20 maio 2009

Cidadania

Educação para a delinquência

A notícia veio em tudo o que é jornal e TV: uma professora da Escola EB 2,3 Sá Couto, em Espinho - que dezenas de alunos seus consideram "a mais espectacular da escola" e uma "segunda mãe" - foi suspensa "após afirmações de cariz sexual". A suspensão foi ditada pelo Conselho Directivo depois de duas alunas terem gravado afirmações suas numa aula, alunas que, segundo vários colegas, "fizeram aquilo de propósito e provocaram a conversa toda porque sabiam que estavam a gravar".
A Associação de Pais e a DREN acharam muito bem. Ninguém, nem pais, nem Conselho Directivo, nem DREN "acharam mal" o facto de duas jovens de 12 anos terem cometido um crime (se calhar encomendado) para alcançarem os seus fins. O Código Penal pune com prisão até 1 ano "quem, sem consentimento, gravar palavras proferidas por outra pessoa e não destinadas ao público, mesmo que lhe sejam dirigidas", punição agravada de um terço "quando o facto for praticado para causar prejuízo a outra pessoa". Educadas desde jovens para a bufaria e a delinquência e sabendo que o crime compensa, que género de cidadãos vão ser aquelas miúdas?

Manuel António Pina, aqui
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A capacidade de nos levar a ver para lá daquilo querem que vejamos.
M.A. Pina na sua trincheira de combate pela cidadania.

18 comentários:

clara disse...

Não estou de acordo com o Pina, desta vez.
Aquela é uma situação limite: basta ouvir o tom ameaçador da professora, a sugestão de castigo através das notas, a ameaça, os erros de português do estilo "ouvistes",a intromissão na vida privada dos alunos em público, a abordagem violenta dos temas sexuais,o amesquinhar dos outros apresentando os "canudos" que ela própria obteve sabe-se lá como.
Sim, porque uma professora que diz "ouvistes"...devia frequentar as novas oportunidades.
O recurso à gravação pode ser crime, mas neste caso era a única possibilidade.
Há professores loucos. Eu conheci uma que se despia nas aulas.

clara disse...

E mais ainda: denunciei uma vez um caso semelhante numa escola e não pude provar, pelo que o docente em causa continuou a exercer.
Tratava-se dum padre que assediava as alunas

Carla disse...

acho que esta situação tem duas vertentes que é importante ter em conta. O tom da professora é nitidamente exaltado e o teor da conversa pouco adequado para uma sala de aula, por outro lado, também sabemos que deve haver limites e que muitas vezes, os alunos conseguem ser suficientemente "malvados" se por alguma razão não simpatizam com o professor.
Do meu ponto de vista, antes de se procederem a julgamentos na praça pública deve apurar-se devidamente todos os contornos desta situação

clara disse...

Carla:
Há factos.O que a professora disse naquela sala de aula é intolerável.
Independentemente do que se pode ter passado antes.
Mesmo que os alunos a quisessem"entalar", ela não tinha o direito de falar como falou.
O perfil dela vê-se em duas ou três frases.
Por mim, fiquei elucidada.

Paulo disse...

Clara, serei o primeiro a subscrever o que dizes quanto ao perfil da professora. No entanto, o texto do Manuel António Pina aborda um outro lado do problema (assinalado pela Carla também),ou seja, a forma como as alunas suscitam a denúncia. Fazem um abaixo assinado? reunem-se com o Conselho Directivo? Com a Associação de Pais? Fazem greve às aulas? Ou seja, enfrentam a professora nesta questão, dando a cara pelos seus valores? Não. Optam pela denúncia manhosa, pela delação a partir de conversas insinuadas por eles próprias.E não era a única opção que tinham. Este o objecto do post. Claro que a Associação de Pais e a DREN rejubilam com a excelente oportunidade de fazer sangue e dar "uma" de puritanismo, com a colaboração das Tvs.
É a sociedade de espectáculo no seu melhor. Nota que nenhum dos inquiridores, mencionou o "ouvistes" ou a falta de respeito do seu discurso.

clara disse...

Não concordo, de forma nenhuma. Não se trata de puritanismo.
Se calhar, não viste o video todo. No jornal da noite não passou todo.
Puritana foi a professora que denunciou as alunas que ela achava que já não eram virgens, baseada em informações do filho!
Quem é que é delatora, afinal?
Há muita gente que se deixa ir pelo politicamente correcto.
É u pouco cansativo, quando sabemos que temos razão.
As escolas estão cheias de professores incompetentes! Convence-te disso.
"Oubistes"?

Paulo disse...

"Oubi", e fui "oubir" com atenção a gravação.
Tens razão, é um discurso agressivo, grosseiro e absolutamente intolerável.
No entanto, esta situação era conhecida na Escola há 3 anos!!! Algo está mal quando os alunos são ensinados a resolver os seus problemas e a defenderem a sua dignidade através de métodos que não são dignos.

clara disse...

Claro que sim, mas era preciso provar.
Não me esqueço da acusação que fiz sem resultado-nesse tempo não nos passava pela cabeça fazer gravações e o abusador ficou impune.
O pior é que a educação sexual, tão necessária, fica assim marcada por episódios destes.
Ser professor, hoje, exige sabedoria, bom senso, paciência, trabalho e até bondade.
É muito difícil.

clara disse...

Olha, outra história:
Quando, há uns anos, tive uma pessoa idosa no hospital, deparei-me com o seguinte facto-certa enfermeira, durante a noite, bateu, mais que uma vez, nesse doente. Bateu numa pessoa idosa,porque teimava,porque não queria dormir.
Fiz queixa. A enfermeira negou e não foi castigada.
Se tivesse sido gravado...

vaandando disse...

È claro que o tom da conversa não é adequado , O discurso é agressivo , mas daí a presumir-se que se sabe tudo o que se passou na aula pelo video é muito ; o articulado jornalístico è insuportavelmente tendencioso... Não se pode pactuar com a delação, se a professora está suspensa por que motivo a aluna não está ... Existe um regulamento interno , e deve ou não deve ser rigorosamente cumprido ?
Mais um caso , para a fogueira , uma caça medieva despoletada por mães de Bragança, as mães de Portugal!

clara disse...

É preciso contar com o corporativismo, existente em todas as classes.
A aluna recorreu à gravação a pedido da mãe.
A aluna cometeu uma falta, já foi dito e vai ser punida por isso.
Não, não é uma caça medieva, a professora já tinha sido confrontada com o descontentamento dos alunos.
A professora não é vítima, é agressora, bolas!
Oxalá nenhum dos vossos filhos ou netos apanhem uma destas pela frente.
Conheço muito bem as escolas:são o espelho do país e da nossa justiça-ninguém viu nada, não sei de nada, eu quero é dar as aulinhas e ir para casa.É ou não é?
Um abraço.

C. disse...

Não, não é, Clara!
E há que ter cuidado com as generalizações abusivas. Há professores com óptima e permanente formação e profissionalismo, de quem só podemos orgulhar-nos - pais, alunos, a sociedade em geral (e até são limpos e asseados, falam bem a língua portuguesa e não escarram para o chão).
E há professores que são uma verdadeira aberração. Trabalham o menos possível e quando o fazem nem se preocupam em fazer bem. Não se preparam nem preparam quem quer que seja (alguns até cheiram mal dos pés, têm o cabelo sujo e atiram macacos do nariz para trás das costas).

Depois há histórias como esta, que nos deixam perplexos pelos contornos e, sobretudo, por serem o espelho de um estado de coisas que ultrapassa (de longe) as fronteiras da escola.
Desvaloriza-se o trabalho de todos pelos casos "loucos" que vêm sendo objecto de tratamento jornalístico?

O que me deixa a pensar é o facto desta história (que apenas conhecemos parcialmente) chegar à televisão só com a gravação dos excertos mais escandalosos e a tónica na questão sexual, que até é a menos importante, julgo. Mas é a que mais “vende”.
Com que finalidade? Para dar o espectáculo de mais um "caso" das escolas que temos, agora que se aproxima mais uma manifestação dos docentes?
O que é preciso é criar clima, entenda-se...
Que é para não se pensar no tal do Eurojust, onde não houve presunção de culpabilidade, claro... Mal do país que precisa de bodes expiatórios ou de falsos heróis.

Muitos dos que aplaudiram esta denúncia, talvez não achassem tanta graça se fossem apanhados - gravados - a gabar-se do que fariam à mulher do director ou à filha do colega de trabalho.

Um caso representa, em 150.000 docentes, apenas 0,0006666%. É muito? É. Não devia existir nenhum. Como não devia existir NENHUM político ou agente do poder corrupto. Como não devia existir nenhum pai a educar filhos para se comportarem como espiões a soldo.. Mas ser um bom pai também é difícil.

Esquece essa do corporativismo. Este caso está para além disso. Há maus e bons profissionais em todas as áreas.

Anónimo disse...

Este caso ainda bem que foi denunciado! E se teve de ser denunciado com base na gravação, melhor ainda! Assim não há espaço a que os profssores se defendam uns aos outros como sempre acontece. Fui delegado de turma muitos anos, fui membro da direcção da associação de estudantes e assisti a inúmeros casos de vergonhoso coorporativismo docente. O mais grave para mim não é o que esta louca diz. Esta senhora tem um problema de desequilíbrio evidente e não pode nunca mais entrar numa sala de aulas como é óbvio! O mais grave é os alunos andarem há 3 anos a alertar para o problema e, como de costume, a escola não fazer nada. Eu vi imensos casos de discriminação social, de absoluta incompetência, de mau carácter serem abafados e negados pelo coorporativismo dos professores. Ainda bem que a aluna gravou e denunciou. Foi corajosa e criativa! Se for suspensa é uma total e completa preversão. Infelizmente uma considerável quantidade dos nossos professores são pessoas desqualificadas, desmotivadas e incultas e a única forma de defender os que não são, e assim separar o trigo do jóio, é denunciando e punindo quem não tem qualidade.

Vasco

Anónimo disse...

Ora aí está uma prova de que nem sempre os professores estão atentos: Os meus professores de português foram-me passando com boas notas e eu agora escrevi corporativismo com um "o" a mais... Shame on me! :)

Vasco

Paulo disse...

Vasco, "Educadas desde jovens para a bufaria e a delinquência e sabendo que o crime compensa, que género de cidadãos vão ser aquelas miúdas?". Este é o motivo do meu post (e o conteúdo do artigo de M.A.Pina).
Analisar estas questões (e outras, naturalmente)dividindo o mundo em bons e maus, preto e branco, alunos angélicos e professores demoníacos, é fácil, tem os seus atractivos em certos momentos, mas impede-nos de ver para lá do que querem que vejamos (como eu disse ao transcrever o Pina).
Realço 2 aspectos.Primeiro, a divulgação do assunto e a matéria "jornalística" é toda em torno do facto da professora ter falado de orgias na aula ( e há, no país, um debate a decorrer sobre educação sexual nas escolas). Ao ouvirmos a gravação, o que nos choca (aos que aqui participamos) é a boçalidade, a prepotência e a agressividade. Sim, há também temas de índole sexual, ou pornográfica no discurso, mas a nossa repulsa vai para a forma de lidar com os/as jovens daquela mulher. Não é isso que é realçado nas TVs, não é isso que é objecto de notícia e é isso que deve (também) ser central na discussão. E aí partíamos para a a questão do diálogo professor/aluno na sala de aula (respeito, hierarquia, gentileza, educação, posição dos pais na educação global dos jovens, etc.).
2ª questão, fundamental para mim. A forma de travar o combate por parte dos jovens (ou dos pais), por que isso faz parte da educação de um jovem.Lamento, mas a forma, aqui, é tudo menos "corajosa e criativa".
Tem vários outros nomes há séculos e não se pode dar "isso" aos jovens como modelo.Em 3 anos de persistência da atitude da professora, num país livre, apoiados pelos pais e suas associações, dar aos jovens como orientação para a resolução do seu problema, a utilização da manha, do engano e da "queixinha à SIC", é erigir como valor a noção de que "os fins justificam os meios" e isso está historica e socialmente condenado.
Abraço
P.S. Ainda sobre este último aspecto.Segundo as notícias e para evitar a responsabilização das alunas, duas mães declararam que foram elas a colocar na mochila de uma das meninas um gravador ligado sem conhecimento da dona da mochila...

C. disse...

Perversão, Vasco. Perversão! E não "preversão".

Continuo a dizer que este caso não pode ser lido "do ponto de vista da coisa sexual", que fez vender e acicatou os mais desejosos "de sangue".
A prof é boçal e não ensina aquilo para que foi qualificada.
A escola deveria ter resolvido o caso logo quando começaram as queixas. Tinham tido mil formas de fazê-lo. Podiam até ter gravado e ter confrontado a docente com a gravação e tomar medidas conjuntamente.
O mundo não pode ser uma selva, Vasco.
E as pessoas não podem recorrer ao que quer que seja só para provarem que têm razão. Se a tiverem.

Anónimo disse...

Foi gralha, C! Foi gralha! Se não fosse eu admitia... :)

Meus queridos amigos,

Eu entendo a vossa visão e, sinceramente, estou-me a borrifar para o lado sexual do caso embora considere que não é daquela forma grotesca que se deve fazer educação sexual. O que me incomoda é a aluna vir a ser punida qd o que ela fez foi em total desespero de causa.

De qq forma eu, nestas coisas, acho mesmo que quem não deve não teme. Sou a favor das câmaras de vigilância nas ruas, nas esquadras de polícia, nas escolas, em todo o lado. Não me incomoda nada que as autoridades possam ter acesso aos meus dados bancários, etc.

Para terminar só lembrar que se não fosse a gravação e a "queixinha" à imprensa nunca se saberia dos abusos e maus tratos das tropas americanas aos prisioneiros no Iraque, Carlos Silvino estaria ainda hoje a trabalhar na Casa Pia e a contactar diariamente com crianças ou, aproveitando o dia de homenagem ao meu avô que hoje se assinala, a romagem à sua campa em 1973 teria sido sempre um acontecimento tranquilo e pacífico. Nestes casos, definitivamente os fins justificam os meios!

Bjs e abraços!

Vasco

Marta disse...

O meio para atingir o fim, pode não ser o adequado! Não é. Mas alguém, de algum modo tinha de denunciar essa senhora! Coorporativistas ou não em todas as classes há bons e maus profissionais. E esta professora, apesar da escolaridade que alega ter, não merece ser chamada de professora! Nenhum curso, mestrado ou doutoramento dá bom senso a ninguém! é a minha opinião, edepois do que li e ouvi sobre o caso.
é crime gravar conversas...ok! E ter um docente assim, é o quÊ? azar?