16 outubro 2009

Uma História Radical


Tinha-lhe dito - não te esqueças, é preciso pactuar com os anjos. Ele sabia-o, melhor do que eu, melhor do que ninguém.
Naquele último domingo de Setembro, o vento estava favorável a Sul, como convém ao desporto do parapente.
Em pouco tempo, Leonardo conseguiu arrastar atrás de si todo aquele enorme pano colorido e, com a ajuda dum motor, levantou voo, passando sorridente sobre a minha cabeça. Depois, ganhou altura por cima das casas, afastando-se para nascente. Deixei de o ver e, como era minha tarefa, comecei a cronometrar o tempo da sua ausência; sete minutos, quarenta e três segundos. Quando voltou a aparecer, deu-se ao prazer de planar ao longo da praia, paralelo à linha do horizonte.
Um homem feito Deus, pensei.
As gaivotas de pedra, espalhadas pela areia, acordaram por um instante da sua melancolia, depois voltaram a apodrecer. Parecia que tinham os corpos envenenados pela corrosibilidade daquele áspero salitre. As pessoas passeavam-se, tristonhas e arrepiadas - haviam sido apanhadas desprevenidas por um súbito Outono. A época balnear tinha chegado ao fim, mas mantinha intacta a mácula de todos os detritos. Até os gestos estavam poluídos. Seria necessário um Inverno rigoroso para que os pensamentos pudessem ficar lúcidos de novo.
Leonardo era um pássaro vermelho e amarelo - tinha o corpo coberto por fios de arame. A partir de certa altura, a orientação começa a ser instintiva. Voava às cegas e, apesar disso, continuava a desenhar um círculo quase perfeito. O que lhe importava era melhorar o seu próprio tempo e eu não me podia esquecer dessa exigência.
As pessoas iam de um lado para o outro, enfastiadas e sem qualquer tipo de entusiasmo. Às vezes apetecia-me gritar - ELE VOA! - , mas há muito que o homem aprendeu a voar e nisso já não existe novidade nenhuma.
Eu nascia ali, a cada instante, e por isso os meus olhos espantavam-se. Mal podia acreditar na mecânica daquele sonho - de concrecto só conhecia a queda dos corpos e a natural superioridade das aves.
Desenhou mais uns círculos e melhorou seis segundos. É tudo uma questão de treino. E de agilidade.
Mas a tarde estava a ficar demasiado cinzenta, havia um nevoeiro que crescia do mar e ameaçava engolir tudo.
Naquelas condições, o melhor seria desistir, mas Leonardo tinha subido às alturas e nem queria ver os sinais dos meus braços.
Era um Deus que se negava a voltar a ser homem. Subir é melhor que descer, nisto faz-se a semelhança entre Deus e o homem.
Leonardo usou e abusou dessa semelhança.
O vento virou a Norte, eu já não via um palmo à minha frente e gritava, mas era demasiado enigmático, o meu grito. Dir-se-ia um sorriso. Um sorriso de quem sabe que nos sonhos não há limites, de quem conhece a sublimação de todos os abismos.
Em menos de cinco minutos, desapareceu a linha do horizonte. Desapareceram as casas, as pessoas, os cães, as trelas, a monotonia, a praia, as gaivotas...
Leonardo!... eu gritava, mas o meu rosto ficou preso dentro de um quadro.
Clara
Pintura Marc Chagall

7 comentários:

JOSÉ RIBEIRO MARTO disse...

Gostei muito da poética da tua short story. Criaste um um ambiente muito belo e inusitado .
Foi um prazer , e espero ler muitas , muitas mais » estórias» .
um abraço
_______ JRMARTO

C. disse...

Adorei. Li no teu conto uma deliciosa alegoria do sonho e da arte. Com reminiscências do Vinci renascentista sonhador. Final inesperado e, por isso, uma mais valia para a história.

Mais, please!

Beijinho

marteodora disse...

Leio sonho, ambição, medo, projecção no outro, limites, desejos, afecto paternal e amarras que se querem soltar e alguém com medo que se soltem.

Gostei da atmosfera...muito realista...!

clara disse...

A imagem devia ser o sorriso de Gioconda, mas julguei abusivo. Tenho tanto respeito pelo grande Leonardo, com a sua passarola voadora!

Ana Paula disse...

Muito bom, Paulo. Gostarei de ler mais... sinceramente.

Esplêndido final: ficar preso num quadro!

...e um Inverno que é necessário à lucidez...

Muitos parabéns!

Austeriana disse...

Estive aqui há dias a ler este texto.Na altura não estava com tempo para redigir.
Faço-o agora, juntando-me ao grupo de comentadores. Bela prosa!
Não sei se tem obra publicada... Sugiro vivamente que o faça.
E venham mais! :))

Marta disse...

tanto tudo íssimo.

Paulo: PARABÉNS.

suspensa, fiquei eu, no final.

mais, queremos mais.