03 outubro 2009

Uma casa com histórias e mulheres dentro




Aproximamo-nos da "casa" atravessando um jardim verde e arborizado, de uma simplicidade quase infantil, como a dos desenhos que ilustravam as histórias tradicionais. Depois o edifício, as cores,  numa harmoniosa arquitectura tangente a esse imaginário.
Ainda que se tenha visto vezes sem conta, é sempre impressionante o poder interpelador dos quadros, dos desenhos, da obra de Paula Rego. A sedução da cor vai dando lugar à perplexidade, pela força com que as imagens provocatoriamente recusam os estereótipos, num love affair with tradition, como diz Germaine Greer, uma das analistas do trabalho da pintora.
Na Casa das Histórias há "histórias visuais" com mulheres dentro - anjos-demónios, grotescas, insurrectas, desamparadas, mulheres-bichos, sublimes - e toda a ironia que desconstrói a imagem do feminino segundo  um processo de parodização profundamente ideológico.
Em entrevista a Melanie Roberts, por altura de uma exposição colectiva que reuniu oito pintoras inglesas em torno do tema "From the Interior. Female Perspectives on Figuration", disse a artista:
As minhas pinturas são pinturas feitas por uma artista mulher. As histórias que eu conto são histórias que as mulheres contam. O que é isso de uma arte sem género? Uma arte neutra? Isso não faz sentido, pois não? (...) Há histórias à espera de serem contadas, e que nunca o foram antes. Têm a ver com tudo aquilo sobre o que jamais se ousou tocar - a experiência das mulheres.

Confesso que sei pouco sobre o "olhar masculino" em torno de quadros como, por exemplo, o Mulher-Cão, mas aquando da minha visita, pude perceber alguns comentários, feitos por homens, de franca repulsa. Que terão eles visto, no quadro, de tão desagradável? Verão o mesmo que as mulheres que dizem, também, que "é horrível"?
Relembro aqui as palavras da pintora, citadas pela Professora Ana Gabriela Macedo, no JL de 19 de Maio de 1999, sobre essa figuração da mulher:
A "Mulher-Cão é a coisa que eu tenho mais orgulho de ter feito, porque é uma mulher sozinha, mas que ainda morde. Uma mulher só, num canto, contra a parede, que não pode fugir, mas que arreganha o dente e que morde! Morde até ao fim, luta até ao fim, apanha pancada, mas lá vai lutando sempre! E depois, essa "Mulher-Cão" apareceu, "apareceu-me"! Essas coisas acontecem, não é? E então eu pensei, esta mulher vai levar-me a sítios onde eu nunca fui, vai ser o meu guia. E assim foi. E comecei através da "Mulher-Cão" a tocar partes da minha vida que eu não tinha tido nunca coragem, nem oportunidade de fazer, nem sabia como lá chegar. Mas com ela, lá fui fazendo: o "Bad Dog", a humilhação, o amor, a lealdade e a submissão cúmplice das mulheres, um certo masoquismo das mulheres, no amor e na traição … O casamento é uma espécie de mortalha, não é? É a "mulher-bicho" que tem força através da sua animalidade, é a parte física, dos instintos, que é muito importante! O silêncio tácito das mulheres, a sua "endurance" e o seu sentido de honra.

Toda a força pode criar medo.

5 comentários:

JOSÉ RIBEIRO MARTO disse...

Ontem estive a ouvi-la no Câmara Clara !
E espantei-me ...
_________ JRMARTO

Austeriana disse...

Bem... Eu ia dizer que a tinha estado a ouvir...
Tal como o JR Marto, também fiquei admirada.

O impacto visual da casa é fantástico!
Gosto muito da criação e da explicação dada sobre a
«Mulher-cão»: "...morde até ao fim, luta até ao fim." Nem mais.
É de mulher!
Um abraço.

Paulo disse...

"Declaração de interesses": gosto da pintura de P.Rego, sou capaz de viajar milhares de Km para ver uma exposição sua.
Dito isto, acrescento um paradoxo na sua criação, não seriam muitas obras suas que queria ter numa parede em casa (mesmo que pudesse:):) ).
Sobre as questões levantadas no post:
Arte neutra? não, sem hesitação. Arte com género? Talvez, sim, mas com o que de novo e original possa surgir na arte do que seja especificamente único do feminino (ou masculino). A brutalidade, a agressividade, o morder, humilhar, tudo isto é alheio ao "feminino". A mulher-bicho (ali representada) incorpora tudo o que o masculino tem de pior. Por isso, a rejeição epidérmica, imediata, que o quadro provoca.
Evidentemente que o criador coloca o seu olhar(construído nas suas vivências pessoais e íntimas) nas suas obras, mas nem por isso temos de concordar com obras que estéticamente nos provocam uma automática repulsa, mesmo que sejam esteticamente interessantes...
(não assisti ao Câmara Clara, quais as razões do espanto?)

Ana Paula disse...

Bom, eu ainda não fui até lá. Mas até estou perto, e quero ir, sem dúvida. Não só pela pintura, mas também pelo lugar.

De facto, a pintura da Paula Rego inquieta-me, mas julgo que isso tem o seu quê de bom. Por outro lado, embora goste imenso de contemplar demoradamente um quadro dela, não gostaria de os ter em minha casa (de um modo geral). Seria uma interpelação excessiva :)
Enfim... a verdade é que é uma artista no sentido mais íntegro do termo. E tem toda a minha admiração.

Muito obrigada pelo excelente "post", C. - [este é, de facto, um termo algo estranho] :))

Um beijinho.

Marta disse...

eu tenho essa visita nos meus planos.
quando esteve exposta aqui em SERRALVES, fui ver, claro.

e, JMarto, tb a vi nesse programa <.9 gosto de a ouvir falar, contar.