21 outubro 2009

...depois vêm estes com a conversa do costume


O eurodeputado Mário David não gostou do que ouviu, sente-se insultado, e por isso escreveu no blog da Internet, tendo-o repetido depois à TSF, que Saramago devia renunciar à nacionalidade portuguesa. (aqui)

Um dos embustes mais marcantes da nossa democracia é a confusão entre liberdade e cidadania. A ideia de que, uma vez derrubada a ditadura, haveria uma democracia porque se votava e não havia censura, excluiu a noção de cidadania dos valores fundamentais que guiam o comportamento e as escolhas dos homens e mulheres deste país.
Temos, assim, guindados aos mais altos cargos do regime gente com uma absoluta falta de valor. Estão onde estão, representam os seus concidadãos e o país, mesmo em areópagos internacionais, com o nível e a elevação que a sua formação, feita a abrir portas nos corredores dos ministérios, lhes deu.
Depois, olhem, dá nisto.

Gravura: João Abel Manta

4 comentários:

Austeriana disse...

Fui tentar entender porque é que Mário David entende que as declarações de Saramago se relacionam com a mudança de nacionalidade do escritor. Não percebi mas devo ser uma limitação minha. Isto quando começa a pegar a moda de ser dar opinião sem argumentos é uma bola de neve.
Até já estava a estranhar que ainda não tivesse aparecido qualquer coisa do género.
"Ele há com cada uma...!

JOSÉ RIBEIRO MARTO disse...

Paulo , desculpa o erro de destinatário:)
Quanto a esse senhor , não vale a pena dissertar muito . Estava a espera de uma boleia qualquer, coube-lhe esta , e como ninguém sabia quem era ou é , apanhou-a como xico-esperto mor ! Afinal deputado de um estado dito laico , pisca os olhos à ignorância que vive seu pacto com uma certa igreja tão apegada a santinhos e santinhas .
abraço
_______ JRMARTO

marteodora disse...

Esse senhor, ele sim, deveria, de imediato, coloca o cargo à disposição e mudar de profissão, pois entendo ser vergonhoso que um eurodeputado (uma pessoa que deveria, mais do que ninguém, defender a liberdade de expressão e a tolerância consignadas quer na lei fundamental do nosso país, quer à luz do direito comunitário) entenda que alguém deva renunciar à nacionalidade do seu país apenas por emitir uma opinião sobre uma obra religiosa.
Além do mais, o Cardeal Patriarca de Lisboa, já tem dito umas coisinhas bem, como diria, inoportunas, acerca dos muçulmanos,nomeadamente enquanto potenciais maridos ou companheiros de algumas portuguesas e, que eu não tenho conhecimento de que alguma advertência lhe tenha sido feita. Ok, deve ser porque o Saramago é ateu e por isso deve ser banido em degredo de terras lusas.

Pergunto, o Saramago não pode dizer que a Bilia é um manual de maus costumes, mas o Pápa pode dizer que usar preservativo é pecado, portanto um mau costume, mesmo que salve milhares de vidas (o que é que interessa as vidas se Deus diz que é pecado a contracepção?) E o Cardeal Patricarca pode insultar os muçulmanos com aquela história de que são potenciais agressores como maridos?

Mas o que é que se passa?

Paulo disse...

Austeriana, como digo no post, a fromação geral da pessoas que têm actividade (directamente) política é, desde há alguns anos, feita na base da subserviência e do amiguismo. Daí que, por vezes, se tente "dar uma" de original ou radical, a ver se o chefe repara em como-nós-somos-capazes-de-fazer-declarações-que-têm-impacto-nos-jornais. Isso ajuda à progressão. Aí está (alguma vez alguém tinha ouvido falar deste cidadão?).
Zé Marto, concordo com o que dizes, como já escrevi acima, acresce que nestas alturas a formação democrática e a capacidade de debate desta gente puxa-lhes as ideias (curtas) para a chinela.
Marteodora, o que se passa (acho eu) é que a falta de nível e a incompetência vão a par com a maldade, a prepotência e os tiques de ditador de paróquia. Tem uma ideia diferente? Exílio. Não reza como eu? Degredo. Canta coisas chatas? Proibe-se. Escreve contra o chefe? Prisão. Não inventam nada, é velho como o mundo.
Abraços