14 maio 2009

Língua, liberdade e servidão

Cada língua tem as suas próprias estratégias de negação e de imaginação. Estas permitem-lhe dizer não às limitações físicas e materiais que constrangem a nossa existência... Graça à(s) língua(s), podemos desafiar ou atenuar o monocromatismo da mortalidade predestinada. Cada uma destas negações tem a sua própria transcendência obstinada. É este escândalo de uma inextinguível "esperança contra a esperança" que nos permite suportar, recuperar de tudo o que perpetuamente se mantém de mortífero e absurdo na nossa condição material e histórica. É a profusão aparentemente perdulária das línguas que nos permite formularmos alternativas à realidade, dizer a liberdade no interior da servidão, programar a plenitude no interior da destruição. (...)
Daí que haja uma perda verdadeiramente irreparável, uma diminuição dos possíveis humanos, quando uma língua morre. Com a sua morte, não é só uma memória de gerações única e vital - os tempos do passado ou os seus equivalentes -, não é só uma paisagem, realista ou mítica, ou um calendário que se apaga, mas também as suas configurações de um futuro concebível. (...)
A extinção das línguas que hoje testemunhamos - todos os anos dúzias delas se calam sem remédio - é precisamente homóloga da devastação da fauna e da flora, mas em termos ainda mais definitivos. (...) O resultado é um empobrecimento drástico na ecologia do psiquismo humano. A verdadeira catástrofe de Babel não é a divisão das línguas: é a redução do discurso humano a meia dúzia de línguas "multinacionais" planetárias.
George Steiner, in Os livros que não escrevi, Gradiva 2008

3 comentários:

vaandando disse...

Reflexão interessante de Steiner... Fiquei com vontade de o ler!
abraço
___________ JRMARTo

C. disse...

...a redução da linguagem humana aos "updates", "java scripts", html codes", "feeds" and so on. Não é o inglês a língua franca?:(((
as minorias que se cuidem. se forem capazes.

Marta disse...

Muito bom! Tanto para dizer! Gosto tanto tudo íssimo de G. Steiner!