18 outubro 2009

Indignação

Nessa manhã de segunda feira parecia de novo igual a si mesma, invicta e invencível. Depois de eu a ter tranquilizado com as providências tomadas pela universidade para o meu regresso, a primeira coisa que disse foi: "Não vou divorciar-me dele, Marcus. Já decidi. Vou aturá-lo. Vou fazer tudo o que puder para o ajudar, se é que alguma coisa pode ajudá-lo. Se é isso que queres que eu faça, também é o que eu quero. Não queres pais divorciados, e eu não quero que tu tenhas pais divorciados. Lamento mesmo ter-me permitido tais pensamentos. (...)
Vieram-me as lágrimas aos olhos e rapidamente os tapei com a mão como se pudesse esconder as lágrimas ou empurrá-las para dentro com os dedos.
"Podes chorar, Markie. Não é a primeira vez que eu te vejo chorar".
"Eu sei que não. Eu sei que posso. Mas não quero. Só que estou tão feliz..."
Tive de parar por momentos para recuperar a voz e me refazer do facto de ter sido reduzido pelas palavras dela à condição da criatura minúscula que não é mais do que a sua necessidade de perpétuo alimento. "Estou muito feliz por ouvir o que a mãe acabou de dizer. Sabe, esse comportamento dele pode ser coisa passageira. Coisas que acontecem quando as pessoas chegam a uma certa idade, não é verdade?"
"Claro que sim", disse ela em tom tranquilizador.
"Obrigado, mãe. É um grande alívio para mim. Não conseguia imaginá-lo a viver sozinho. Só com o talho e o trabalho e nada à sua espera ao regressar a casa à noite, sozinho aos fins de semana... era inimaginável".
"Era pior do que inimaginável", disse ela, "por isso nem imagines.
Mas agora tenho de te pedir uma coisa em troca. Porque há uma coisa inimaginável para mim. Eu nunca te pedi nada. Nunca te pedi nada porque nunca foi preciso. No que toca a filhos tu és perfeito. Nunca quiseste outra coisa senão ser um menino que faz tudo bem. Sempre foste o melhor filho que uma mãe pode ter. Mas vou pedir que nunca mais tenhas nada a ver com miss Hutton. Porque estares com ela é para mim inimaginável. Markie, tu estás aqui para ser um estudante e para estudar o Supremo Tribunal e para estudar o Thomas Jefferson e para te preparar para entrar na Faculdade de Direito." (...) Não estás aqui para arranjar sarilhos com uma rapariga que pegou numa lâmina para cortar os pulsos"
"O pulso", disse eu. "Só cortou um pulso".
"Um chega. Só temos dois, e um já é de mais. Markie, eu vou ficar com o teu pai e em troca vou pedir que a largues antes que te enterres nisto até à ponta dos cabelos e não saibas como hás-de sair. Quero fazer um contrato contigo. Tu fazes esse contrato comigo?"
"Sim", respondi eu.

Philip Roth, in Indignação, D. Quixote (2009)


O 27º livro de Roth rompe com as suas recorrentes narrativas sobre o envelhecimento e a decadência. Ambiente de campus universitário do interior rural dos Estados Unidos, no início dos anos 50. O narrador, jovem judeu numa perturbante experiência de conquista da autonomia, da busca de caminhos para idade adulta em luta com a família, a universidade, o ambiente social, as convenções e com ele próprio. Uma estória de aprendizagem, descoberta e desilusão.

Foto: My son John (Filme, 1952)

4 comentários:

Ana Paula disse...

Parece-me realmente bom, como todos os de Roth, mas interessou-me, em particular, a variante temática da narrativa. Ainda não o li.

Obrigada, Paulo :)

Bruce disse...

Sinto-me tentado a adquirir a obra, visto que o tema me cativa!

Austeriana disse...

Não li mas sou suspeita em relação a Roth. É o tipo de escrita que aprecio, principalmente o humor requintadamente cáustico.
O texto publicado é muito "mauzinho" para mim, porque tenho uma série de leituras para colocar em dia e este post vem acrescentar mais uma! :))

Paulo disse...

Ana Paula, é bom (eu gostei). A temática varia levemente, mas o retrato da degradação de relações sociais está lá, como está o impacto da guerra da Coreia na juventude universitária americana.
Bruce, avance nessa compra. Não é dinheiro mal empregue.
Austeriana, há humor, sim, e algumas páginas de fortíssima crítica à sociedade norte americana no pós guerra, na universidade, nas famílias e entre os jovens. Vai ser mais uma leitura para pôr em dia:):)
Bem hajam.