos a formá-los e depois estabelecem a maior parte da sua competência a partir dessas fileiras criadas por si.
E resulta. Actualmente, já existem muitos estudos sobre executantes de elite – violinistas internacionais, grandes mestres do xadrez, patinadores no gelo profissionais, matemáticos e por aí fora – e a maior diferença que os investigadores encontram entre eles e outros executantes de menor qualidade é a quantidade de prática que eles acumularam deliberadamente. Na verdade, o talento mais importante poderá ser o talento para a própria prática. K. Anders Ericsson, um psicólogo cognitivo e perito em desempenho, comenta que a manifestação mais importante do papel dos factores inatos pode ser a motivação que alguém tem para se lançar numa formação contínua. Descobriu, por exemplo, que os executantes de topo gostam tão pouco de praticar como os outros (é por isso que os atletas e os músicos desistem de praticar depois de se reformarem), mas possuem uma força de vontade para continuar a praticar superior à dos outros.

Atul Gawande, in A mão que nos opera, Lua de Papel, 2007

Uma visão puramente técnica do gesto, o de curar como o de criar, pode levar-nos a alguns exageros. O livro de Atul Gawande, que agora revisitei, prende o leitor, sobretudo se tem interesse pelo mundo médico, por dois aspectos principais: um, a clareza com que fala dos temas mais sérios e complexos. Outro, pela forma séria e empenhada com que trata a difícil questão do erro em medicina e, por consequência, da responsabilidade médica. No entanto, o texto acima transcrito é controverso. Sobretudo ao despir de qualquer envolvimento pessoal aquele que pratica o acto. Ou seja, reduz o cirurgião, que é, antes de tudo médico, a um mero executante - operador - que, desde que pratique o acto com rigor, tem o sucesso do seu gesto garantido. Ora, uma intervenção cirúrgica tem um tempo prévio de preparação e um tempo posterior de acompanhamento que exigem um forte envolvimento pessoal e, nestes vários momentos, como num concerto de piano ou na pintura duma tela, é preciso que, a par do rigor técnico,esteja presente a alma do artista.

8 comentários:

jP disse...

achei interessante a comparação do autor entre talento e prática... se estivesse questioná-lo-ia se o talento não é somente o fruto de trabalho, concentração ou gosto para fazer algo.

perguntar-lhe-ia se o talento também não se constrói...

cumps

ps:. parabéns pelo blogue.

TERESA SANTOS disse...

Na minha perspectiva o cirurgião é, de uma maneira geral, uma pessoa algo complexa. Não aprende só com a técnica, não é bom só porque tem muita prática. A análise desses profissionais, não pode, na minha perspectiva, ser vista de uma forma tão simplista.
Conheci/conheço cirurgiões com imensa prática - particularmente ortopedistas - cheios de empenhamento, de interesse,
etc., que na prática, eram um "desastre". Ai daqueles a quem eles punham (põem) o bisturi à pele...

Se me permites direi ao jP que nesta área, NÃO, o talento não se constrói. Tem-se, ou não! Simplesmente.
Tens um Abraço no meu blog.

Beijinho.

Austeriana disse...

Sempre defendi a necessidade errar com competência e perseverança. Aliado à curiosidade, o erro atento pode levar-nos a descobertas incríveis (nem que sejam incríveis só para cada um dos que as descobrem).
Nas profissões ligadas à saúde (à vida), por razões óbvias,este princípio, merecendo-me mais reservas, não deixa de ser fundamental.
Gostei muito do post e as afinidades com as artes parecem-me acertadíssimas: a verve sem técnica e trabalho pouco vale.
Alguém competente e pertinaz tem todo o meu respeito. Se, além disso, tiver talento, é um artista.

marteodora disse...

Paulo,
vou contar aqui um episódio pessal, relativamente à profissão de cirurgião.
Há cerca de seis anos, fiz uma laparoscopia para retirar a vesicula (não que seja mulher de maus fígados, LOL). No pós-operatório sofri uma hemorragia grave, a qual só veio a ser detectada horas depois, após paragem cardio-respiratória. Os meus níveis de hemoglobina desceram a valores abaixo de 5!!!
Pois bem, lá veio o meu cirurgião, ao fim de muitas horas depois da primeira intervenção, dizer calmamente a uma mulher moribunda - mas consciente a bem disposta (sem noção do perigo de vida que corria) - "Vamos lá abrir isto outra vez, porque parece que alguma coisa não está bem".
Correu bem e safei-me.
Contudo, o dito cirurgião, mais tarde, em conversa com o meu marido contou-lhe que tinha previsto sair do hospital naquela tarde, porém, teve sempre a sensação de que havia qualquer coisa que não tinha ficado bem e, como tal, ficou por ali, sem sair.
Acho que isto me salvou a vida!

Paulo disse...

JP, penso que o talento é algo que tem (quem o tem) e que pode ou não ser trabalhado, aperfeiçoado e ampliado. Não creio que se possa fazer nascer talento em terreno infértil. Obrigado pela presença e apoio.Abraço

Paulo disse...

Teresa, obrigado pelo Abraço.
De facto, por muito esforçado que se tente ser ( e se seja efectivamente) há uma entrega pessoal que dá "alma" ao que se faz que não surge apenas com o empenho, por mais esforçado que seja.

Paulo disse...

Austeriana,podemos dizer que errar todos erramos,mas corrigir, rever e aprender com o erro, isso penso ser atributo de gente inteligente. A cirurgia é uma actividade singular (a par, talvez, de alguma produção artística): é uma profissão em que se pratica a teoria. Ou seja, ao mesmo tempo que há que conhecer em detalhe os mecanismos biológicos mais básicos duma doença, o cirurgião é um médico que cura com as próprias mãos, sem qualquer elemento de mediação. Daí que ele está investido de um enorme poder e, portanto, de uma gigantesca responsabilidade. Por outro lado, a sua actividade não se resume à questão técnica de realizar a operação. Ele estuda, diagnostica e propõe um intervenção a alguém... e esse alguém confia nele o que tem de mais precioso.Isto deve criar uma poderosa ligação e essa ligação continua em todo o tempo que se segue à cirurgia (às vezes pelo resto da vida). Isto é uma tremenda exigência que obrigará a que um cirurgião não seja um mero "operador", mas alguém com uma sólida formação humana, com um denso "background" cultural, e, naturalmente, com uma intensa preparação técnica.Normalmente, as pessoas assim têm a tal dose de talento que é essencial.

Paulo disse...

marteodora, primeiro que tudo um obrigado pelo seu testemunho pessoal, felizmente resolvido com sucesso por ter sido tratada por um cirurgião que prevê as complicações e a forma de as tratar.
Um cirurgião, geralmente, não pode trabalhar de acordo com um "horário" (esta é uma originalidade lusa). Não que tenha de abdicar de ter vida pessoal, e mas deve sentir que está investido de uma responsabilidade para com quem lhe entrega o seu bem mais precioso (a vida)que o obriga a estar atento, próximo e disponível de quem trata e que essas características devem fazer parte do seu "armamento" terapêutico.
Quem não consegue viver assim, não há talento que o faça ser um bom cirurgião.