04 maio 2009

Das (In)certezas

O Pinto e o Cabé eram os mestres. Os outros, quatro ou cinco, não mais de seis, ouvíamos deslumbrados. Afinal, tinham mais dois anos do que a maioria, e nós aos 12, considerávamos já a experiência dos mais velhos.
Por isso os escutávamos atentamente, olhos semi-cerrados, deitados na sombra, em intermináveis Férias Grandes, enquanto mastigávamos a palhinha com que antes tínhamos feito sair os grilos da toca - “mija na palha” - orientava o Pinto.
Uma das noções mais marcantes do tempo, como todas apenas assente nas sábias garantias daqueles dois, era de que poderíamos adivinhar facilmente a virgindade de uma mulher através da sua forma de andar…
Nunca falha”, instituía o Cabé, superior, desfazendo dúvidas e hesitações.
Se andam com os pés pra fora, já experimentaram, se andam com eles direitos … estão à espera!” e riam os dois.
Excluímos de imediato do programa de observação e confirmação, irmãs, primas mais chegadas e, naturalmente, mães e tias, avós e a irmã do sargento Morais porque era coxa e isso fazia-nos impressão.
Toda a fase posterior feita de análise atenta e minuciosa foi, para nós, extremamente reveladora das potencialidades teóricas dos nossos companheiros.
Nunca foi possível àquele grupo comprovar cientificamente os apontamentos de observação que iam anotando num caderno de vinte e cinco linhas.
Depois, o tempo, a vida e as suas voltas trouxeram a distância, a diferença e o esquecimento.
Mas aquele verão de 64 existiu para todos.

5 comentários:

Sonia Potrich disse...

Olá Paulo,

Gostei do blog! Esta fotografia em P&B está admirável!
Abraços
Sonia

Marta disse...

Obrigada, Paulo, por estas memórias desfiadas
assim! E quer saber uma coisa?
Aposto que os outros tb não esqueceram!
Por muitas voltas que a vida dê, há coisas que não se esqueçem.
E a imagem está fabulosa!

clara disse...

lindo!

vaandando disse...

como gostei de ler , quase sempre a sorrir tanta sabedoria , o detalhe da irmã do militar é delicioso!
abraço
JRMarto

Paulo disse...

Sónia, olá, seja bem vinda. Marta, Clara obrigado pela vossa constância. Vaandando, a adolescência é um espaço de enigmas fascinante.Quanto ao detalhe, revela, tão só, o temor reverencial que nestes verões tivemos dos militares (irmãs incluídas):):)