25 novembro 2009

e é assim que nos sentimos de alma lavada

Lemos a notícia, velha como o mundo. Passamos ao lado da boçalidade dos frequentadores de um Café com nome arrepiante, ou da incredulidade das Cassildas das terras de Basto. Fixamos, então, o olhar neste homem e nesta mulher. Órfãos ambos, ele de um sentido para a vida que julgava definitivo; ela, de um colo e de um abraço que a vida lhe roubou quando mais precisava. Sentimos o encontro, adivinhamos o sorriso, percebemos os corações que só abrigaram tristeza, deciframos a escolha e chega-nos a irreprimível vontade de ler um poema de Eugénio ou ouvir uma música de Chet Baker.
Reconciliados com a vida.


7 comentários:

clara disse...

Faz impressão, Paulo, como de repente nos situamos no século dezanove. Como os costumes mudam tão devagar. Pensamos que já somos muito modernos e zás, tropeçamos no Camilo e no Eça.

C. disse...

Fui ler a notícia e também os comentários. É interessante a forma como quase toda a gente se solidariza com o jovem pároco. No fundo ele mais não fez do que seguir "à risca" um ideal de amor cristão...:=))
Seria interessante repensar a questão do celibato dos sacerdotes, que remete sempre para o da castidade (do voto de); como vamos sabendo, parece não fazer grande sentido que se alie obrigatoriamente esta questão à primeira, como é o do princípio bíblico "de honra" e de "pureza".
É que o "coração indiviso" da chamada "entrega a Cristo" parece-me, em tudo, exactamente contrário ao verdadeiro amor "cristão". Não será? Isto sou eu pr'aqui a congeminar.

Beijinhos

via disse...

no meio desta sofreguidão precisamos de poesia como de respirar.

Paulo disse...

Clara, como digo no texto, a estória é velha como o mundo. Existirão sempre regras a quebrar e muros a saltar quando respeitar ao amor.
C., concordo, é interessante a solidariedade manifestada pelas pessoas, terá a ver com a tradição local e da região, mais disponível para aceitar as "necessidades carnais" dos homens (não sei se serão igualmente tolerantes no caso das mulheres... e é central no acontecimento, claro, a questão da proibição de casamento aos padres. Curiosa esta coisa do passar dos anos, passámos a segunda metade do século passado a contestar o casamento enquanto Instituição e agora defendemos "firmemente"o instituir da Instituição (em nome da modernidade?). :):):)
Via, concordo, esta estória é um poema no pântano em que estamos metidos. Não vi os telejornais abrirem as notícias com este acontecimento.
Obrigado

Austeriana disse...

É uma bizarria esta história do voto de castidade dos sacerdotes, uma espécie de máscara de endeusamento para ser usada por seres exclusivamente humanos.
Uma pipa deles povoou várias aldeias com filhos das devotas e deu inspiração para belos escritos literários (quem não se recorda de "O Crime do Padre Amaro", ou de O Crime do Padre Mouret, do Zola...).
Concordo com a C. A atitude do ex-padre protagonista da notícia parece-me bastante inteligente: seguir os afectos - aí está um dos grandes ideários cristãos!
Abraço

Menina Idalina disse...

Pois, há que saber quebrar os muros da intolerâqncia bem como da hipocrisia .

Os filhos do sr. Padre da Relva nos Açores eram 7, mas ele continuava a não se poder casar.

(Agora, o Chet simboliza perfeitamente, e de forma magistral, o ser um genial outsider. )

Paulo disse...

Austeriana, concordo e certamente o jovem vive hoje mais tranquilo e em coerência com o seu ideal de entrega a uma causa do que antes. Pena que a hierarquia não o aproveite.
Menina Idalina, acho que o Chet Backer se soubesse dum acontecimento assim, sentir-se-ia irmanado e sublinharia com uma canção dolente (cool) como só ele soube fazer.
Abraços