21 julho 2009

O mistério da Senhora


Tinham passado meses desde o meu último trabalho. A crise ia alastrando e chegava agora à investigação privada. Tudo o que eu fazia nestes dias resumia-se a levantar tarde, beber litradas de café e fumar por todos os poros. Isto como actividade diurna; à noite tinha retomado, com esforço, as aulas de Forró no Paladium, onde destilava toxinas e produzia aminas compensadoras.
Dizem que é nestas horas difíceis que se sente a crença de cada um.
A minha era escassa mas, depois do que me sucedeu neste início de Primavera, tudo está em aberto.
........
Naquele meu primeiro contacto com a imagem reversível de Nossa Senhora não houve um caso de amor à primeira vista. Acabava de fazer a rotineira entrada no escritório, só para ver se havia muitas facturas pendentes no meio da espessa poeira do lugar, quando reparei na estatueta pousada na secretária.
O olhar que a Senhora me devolveu não tinha a doçura quente da confiança, mas a opacidade branca duma limonada gelada em dia de inverno. Mesmo na obscuridade amarelada do espaço, a expressão atingiu-me com dureza.
Porém, foi a reversibilidade da peça o que alimentou em mim a esperança de que, se a olhasse dum outro ângulo, poderia sentir algo próximo da confortável paz das divindades.
Nada mais falso: o que surgia, ao rodá-la como um pião, era uma vulgar azinheira em cima da qual caíam flocos algodonados de uma nata esfarelada, imitando neve, sempre que agitávamos a imagem.
Revendo o rosto da Santa, entendi-a e, sobretudo, fez-se claro para mim como, com uma carga destas sobre os ombros, o quente olhar de mãe arrefecia e gelava da mais negra tristeza.
Quem e porquê a teriam posto ali?
Talvez peregrinos, fumadores por supuesto, já que o maço de Ducados, aberto ao lado da imagem, não deixava dúvidas. O cheiro acre, corrosivo, que dele se desprendia tinha-me tocado à entrada e tornava-se cada vez mais organizado nos meus sentidos. Era bem a Espanha toureira, morena, andaluza, que agora em mim habitava. Naquele cheiro preto, quente e ácido havia o calor da Meseta, a secura dos campos de miséria de Las Hurdes e o árido chão Granadino tingido pelo sangue de Lorca. Senti-o ao esfarelar um cigarro deste tabaco grosso e difícil de queimar.
Teria sido deixado junto à imagem reversível de Nossa Senhora por acaso? Haveria ligação entre os dois objectos?
A resposta poderia estar na brancura enigmática dum post it colado no tampo da mesa. Escrito nele seis vezes o algarismo seis a seguir a um indicativo internacional, facilmente identificado por mim, que trabalhei nisto toda a vida, como sendo o da gélida cidade de Akureyri, na Islândia.
Assim, deslizava lentamente para aquela sala uma brisa árctica que tornava mais sombrio o rosto da Senhora e menos saleroso o fumo negro que saía do Ducados que eu, entretanto, tinha acendido.

8 comentários:

miri disse...

Este texto está fabuloso.
Foi um prazer lê-lo de novo!
Obrigada mais uma vez pela maravilhosa partilha.
Marta

PAS[Ç]SOS disse...

Que aromas, tonalidades e temperaturas vagueiam nesta sala enigmática. Que desafio nos provoca o tentarmos tocar numa realidade e logo ela se sublima numa outra visão de sentires...

clara disse...

O texto é...alucinante! Mas não percebi nada, é teu?
Fabuloso e estranho.
O que é aquele número?

C. disse...

Vai ser um policial, aposto!
Surrealista.

Bjs

Marta disse...

ah Paulo, muito bom, novamente!
escreva lá qualquer coisinha morna, para não nos habituar mal ;)

Austeriana disse...

Parabéns pelo texto fabuloso! Permanece o mistério da autoria...

Paulo disse...

Miri (Marta) obrigado pelo apoio e espero mais vindas; Passos, narrar com os sentidos é um desafio, sim; Clara e C. é, pelo menos, uma incursão no pós modernismo:):):)
Marta, fico muito contente com a sua presença; Asturiana, obrigado pela gentileza.

JOSÉ RIBEIRO MARTO disse...

Está fabulástico, palavra que resulta de efabulação e fantástico... Corres , com uma rapidez que ninguém te apanha ... Pudera tinhas lá a Nossa Senhora Reversível. Ah , há ainda o final , muito bem apanhado , nesta alucinante »estória».
Parabéns, não me dês lume , nem ducados, dá-me mais uma , duas , três estórias...
Abraço